A silhueta tomava forma, mas eu não conseguia sequer me mover. Estava mortificada... por mais que quisesse me iludir, o alarme gritava: não é ele!
- Vou pedir pela última vez: vá embora! Você não faz mais parte da minha vida! Por isto, suma!
Como se estivesse realmente me ouvindo, o vulto desapareceu. Me deixando sozinha com minhas lembranças...
- Ah Sasuke... preferia estar louca a ter que ser abandonada por você novamente... por mais que isto me machuque... por favor... deixe ao menos minha mente sã...
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Juntei o que sobrou de mim e saí daquela fonte realmente desnorteada. Como era possível ele estar ainda mais presente num lugar que não me dizia nada? Era frustrante ceder à verdade: que ele estava impregnado em todo o meu ser. Contudo, por mais que doesse, não me renderia àqueles sentimentos novamente. O amor que sentia por ele era forte, mas depois de anos, tentei não ser tão destrutiva para mim mesma... Fiz o que tinha que fazer para esquece-lo, ou deixar muito bem trancado em meu ser.
Mas se aquilo continuasse acontecendo não adiantaria de nada estar ali. Seria como se estivesse em Konoha, com tudo a minha volta me lembrando o quanto ele me fazia falta.
Quando cheguei no meu quarto senti o cheiro de sakuras, meu quarto estava cheio delas! Muitas, muitas mesmo... Não faço nem idéia do trabalho que deve ter dado... Estavam em todos os lugares, espalhadas cuidadosamente. Não entendia como aquilo poderia estar acontecendo e foi com ressalvas que lembrei do hóspede do quarto ao lado. Teria sido ele? Bem, logo descobriria. Disposto caprichosamente sobre a cama estava um bilhete, escrito "Leia-me". Peguei o pedaço de papel com curiosidade, minha mente já nem lembrava do que tinha acontecido instantes atrás. O que queria era ver até onde estava certa e, se estivesse, não sabia como agir depois daquilo.
A letra bem cuidada e a forma como as palavras foram dispostas cuidadosamente na folha me deram a certeza de que, fosse quem fosse, a pessoa tinha tomado extremo cuidado ao escrever aquelas letras que agora lia encantada:
" Cara hóspede do quarto 3A,
Ou deveria chamá-la Sakura? Fiquei sabendo seu nome por uma das gentis atendentes do hotel e, honestamente, não poderia pensar em outro melhor. Acho que as flores singelas a definem muito bem. Apreciei demais seu pequeno bilhete e gostaria de convidá-la para jantar hoje à noite. Tanto sua estadia quanto a minha serão curtas, mas não vejo razão para desperdiçá-las num quarto. Portanto, se for de sua vontade e agrado, estarei aguardando-a não muito longe... (no quarto 3B para ser mais exato). O horário fica a seu critério.
Despeço-me agora na expectativa de ser, mais uma vez, bem recebido. Espero que não seja alérgica às flores...
Hóspede do 3B
(Ou até que a senhorita consiga descobrir o meu nome)"
Enquanto lia, um sorriso se formou involuntariamente no meu rosto. Não sabia quem ele era, ou sequer seu nome, como ele mesmo dissera no final da carta. Mas ainda assim, a familiaridade das palavras e... Não sei definir, mas foi como se fossem há muito esperadas. E na verdade foram. Algumas vezes, cheguei até a ouvi-las de outros, mas nenhum deles me tocou como ele. Seria curiosidade com o desconhecido? Fosse o que fosse, a tarde já caía e, se eu realmente fosse ao tal jantar, precisava me preparar.
Hoje vejo o quanto aquilo foi inesperado. Normalmente eu racionalizo as coisas... Nunca me passaria pela cabeça jantar com um desconhecido em seu próprio quarto, ainda que este fosse ao lado do meu. Provavelmente passou pela minha cabeça que o fato de ser uma kunoichi forte e temida era intimidador o bastante para impedir qualquer avanço, ou até mesmo uma situação embaraçosa.
- E se ele for feio? - eu me perguntava.
- Sakura, que besteira! Você não está indo para um encontro... É apenas uma gentileza... De onde você tirou isso? - respondia para mim mesma, em voz alta.
Mas pensando bem, para mim aquilo realmente era um encontro. Ao menos foi o mais perto que cheguei de um nos últimos... ahn... na minha vida toda. A vida toda? Sim...
Não fui com muitas roupas, que nem eram elegantes. O mais próximo que tinha de um vestido para noite era um branco de alças finas e cruzadas que ia até a altura dos joelhos, levemente rodado. Fiz o que pude para arrumá-lo direito, mas ainda assim estava muito simples. Usava uma sandália de tiras com salto não muito alto e o cabelo estava solto, agora eu os usava novamente longos e, naquela noite, presos apenas por pequenos grampos que se camuflavam nos próprios cabelos. Se não estivesse tão rigorosa, até que diria estar bonita. Mas a verdade é que ainda tinha a aparência cansada de dias e dias mal dormidos e muitas noites de choro intenso. Contudo, naquele momento, me permitia um sorriso de expectativa.
Estava pronta às sete, olhei para o relógio e achei muito cedo. Então comecei a juntar as pétalas de sakuras em vasos grandes que pedi à atendente da estância. De tanto mexer com as flores, fiquei com aquele perfume impregnado em mim, a ponto de eu mesma conseguir senti-lo. Quando terminei, contava oito e meia. Uma hora para retirar tudo e encher cinco potes grandes. Mas estava satisfeita com a hora, o que não queria agora era me atrasar e parecer indelicada. Saí do meu quarto e tive um grande momento de insegurança. Aquela porta parecia realmente um divisor de águas... Embora eu repetisse para mim mesma de que era apenas um jantar, sem nenhuma outra pretensão. Mas e se fosse? Alguém me culparia por isto? Afinal, era uma mulher adulta de vinte anos.
Timidamente bati uma vez, quando me apressava para a segunda chamada, a porta se abriu e pude ver que o ambiente não estava muito iluminado lá dentro, tanto que levei alguns instantes para poder ver o rosto do misterioso hóspede do quarto 3B.
- Bem-vinda, Sakura. Fico feliz que tenha vindo.
E meus olhos, ao fitarem aquela figura, ficaram levemente hipnotizados. O homem à minha frente era tudo, menos feio. Ria por dentro da minha insegurança de horas atrás, aquele era um dos homens mais bonitos que já tinha visto em toda a vida. E também tinha uma linda voz, segura e poderosa. Estava vestido com calça e blusa pretas. O cabelo castanho claro, curto e espalhado numa desordem agradável, emoldurava o rosto que parecia corresponder ao dono da voz: traços fortes e distintos. Era pelo menos dez centímetros mais alto que eu, e confesso que me senti um pouco intimidada e levei alguns segundos processando aquela imagem antes de respondê-lo.
- Boa noite... Obrigada pelo convite.
Ele me fez entrar e reparei no quarto, acostumando-me a pouca luz do lugar. Estava tudo tão bem arrumado quanto no meu, mas próxima a sacada, uma mesa colocada para duas pessoas estava cuidadosamente aprontada, com um candelabro dispondo três velas já acesas. Era um encontro, afinal...
Não pude deixar de ficar mais nervosa. Sentia minhas pernas tremerem absurdamente. Finalmente me dava conta da loucura que fazia. Aquilo não era do meu feitio, nunca foi. O que ele pensaria de mim. Aliás, qual era o nome dele? Parecendo adivinhar meus pensamentos, ele se adiantou e fez um sinal para que não falasse.
- Não, você terá que descobrir, assim como eu fiz com você.
- Então é um jogo? - perguntei com o olhar encorajador.
- Digamos que sim... E que no momento, estou em vantagem. - Ele sorriu, e tive certeza de já ter visto aquele olhar antes, mas não me lembrava onde. Minha mente buscava insistentemente... porém, a única coisa que me lembrava era de sonhos... com alguém que não caberia ali.
Ele foi um completo cavalheiro a noite toda. O jantar estava agradabilíssimo, e ele perguntava tudo sobre mim. Quando eu tentava questioná-lo, dizia que ainda não, pois não tinha descoberto o seu nome. Aceitei aquilo com reservas, mas não tinha pistas para a resposta. Não me lembrava realmente de ter me sentido o centro das atenções numa conversa tão calorosa e sobre mim. Quem diria... Evitei todos os assuntos tristes, estava um clima tão bom. Só que, em dado momento, realmente me cansei daquela coisa de esconder tudo, estava ali falando da minha vida quase toda e nada do meu interlocutor responder pergunta alguma. Depois de jantarmos ele serviu saquê para nós dois. Nunca tinha bebido, mas conhecia o cheiro das vezes que socorri minha mestra em muitas de suas bebedeiras ilustres. Ia dizer não, mas alguma coisa me impedia categoricamente de negar-lhe algum pedido. Estávamos ambos com os copos na mão, sem beber, mas ele me fitava curioso.
- Vamos, pergunte - disse ele, sorvendo aos poucos o saquê.
- Como disse? - Continuei com o copo na mão, sem entender.
- Você ganhou o direito de me perguntar uma coisa. Mas terá que fazer a pergunta certa, não responderei outra que não seja a pergunta que você realmente quer me fazer.
Novamente sem entender o que ele queria dizer... mas a pergunta para mim era óbvia:
- Qual o seu nome? - tentei, certa de que era esta a pergunta.
Ele meneou a cabeça, levemente decepcionado.
- Não é esta a pergunta. Pode tentar novamente, não tenho pressa.
- Mas... você não me dá pista alguma de quem você é. Como vou saber o que perguntar? As dúvidas são muitas, confesso. Mas acho que a primeira coisa que se faz é saber o nome da pessoa.
- Isto eu já disse, você terá de descobrir. Na verdade, você já sabe.
Fiquei curiosa e embasbacada: eu sabia o nome dele? Percebendo minha confusão, aparentemente ele me ajudaria. Fiquei com os olhos e o corpo vidrados naquela figura singular, mas o que vi me fez perder o chão: com gestos extremamente rápidos ele desapareceu da minha frente e postou-se às minhas costas, tão próximo, deixando que apenas o sussurro da sua voz invadisse meus ouvidos, que não queriam ouvir aquelas palavras.
- Sakura... arigatou.
Senti meu corpo apagar sozinho, aos poucos, na medida em que ele falava. Tantos anos... tantas angústias... e medos... tudo mais que pudesse lembrar... representados na figura do maior dos meus fantasmas...
- Sa... su... ke... -kun...
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Beijos!
