Já era tarde da noite, caminhava de um lado para o outro esperando alguma boa notícia. Não conseguia me acalmar, minha cabeça parecia que a qualquer mometo iria explodir, meu rosto ainda úmido e inchado por causa das lágrimas.

Eu não estava mais aguentando.

-I-Itai... - falei baixo. Estava doendo muito. Sentei-me no pequeno sofá da sala de espera do hospital no qual me encontrava e deixe a cabeça cair pra trás. Levei uma das mãos á testa e a massageei. Eu estava ali faz horas. Alcancei meu celular dentro do bolso.

04:32 am.

Ótimo, se isso continuar desse jeito vou ficar louco.

Num ato de reflexo, levantei-me num pulo ao ouvir a porta lentamente se abrindo, e dela saindo o médico que antes estava dentro da sala com Reita.

-Espera por Akira Suzuki? - Tirou os óculos e massageou seus olhos por alguns instantes, em seguinda recolocando-os ao seu respectivo local em sua face.

-Sim, estou. Como ele está??

Por favor, diga-me que ele está bem. É o que mais preciso ouvir agora. Preciso entrar por aquela sala e receber o sorriso de Reita, dzendo que está tudo bem, em seguida ser envolvido por aqueles amados braços. Não desejava mais nada no mundo. Somente... você, Reita.

-Trago boas e más notícias...

Senti um nó se formar em minha garganta me dando dificuldade para engolir a saliva. Respirei fundo e pedi para que prosseguise.

-Por sorte parece que nossa ambulância chegou bem a tempo, poupando-o de qualquer risco de morte. Ele está seguro apesar de ferido, e terá de passar poucos dias no hospital.

Aliviei-me.

- ...e a má?

-...- Abaixou a cabeça. Suspirou e demorou a responder, o que me deixou nervoso e com o estômago embrulhado. - Ele tem grandes chances de ficar paraplégico.

Gelei. Fiquei completamente sem ação... Reita, paraplégico??? Não, não podia ser verdade. Lancei um olhar desesperado ao médico, suplicando por palavras afirmando que aquilo havia sido só uma brincadeira para me deixar preocupado. Isso não estava acontecendo. Não podia estar. Abaixei a cabeça e deixei mais lágrimas escorrerem por meu rosto.

-Eu sinto muito. - Colocou a mão em meu ombro dando dois ou três pequenos tapinhas.

-Doutor, o paciente despertou. - Anunciou uma enfermeira que colocara a cabeça para fora da porta, em seguinda retirando-se do aposento em que antes estava, indo até o homem com uma prancheta na mão e ficou ali como se estivesse á espera de ordens. - O diagnóstico deixei sobre a mesa do quarto.

-Certo, obrigado, pode ir agora. - Voltou o olhar novamente para mim. - Quer entrar e falar com ele?

Não respondi em voz alta, apenas balancei a cabeça positivamente e lentamente dirigi-me até a porta que levava á sala onde Reita estava, enquanto tentava arrumar um pouco meus cabelos que a essa altura já deveriam estar uma zona. Adentrei o quarto e me deparei com a figura de Reita. Era assustador assistir a essa cena, a mesma que nunca imaginei que poderia ver um dia. Mas o pior ainda poderia estar por vir.

-Ruki? - Meus pensamentos foram interrompidos por um chamado a meu nome...aquela voz baixa e rouca. Aproximei-me devagar e me sentei em uma pequena cadeira que se encontrava ao lado da cama em que estava Reita e manti a postura ereta, observando o estado em que Reita no momento se encontrava.

Esparadrapos, faixas,áreas raladas e avermelhadas, sem falar na ausência da faixa em seu nariz, o que tornava a situação mais estranha ainda.

-Como você está? - Levei minha mão até a sua, que aparentemente era uma das únicas partes de seu corpo que não estava machucado.

-Eu acho que eu to bem... desculpa se te procupei, pequeno. - ...Sorriu?

Como ele podia sorrir numa situação dessas? Ele estava numa cama de um hospital após ser atropelado por um caminhão e se atreve a não se procupar com ele mesmo e ainda mais... ele continua sorrindo pra mim. Você é mesmo uma pessoa maravilhosa, Reita.

-Imagine, Reita... - mais lágrimas começaram a escorrer por meu rosto, e minha face começou a avermelhar-se. - Está doendo?

-Não precisa chorar Ruki, daqui a pouco eu tô saindo daqui. - acariciou minha mão com seus dedos que movia com dificuldade. - Na verdade não está doendo nada... incrível as anestesias de hoje em dia, eu não estou sentindo nenhuma das fraturas ou machucados. - Riu.

Arregalei os olhos. Não estava sentindo o corpo??

Gostaria de poder acreditar que era apenas a anestesia mas... acho que... será que ele já sabe??

Silêncio. Não conseguia falar alguma coisa, acabei por ficar quieto. Talvez fosse melhor contá-lo mas.. acho que eu não teria coragem o suficiente para tal ato.

-...- Olhou-me sério. - Eu sabia. - Suspirou e apoiou a cabeça no travesseiro. - Não tem nada a ver com anestesia alguma, né?

Abaixei a cabeça, eu não iria conseguir responder. Não conseguia conter uma única lágrima, que ainda não haviam parado de escorrer pela minha já molhada face. Fitei Reita com uma expressão pidona, como se estivesse fazendo um pedido de "diga-me que estou apenas sonhando". Era o que eu mais desejava. Ele apenas fechou os olhos e respirou pesado. Era estranho vê-lo conseguir manter a calma numa situação dessas, afinal, ele teria que abandonar a banda nessas circunstâncias!! Era inacreditável, como algo assim pode acontecer??

-Ruki... - Estava com o rosto virado para o outro lado, impossibilitando-me de olhá-lo nos olhos.

-Sim Reita? - Respondi baixo.

-Se isso realmente estiver acontecendo... você... - Pude ver seu corpo balançar devido á pequenos soluços, em seguida Reita virou-se para mim, e pude observar seu rosto cheio de lágrimas. - Você ainda vai querer ficar comigo?

Me partia o coração a cena de Reita chorando, imóvel em uma cama de hospital. Apenas sorri, e levei uma de minhas mãos a seu rosto, secando suas lágrimas com a ponta dos dedos e em seguida curvando-me para depositar em leve beijo em sua testa.

-Vou ficar sempre com você... não importa as circunstâncias.

Reita expremeu os olhos e contraiu todo seu rosto enquanto chorava alto. Um choro de medo, medo do que iria acontecer a seguir, medo da perda. Deitei minha cabeça ao lado da sua e desci minha mão até atrá de sua cabeça, massageando seu couro cabeludo, até que ele parasse de chorar. E assim permaneci até Reita se acalmar e o sono foi tomando-o levemente. Fiz questão de presenciar cada momento dele, queria ter certeza de que não aconteceria nada com ele. Quero ele perto de mim, não quero vê-lo machucado.

Quando ele finalmente adormeceu, fui até o sofá que tinha perto da cama e me deitei, cobrindo-me com o pequeno lençol que estava no braço do sofá. E fiquei a fitá-lo dormindo, custei até fazer o mesmo, então permaneci deitado enquanto olhava em direção á janela as pequenas gotas de chuva escorrerem pelo vidro.

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Finalemente chegara a manhã daquela maldita noite mal dormida. Não me esforcei muito para me levantar e ir em direção á janela e abrindo-a, em seguida tirando uma pequena caixa de cigarros do meu bolso, pegando apenas um e o acendendo. Pousei um dos cotovelos na janela e fiquei a tragar meu cigarro.

-Acordou cedo, pequeno.

Virei-me em direção a Reita, que aparentemente já estava acordado, e lançou um sorriso a mim.

-Olha quem fala. - Voltei-me novamente para a janela, cuspindo a fumaça para fora.

-Fumando num hospital... que apropriado, hein? - Riu.

-Ah, é que eu não dormi muito bem.

-Passou frio?

-Nada disso. Eu tav-

-Tava preocupado comigo?

-Quando é que vai parar de concluir minhas frases por si mesmo?

-Quando você admitir qu eu sempre acerto o que você vai dizer. - Engasguei e soltei alguns tossidos, recebendo algumas debochadas risadas de Reita, que possivelmente acabara de chegar a uma certa conclusão, afinal, eu realmente estava preocupado com ele, aliás, qualquer um estaria. - Será que poderia ligar para Kai e avisar que não vou poder ir nos ensaios... por um bom tempo?

-Ah, claro, tinha até esquecido. - Lamentei pela ultima parte da frase, só deus sabia qual seria a próxima vez que ele poderia segurar um baixo.

Saí do quarto para usar o celular, deixando Reita sozinho por alguns minutos.

Se houvessem algumas câmeras por lá observando-o, poderia ser notado a presença de pequenas lágrimas escorrendo pelo rosto desprovido de qualquer expressão de Reita.

-Kai? É Ruki... Desculpe-me por só ligar agora, mas ocorreram alguns imprevistos e eu e Reita não poderemos comparecer aos próximos ensaios.

-O que??!?! Como assim próximos, isso quer dizer, mais de um?? Ruki!! Vocês precisam vir!! O que aconteceu afinal?!?! - Estava nervoso.

-É que...

-Não quero saber se seu cachorro andou aprontando nos corredores de seu prédio novamente, venha pra cá imediatamente!!

-Mas Kai...

-Nada de mais!! Ruki, você anda se atras-

-Reita sofreu um acidente, foi atropelado.

Silêncio.

- QUÊ?!?!?!?!!?

-É, bem...

-EM QUE HOSPITAL VOCÊS ESTÃO?? QUER DIZER, ESTÃO NUM HOSPITAL, CERTO?? URUHA, PEGUE AS CHAVES DO CARRO, NÃO, ESPERA AÍ! QUANTO VOCÊ BEBEU?? AOI!! DIRIJA! VAMOS RÁPIDO!

-Se acalme, Kai...

Pela gritaria de Kai, demorou um pouco até que eu pudesse explicar a localização do hospital, mas quando consegui, em poucos minutos eles já haviam chego.

Todos os integrantes adentraram o quarto e cada um apanhou uma cadeira e posicionou em torno da cama, formando assim uma "barreira" em volta desta. Todos apenas se fitavam sem saber o que falar, o silêncio reinava sobre o cômodo devido ao medo de falar algo desgradável, ainda mais depois de terem lido o papel do diagnóstico do baixista.

-Então... não tem problema eu ficar meio ausente, Kai? - Disse Reita quebrando o silêncio, tendo a atenção de todos voltadas para ele.

-D-De forma alguma, falarei com nosso empresário mais tarde, precupe-se apenas consigo mesmo! - Disse Kai sem jeito lembrando das grossas palavras que havia dito ao telefone com o vocalista.

-Kai, que tal pausar os ensaios por um tempo? - Disse. Kai iria entender mesmo que eu não disesse que queria que essas medidas fossem tomadas para que eu pudesse acompanhar Reita em sua estadia no hospital, e claro, ajudar com tudo que posso em sua melhora, e se possível, tornar sua paralisia fora de cogitação.

-Não sei te responder, Ruki. Terei que conversar com nosso empresário como já disse, mas farei o possível. - Sorriu.

-Aaaah, que pena Uruha, e agora, o que será da sua vida? - Provocou Aoi, como costumeiramente.

-O que está insinuando?

-Você sabe muito bem o que eu quis dizer.

-Ei crianças, aqui não. - Disse Kai lançando um olhar paterno aos dois, que abaixaram a cabeça ficando quietos, motivo de riso para todos os outros membros da banda.

Com o tempo a conversa foi ficando mais descontraída, todos já haviam se acostumado com a notícia e não estavam mais tão chocados, assim, amenizando aquele anteriormente pesado clima sobre todos. Passaram-se mais ou menos três horas até eles decidirem se retirar, prometendo voltar no dia seguinte, claro que eu iria permanecer ali novamente.

-Bom, parece que eles ficaram mais tranqüilos ao ver que você está bem.

-Uma coisa a menos para se preocupar pelo menos. - Olhou para os pés.

-...- Fiquei observando o modo triste em que ele fitava seus braços e pernas, deve ser horrível a sensação. - Reita, e-eu vou tomar banho, sim?

Dirigiu o olhar para mim e arqueou uma sobrancelha. Aquilo me desconfortou por algum motivo, então, apressei-me em entrar no banheiro, despir-me e posicionar-me abaixo da aquecida água do chuveiro.

Olhou para o teto, ainda com as sobrancelhas arqueadas e perguntou para si mesmo;

-Ele trouxe roupas pra cá?

A resposta dessa pergunta veio ao finalizar meu banho. Saí do box e alcancei a toalha, enrolando-me nela, em seguida fui até os ganchos de trás da porta. Arregalei meus olhos. Eu havia esquecido que não tinha trazido roupas!! Seria muita falta de higiene usar as mesma roupas, na minha opinião.

É, eu não me permitiria usa a mesma roupa que eu estava antes de me banhar.

Rodei o banheiro, abri as gavetas do móvel da pia... nada. Que tipo de hospital é esse que nem tem uma troca de roupa para os pacientes? Se bem que Reita estava impossibilitado, provavelmente o médico iria decidir a hora que ele iria tomar banho... eca.

Olhei para cima e avistei uma prateleira suspensa com algo emplasticado em cima dela. Fiquei na ponta dos pés e alcancei o objeto. Assustei-me com a possibilidade de vestir aquilo ao descobrir o que tinha dentro. Era um uniforme de uma das enfermeiras. Tá, acho que era melhor ficar de toalha do que usar aquela mini saia com essa camisa branca... mas.. se talvez Reita estivesse dormindo, eu poderia usá-la somente para ir até o quarto e ligar para Kai, pedir para ele trazer algumas roupas minhas. Uruha morava mais perto da minha casa, mas se ele me visse vestido assim, seria humilhante demais. É, seria isso que eu faria!

Desconfortavelmente vesti aquela roupa e em passos leves voltei ao quarto. Olhei para Reita, aparentemente dormindo. Porém, só aparentemente. Ao me dirigir até o sofá onde estava meu celular, ouvi o barilho de alguns risos abafados, vindo da pessoa que se encontrava em cima da cama daquele quarto.

-...- Fiquei ali, paralisado. optei por não falar nada. Virei-me em direção a Reita, motivo de ainda mais riso para ele. Ele ria cada vez mais alto, iria acabar acordando alguém assim. Fui até perto dele e fiquei o olhando com um olhar envergonhado. - Eu havia esquecido que não havia trazido roupas e ia ligar pro Kai para que ele me trouxesse roupas, só isso.

Não adiantou tentar explicar, seus risos somente aumentaram.

-Você ficou linda, Ruki! - Disse com dificuldade, pois não conseguia conter os altos risos. Já estava com o celular em mãos, não havia motivo para mim ficar ali observando-o rir de minha cara, virei de costas e estava pronto para voltar ao banheio quando senti meu pulso ser segurado pela mão de Reita.

Paralisei. Olhei para trás e vi Reita curvando-se para alcançar meu braço.

-...- Olhei espantado.- Você consegue se mexer?

Não me respondeu, apenas me puxou para perto de si quase fazendo-me cair por cima dele.

-Você tá a coisa mais sexy, Ruki.

Deixei escapar um pequeno riso antes do rubor se apossar de meu rosto e meus olhos desviarem dos de Reita. Levou uma de suas mãos até minha nuca e puxou-me para um leve beijo, eu estava com medo de machucá-lo, estava me segurando para não aprofundar, porém, Reita não permitiu essa calma por muito tempo. Levou o outro braço aos meus joelhos e me puxou para cima da cama, deixando-me sentado ao seu lado. Trocas lentas de beijos e carícias, o medo não me permitia passar daí.

-Pare de se segurar Ruki, eu sei que você quer brincar comigo.-Lançou um olhar malicioso.

Medo? Que medo?

Coloquei minhas pernas uma de cada lado de seu corpo na altura da cintura do mesmo enquanto minhas mãos apoiavam meu corpo em cima de reita aos lados de sua cabeça, iniciando um beijo que foi violentamente se aprofundando, e jogando meu corpo por cima do dele, esfregando-me e o pressionando contra o colchão. Como ele estava por baixo, me senti na obrigação de agir dessa vez. Desci as mãos até a cintura de Reita, em seguida fazendo meu rosto seguir o mesmo caminho, chegando até seu baixo ventre. Abri o zíper de sua calça e...

e...

-Hã... Reita? - Arregalei os olhos ainda olhando para a abertura da calça de Reita.

-O...pa- Olhou para o mesmo local onde meus olhos estavam antes de dirigir meu olhar para seu rosto.-...- demorou a falar -Ruki eu...eu juro que não fasso a menor idéia do motivo disso. - Disse completamente sem graça , jogando a mão sobre o rosto e desviando-se de qualquer olhar meu.

-T-Tudo bem...acontece! - Saí de cima dele, porém, ao fazer isso, acidentalmente acabei por colocar meu joelho em cima de seu pé. - Ah, me desculpe! - Parei aoelhado sobre a cama.

-O que?-Ainda sem me olhar, mas já sem a mão cobrindo seu rosto.

-Eu..pisei no seu pé? -Arqueei uma sobrancelha. -...-caiu a ficha-...nao sentiu???

-Eu? Não...

Me sentei em cima da cama e fiquei a olhá-lo assustado.

Por um minuto, pensei que tudo havia passado, que em alguns dias iríamos voltar para casa juntos e voltar á velha rotina, porém, pude ver minhas esperaças agora no chão despedaçadas.

Pequenas lágrimas tomaram conta de meus olhos em pouco tempo, anunciando mais uma futura noite mal dormida, joguei-me novamente em cima do corpo de Reita e o abracei, aos prantos, permanecendo assim pelo resto da noite.

Continua...