Que incômodo, algo estava me despertando. O frio congelante que eu sentia em minhas pernas me impossibilitava de mechê-las de início, as janelas do quarto fechadas bloqueavam a passagem de raios de sol, o tornando ainda mais frio...mas não era isso que havia me acordado.

Lentamente fui abrindo meus olhos, levei um pequeno susto ao perceber que adormeci na cama de Reita ao lado dele, mas o pior estava por vir.

Arregalei os olhos e dirigi meu olhar até os donos de um insuportável barulho de risos, que vinham da porta do quarto, onde estava Kai, paralisado com uma expressão assustadíssima, e atrás dele, Uruha e Aoi dando algumas abafadas gargalhadas.

-Bela roupa, enfermeira Matsumoto! - Zoou Uruha.
-Hã? -olhei confuso.-Roupa?- abaixei minha cabeça para avistar o que eu estava vestindo, e pude perceber que eu não havia tirado a roupa de enfermeira que eu havia pego no banheiro na noite anterior. - AAAAAH!! DROGA!- enfiei-me completamente abaixo dos lençóis e me abracei em Reita.

Tá certo que a situação se não estivesse sendo comigo eu também acharia engraçado, mas Uruha e Aoi já estavam exagerando no volume de suas risadas, Reita também ria, porém mais discretamente, enquanto Kai que parecia constrangido, me entregou uma sacola de roupas em mãos e me mandou imediatamente pro banheiro, sem me fitar uma única vez nos olhos.

Sério, acho que Kai é o único que me respeita por aqui, porque o resto só se preocupou em rir.

Adentrei o banheiro e me preocupei em rapidamente me vestir com as roupas que Kai havia trazido, em seguida pondo as já usadas por mim no dia anterior dentro da sacola. Olhei minha figura no espelho e pude reparar nas minhas olheiras agora muito bem visíveis, minha ausência de maquiagem, e observei que andei emagrecendo novamente. Já era de se esperar, não toquei em um único pedaço de pão desde que cheguei ao hospital.

Se Reita descobrisse isso, provavelmente iria me dar alguns cascudos.

Ajeitei meu cabelo que estava completamente bagunçado e girei a maçaneta voltando novamente para o quarto onde estavam todos, que por sinal, ainda riam da cena anterior, com excessão de Kai que ainda permanecia sério, e de Reita, porque provavelmente já havia acabado a graça para ele.

-Acho que já chega, NÉ Uruha, Aoi? - Olhou assustadoramente para o loiro, em seguida lançando o mesmo olhar ao moreno, que em seguida, calaram-se imediatamente, dando direito a Kai para prossegir em paz. - Então Reita, está melhor? Falei com o nosso empresário, ele ficou um pouco assustado, porém ele concordou em congelar os ensaios pelo menos temporariamente, e vai cuidar para que essa informação não transborde de lá, se a mídia souber será um escândalo.

-Hai. Obrigado, Kai-kun. - Sorriu.
-Imagine, apenas melhore logo, viu! - Devolveu o sorriso, radiante e contagiante, como sempre.

Como ainda permanecia em pé, fui em direção do sofá e soltei-me contra ele, jogando-me em cima das macias almofadas e fiquei a observar o restante dos que ali se encontravam conversando.

-Uruha, esse final de semana não era pra gente sair?

Todos pararam um instante de falar e dirigiram os olhares a mim, em seguida para Uruha, que observava minha face com uma expressão interrogativa, arqueando uma das sobrancelhas e moldando um pequeno sorriso nos lábios, em seguida respirando fundo e se preparando para responder.

-Com essa confusão toda acha que eu ia pensar em sair? - Riu.
-Tá mas... você já não tinha conseguido as entradas?
-Pois é Ruki, mas acho que agora não adianta mais pensar nisso, né.

Não sei quanto aos outros, mas pude perceber uma certa grosseria nas frases de Uruha, será que ele estava bravo? Bom, não tinha como adivinhar os pensamentos de Uruha, ele era meio confuso, era uma legítima alma feminina de fato. Ignorei a conversa dos ultimos instantes e permaneci em silêncio enquanto os outros continuavam a animadamente conversarem.

Tá certo que eu não havia acordado de um jeito muito agradável hoje, mas acho que não é motivo suficiente para tamanho mal humor, do nada, apenas me isolei no sofá e não respondia a comentários do restante dos presentes no cômodo, algo estava me incomodando.

A estadia deles no hospital hoje aumentou de tamanho, foram algumas longas horas de conversas e risadas, enquanto eu, continuei ali, quieto, chegando ao ponto da presença ter sido esquecida, já que eu me recusava a participar da conversa deles. Eu realmente estava azedo, assim como também eu não suportava mais ver Aoi ficar mexendo nos braços de Reita, ele tá querendo alguma coisa? E qual é a do Uruha também que fica mexendo no cabelo do Reita?? Ah isso tava me tirando do sério, afinal, Reita está machucado, eles não entendem que ele tem que repousar?? Porque não vão logo embora?

-Senhores, peço para que façam menos barulho...-disse sem graça uma enfermeira que acabara de entrar no quarto.-...aliás, o horário de visita acaba em cinco minutos.-retirou-se do quarto.

Ambos fizeram uma careta em protesto ao comunidado, claro, estavam se divertindo.

-Bom Reita, então acho que vamos indo.-disse Kai novamente sorrindo- Foi divertido, talvez voltemos mais vezes.-saiu da frente da cama onde estava Reita e foi até minha frente no sofá.-e você baixinho, vê se melhora esse seu humor, viu. -bagunçou um pouco minha franja com uma das mãos que levara á minha cabeça, em seguida se dirigindo até a porta do quarto, sendo seguido por todos os outros após também se despedirem.

Arrumei meu cabelo e me levantei, indo em seguida até a janela e ficar a fitar as lâmpadas dos postes das ruas iluminando as mesmas. Pousei um dos cotovelos na janela e enfiei a mão do outro braço no bolso, e dele tirei um maço de cigarro, que já estava quase no fim, puxando um e acendendo-o com o esqueiro que eu havia pego no mesmo bolso.

-Já vai começar a fumar de novo, Ruki? - Disse com um ar de reprovação.- sinta-se a vontade pra ter cancêr.- abriu os braços como se tivesse dando um sinal transmitindo uma mensagem da nossa localização, como se fosse um "aproveita já que estamos num hospital". Não dei importância pro comentário, voltei minha atenção para o cigarro e o movimento da rua.- Ruki, eu tô falando com você.-falou irritado.
-Me deixa em paz, Reita.
-...-fez careta-Que bixo te mordeu pra ficar toda mal humoradinha hoje hein? -fechou a cara e desistiu de tentar puxar algum assunto, virou de costas para onde eu estava, ajeitou o travesseiro e tentou dormir.

Quando me dei conta do quão grosso eu tinha sido pareci ter acordado de um estado vegetativo, recobrado a consciência que havia perdido por alguns instantes. Fui até mais perto da cama e parei meu rosto perto da nuca de Reita, encostando levemente minha cabeça sobre a ponta de seu travesseiro e levando uma das mãos ás suas costas, escorrendo meu dedo indicador sobre a marca de suas costelas.

-Reita?
-Me deixa em paz, Ruki. - Senti uma faca atravessar minha barriga.
-Reita, desculpa, não sei o que deu em mim, eu não acordei de um j-
-Deixa pra lá Ruki, eu prometo que nunca mais vou me preocupar com você. -Outra faca, ainda maior.- Eu só queria te ajudar e você quase me manda á merda, prefiro ficar quieto também agora.

-Juro que eu não tinha a intenção de te mandar á merda Reita, me desculpa eu... eu fui grosso com você, não vou mais fazer isso. - Escorreguei meu braço por seu corpo para conseguir abraçá-lo e senti Reita levar a mão dele á minha, acariciando-a.
-Tenho medo de te perder...não importa de que maneira,eu só não quero te perder.

Coloquei o restante do meu corpo sobre a cama e fechei meus olhos, colei meu corpo contra o dele, arrastei-me mais para cima da cama e pousei minha face sobre a curva entre seu ombro e nuca e permaneci ali.

-Eu digo o mesmo Reita, eu vi meu mundo desabar quando vi você sendo atingido pelo caminhão.-Apertei mais o abraço.- Pensei que fosse te perder...pra sempre. Doeu.
-Você me tem pra sempre, Ruki.

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Aparentemente a manhã havia começado melhor, nada de escândalos, nem uniforme de enfermeiras. Se for parar pra pensar agora, eles me viram na cama com Reita, e apesar disso nem falaram nada. Talvez o choque da roupa tenha causado tanto impacto que eles nem se tocaram que eu havia dormido com ele, eu será que eles já sabiam?? Bom, se não, talvez já tivesse na hora dele saber, afinal...

-Rukiii! Tem alguém batendo na porta!
-Ah, to indo, to indo!

Estava escovando os dentes, corri até a porta ainda com a escova na boca e com os cabelos um tanto bagunçados, já imaginando que era Uruha e os outros, porém, e estava enganado.

-Boa dia, esse seria o quarto do Sr. Suzuki, estou certo? -Era o médico.
-Ah sim...quer entrar? - disse meio sem graça e um pouco enrolado, já que minha boca estava preenchida com espuma da pasta de dentes.
-Não vai ser preciso...-curvou-se um pouco para observar a paisagem de dentro do quarto e olhou para Reita, acenando para o mesmo e sorrindo.- Se você for o Sr. Matsumoto, gostaria de ter uma pequena conversa com o senhor, então por favor, trate de terminar o processo higiênico dental e retorne aqui para que eu possa prosseguir.

-Ah, sim senhor! -fiquei um pouco constrangido pela cena, e também pelo vocabulário dele comparado ao meu, ele falava de um jeito bonito com palavras muito bem encaixadas. Obedecendo suas ordens, corri até o banheiro e cuspi a espuma que já fazia minha boca levemente adormecer com o efeito do produto, enxagüei a boca e retornei á porta do quarto, em seguida me retirando do mesmo com o médico e fechando-o. - Perdoe-me pela demora doutor.
-Sem problemas, imaginei que não estaria devidamente praparado para receber-me, esqueça o ocorrido. - Ajeitou o óculos e ergueu a prancheta que estava em mãos para perto de seu rosto.- Eu vim até aqui fazer-lhe um pequeno comunicado, creio que ficará surpreso.

Gelei. Senti meu corpo se arrepiar inteiro. O que será que havia acontecido com Reita? Será que era sobre Reita?...e se alguém do hospital tiver me visto com aquela roupa?? MEU DEUS.

-P-prossiga.
-Creio que seu amigo seja um caso de um em milhões. Dos últimos exames que fizemos, pudemos perceber que devido á tamanha saúde dele anterior ao acidente ele será capaz de em um ou dois meses voltar completamente a se movimentar normalmente, claro, se permanecer no hospital por 3 semanas no máximo sobre tratamentos médicos.
-...-permaneci paralisado, assustado, surpreso,confuso,feliz...não sei como descrever o que eu estava me sentindo no momento.-O-oque disse?
-Imaginei que ficaria surpreso diante de algo assim. Ele tem uma saúde bastante boa, aparentemente se alimenta bem além de um outro fator que sou obrigado a comentar.
-Qual seria?
-Sr. Suzuki possui algum tipo de relacionamento?
-...-gelei novamente. Será que alguém nos viu? Há câmeras escondidas pelo quarto? Fomos pegos no flagra... é isso?? Não pode ser, ele vai nos expulsar do hospital??- Porque a pergunta?
-Uma rotina "sexual" assim dizemos é importante também. Bom, creio que vocês são bastante amigos, imagino que você deva saber dessas coisas, porém, não é mais de meu interesse, somente a sua saúde é meu dever. - Ajeitou os óculos e abaixou a prancheta.- Irei me retirar agora, creio que serás capaz de dar essa notícia a ele. -foi caminhando elegantemente pelos corredores sendo respeitosamente cumprimentado por enfermeiras e outros médicos de passagem.

Fiquei a fitá-lo até desaparecer de minha vista e por alguns instantes voei, esperando que a ficha caísse.

Balancei a cabeça entrando em si novamente, levei minha mão até a maçaneta do quarto e adentrei este, podendo observar um Reita em cima da cama esperando explicações. Havia em seus rosto uma expressão esperançosa, parecendo uma criança esperando a mãe chegar do supermercado á procura de doces dentro das sacolas de compras.

Fechei a porta atrás de mim e sorri para Reita, que continuou a me olhar confuso. Andei devagar até ele e sentei-me ao seu lado na cama, levei uma de minhas mãos á seu rosto e o acariciei, deixando escapar em seguida algumas lágrimas por meu rosto. Antes que Reita pudesse pronunciar qualquer palavra, interrompi-o com um pequeno beijo em seus lábios e voltei á posição anterior.

-Gazerock... is not dead.

Reita arregalou os olhos e deixou seu queixo cair, me olhando assustado, em seguida partindo para um desesperado e apertado abraço, chorou alto. Passei minhas mãos por suas costas e o abracei de volta, acompanhando aquela reunião de lágrimas, que tão cedo, não iria acabar.

Continua...