Disclaimer: O mesmo de antes.
O oitavo dó, o último si
Por Lally Y K
II.
Scherzo nº1 in B minor, Op. 20 (Chopin)
Ela entrou na sala de supetão e deixou a porta bater atrás de si. Ele nem se preocupou em olhar para trás para ver quem era. O ambiente estava embalado pelas notas rápidas e precisas. Era quase uma alegria, enlouquecedora que embalava a sala. Hermione estava irritada.
E de fato, ela estava surpresa em vê-lo na sala. Todos os dias da semana que passaram, veio ao local e ele não estava lá; apenas o piano com o tampo abaixado, as teclas cobertas pelo mogno da madeira brilhante. O sol não chegava a bater diretamente no instrumento, apenas um ou outro raio fazia o aparelho reluzir na sala fria, arejada. É lógico que é arejada e cheia de janelas.
Ao lado do piano, a vassoura de Draco descansava, pronta para outra escapadela. Ele tocava de olhos abertos... A luz morna do sol não chegava a iluminar sua figura, mas a tornava mais visível e irreal, porque o próprio semblante dele tinha uma expressão diferente. Mais... livre.
Ele não sorria. Ela contornou o instrumento musical até ficar na ponta oposta, vendo sua cabeça loira ligeiramente abaixada, as mechas impecáveis caíam sobre os olhos claros e a cabeça se mexia ligeiramente a cada variação mais alta, como se concordasse com o autor. Contornou novamente o pianoforte e desta vez sentou-se ao seu lado, no chão, com os joelhos junto ao peito, a cabeça encostada nos seus braços, ligeiramente abaixada para que as mãos do loiro não esbarrassem nela quando ele fazia uso das duas últimas oitavas.
O que parecia ser constante nesta música.
Ele pressionava o pé sempre no pedal direito, executando quase com tanta perfeição o legato quanto o mestre da música. Percebeu que os movimentos eram ágeis e que os dedos deslizavam pelas teclas, em perfeita sincronia, como se os batentes ondulassem. Era uma melodia agradável, dava vontade de mexer os pés e dançar na sala. Mas ficou quieta, observando-o em sua pequena alegria, tocar a música que terminou de uma maneira inesperada, já que a maioria das músicas que conhecia terminava de maneira branda, mas não. Ela terminava forte, com notas mais graves, da segunda ou terceira oitava, e Draco tirou as mãos do teclado assim que terminou, para estalar os dedos exaustos.
Só então os olhos azul-acinzentados viraram para a garota encolhida ao seu lado. Ele murmurou algo como 'Garota imprudente e enxerida.' e levantou do banco, deixando sua capa negra sobre ele. Andou pela sala duas vezes, rodeando-a e estudando-a, até que Hermione cansou do silêncio e perguntou:
"Ei, você não me disse por que estava tocando na semana passada."
"Eu toco para os mortos Granger." Ele sorriu ao vê-la empalidecer quase que instantaneamente, "A cada pessoa que morre em minhas mãos, toco uma música para que descansem em paz."
"Soa como uma missa." Ela olhou-o pensativa e pôs-se de pé, batendo a poeira imaginária de suas vestes.
"Nada disso." Ele balançou o dedo comprido perto de seu rosto e tirou a capa do banco antes de voltar a se sentar. Direcionou o olhar no fundo de seus olhos e por instantes e a garota teve certeza que suas bochechas queimaram de vergonha. Patético, Hermione! "É mais um desencargo de consciência, uma maneira de dar-lhes um descanso tranqüilo. Não perdôo a ninguém, não os direciono aos céus, nem mesmo digo que irão para uma vida eterna."
"Você é ateu." Ela observou sem realmente precisar. "Eu também."
"Você não acredita em Deus, mas acredita nos homens. Acredita em Potter, Weasley, Weaselette, e toda aquele bando de idiotas que fazem parte do clube do velho." Ela mordeu o lábio inferior em apreensão e irritação, mas não disse nada. Em resposta, ele apenas direcionou-lhe um sorrisinho irônico. "Eu sou niilista. Não acredito em nada."
"Não acredita em seu Lorde das Trevas? Em seus pais? Em você mesmo?"
"Eu cumpro ordens do Lorde. Meus pais também. E não tenho motivos."
"Se é tão desiludido com a sua vida, porque continua com ela? Porque não muda?" Ela murmurou sem realmente querer. Era inútil discutir qualquer coisa nesse sentido com ele. Era Malfoy afinal de contas.
"Não creio que esteja desiludido, apenas sou realista. Não tenho motivo para desistir, Granger. Nem para mudar." Sua voz não transparecia um pingo de ressentimento ou culpa. "Não vejo razão para ser diferente, mato quem preciso matar, deixo vivo quem ele considera merecer, nada mais e nada menos. E enquanto a minha própria vida estiver a salvo, isso é suficiente."
"Você não tem nenhuma idéia que seja igual a dele? Você carrega no seu braço a marca de Voldemort! Como pode nem sequer se familiarizar com sua ideologia, apoiar suas insanidades, qualquer coisa!" Ela parecia frustrada, embrenhou os dedos em seus cabelos crespos, armados. "Como pode matar pelo simples agir? Não é possível que se importe apenas com seu próprio rabo."
"Hoje eu matei uma família bem alegre." Ele sorriu quase suavemente e baixou o tampo, cobrindo as teclas de marfim e voltando a vestir a capa negra. "Era um bruxo camponês, uma bruxa vendedora de qualquer coisa do campo e duas crianças quase na idade de vir para Hogwarts. Eram loiros, com olhos verdes e cheios de sardas. Se os cabelos fossem vermelhos podia jurar que era uma parcela dos Weasley no mundo."
"Você não estava triste por isso?"
"Um pouco." Ele se encolheu ligeiramente e fez um gesto com a mão, e a janela escancarou-se. Ele consegue fazer isso? "Mas acho que essa música deixará que eles fiquem mais tranqüilos."
Ele montou na vassoura e ficou por alguns momentos em silêncio. Depois, voltou o olhar para a morena que o fitava intensamente. Não entendia exatamente porquê contou aquelas coisas, mas simplesmente sentiu necessidade de tirar um pouco aquilo de sua cabeça. Ter uma penseira seria um luxo muito imprudente em tempos como aqueles.
"Mal- Draco?" Ele gostou da maneira que a voz dela soou. Um sol na quinta oitava, talvez?
"Diga."
Ele já tinha dado impulso com a vassoura e se aproximado da janela. Mas virou para ela, e os cabelos dele ficaram ainda mais loiros e seus olhos se transformaram em azuis, tão bonitos quanto o céu que estava lá fora. Mesmo que estivesse terrivelmente frio. E os olhos petrificados, vazios, odiosos como gelo.
"Quem foi semana passada?"
"Blaise Zabini." Ele deu meia volta e ficou do lado de fora da janela. "Meu melhor amigo."
Com um gesto da mão pálida, a janela se fechou, e logo Draco se tornou um mínimo pontinho preto no céu, com os fios claros brilhando com os raios de sol. E ao mesmo tempo, a sala ficou mais escura com uma nuvem que encobriu rapidamente a grande estrela, como ficaram os olhos dela antes das pequenas e silenciosas lágrimas rolarem pelo seu rosto.
(Segunda semana)
A ser continuado...
Agradeço a Kikis, Vick Weasley e Miss Veronica pela atenção.
A você, caro leitor, cabe o papel de julgar se essa fanfic é digna ou não de um review.
