Disclaimer: O mesmo do anterior

O oitavo dó, o último si

Por Lally Y K

III.

Nocturne Op. 15 nº1, N in F major Andante Cantabile (Chopin)

"Malfoy." Ela falou após alguns instantes em silêncio. Ele tremia de frio, porque ventava e ele não estava com agasalho o suficiente. Não tocava também. Só olhava para o pianoforte com o tampo abaixado, os cabelos oleosos que caíam sobre sua testa levemente enrugada. "Malfoy?" Ela aproximou-se lentamente do rapaz até ficar a dois metros de distância dela.

Os olhos acinzentados se retraíram ainda mais e ele cerrou os punhos, como se controlasse o demônio interior que consumia sua alma já negra. Via Malfoy não como um adolescente assustado ou um assassino impiedoso, muito menos alguém perdido. Ele era concentrado em sua ação, frio e calculista com os detalhes de cada execução que efetuava. Ele não tinha olheiras.

"Você dorme bem?" Ela tentou mais uma vez um diálogo, mas ele parecia fora do ar. Talvez um resquício de arrependimento tocou sua alma? Talvez aquele homem diante de si fosse humano? "Por que está em silêncio?"

"Crucio."

Ela se contorceu dolorosamente, e se não fosse o feitiço silenciador que ela colocara na sala quando entrou, com certeza alguém a acudiria pelos gritos que saíam de seus lábios. Doía, e como doía. Draco parecia ligeiramente insano, como a sua tia Bellatrix Lestrange; o prazer de torturar. Ele tinha um meio sorriso nos lábios quando a libertou da dor. Os seus olhos gélidos brilhavam com ironia e desprezo, assim como sua mão esquerda tremia violentamente e respingava sangue da marca negra.

Ela olhou-o com algo muito semelhante à pena. Não tinha medo dele. Não tinha medo do que ele vinha fazer em Hogwarts. E não temia, nem de longe, a conseqüência da guerra, de qualquer coisa. Estava um tanto alheia a tais coisas, porque precisava ser forte, e de uma forma estranha, ele contribuía para essa força com a sua frieza. O rapaz desviou o olhar e fitou a varinha durante vários minutos, ao mesmo tempo em que as lágrimas correram silenciosas pelo seu rosto, como se finalmente entendesse que ele tinha torturado-a, ainda que por breves instantes, com a Maldição Cruciatus.

Ele não levantou, mas sinalizou com a mão para que ela se aproximasse, e assim Hermione o fez. Não tinha porque se assustar com o loiro, não esperava mais ou menos dele; era assim a esquisita relação estabelecida a duas semanas atrás. Ela chegou próximo, e Draco deu dois tapas em sua coxa esquerda, para que a garota se sentasse ali. Ela ergueu uma das sobrancelhas, como se questionasse a sanidade de Malfoy, entretanto, ele apenas deu dois novos e enfáticos tapas na perna, e ela acabou por ceder.

Sentou-se meio de lado, cobrindo a parte de trás das coxas com a saia do uniforme, e tocava mais a beirada das pernas dobradas, no fim das coxas dele, firmando o peso nos seus próprios pés para não machucá-lo. Ele tremia.

"Eu durmo muito bem." Ele quase sorriu quando ela encostou o rosto em seu ombro e molhou-o com sua tristeza. Aquela que ele sempre ignorava a cada vez que estava diante do que precisava fazer.

Ela ficou um tanto aturdida e assentiu de leve, quando ele parou de tremer aos poucos. O calor de seu corpo irradiava pelo dele e depois de alguns minutos ambos ficaram mornos, anulados em sua polaridade, favorecidos pela inércia do silêncio.

As mãos dele passearam pelo piano, maquinava as notas altas com a perfeição de sua mão direita. Hermione notou que as cutículas das unhas bem cortadas de ambas as mãos tinham uma coloração amarronzada. Ele parecia drogado com a letargia daquela melodia, pois suas mãos tocavam tão suavemente o teclado, a mão esquerda quase brincava e sua coxa esquerda se tencionava muito de leve quando usava um dos pedais.

Apenas quando ela deslizou para o meio de suas pernas foi que o ritmo de seus metacarpianos quebrou a sintonia do silêncio quase confortável, e todos os dez dedos de suas mãos passearam pelo marfim e pelos be-móis. Ele batucava impaciente a mão esquerda para fazer uma base na música que se concentrava na desordem das notas mais agudas, mais gritantes, mais desesperadas.

Ele tremia em um frenesi, como seus pensamentos ao tentar desvendar a verdade por detrás daquela música que naquele instante se acalmava e vinha para o centro do pianoforte apenas para confundí-la. Apenas confundi-la. E o som vinha melancólico novamente, como o tremor dos seus braços fatigados em deslizar os dedos pela parte mais aguda e lenta de sua tristeza.

Ele se repetia, insistia no mesmo ponto da dor, cantarolava nos batentes o que não podia dizer em palavras. O que os dois não sabiam dizer com elas. Parecia quase uma canção de ninar. Ele agora tocava com apenas uma das mãos, pois amparava a sua cintura e passeava os dedos frios pela sua pele arrepiada no abdômen. Ele sempre estava gelado.

Ela ousou apoiar a cabeça em seu ombro novamente, os seus cabelos entravam em sua capa e pinicavam o seu ombro, já que a blusa que usava debaixo das vestes não tinha manga. Mas era um toque bom, quase confortável. Com a mesma calma ele descansou a mão em sua coxa e ficaram apenas em silêncio.

Ela tentou girar dentro de seu abraço, mas ele apenas meneou contra sua pele e mexeu de leve na sua nuca. Subitamente, ela sentiu dormência. E frio. Ele saíra com a mesma discrição que entrara, trêmulo e irritado.

O daquele dia fora um desconhecido.

Com as suas próprias mãos.

(Terceira semana)

Eu sou demorada para atualizar. Agradecimentos a Annie Black Malfoy, Miss Veronica, Kikis, Le Oliveira, Morgana Gorlois Pendragon, Vivis Drecco e Golden pela atenção.

A você, caro leitor, cabe o papel de julgar se a fanfic é digna ou não de uma review.