Disclaimer: Reiterado.

O oitavo dó, o ultimo si

Por Lally Y K

IV.

Nocturne Op. 27 Nº1 , N in C s

Ela entrou muito cedo na sala. Estava com três livros que estudavam as horcruxes, e diversas anotações espalhavam-se pelo chão. O piano continuava mudo e belo, o silêncio acariciava seus ouvidos. Por mais que gostasse de música, achava a quietude fascinante. Talvez pelo fato de entre tantos gritos que ouvia, discussões acaloradas na Ordem, os gemidos de dor que Harry emitia em seu sono, ou outros barulhos entre Harry e Ginny. A relação entre eles era esquisita.

Muito embora tivesse uma pequenina paixonite por Ron, e talvez outra por Harry, e ainda tivesse beijado um e outro em ocasiões, não sentia aquela química que achava necessária. Ron era deveras infantil em algumas circunstâncias, e Harry foi um bom consolo quando ele sofria por Cho, e ela sofria por Krum. Comparar os dois parecia uma ofensa a inteligência de ambos. Harry era genuinamente preocupado com todos, um excelente ouvinte e fazia piadas que tornava o ambiente muito menos denso.

Ron era um pouco menos maduro, entretanto, tinha uma profundidade que não podia ignorar. Sentia as coisas de maneira bastante intensa, tinha sentimentos fortes sobre todos e uma necessidade de proteger aqueles que precisavam. E não ficava nem um pouco atrás em piadas, sendo um Weasley e irmão de Fred e George, afinal de contas. Sempre que estava prestes a dormir, ele fazia um encantamento que nunca lhe dizia qual era, e as borboletas invadiam o quarto, sobrevoavam e se tornavam luminosas, para que não ficasse tudo tão escuro. Ela não gostava de locais escuros. Nem altos.

Pouco antes do meio-dia, ouviu o zunido do ar e um pontinho preto se aproximar com velocidade para a janela. Guardou os livros dentro de sua bolsa, assim como as anotações e pôs-se ao lado da janela, sorrindo de leve com a entrada abrupta do loiro. A expressão se desfez ao ver que o rosto dele tinha uma marca roxa e o lábio inferior sangrava, além de suas mãos tremerem de leve.

"Draco!" Ela esperou que ele deixasse a vassoura ao lado do piano e fechasse os vidros com o mesmo gesto da mão. Olhou dentro das íris cinzentas, com quê de chumbo escuro e azul marinho. Tocou-lhe o rosto de leve antes de retirar um lenço para limpar o corte que ainda sangrava. A respiração dele era rápida, e o tremor em seu corpo só aumentava a medida em que dava passos fatigados e trêmulos em direção ao piano, até sentar-se no banco. "Você está sob o Cruciatus! Como pôde voar até aqui?"

"Existem feitiços muito piores que um simples Cruciatus, Granger." Ele finalmente falou, com o mesmo tom arrastado e indiferente. Mas ela o via por dentro. Não tinha habilidade com Oclumência, mas era sensível a mudanças. "Eu poderia estar morto, por exemplo."

"Não diga isso." Ela repreendeu-o suavemente e murmurou um feitiço de cicatrização. Então, os roxos em seu rosto diminuíam consideravelmente e a tez pálida brilhava entre os machucados externos. "Sabe Draco, eu sei por que você vem aqui."

Ele assentiu. Era previsível que ela soubesse. Ela sabia de tudo. "Tem chocolate? Estou faminto."

Ela tirou o doce da sua mala e entregou-o. Comeu em silêncio, com a consciência de que era observado atentamente por olhos castanhos. Eles nunca perdiam aquele brilho raro e melancólico. As nuances não eram tantas como os seus próprios orbes, mas gostava de mirá-los mesmo assim. Um reflexo de sol os tornava quase caramelo, um doce perigoso e irresistível.

Finalmente, a garota esticou os braços e apoiou-os no colo, depois de sentar-se encolhida ao lado dele, como sempre fazia. Ele levantou o tampo e estalou os dedos longos e finos, iniciando uma melodia quieta, calma, já que seus dedos tremiam um pouco devido à exaustão e ao feitiço. Não sabia como aquele rapaz se mantinha de pé; a única vez que foi posta sob o Cruciatus sentia tanta dor que até falar era difícil.

E ali estava ele, entoando notas rápidas naquele instante, numa profundidade estranha, como uma dança de cisnes ao lago. As penas se mexem ao menor fluxo do vento e movimento dos músculos, em sincronia triste e coesa, irritante e perfeitamente coerente. Era como Draco tocava. As mãos dele ficaram por alguns instantes, milésimos de segundos paradas.

Enquanto a esquerda tocava lentamente, a direita trazia uma vida com seu timbre mais alto, mais vibrante, menos triste. Mas logo as duas mãos sincronizaram em uma constante melancolia, trazendo-se mais ao centro do piano, para depois esparsar-se novamente. Aquela música era uma boa definição de quem ele próprio era. Será que algum dia Draco tocaria para ele mesmo? Permitiria que sua alma fosse menos aflita, mais calma?

Era pouco o tempo que passava com ele naquela sala, não podia dizer que eram amigos muito menos que o conhecia. E era justamente o desconhecido, o vago, como a música que terminava parecendo que faltava um pedaço, que a iluminava em desvendá-lo. Observar a fúria e a tristeza, o ódio e profundidade, a aspereza e docilidade que ele escondia. E ele escondia tão bem que era quase impossível alcançá-lo. Fugaz e evasivo, no sentido lato da palavra.

Ele não sorria ao fim da música, e os olhos permaneciam fechados, os cílios tremiam como suas próprias mãos e até mesmo uma pequena parte de seu corpo. Seria arrependimento? Seria Deus que tocava os acordes de sua consciência? Ou seria apenas exaustão física? O último era o mais provável, ainda que parte de si mesma queria acreditar que existia sentimentos nele. Não sabia o porquê de desejar tanto, ele não se salvaria. O caminho, uma vez escolhido, não tem volta. E Malfoy abraçou a morte e a destruição, deixando-as penetrar em sua carne e em sua alma, horrenda e monstruosamente, como a marca que ardia em seu antebraço.

"Que música esquisita." Ela disse afinal. "Ela muda o tom constantemente, termina sem ter começado, e o início parece ser o fim."

"Músicas não precisam fazer sentido, Granger." Ele tinha um meio sorriso zombeteiro enquanto olhava pra baixo. Ele tocou-a novamente, porque viu que apesar da crítica, ela tinha gostado. E depois, abaixou o tampo, cobrindo as teclas de marfim e permitiu-se tamborilar os dedos compridos na madeira brilhante. "Elas são para sentir, não para pensar."

"Mas ela é desconexa demais, triste demais, até um tanto monótona."

"Pansy Parkinson." Ele sorriu de lado novamente, como se divertisse à custa do choque dela. Draco era extremamente franco, e nessas horas tinha medo de sua sinceridade, porque não se importava em matar.

"Mas... Ela era sua namorada! Vocês tinham um relacionamento!"

"Não Granger." Ele levantou um dedo na frente de seu nariz e balançou-o negativamente. "Eu comia Parkinson. Não tem nada de vínculo nisso."

"Você é um porco, machista, safado e impiedoso." Ela virou de lado. O rubor em suas bochechas não negava o constrangimento. "Como pode falar nesse tom de uma pessoa morta e que talvez gostasse de você?"

"Ela sabia que eu não queria nada com ela e que se continuasse comigo iria se meter em problemas." Ele disse, simplesmente. "E ela não gostava de mim, e sim do que eu fazia com ela."

"Eu não entendo como homens podem ser tão superficiais." Ela bufou e andou em direção à janela, observando que naquele dia, apesar do sol, tinha nuvens brancas e fofas passeando pelo céu. "Tratam mulheres como se fossem objetos."

"Você tem uma visão muito romântica da vida." Ele comentou depois de algum tempo, sem realmente criticá-la. "Se acha que com Potter ou Weasel é diferente, devo desapontá-la nesse instante. Primeiro vem o sexo, depois o resto. Não há homem que pense diferente, e se ele te disser que é, pode saber que é mentiroso ou hipócrita."

"Ou padre." Ela observou, tentando colocar um ponto.

"Padres comem criancinhas. Eles são piores." (N/A: Sem ofensas à religião nenhuma, apenas uma observação irônica do Draco.) "Embora as preferências deles não tenham nada a ver comigo."

"Não sabia que era tão informado do mundo trouxa." Ela fez questão de frisar, demonstrando claramente o seu desagrado pelo seu tom de voz.

"Não é porque não gosto de trouxas que deixo de conhecer algumas coisas sobre eles." Ele sorriu vitoriosamente e com escárnio ao vê-la fechar ainda mais a expressão, obviamente derrotada.

"Meu pêsames por Parkinson."

E foi ela quem saiu primeiro daquela vez.

(Quarta semana)

Se eu contar que já estava pronto há cinco meses e me deu preguiça vocês acreditam? Estou sem beta por enquanto, quando a Juju voltar ela conserta os erros. Obrigada a todos que revisaram.

A você, caro leitor, cabe o papel de julgar se essa fanfic é digna ou não de um review.