Título: A Thousand Beautiful Things (Mil Coisas Belas)
Autora: Duinn Fionn
Tradutora: mial_crazyx (mila – sublinhado- crazyx -arroba- yahoo . com)
Beta da tradução: Verena
Classificação: R
Pares: Draco Malfoy – Harry Potter

Disclaimer: Essa história é baseada em personagens e situações pertencentes a JK Rowling, vários publicadores incluindo, mas não limitado à Bloomsbury Books, Scholastic Books and Raincoast Books, e Warner Bros., Inc. Nenhum lucro está sendo feito por parte do autor dessa fanfiction.

Contato da Autora: geoviki - arroba- msn . com

Sumário: Draco Malfoy confronta mudanças de sorte, de alianças, uma horrível guerra, um feitiço incomum, com a ajuda de um professor preocupado, um elfo-doméstico e um inesperado amigo grifinório.

Capítulo Terceiro.

And if I could save you, and if I could find a solution, I would die a thousand times, to get you out of here

E se eu pudesse te salvar, se eu pudesse achar uma solução,
Eu morreria mil vezes, para te tirar de lá

Warsaw 1943 (I Never Betrayed The Revolution) - Johnny Clegg

Dean Thomas acordou bruscamente do lado errado de uma hostil, desconhecida varinha e percebeu instantaneamente que sabia demais.

No curto instante entre acordar e querer reagir, ele forçou-se a ficar imóvel. Ao mesmo tempo, seus pensamentos estavam correndo a mil, tentando encontrar qualquer possibilidade de escape. Concentrou-se na lista mental de comandos que todos os membros da Ordem tinham que memorizar. Observe, era o primeiro, mas em seu terror, sabia que não se lembraria do resto... Ai, que merda. Então se concentrou e tentou observar enquanto agarrava à esperança de que o resto da lista aparecesse em sua mente a tempo. Ele percebeu que a mão que segurava a varinha contra sua cabeça pertencia a um dos soldados mais novos do inimigo - ninguém que conhecesse.

"Davidson," o soldado gritou. "Achei um."

Ouviu o barulho de passos correndo na sua direção, e pareciam que eram de um grupo. Certamente, três figuras apareceram através da porta, varinhas em mão. Ele resistiu ao instinto de se levantar e correr, sabendo que morte instantânea seria a conseqüência desse ato idiota.

"Pegue a varinha dele, então."

Mãos o agarraram bruscamente, um par o puxando de pé, outro revistando suas roupas. Sua varinha foi descoberta rapidamente e passada a quem Dean desconfiava ser o Comensal da Morte mais velho do grupo. O líder, então. Era Davidson o nome dele? Dean ficou tenso, antecipando a quebra de sua varinha, e foi surpreso quando o líder guardou-a sem comentários. O que um Comensal da Morte faria com sua varinha? Os aliados sempre destruíam varinhas inimigas o quanto antes, para evitar a recaptura de tais.

Sua atenção em observar estava ajudando apenas um pouco a aliviar seu pânico inicial, e podia agora se lembrar do segundo comando para capturados - avise seus companheiros. Nesses poucos minutos que havia se passado, ele não tivera a chance. Agradecendo a sorte que permitiu que seu grupo tivesse se dispersado apenas algumas horas antes, pensou em quem faltava e aonde estavam. Creevey - em ronda por perto. Com alguma sorte, ele tinha escutado os gritos e indo embora. Isso deixava Diehl e Longbottom, em uma cabana abandonada a uma pequena distância. Seamus estava em alguma cidade por perto, presumidamente a salvo.

"Qual é seu nome?"

Antes que ele pudesse até pensar em responder, a pergunta foi seguida de um punho; Dean conseguiu se virar a tempo para que o soco acertasse seu ombro ao invés de sua mandíbula. Grato pelo erro de seu captor, respondeu à pergunta com o maior berro que pôde. Pronto - Diehl tinha sono leve, pelo menos ela com certeza tinha ouvido aquilo. Aviso dado, então.

Mas agora os Comensais da Morte executavam o preço que ele sabia que iria pagar pelo berro. Fechou os olhos enquanto punhos o acertavam repetidamente. Tirando sarro dele, trocando de lugar para que os quatro pudessem ter a sua vez. Ele se forçou a não se defender com suas mãos - Deus, não suas mãos - e os socos finalmente o derrubaram no chão, aonde botas velhas marcavam tatuagens em seu tórax.

Dean sabia, porém, que a não ser que seus captores fossem estranhamente burros - o que não era uma garantia - eles fariam com que ele ficasse consciente e inteiro. Isso - isso era apenas uma liberação de adrenalina que tinha se acumulado durante a captura. Entendia isso. Podia parecer feio e bruto - e esperava que curto - mas os verdadeiros horrores ainda estavam por vir.

E isso o preocupava imensamente.

Temia que Veritaserum fosse dado. Ambos os lados usavam muito a poção durante interrogatórios de prisioneiros. Devido a essa ameaça, ninguém na Ordem era permitido a carregar informações por mais tempo do que o necessário para realizar uma missão. Depois disso, feitiços de memória eram feitos para apagar detalhes preciosos. Estar nas linhas de frente - pelo menos o que era considerado linhas de frente numa batalha onde se podia aparatar e desaparatar à vontade - Dean era cuidadoso em manter um equilíbrio de conhecimento. Tinha sempre se preocupado em manter-se em contato com o líder dos feitiços de memória - no caso dele seria a Hermione Granger. Ele tinha sido tão vigilante. Até agora, quando isso importava.

Porque nesse momento, ele sabia aonde Harry Potter estava.

E a terceira coisa na lisa, depois de observar e avisar, era proteger aquela informação a qualquer custo.

Qualquer custo.

A dor física que estava sentindo pelos punhos dos Comensais da Morte estava agora igual à dor emocional que o inundou com a aceitação do que estava prestes a fazer. Sua primeira linha de defesa seria sua última. Teria que encorajar esses quatro soldados a matá-lo.

Com alguma sorte, conseguiria provocar um deles e receber um rápido Avada Kedavra.

Do contrário, ele provavelmente sofreria da maneira devagar e dolorosa, apanhar até a morte. Mais complicado, pois poderia acabar quase morto e ainda ser curado para responder às perguntas de qualquer maneira.

Bem. Pelo menos ele sabia a maneira mais rápida de irritar a maioria dos homens. Respirou profundamente, olhou Davidson nos olhos, e disse com a maior claridade que sua mandíbula quebrada conseguiu, "Não deixe seus amigos verem você ficar duro por minha causa. Eles não vão mais querer dormir perto de você."

Isso o rendeu um rim danificado, mas não por causa de Davidson. Rolando no chão por causa da dor, Dean olhou para o Comensal mais jovem que o chutou, "Mas talvez ele te conceda uma rapidinha."

Vamos, vamos... Eu sei que você quer me matar agora...

Mas isso não aconteceu.

A última coisa que ouviu, antes de ficar inconsciente, foi o comando de Davidson para os outros, seguido por um curto, "Stupefy."

Quando acordou, devagar e por si mesmo, não estava mais no esconderijo escuro. Estava imobilizado no chão duro de uma cela sem janelas. Pelo jeito das coisas, eles não se preocuparam com nenhum feitiço de cura, embora Dean soubesse que eles tinham checado por ferimentos mortais antes de deixá-lo sozinho.
Observe.

Avise.

Proteja a informação.

Alguém percebeu que ele estava acordado, porque havia um barulho detrás da porta. Dois homens, não seus captores originais, surgiram na frente dele. E - o filho da mãe - um deles era seu antigo colega, Gregory Goyle. Imaginou onde seu quase gêmeo estava, Vincent Crabbe, mas então se lembrou que ele tinha terminado seus estudos em Durmstrang antes que a guerra começasse. Cara esperto. Mais esperto que Goyle - mas então, isso não era dizer muito. Ele devia estar longe da base dos Comensais, se aqueles dois eram seus interrogadores. Dean teve outra idéia, mesmo que seu cérebro não estivesse funcionando muito claramente no momento.

"Gregory Goyle," ele murmurou. Bem, estava errado quando aos feitiços de cura - alguém tinha consertado sua mandíbula, pelo menos. Melhor para entender as confissões, imaginava.

Se ele não fosse o único homem negro que Goyle conhecia, duvidava que o Comensal o reconheceria com todos os seus ferimentos.
"Droga. Dean Thomas." Dean esperou por qualquer pista de que o reconhecimento seria relevante.

"É, Goyle. Faz um tempão, huh."

Sem resposta.

"Aonde estou?"

Isso fez Goyle falar, pelo menos.

"Eu faço as perguntas." Mas ele não estava com pressa, aparentemente, porque seu próximo comentário foi feito ao seu companheiro. "Esse idiota ia a Hogwarts comigo. Um maldito Grifinório, se você acredita nisso." Ambos riram.

O outro homem falou pela primeira vez. "Você acha que ele tentará ser bravo então?"

"Ele tentará," Goyle respondeu. "Não o levara a lugar algum. Não quando nós o dermos Veritaserum."

Ele viu a brecha que ele estava esperando. "Tarde demais, Goyle. Já foi dado. Seus amigos que me capturaram ficaram um pouco ansiosos."

Tudo dependia dessa mentira. Dean estava contando com o problema de todos os grupos - pouca comunicação. Será que seus captores deixaram um relatório? Eles acreditariam em sua história sem checar? Será que Goyle lembrava - em seu pequeno cérebro - que dar muito Veritaserum poderia deixar o usuário inútil?

O silêncio estava ficando impossível de se agüentar.

O parceiro de Goyle perguntou. "Então o que você disse a eles?"

Droga. Nem mesmo uma pergunta decente para começar o jogo. Mesmo com os efeitos da surra que ele levou, Dean ainda conseguia ficar na frente daqueles dois. Aparentemente esse Comensal era tão estúpido quanto Goyle, o que era ótimo, achava, mas o deixava desesperado para achar respostas que o levassem ao seu objetivo.

"Tudo," ele respondeu. "O que você acha? Não é como se eu tivesse escolha."

Os dois interrogadores, se eles podiam ser chamados assim, trocaram sorrisos. Goyle disse a seu parceiro, "Isso será simples, Bryce." Ele virou-se para Dean. "Quem estava lá com você?"

Fácil. "Colin Creevey. Neville Longbottom. Susan Diehl." Todos a salvo agora.

Ouviu o distinto som de pena em pergaminho, vindo de umas daquelas penas rápidas que Rita Skeeter costumava usar. Ele não se preocupou em procurá-la.

"O que você estava fazendo lá?"

"Dormindo." Deus, será que esses dois tinham interrogado alguém antes?

Até Bryce parecia irritado com a pergunta inútil. "Por que você estava na área, idiota?"

Melhor. "Nós tínhamos um registro de atividade de Comensais na área fora da cidade."

"Aqui em Wentworth?" Então eles não tinham o transportado para longe da pequena cidade onde fora capturado. Onde Seamus ainda estava, sem saber que tudo tinha ido por água abaixo.

"Sim."

"O que vocês estavam procurando?" Bryce perguntou.

"Estávamos procurando por sua tropa. Mas me acharam antes."

"Talvez nós soubéssemos aonde vocês estavam," Goyle sorriu. Dean duvidava sinceramente - senão o resto do grupo dele estaria também ali, amarrado. De repente ele foi tomado pelo medo de que eles talvez tivessem sido capturados, e estavam em outras celas.

Esses medos rapidamente desapareceram com a próxima pergunta de Bryce. "Para onde foram seus amiguinhos?"

"Não sei.," ele respondeu, sinceramente. Para longe, suspeitava. Porque o quarto item do manual de capturados era não espere por resgate.

Os dois pareciam não saber o que mais perguntar. Goyle perguntou ao seu parceiro, "O que mais devemos perguntar?"

Bryce pensou um pouco - cuidado para não se machucar, Dean pensou - e respondeu, "Eu não sei. Não importa, não é? Eles farão tudo novamente quando a dose acabar. Darão mais e farão as perguntas de novo."

Seu estômago se virou com essas palavras. Ele nunca conseguiria manter essa mentira com um time mais inteligente. A não ser que viesse com uma distração.

A qualquer custo.

Goyle parecia entediado. "Estúpido Grifinório. Não te levou longe, toda essa bravura."

Bryce olhou para ele cuidadosamente. "Potter não é um Grifinório?"

"Sim. Eles eram companheiros de quarto." A pergunta óbvia veio a eles ao mesmo tempo.

"Então você sabe onde Potter está?"

Dean quase suspirou de alívio. "Não," mentiu. Ele lutou contra uma abrupta e alucinante fatiga - concussão, provavelmente, ele raciocinou

"E quanto aos outros? Tem mais alguém aqui perto?"

Ele pausou, como se estivesse lutando para não responder, e murmurou, "Sim."

A qualquer custo.

"Quem?"

"Seamus Finnigan."

"Aonde ele está?"

A qualquer custo.

Uma agonia o abatia enquanto se ouviu deliberadamente trair a localização de seu melhor amigo.

Ele acordou com o barulho dos guardas abrindo a porta e jogando dentro um imobilizado Seamus Finnigan. Eles bruscamente o jogaram, murmurando um Finite Incantatem, mirado sem cuidado, o que também serviu para livrar Dean de suas cordas invisíveis.

"Dean. Deus, como é bom te ver. Bem, não aqui, é claro. Merda, o que eles fizeram com você? Você tá horrível."

Ele lutou para não chorar. "Oi, Seamus."

Seu amigo percebeu o estado culpado, e começou a confortá-lo, o que só piorou a situação.
"Não fale. Eu acho que posso adivinhar. Veritaserum."

Ele só podia encarar Seamus sem esperanças. Deus, seu plano parecia tão racional algumas horas atrás. Tudo se baseava em Dean escapar do Veritaserum, porque se não pudesse, seria forçado a revelar ao inimigo os planos finais de Potter e da Ordem. A única distração que ele conseguiu pensar no meio do seu pânico foi Seamus. Seu amigo não sabia de nada, não tendo ouvido os planos finais. Era seguro ele ser interrogado. Se os Comensais da Morte mordessem a isca talvez, apenas talvez, eles esqueceriam dele e interrogariam Seamus.

E então ambos iriam morrer. Mas a Ordem estaria salva.

Mas a realidade estava ali, falando com ele, brincando naquele jeito inimitável, pensando que Dean era inocente da traição que fizera. Tinha que confessar. Precisava que Seamus o odiasse pelo que ele fez, porque ele odiava a si mesmo.

Ele não tinha traído a Ordem. Ao invés disso, tinha traído seu melhor amigo. E bem no fundo, escondido no lugar onde os sentimentos importam, não podia dizer que não queria Seamus ali com ele. Ele queria Seamus, queria desesperadamente o conforto final dessa pessoa que significava tudo para ele nos últimos anos. Não queria morrer sozinho.

Engatinhou até o outro homem, ignorando a dor dos ferimentos pelo seu corpo, ignorando as lágrimas que corriam pelo seu rosto, e se jogou nos braços de Seamus. Juntos eles se seguraram apertado, medo e desespero os unindo. Finalmente, Dean se afastou para que seus lábios pudessem dizer as venenosas palavras de sua traição.

Seamus sentou em silêncio e chocado, e suas lágrimas caíram sem censura. Dean só podia assistir em miséria, aceitando qualquer condenação que Seamus queria fazer, porque ele merecia tudo isso, e mais. Suas repetições de "Desculpa" ecoaram infinitamente, mas Seamus parecia incapaz de ouvi-lo.

Eles sentaram em silêncio por horas.

O alto barulho de botas acordou ambos de seu estupor. Goyle e Bryce voltaram, gritando para se levantarem. Seamus saiu do sofá e levantou-se vagarosamente, e Dean lutou contra a dor e a vontade de desmaiar.

Outro feitiço de confinamento foi lançado. Ele foi novamente jogado contra a parede e preso lá de alguma maneira, embora suas pernas e braços estivessem livres. Seamus estava sendo segurando de uma maneira similar ao seu lado.

"Sua vez, Finnigan," Goyle disse maldosamente. Ele tinha uma garrafa com algum líquido claro em sua mão. Um pequeno passo, a abertura forçada da mandíbula de Seamus, e o Veritaserum fora dado. A pena rápida estava de volta também, tomando nota de tudo.

Dean foi ignorado.

As mesmas perguntas foram feitas a Seamus - quem, quando, por que - mas o convidado de Dean fora inútil, o outro homem não sabia de nada de importância.

"Esses dois são bem inúteis," Goyle finalmente admitiu, e Bryce concordou. "Eles não serão uma grande perda para a Ordem, de qualquer jeito. Não parece que fizeram nada de importante."

Ele podia quase sentir a morte deles vindo agora. Fez o que tinha que ser feito; a informação estava a salvo. O custo tinha sido enorme.

"Dean." Seu nome fora suspirado, o menor dos sons, mas seu coração pulou com a palavra.

Ele virou sua dolorosa cabeça para que pudesse ver Seamus, que estava olhando para ele como podia através do feitiço de confinamento. Devagar, muito devagar, o outro homem estendeu seu braço e esticou sua mão, na direção de Dean, cada vez mais perto. Em resposta, ele levantou sua própria mão para encontrá-lo. Suas mãos tocaram-se rapidamente, apertando, quase dolorosamente, mas cada momento de toque era um alívio momentâneo do pesadelo em que estavam.

"Perdoado," Seamus finalmente disse com uma voz rouca. "Você está perdoado."

Dean fechou os olhos sem acreditar, mas queria ver, ver aquela face, se banhar no olhar de perdão mais uma vez, e se essa fosse a última coisa que fosse ver nessa terra, seria o suficiente. Era o suficiente.

Seamus sorriu para ele. "Número três."

Proteja a informação. Grato, banhado em perdão, Dean relaxou. Seamus entendia.

Ele respondeu, "Número quatro."

Não espere por resgate.

Não tinha um número cinco, mas se pudesse adicionar um número agora, seria não tenha muitas esperanças. Porque naquele momento, logo depois da reconciliação deles, a cela da prisão foi aberta, e ele reconheceu os dois homens que entraram. E sabia instantaneamente, com certeza fria e letal, que tudo estava acabado. E que Seamus tinha sido sacrificado por nada.

Ali estava Draco Malfoy. Seguido por, em toda sua dignidade sombria, Severus Snape. Até mesmo Goyle e Bryce pareciam alarmados.

Malfoy andou até a pena rápida e o pergaminho e o leu rapidamente, sem fazer nenhum comentário, mas Dean percebeu que ele estava se controlando para não explodir. Sem dizer nada, jogou o papel a Snape, que também leu rapidamente.

Snape foi perto de Dean, e a atenção de todos na cela estavam nesse homem de grande presença. Mesmo assim, ninguém falou. Ele segurou o olhar de Snape, esperando por uma palavra, uma pergunta, um soco - nada. Apenas um olhar penetrante. Sem querer, todos os segredos de Dean foram lidos por Snape um por um: a mentira do Veritaserum, a localização de Harry Potter, o que ele sabia dos planos da Ordem para a batalha final. Porém Snape continuava calado durante esses ansiosos minutos.

Abruptamente, Snape virou-se e andou em direção da porta. "Draco," ele chamou. Malfoy o seguiu sem hesitar. Antes de sair, Snape comandou a Goyle e Bryce, "Esperem," e então os dois Comensais da Morte se foram.

Dean não podia começar a imaginar o que tinha acabado de acontecer, e julgando pela reação deles, nem podiam Goyle e Bryce.

"Esperem pelo que?" Goyle reclamou.

Bryce falou, "Por alguém voltar, eu acho."

Dean achava também. E não estava ansioso por isso. Esperou enquanto trocava olhares nervosos com Seamus.

Finalmente, a porta abriu novamente; dessa vez somente Malfoy entrou. Se Dean achava que o que acabara de acontecer seria o mais estranho do dia, estava a ser provado errado. Muito errado.

Malfoy tinha perdido sua expressão de calma em algum momento entre sua saída e reentrada, e Dean podia sentir as ondas de tensão sendo liberadas. Quando ele falou, a voz de Malfoy estava quase rouca com estresse. "Dean Thomas."

Para a surpresa de Dean, Malfoy andou até ele, se inclinou, pegou sua face em suas longas, pálidas mãos, e o beijou profundamente.

Ele não podia entender o comportamento de Malfoy. Em choque, seus lábios responderam automaticamente, mas a única palavra em sua mente era essa: Judas. Traindo seu amigo com um beijo.

Malfoy quebrou o silêncio. "Eu sinto muito que você esteja aqui, Dean. Apesar do que nós éramos, tudo que fizemos juntos - nada disso pode salvá-lo. Você se juntou ao lado errado."

Que merda ele estava falando?

"Apesar de eu ter te amado, Dean, e você ter dito que me amava, isso não importa mais. Você e seu amigo Grifinório vão morrer."

Ele se controlou para não olhar para Seamus por ajuda. O que quer que estivesse acontecendo ali, tinha que prestar atenção, porque nada estava fazendo muito sentido. Será que Malfoy tinha finalmente ficado completamente louco?

O som da pena rápida era o único barulho na sala.

"Eu queria que as coisas pudessem ter sido diferentes," Malfoy continuou. Ele se inclinou para mais um beijo, e Dean só podia concedê-lo. "Eu ainda te amo, sabia?"

Ele ouviu Bryce, evidentemente enojado, murmurar, "Que droga, Malfoy, vá para um quarto."

Malfoy ignorou a provocação e continuou a beijar e acariciar um chocado Dean. Para sua vergonha, o corpo de Dean estava começando a responder à bizarra atenção.

Malfoy o olhou friamente, mas sua voz estava falsamente doce, "Eu sempre vou te amar."

A desorientação tinha crescido a um nível tão grande que ele já não se sentia mais conectado com nada no mundo. Olhou rapidamente para Seamus, mas a expressão no rosto de seu amigo mostrava que ele estava igualmente abismado com os acontecimentos. Malfoy agora estava falando de maneira obsessiva, mas Dean achava que percebeu intensa raiva e algo parecido com desespero nos olhos do Sonserino. Mas foi salvo de procurar por uma resposta quando Malfoy gentilmente colocou os dedos nos lábios de Dean.

"Não diga nada. Nada que disser vai ajudá-lo nesse momento."

Será que seu cérebro confuso estava captando alguma mensagem oculta naquilo?

Com um último beijo, Malfoy se afastou vagarosamente e apanhou sua varinha. "Você não sabe como eu sinto muito por isso. Adeus."

Ele não podia assistir. Fechando seus olhos, esperou para ouvir as palavras da maldição assassina, rezando para ser o primeiro para que não precisasse testemunhar a morte de Seamus. Imaginou se conseguiria ver a luz verde através de suas pálpebras fechadas ou se doeria muito.

"Stupefy."

Ele abriu os olhos rapidamente a tempo de ver Bryce e Goyle caírem no chão.

"Finite Incantatem."

O feitiço das cordas acabou, e os dois Grifinórios foram jogados para frente. Com seus ferimentos ainda não curados, não pôde se segurar, mas Malfoy o impediu de cair no chão.

"Querido." A palavra era carinhosa, mas o tom de voz era cortante. "Eu não pude te matar. Mas não há tempo. Nós temos que sair daqui agora. Nós não podemos aparatar desse prédio, teremos que ir de pó de Flú." Malfoy estava dando instruções como se não tivesse acabado de declarar amor eterno por um de seus prisioneiros, como se não tivesse acabado de estupefar dois de seus companheiros, nada disso fazia sentido.

"Você consegue andar? Não? Finnigan, o segure então. Você está muito acordado para um mobilicorpus, e eu não quero te deixar inconsciente, amor. Que tal um leve feitiço de levitação?" Ele murmurou um feitiço que Dean nunca tinha escutado antes. Sentiu-se consideravelmente mais leve, e Seamus conseguiu levantá-lo facilmente.

"Certo, agora vem a parte complicada. Nós temos que chegar até um quarto no final do corredor, docinho. Faça exatamente como eu mandar e não estrague tudo, e a gente talvez saia dessa vivos. Se não conseguirmos, bem... Eu acho que já nos beijamos adeus." Ele riu sem humor, e seu típico tom cínico estava de volta. "Prontos?"

My back to the wall, a victim of laughing chance.

Minhas costas estão para a parede, uma vítima de chance cômica.
Deacon Blues - Steely Dan

Eles acabaram saindo de uma lareira em um quarto numa casa aparentemente vazia. Dean não podia imaginar a localização deles além disso.

Seamus finalmente encontrou sua voz. "Draco Malfoy. Um espião para a Ordem?"

E ali, finalmente, estava a familiar expressão de desgosto que ele se lembrava da escola, e o mundo começou a se endireitar finalmente. "Dez malditos pontos para Grifinória. Brilhante, Finnigan. Você fica acordado durante as noites para pensar nessas conclusões incríveis, então?"

Atrás do exterior gélido, Dean percebeu que ele ainda estava bravo - furioso, na verdade.

Seamus, como previsto, respondeu ao ridículo. "Cala a boca Malfoy, apenas responda a pergunta! O que está acontecendo?"

Malfoy andou em círculos em volta de Seamus, e Dean achou que eles fossem se atacar. "O que está acontecendo é que eu acabei de salvar o maldito traseiro de vocês dos Comensais da Morte. Eu achei que isso ficou óbvio, até mesmo para você."

Ele os impediu rapidamente, antes que a situação ficasse fora de controle. "Desculpa, Malfoy, nos perdoe. Nós tivemos um dia ruim." Ele estendeu suas mãos em gesto de paz. "Mas obrigado."

Malfoy não respondeu, apesar de sua raiva ainda estar aparente.

"Então a grande pergunta que eu tenho, é por quê? Por que você nos salvou?"

Malfoy transferiu sua raiva a Dean como uma tocha. "Porque você sabia porra demais. Por isso." Ele agora estava respirando profundamente com emoção. "Porque por alguma estúpida razão você foi capturado enquanto sabia demais, Thomas, e você sabe disso." Ele estava gritando. "Você também sabe, não é?"

Ele só podia concordar. "Sim."

Malfoy estava furioso e não seria parado. "E você sabia, Finnigan? Que ele teve que te vender por isso? Estava disposto a ter você assassinado também, para cobrir a própria estupidez. Que amigo."

Dean não podia olhar na direção de Seamus então, mesmo sabendo que seu amigo sabia de tudo isso já o tinha perdoado. Não podia passar por aquilo de novo - mas iria.

Porém, Seamus falou antes. "Eu sei, Malfoy. Eu sei. Ele já me contou, tá? Ele precisava saber de tudo aquilo, e foi pego antes que pudessem fazê-lo esquecer. Está acabado. De qualquer jeito, isso não tem nada a ver com você, não é?"

"Eu queria que não tivesse nada a ver comigo. Droga." Ele ficou em silêncio.

Algo ainda estava perturbando Dean, no entanto. "Como você sabe o que eu sei, Malfoy?"

Algo nessa pergunta fez com que Draco sentasse pesadamente numa poltrona. Ele inclinou a cabeça para trás num gesto de exaustão, e passou uma mão por seu cabelo. "Snape. Snape pode usar Legimência. Ele leu seus pensamentos. Quando percebeu o que você sabia, veio com um plano para te tirar de lá. Você não podia ser questionado sob Veritaserum. Muitas coisas estavam em jogo."

A qualquer custo, então, ele pensou.

Draco não tinha terminado. "Mas o que nós não entendemos foi como você manteve a informação segredo da primeira vez que foi questionado com Veritaserum."

Dean sorriu pela primeira vez no que pareciam anos. "Eles nunca me deram. Eu disse a Bryce que os outros já tinham me dado, e ele acreditou."

Isso surpreendeu ambos Malfoy e Seamus. "Muito esperto," Seamus disse, e Malfoy adicionou, "Bryce era um idiota sem cérebro. Uma coisa boa veio disso - eu não vou mais precisar agüentar a estupidez dele." Dean percebeu que Malfoy excluiu Goyle da censura - provavelmente por lealdade a um amigo antigo. Podia entender esse tipo de lealdade, mesmo que parecesse não praticá-la.

"Por que não?" Seamus perguntou.

Isso enfureceu Malfoy novamente. "Por que não? O que você acha, imbecil?" Ele encarou Seamus como se quisesse amaldiçoá-lo com um Crucio ali mesmo. "Você acha que eu posso reaparecer na Terra-dos-Comensais depois do que eu fiz? Ajudando dois prisioneiros a escaparem? Como se eu pudesse voltar lá, dizendo desculpe-não-sei-o-que-deu-em-mim?" Ele virou o rosto novamente em nojo. "E eu achei que Bryce era estúpido."

Isso explicava o tamanho da raiva de Malfoy. Ele tinha se desgraçado nos olhos dos Comensais da Morte - permanentemente - para libertá-los. As coisas começaram a fazer mais sentido.

Mais uma pergunta, porém. "E o beijo e, um..."

"Ah. Se excitou com aquilo, não foi?" Malfoy forçou um sorriso. "Desculpe desapontá-lo, Thomas. Tudo atuação." Ele riu sem humor. "Finnigan parece aliviado, pelo menos."

"Mas por que -"

"Disfarce para Snape, é claro. Não há motivos para sacrificar ambos. Obviamente seu protegido Malfoy tem uma paixão secreta com um dos prisioneiros e o ajudou a escapar. Tudo testemunhado por aquela pena-rápida e pelos dois guardas, é claro. Snape não será considerado responsável." Ele encarou Seamus com olhos cintilantes. "Você teve cinqüenta por cento de chances de aproveitar prazeres carnais, Finnigan. Mas eu imaginei que Thomas não iria gritar como um louco. Eu não tinha certeza quanto a você."

Seamus, em um tom muito mais respeitoso do que o anterior, perguntou com uma voz baixa, "Por quanto tempo você tem sido um espião, então?"

Malfoy suspirou. "Desde o quinto ano. Então, três anos. Tudo desperdiçado agora, é claro." Ele levantou uma sobrancelha a Seamus, e então a Dean. "Surpresos? Não fiquem. Eu aprendi a mentir e enganar do melhor."

"Do Snape."

"Do Snape," Malfoy concordou. "Apesar de ser meu pai quem começou as lições. Você poderia dizer que eu nasci pronto, na verdade."

De repente, exaustão ameaçou engolfá-lo, e ele esticou as costas, sibilando. "E agora?" Dean suspirou.

"Agora eu mando vocês embora. Sua sorte."

"Alguma chance de você lançar alguns feitiços de cura antes?" ele conseguiu perguntar. "Nossas varinhas sumiram."

"Ah, quase esqueci. Eu estive um pouco ocupado, me perdoem," Malfoy disse, retirando duas varinhas sumidas e as jogando com um elegante movimento do pulso. "Legal da parte dos patrulheiros noturnos de não terem as destruído, vocês não acham?"

"Uma surpresa," ele concordou. "Uma entre muitas, na verdade."

Malfoy, mais calmo do que antes, passou alguns instantes curando as piores feridas de Dean. "Isso deve ajudá-lo a chegar aonde está indo."

"E aonde estou estamos indo?" Seamus perguntou.

Malfoy o olhou sarcasticamente. "Aonde gostaria de ir? Algum adorável lugar para as férias? Paris, talvez? Taiti?" Eles estavam se levantando agora. "Ou apenas de volta à rotina diária?"

Dean tomou uma decisão. "Largo Grimmauld.?"

"É claro. Sempre popular com nossos viajantes nessa época do ano."

"Você virá conosco?"

"Acho que não. Apesar de não saber para aonde irei. Para dizer a verdade, eu não acordei essa manhã esperando ser descoberto antes da hora do almoço. Parece que não viverei mais isolado. Nesse momento, Taiti está parecendo cada vez melhor."

Dean tomou uma decisão rápida e estendeu sua mão. Malfoy a aceitou com surpresa aparente. "Obrigado, Malfoy. Por tudo. Sinto muito pelo jeito como as coisas terminaram para você. Nós ficamos te devendo."

Malfoy concordou com um gesto da cabeça. "Pena que vocês só se lembrarão do favor por, ah mais ou menos 10 segundos." Dean levantou a cabeça bruscamente com as palavras do outro. "Vamos, Thomas, você não acha que estou preparado para deixá-los manter essa memória? Depois de tudo?"

Ele balançou a cabeça em resignação. "Não."

Malfoy tinha uma expressão de desagrado. "Certo, então." Levantou sua varinha apontando-a a Seamus. "Obliviate." Jogou um pouco de Pó de Flú, então "Largo Grimmauld, número 12." Seamus desapareceu. Os olhos de Dean brilhavam com o reflexo das chamas e deu um passo à frente. A última coisa que presenciou foram as palavras do feitiço de memória e a tristeza nos olhos cinza e pálidos.

"Meu Deus. De onde vocês vieram?" A recepção foi surpresa e direta. Dean entrou com menos graça do que o normal na sala de visitas do que reconhecia como Largo Grimmauld. Virou-se automaticamente na direção da voz, que era a de Remus Lupin. Seamus aparentemente tinha vindo de Flú antes dele, e seus amigos pareciam tão confusos quanto ele se sentia.

"Não tenho certeza," ele respondeu. "Eu me lembro -" A última coisa de que se lembrava era ter traído a localização de Seamus para os Comensais da Morte, mas não estava preparado para dizer isso. O que tinha acontecido? Como escapou? "Eu fui capturado. Não sei como fugi."

Com essas palavras, Lupin levantou-se abruptamente.

Seamus complementou, "Eu estava em Wentworth, dormindo. Não sei como vim parar aqui."

Dean estava são o suficiente para olhar para suas mãos naquele momento. Um simples truque da Ordem - se forem lançar o Obliviate em alguém, use o alfabeto criado por trouxas surdos para deixar uma pista.

Cada uma de suas mãos formou uma letra. Duas letras. D. M.

Seamus olhou para baixo. Suas mãos formavam as mesmas letras. D. M.

Acordei de um sonho estranho um gosto de vidro e corte Um sabor de chocolate no corpo e na cidade Um sabor de vida e morte ...Com sabor de vidro e corte As horas não se contavam, e o que era negro anoiteceu Enquanto acontecia, Eu estava em São Vicente

San Vicente - Milton Nascimento (Portuguese lyrics)

Havia rumores de que a batalha final da Ordem levou meses para ser preparada. As primeiras seis semanas foram gastas debatendo se o plano poderia ser um sucesso, mas Dean não ouviu detalhes até muito depois.

O elemento chave, o único detalhe que não podia ser ignorado, era que a verdadeira batalha deveria ser entre Harry Potter e Voldemort. As razões para isso eram mantidas segredo; Dean não era curioso sobre isso, e nem queria ser.

Como qualquer bom plano de batalha, esse dependia de muitos espiões nos círculos do inimigo. Snape era um - ele não podia acreditar que seu antigo professor de Poções ainda estava entre os Comensais da Morte após quase dois anos. Ninguém na Ordem o havia visto por nove meses; foram necessárias três longas semanas e sete conexões para levar o plano até ele. Ouviu rumores sobre outro espião escondido - um para observar Snape, ele achava - mas esse nome também era fortemente guardado. A Guerra tinha se arrastado por muito tempo e a insatisfação era presente em um ou outro entre as tropas. Traidores poderiam existir no meio deles também. Então as preparações foram feitas sob o maior sigilo e com muitas distrações. Uma semana, ele e sua tropa treinaram Quadribol - o qual nunca fora uma das suas coisas preferidas. A semana seguinte foi gasta preparando Poções, preparadas e então consumidas, para o desconforto de seu estômago. Eles treinaram para conseguir manter uma poção ativa por horas, mudanças nos seus ciclos de sono, rondas noturnas, brigas sem varinhas, micro-Aparição - tudo ou nada que pudesse vir a acontecer.

Após dois anos com os Comensais da Morte, Severus Snape não tinha perdido nada daquela elegante, mas gelada atitude que tinha mostrado como professor em Hogwarts, entrando na sala e fazendo uma reverência à figura sentada lá.

"Meu Lorde," ele disse, com o máximo de respeito que pôde. "Harry Potter foi localizado."

Nada que fosse anunciar, ele sabia, excitava tanto o interesse do comandante deles como aquele nome. Tinha sido basicamente o maior objetivo deles no último mês, fazendo com que os Comensais da Morte ignorassem alvos mais estrategicamente importantes na esperança de encontrar o jovem bruxo sozinho e desarmado. Snape não era o único que sabia que essa era uma séria fraqueza, outros Comensais da Morte importantes duvidavam da sabedoria de seu mestre em se preocupar com uma tarefa tão pessoal. Mas Snape conhecia a profecia - Potter era a chave para acabar com a guerra, para o bem ou para o mal.

Ele tinha a atenção completa do Lorde das Trevas.

"Quais as novidades?" foi a resposta do - homem ou criatura, Snape nunca sabia com certeza. Até mesmo Lucius fora distraído o suficiente de outros assuntos para virar-se e ouvir, mesmo que não pudesse apagar o ódio em seu rosto. Não havia nenhuma simpatia entre eles desde que Snape voltara a trabalhar para o Lorde das Trevas, mais recentemente, ele havia manipulado cuidadosamente para que a culpa da traição de Draco caísse bem mais nos ombros de Lucius do que nos dele. Lucius o odiava muito por isso. Não importa, Snape pensou. Eu também não confio nele, e ele é sábio de não confiar em mim. Espero que nunca saiba o porquê.

Ele conjurou todas suas habilidades de atuação para fazer esse pronunciamento, por ser tão importante para a batalha final. Uma última chance, uma janela de oportunidade. Se esse plano falhasse, sabia que seria morto.

"Potter foi locomovido a pé fora de uma pequena cidade chamada St. Vincent. Dumbledore teve de voltar ao Ministério, e Potter está sendo fracamente guardado - uma patrulha no máximo. Nosso time de vigilância o achou essa manhã e o tem observado pelas últimas três horas. Eles comunicaram que Potter parece estar se preparando para passar pelo menos uma noite lá." Snape retirou um pergaminho e o passou, certo de que sua mão não tremesse e traísse seu nervosismo.

Voldemort leu o comunicado sem emoções, então o entregou sem falar nada a Lucius. Snape assistiu em silêncio enquanto Malfoy lia o pergaminho com sua usual expressão de desagrado. Ele foi cuidadoso para não fazer mais nenhum comentário - sua tarefa aqui era apenas para entregar a informação. Qualquer outra tentativa de encorajar seria muito indesejada - seria suspeito. Outros planejariam o ataque sem sua ajuda. Tudo que podia fazer era esperar.

Mas a espera era interminável.

"Então, nós o temos agora," Voldemort finalmente anunciou, e Snape cuidou para não mostrar seu alívio. "Prepare o ataque, como planejamos. Nossos homens praticaram para essa oportunidade. É hora de libertá-los."

Os homens ao redor de Voldemort rapidamente se mexeram, soltando comandos com a certeza de que seriam obedecidos sem perguntas. A maioria deles com tarefas que estavam mais do que felizes em fazer - ou com muito medo de falhar para fazer. Snape ficou quieto ao lado de Voldemort.

"Severus. Nós esperamos muito tempo por esse momento. Logo, Harry Potter não será nada mais do que uma memória ruim. Com o garoto ícone derrotado, o resto dos amantes de trouxas de Dumbledore irá cair como uma margem do rio sob inundação. Arrastados embora. E nós seremos finalmente vitoriosos."

"Finalmente vitoriosos," Snape ecoou, e acreditou em todas as palavras.

"Carmichael, David?"

O homem acenou a cabeça em resposta, e sua mão alcançou automaticamente para receber o pacote que o general estava oferecendo. Ordens dadas anteriormente deixaram claro que eles deveriam segurar mas não abrir o pequeno pacote, e nem pensava desobedecer, embora ele fosse uma minoria. Semanas de preparação para algo deixou todos nervosos, mas apenas ele, pelo jeito, sentira a importância do que estava por vir naquela manhã.

"Franklin disse que o treino será de combate sem armas," o homem ao lado dele murmurou, mas não confiava em nenhum rumor criado num exército em guerra. Até aquele dia, ninguém tinha conseguido adivinhar os tipos de exercícios que seriam feitos; hoje não seria diferente. Nem se preocupou em responder.

Nas últimas três semanas tinha estado na companhia daqueles soldados, conseguiu manter-se vivo mantendo sua cabeça baixa e sua boca calada. Era uma rotina com a qual tinha se acostumado no último ano da guerra enquanto pulava de tropa para tropa, se misturando, mas nunca ficando muito tempo em um só lugar. É verdade que não tinha nenhum amigo nessas tropas, mas não tinha nenhum inimigo também, e para ele isso tinha mais crédito.

Naquela manhã eles acordaram cedo, tomaram um café-da-manhã decente para as condições, escutado a alguns comandos, e tinham se acomodado na rotina de se-apresse-e-espere que era tão comum nos tempos de guerra. Ele conseguiu achar e relaxar contra uma árvore, a qual oferecia um espaço seco entre os lugares úmidos naquela manhã molhada, contente em esperar e apreciar o silêncio.

Lucy Gallestino, a líder da tropa, marchou até eles - se é que se podia dizer isso, a mulher era muito baixa - com instruções de última hora para distribuir.

"Todos têm seus pacotes, certo?" ela perguntou bruscamente.

"O que tem nele?" veio a pergunta de alguém no fundo, mas ela nem se preocupou em procurar a voz.

"Certo, agora eu preciso que vocês mostrem seus abdomens e pernas esquerdas." Ela comandou, num tom de voz que proibia mais perguntas estúpidas, como se a ordem fizesse perfeito sentido. E para um exército em guerra, provavelmente fazia.

Brinkley, normalmente o comandante da segurança, tinha um pergaminho e algo mais em sua mão que era muito grande para ser uma varinha.

Lucy estava falando. "Todos têm seu número. Como esse." Brinkley checou algo no pergaminho, e então pegou o objeto na sua mão e marcou um número no abdômen e na perna, criando um contraste forte contra a pele. Ela estava marcada com o número 87.

Os comentários, insinuações idiotas, e nervosismo de sempre acompanharam Brinkley enquanto marcava todos no batalhão. Ele propositalmente não olhou para Brinkley enquanto era marcado com um mal-feito 114 em ambos os lugares, mas teve um tremor com a implicância do ato.

"Certo, podem cobrir, então. Eu vi o suficiente da pele de vocês para uma manhã." Lucy declarou. "E venham até aqui, e eu contarei o que acontecerá hoje. Em pouco tempo, nós provavelmente estaremos em uma batalha crucial para a Guerra, então prestem atenção."

Os comentários cessaram tão rápido como se ela tivesse lançado um feitiço silenciador. Mais longe, outros grupos estavam igualmente atentos.

"Uma armadilha foi feita para atrair a elite de Comensais da Morte - até o topo." Apesar dos exércitos da Ordem serem encorajados a falar o nome de Voldemort, alguns ainda achavam impossível após anos o evitando. "A isca foi mordida pelo inimigo. Nós acreditamos que eles estejam se preparando para entrar na armadilha, e nós estaremos prontos."

O que se seguiram foram as explicações detalhadas que seguiam qualquer plano de batalha - como esses detalhes se aplicavam a eles em particular. Como entrariam, e mais importante, como sairiam. Aonde todos deveriam estar, e o que fazer caso não estivessem. Como as ordens seriam passadas à frente e como parar os rumores. E o que fazer se tudo fosse para o inferno rapidamente.

"Pela maior parte da batalha, nós esperamos mantê-los no céu em suas vassouras, porque os Comensais da Morte mostraram sua verdadeira fraqueza no ar. É como se eles não conseguissem pensar em três dimensões como nós fazemos. Parece que o lado da Luz ficou com todos os jogadores de Quadribol." Ela brincou, e algumas risadas gratas retornaram. "Certo, agora vem a surpresa que estavam esperando. Vão em frente e abram seus pacotes."

Ao seu redor, mãos estavam rasgando os pacotes. Ele tirou cada item com cuidado, identificando o que podia enquanto isso. Algumas roupas e sapatos. Um grande frasco, pesado e cheio com uma escura, opaca poção que ele reconheceu imediatamente - Polissuco. E no fundo, um item protegido com cuidado, o qual ele abriu e segurou em suas mãos, reconhecendo imediatamente: um par de óculos que eram quase tão reconhecíveis quanto seu famoso dono.

A ironia quase o fez rir alto. Ele iria tomar Polissuco para se tornar Harry Potter. Todos iriam - um exército de Potters.

"Escutem, colegas. Vocês tiveram treino suficiente com Polissuco, então vocês deveriam conseguir engoli-la, pelo menos. Eu acho que vocês já adivinharam em quem se transformarão. E os óculos não são só uns enfeites - vocês precisarão deles para enxergar corretamente, então cuidem deles. Se perderem os seus, me procurem ou outro líder do batalhão e peçam por outro par."

Ao seu redor, os óculos eram a maior fascinação. Ninguém resistiu colocá-los. "Eu não posso ver," veio uma voz petulante.

"Não seja um imbecil," Lucy respondeu. "Você não precisará colocá-los até virar Potter." Ela murmurou baixo, "Idiota."

O homem se desculpou sem jeito.

Ela continuou, sem se abalar. "Como sabem, Potter é um excelente voador, então vocês perceberão essa vantagem no ar. E por favor, não esqueçam de retomar a dose a cada hora." Ela segurou o frasco para enfatizar. "Lembrem um ao outro."

Uma mão hesitante se ergueu detrás da mulher ao lado dele. "Por que nós temos que virar Harry Potter, no entanto? Não que eu ligue, é claro. Você pode nos dizer isso?"

"Sim, eu posso. Por razões desconhecidas, Potter se tornou o principal alvo dos Comensais da Morte. Eles o têm seguido por meses, e acham que o encurralaram agora. Estamos aqui para confundi-los e ao mesmo tempo quebrar o exército de Comensais."

Então Potter era a isca da armadilha. Ou será que não? Eles arriscariam o verdadeiro Menino-Que-Sobreviveu? Ou o mais provável, era Dumbledore esperando lá, transformado em Potter? Como o bruxo mais poderoso do lado deles, ele seria uma escolha mais óbvia para surpreender os Comensais da Morte. Se, como Lucy disse, essa batalha era crucial, isso só podia significar que eles esperavam que o Lorde das Trevas aparecesse. O lado da Luz traria os mais fortes, não um mascote de 19 anos com muita sorte.

"Nós teremos aproximadamente vinte minutos para nos acostumarmos com o corpo de Potter. Vocês devem colocar as roupas antes de fazer a mudança, a não ser que queiram arruinar as suas." O grupo respeitosamente virou as costas um para o outro enquanto se trocavam, evitando serem pegos enquanto olhavam alguém. "Todos prontos? Vamos lá."

Ele conseguiu engolir a poção sem a careta que seus colegas fizeram. Estoicamente, sofreu a tontura e a dolorosa transfiguração em um corpo que não era o seu. Não importa quantas vezes praticara, nunca se acostumaria ao horrível choque de se encontrar no corpo de outra pessoa, mas agora estava feliz pelo fato que ninguém tinha um espelho. Ele percebeu sua visão abafada e colocou os óculos. Pronto - melhor.

"Quinze minutos. Chequem suas varinhas. Peguem suas vassouras, então voltem aqui. Nós usaremos uma Chave de Portal em grupos."

"Ei, quem é você?" ele ouviu uma voz de um passado distante, e olhou rapidamente para cima em alarme. A visão de uma dezena de Harry Potters à sua volta era irritante e surreal.

"Eu sou Carmichael," ele respondeu na mesma voz familiar. "Quem é você?"

"Sou Bevell." Foi a resposta. "Isso é bizarro, não é?"

"Pra caramba."

"Isso explica os números," Bevell disse. "Para podermos dizer quem é quem. Mas sério, parece bobo. Nós podemos somente perguntar um ao outro, sabe?"

Bevell era muito devagar. "Não se estiver morto," respondeu irritado.

Bevell ficou visivelmente pálido, mas não teve o bom senso de calar a boca. "Ah, é." Ele mudou de tópico. "Isso deve ser muito estranho para as mulheres. Você sabe, ganhando novo equipamento. Eu mal posso agüentar. Quero dizer, se eu for mijar, lá estou com minhas mãos no pênis de outro cara. Faz eu me sentir como um maldito bicha."

Ele não tinha o menor desejo de discutir com um Harry Potter sobre nada, muito menos os tópicos óbvios que sempre eram mencionados por alguém - geralmente Bevell - sobre os aspectos sexuais de se transformar em outra pessoa. Ele não iria checar seu novo equipamento a não ser que necessário. Virando-se, pegou seus tênis e calçou-os nos seus agora maiores pés.

O corpo de Potter não era muito diferente do seu - um pouco menos gracioso, mas talvez esse fosse apenas uma desconexão inicial causada pela transformação. Ele praticou alcançar, ajoelhar, virar - nada muito estranho até agora.

E voar nesse corpo, na sua Firebolt, foi puro prazer.

Se Dean não estivesse exatamente do lado de Seamus quando a poção teve efeito, nunca o teria reconhecido.

"Maria e todos os santos, Dean. Olhe para você."

"Olhe para você, Seamus."

"Parece que eu fui dormir e acordei numa convenção do Harry Potter. É a coisa mais esquisita que eu já vi." Ele olhou ao seu redor com uma expressão pensativa em seu rosto emprestado.

Dean alongou seus braços e sacudiu suas pernas após a transformação dolorosa. "Então é assim que ele se sente."

"Droga. Eu nunca fui um 'quer-ser' Potter em toda minha vida. Isso não mudará isso, entende?" Seamus riu, e não era a risada de Seamus, mas sim a de Harry. "Agora para alguém como Draco Malfoy, que sempre quis ser Harry, seria como um sonho erótico se tornando realidade."

Ele pensou em algo. "Escute, Seamus, como vamos nos reconhecer? No meio da batalha, sabe?"

Seamus pareceu preocupado. "Bem, eu não vou te mostrar meu maldito número a cada minuto, seu pervertido. Vamos inventar um código."

"Brincando de espiões de novo? Tudo bem. O que devemos usar?"

"Que tal os bairros em que crescemos? Isso é algo que os Comensais não vão entender."

"Certo. Então eu sou Barking e você é Finglas."

"Beleza."

Eles passaram os próximos vinte minutos se acostumando com o corpo de Harry, até que Dean começou a se sentir mais confortável com suas habilidades. O mais estranho foi a diferença de altura - ele era geralmente o mais alto em qualquer grupo, até mesmo ganhando de Ron Weasley. Ele se prometeu que nunca viajaria até a América, aonde com certeza seria bombardeado com referencias de basquete - já tinha escutado o suficiente sobre isso até mesmo em Londres. Sempre achou Harry baixo, mas com todos ao seu redor da mesma altura - inferno, o mesmo tudo - seu corpo referencial havia sumido.

Era muito estranho.

O líder do esquadrão os alcançou e segurou uma Chave de Portal - um cachecol Corvinal parecendo muito usado, longo o suficiente para que todos pudessem tocá-lo.

"Vejo você do outro lado, Dean," ele ouviu, antes da sensação de puxo o envolver.

Bayeza abafana bancane wema, Baphethe iqwasha, baphethe bazooka Bathi "Sangena savuma thina, Lapha abazange bengena abazali bethu, Nabadala..."

Dois jovens garotos estão vindo. Eles carregam armas feitas em casa e uma bazooka.
Eles dizem "Nós concordamos em entrar num lugar que nunca foi entrado antes por nossos pais ou por nossos ancestrais, e eles choram por nós..."

One Man, One Vote - Johnny Clegg (Zulu lyrics)

Dean já havia lido muito sobre cenas de batalhas em livros, e estava mimado. Ao contar uma história de guerra, o autor sempre faz com que os planos básicos e estratégias, os movimentos importantes, a ação dos líderes ou outros jogadores importantes, a troca de posições feitas e refeitas, e a gloriosa e triunfante conclusão eram todos explicados de maneira lógica.

Estar na batalha de verdade era um caos.

Se eu sobreviver isso, terei que ler o livro, pensou em frustração. Sentia como se estivesse passando por imagens e entendendo pouco delas. Tudo era muito rápido e muito desesperado para dar tempo de entender o significado. Havia comandos, rápidos avanços e recuos, visões de inimigos atacando ou caindo, matando ou sendo mortos. Às vezes, ele ficava sozinho por longos minutos, apenas para ser rodado por violenta atividade, e então passando.

Ele parou por tempo o suficiente para tomar sua dose de Polissuco.

Perdeu Seamus de vista depois dos primeiros trinta minutos. Ele tinha repetido Barking para tantos Harry Potters e recebido o mesmo confuso olhar em retorno que desistira. Nunca devia ter usado os bairros como códigos.

Não se deixou pensar na possibilidade de Seamus não retornar dessa confusão de barulho e calor. Ele mal tinha tempo para pensar.

A fatiga estava aumentando quando um, e depois mais Harry Potters passaram por ele com as novidades. "Você ouviu? Potter matou Voldemort. Os Comensais estão recuando."

Não todos os Comensais, infelizmente. Dean e seu grupo foram cuidadosos em deixar uma pequena saída para o grupo de Comensais perto deles - ninguém luta tão desesperadamente quanto quem acha que está cercado - mas os imbecis não viram. Um de seus oponentes praticamente o jogou em uma árvore. Um dos outros Potters percebeu seu problema, mas foi tarde demais. Dean escorregou de sua vassoura, sentiu seu joelho torcer num ângulo em que seus joelhos não deveriam estar, e então caiu. A última coisa que se lembrava era de um feitiço Stupefy ser lançado contra ele.

Um dos problemas dos efeitos da Poção Polissuco era que ela só se cancelava quando o usuário estivesse consciente. Senão, a aparência transformada continuaria por aproximadamente um dia, dependendo de quando a poção tinha sido tomada. O que significava que Hermione e os médicos estavam ajudando vítima seguida de vítima que se parecia como Harry Potter. Era um pesadelo psicológico, não saber quem estava machucado ou quem estava morto - todos pareciam com o Harry.

Quando Dean acordou, no entanto, quase todos, incluindo ele, estavam de volta em suas formas originais.

De seu ponto de vantagem, em uma cama perto da porta, assistiu aos médicos curarem seus pacientes, a tensão ao redor deles tão palpável que podia ser cortada com uma faca. Um por um, corpo por corpo, as mãos de Hermione alcançavam, levantavam uma camiseta para checar o número e congelava ali até que o nome fosse anunciado - seria um estranho ou um amigo? Dumbledore? Ou até mesmo o Harry verdadeiro?

"Número 114," Hermione disse ao jovem segurando uma lista.

"David Carmichael."

Todos relaxaram um pouco, mas então Dean sentiu-se um pouco culpado pelas reações. Carmichael era alguém com quem ele tinha lutado lado-a-lado pelas últimas três semanas. Era um jovem misterioso - tinha sotaque de alguém que nascera em Somerset - com cabelo loiro escuro e olhos escuros e cheios de ódio. Ele não dizia muito, não socializava, nunca mencionava nenhuma família, e era considerado um solitário. Mas tinha um ótimo olho para observação, nunca fugia de uma luta, e odiava Voldemort mais do que qualquer um que ele conhecia. Quase tanto quanto Harry.

Coitado.

"Morto?"

Hermione olhou para ele, e sorriu em reconhecimento. "Dean. Eu não te vi aí. Não, ele só está inconsciente. Conhecido seu?"

"Mais ou menos. Ele está em nosso grupo. Meio isolado. Que bom que ficará bem."

"E você - vai ficar bem?"

Ele retornou o sorriso. "Sim. Caí da minha vassoura quase no fim, e machuquei meu joelho. Provavelmente a razão por que não estou nos Chudley Cannons." Uma piada fraca, mas ela a aceitou.

"Mas aquele não era realmente você - você pode culpar o Harry, sabe." Ela brincou.

"Certo. Um pouco estranho, isso. Leva um tempo para se acostumar, ser tão pequeno. Sem mencionar ter que manter aqueles óculos o tempo todo. Inferno, agora entendo porque ele vivia batendo nas coisas." Ele ficou sério. "Hermione - alguém que eu conheça aqui?"

A boca dela se apertou com a pergunta. "Algumas, Dean. Acho que deveríamos estar agradecidos por termos tão poucas perdas, mas sim. Algumas."

As ordens dela devem ter sido para manter sigilo; ele teria que esperar para ver quem estava ali, então, mas não pode evitar de perguntar, "Seamus?"

Ela relaxou um pouco. "Não. Eu o vi enfiando o nariz aqui há pouco tempo, procurando por você, eu acho."

O jovem com ela estava olhando para eles impacientemente, e Hermione voltou ao seu dever com um aceno. "Vejo você depois, se puder."

Ele relaxou no travesseiro, tentando absorver detalhes no meio da confusão em que estava, como o artista que era. Mesmo que nunca fosse desenhar essa cena.

O Harry Potter que era Carmichael estava se mexendo ao lado dele, mudando gradualmente no seu corpo normal. Com crescente curiosidade, ele se concentrou no outro homem, ficando imerso nessa etapa da poção. Pele começou a borbulhar e mudar, parecendo como se insetos repulsivos estivessem se mexendo embaixo dela. Sentia-se um pouco enojado mas não podia desviar o olhar. O cabelo escuro começou a clarear e crescer, as feições estavam se acalmando e se tornando mais reconhecíveis. Mas algo estava errado. O queixo, o nariz, as bochechas - nenhum desses eram os que se lembrava daquelas noites de patrulha com Carmichael. As feições eram muito pronunciadas, muito angulares, o cabelo não era da cor de mel que devia ser. Ele estava quase chamando Hermione, para dizer que havia um engano, que ela devia ter visto o número errado. Mas essa urgência desapareceu.

"Não acredito!" O homem ao lado dele não era mais Harry Potter, mas ele não era David Carmichael também. Olhos se abriram por causa da exclamação e se fixaram nele. "Meu Deus. Draco Malfoy."

Por um estranho instante, a face que acabara de reconhecer mudou, ficando mais como a de Carmichael, dando a impressão que Dean estava olhando para duas pessoas ao mesmo tempo. Então acabou, e ele estava olhando novamente para o rosto de seu antigo colega."

"Estou muito fraco," Malfoy murmurou. "Não consigo mantê-lo."

Dean percebeu o que ele estava dizendo. "Algum feitiço de glamour então?"

"É. O que aconteceu comigo lá fora? Me sinto horrível."

"Não sei."

"E a batalha? O que -"

"Voldemort está morto. Acabou."

Os olhos de Malfoy se fecharam, de ódio ou alívio, Dean não iria assumir. Então ele os reabriu e o olhou pensativamente.

"Então. Você não está gritando, Thomas. Por quê?"

"Não. Estou chocado, apenas."

"Não é seu dever reportar um Comensal da Morte espião?"

Ele demorou para responder, Malfoy o observando como uma águia o tempo todo. "Se você fosse um Comensal da Morte, eu o reportaria, sim. Mas eu não tenho certeza de que você o é. Eu não sei o que está fazendo aqui, mas eu - bem. Outra pessoa estaria gritando, eu acho." Ele estava ficando mais confiante. "Mas eu sei de algo que eles não sabem."

Malfoy não disse nada, embora seu olhar continuasse intenso.

"Eu não sei como, e com certeza não sei porque, mas de alguma maneira você salvou eu e o Seamus na noite em que fomos capturados pelos Comensais. Nós não lembramos do que aconteceu. Mas foi você, eu tenho certeza."

"Você não se lembra, mas acha que fui eu quem os salvei? Que maldito Grifinório que você é."

Dean reconheceu o sarcasmo como uma forma de defesa. "É, eu sou. Um Grifinório que sabe quem meus amigos são. Mas parece que você não irá me contar o que aconteceu, não é?" Ele encarou o outro homem com força, mas não recebeu resposta. "Você tem suas razões, eu acho. Talvez um dia isso mude. Mas eu sei o que eu sei."

Malfoy soltou um grunhido de irritação. "O que você sabe - bem, eu não colocaria meu dinheiro nisso."

"Eu conheço Carmichael? Ao menos existia essa pessoa?"

"Nenhum Carmichael. Só eu."

Intrigado, Dean trocou sua posição na cama para que estivesse encarando Malfoy. "Como conseguiu enganar a todos?"

"Você foi o mais difícil - você me conhecia. Glamours não fazem muito. E são exaustivos de se manter. Eu cuidava para nunca ficar muito tempo perto de você. Somente à noite, quando a luz estava ruim. Outras horas - bem, vamos dizer que eu o ajudei a acreditar no que queria acreditar. É um velho truque dos Comensais da Morte."

"Você mexeu com a minha cabeça?"

Malfoy não respondeu.

"Por quanto tempo fez isso? Você esteve com nosso grupo por duas semanas-"

"Tempo o suficiente. Eu mudo de grupos."

"Por quê? Por que está aqui? Por que se disfarçar?"

Malfoy o encarou. "Você vai me dizer que eu seria recebido de braços abertos? Eu? Filho de Lucius Malfoy? Por favor, Thomas."

Dean percebeu que Malfoy evitara a pergunta do por que tinha vindo, para começar, mas deixou passar. Ele provavelmente não teria ouvido a verdade.

"O que fará agora?"

"Não sei." Malfoy fez um eco fraco de seu sorriso irônico dos tempos de escola antes de fechar seus olhos, virar para o outro lado com um grunhido, e retomar a inconsciência.

Ele o observou por mais um momento. Então alcançou o cobertor e o puxou mais para cima, cobrindo o rosto e os cabelos loiros do outro homem, e o deixou dormir.

Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Calice - Gilberto Gil/Chico Buarque (Portuguese lyrics)

O que você veste para o julgamento e provável execução de seu pai, Draco pensou, enquanto examinava seu caro guarda-roupa com um olho crítico.

Provavelmente algo que também servisse para uma educada aparição em um funeral, ele achava, e certamente tinha entre muitas roupas para escolher. Nas últimas semanas, ele havia feito, sem querer, um holofote de si mesmo, chegando sem ser apresentado em memoriais a membros da Ordem, recebendo olhares odiosos e comentários rudes de pessoas de famílias e amigos que não tinham aceitado o fato de que ele era um dos espiões que tinha traçado o rumo da guerra.

Aparecendo em funerais havia se tornado, parcialmente, outro ato de rebeldia, e, parcialmente, uma demonstração de suporte a Severus. Draco estava determinado em fazer com que as retribuições feitas por eles na guerra não passassem despercebidas. Ele não tinha pedido por esse papel, assim como Potter; nunca deixaria o Mundo Mágico esquecer disso.

O pior, é claro, foi o funeral de Dumbledore, um imenso evento que atraiu o que parecia ser o planeta inteiro. Após os primeiros cinco minutos de olhares e comentários perversos, ele tinha colado em Severus como uma sombra. Dumbledore, transformado em Potter através do Polissuco, havia lançado o feitiço mortal em Voldemort, sacrificando assim sua própria vida. Aparentemente, havia existido uma profecia dizendo que apenas Potter podia matar o Lorde das Trevas; na maneira irônica das profecias, o Dumbledore disfarçado parecia atender aos requisitos.

O verdadeiro Harry Potter tinha sobrevivido. Draco se surpreendeu por estar grato por isso. Mesmo assim, tinha deixado o funeral de Dumbledore antes que Potter e seus protetores Grifinórios aparecessem.

Ele rumou pelo seu armário. Sua mãe queria que parecesse respeitoso, apesar do fato de ele não sentir nada perto disso. O que queria era aparecer na porta do Ministério vestindo o uniforme Lufa-Lufa, ou talvez farrapos de papel. Qualquer coisa para demonstrar ao mundo que ele e Lucius não eram da mesma linha, da mesma família. Do mesmo universo.

Descartou um conjunto preto de linho - esse iria enrugar muito e o julgamento prometia ser longo - em favor de um azul-marinho de algodão. Por um breve momento, ele pensou se deveria usar sua Ordem de Merlin, mas recusou a idéia como metida. Ninguém assistindo iria entender o gesto, de qualquer maneira.

"Mestre Draco ir visitar sua mãe antes de ir?" Sully perguntou.

"É claro," ele respondeu, sem se preocupar em se virar.

A recém-encontrada neutralidade de sua mãe e a flexibilidade Sonserina vieram ao seu resgate depois da morte de Voldemort. Quando Lucius se foi, ela havia se livrado de qualquer afinidade com o lado perdedor facilmente. Sua natureza pragmática permitia que os dois vivessem juntos em educação, ou até mesmo verdadeiro afeto.

Mas seu pesar por Lucius era real o suficiente.

Ele entrou no quarto de sua mãe, e seus olhos se ajustaram ao ambiente mais escuro. Narcissa não estava dormindo, ela esperava na escuridão, assistindo ele se aproximar de sua cama com olhos pálidos e sem piscar. Todos concordaram que a presença dela não era necessária no tribunal - mesmo sem considerar que estava sob o efeito de uma poção que Severus a havia obrigado a engolir a dias. A poção parecia acalmá-la como mais nada - incluindo seu filho - podiam.

"Bom dia, mãe," ele disse, e beijou-a levemente na magra, pálida bochecha.

"Lumus," ela disse em resposta, fazendo com que as luzes brilhassem gradualmente mais fortes . Ele quase desejava que ela tivesse deixado o quarto mal-iluminado, pois odiava vê-la tão desesperançada. "Você está muito bonito."

Ele não respondeu ao elogio. "Estarei fora o dia inteiro. Redmund enviará uma coruja assim que decidirem algo." Ele fingiu, por ela, que o resultado não era certo. Como se a única decisão a ser feita não fosse entre morte rápida ou o beijo dos dementadores.

"Desiree Crabbe prometeu vir até aqui e esperar comigo essa tarde se pudesse."

Ele esperava que a amiga-de-vez-em-quando dela fizesse o esforço, o que não era garantido. Sra. Crabbe estaria passando pela mesma situação na próxima semana quando seu marido teria o mesmo julgamento, e ela se encontraria precisando do mesmo apoio. Mesmo assim, Sully havia lhe contado que a outra mulher não estava sempre sóbria à tarde.

"É melhor eu ir. A rede Flú no Ministério estará lotada se eu demorar mais."

Ela concordou com um gesto da cabeça mas não disse nada.

Ele hesitou, não querendo mas sentindo como se tivesse que dizer algo confortante. O que, teria de ser esquivo - palavras falsas de esperança estavam fora de questão. "Tudo acabará logo."

Ela levantou um pouco a cabeça. "Você não será chamado para testemunhar?"

"Não." Informantes mais do que necessários foram voluntários para testemunhar contra Lucius, e os Aurores estavam agindo estranhamente generosos com ele.

"Isso é bom, então." Ela desviou o olhar, e ele apertou a mão gelada dela mais uma vez antes de partir.

Notou o elfo-doméstico parado na porta. "Cuide dela hoje," ordenou quietamente enquanto passava.

Sully respondeu, "Eu vai, Mestre Draco. Você não se preocupar. Sully trazer chá para a Senhora Malfoy, e Sully sabe aonde Senhor Snape deixou a poção."

Draco já tinha estado na sede do Ministério para testemunhar tantas vezes nas últimas semanas que o guarda o reconheceu e o deixou passar. Tão cedo, multidões estavam se formando na esperança fútil de entrar na galeria para o que prometia ser um dos maiores julgamentos da década. Mesmo após expandindo o salão para acomodar as famílias das vítimas, uma loteria tinha que ser feita para as centenas de pessoas ansiosas para pegar os poucos lugares vazios.

Ele gastou alguns instantes para pisar em um canto escuro e lançar um rápido glamour em si mesmo. Eram semanas desde a última vez que posara como David Carmichael, e mesmo após meses usando o disfarce antes de a guerra acabar ele ainda achava estranho e desconfortável. Mesmo assim, para sua própria segurança, achou prudente não ser visto no salão lotado de bruxos e bruxas que talvez não vissem a diferença entre Lucius Malfoy e seu filho.

Multidões se aglomeravam nos elevadores, então decidiu esquecê-los e usar as escadas. Ele desceu sem ninguém perceber, grato pela oportunidade de esticar suas pernas antes do que prometia ser um longo dia de ficar sentado. Já estava muito tenso, e não queria pausas.

O barulho de muitas vozes o guiou até a parte mais baixa da sede do Ministério e até a grande porta de madeira do Salão de Julgamento 8. Entrou na fila que estava descendo o corredor.

A segurança tinha sido aumentada. Estava surpreso ao ver que varinhas não eram permitidas no salão para esse julgamento, e muitos Aurores estavam presentes para confiscá-las e guardá-las. Enquanto se aproximava do Auror, o bruxo ao seu lado discutia com o Auror exigindo sua varinha.

"Isso é realmente necessário?" ouviu o homem perguntar em uma voz alta e grave.

"Varinhas não são permitidas," o Auror respondeu tensamente, e Draco percebeu que o homem tinha repetido aquelas palavras mais vezes do que queria. Mesmo assim, confiscações de varinhas eram raras, e a indignação do homem não era surpreendente.

"Essa varinha não esteve fora da minha posse por sessenta e três anos," ele insistiu.

"Se o senhor não quer entregá-la, têm muitas pessoas que estão muito felizes em usar seu assento no salão." O Auror o olhou bruscamente. Finalmente, o bruxo entregou sua varinha sem mais uma palavra.

Depois que Draco passou sua varinha a uma bruxa que parecia muito alerta, ele teve sua mão pressionada firmemente em um pergaminho, o qual se enrolou em sua mão e dedos, se moldando como se fosse sua segunda pele. Sob o comando da bruxa, o pergaminho caiu gentilmente na mesa, e ela colocou a varinha dele no topo.

"Nome?" ela perguntou.

Ele tentou manter sua voz baixa. "Draco Malfoy."

Instantaneamente, o pergaminho fechou-se na varinha, e o pacote se levitou até uma barreira mágica aonde as outras varinhas estavam, e ainda mais Aurores as protegiam. Agora, apenas uma mão que fosse idêntica à impressão no pergaminho conseguiria pegar a varinha.

Ele conseguiu quebrar a rotina da manhã da bruxa, ele percebeu. Ela o estava encarando como se ele fosse um animal proibido, mas pelo menos ela não tinha alcançado por sua própria varinha. Ele provavelmente deveria estar agradecido.

"Eu terminei aqui?" eventualmente teve que perguntar, e ela voltou à pose de indiferença forçada antes de concordar brevemente.

Gastou um instante depois de entrar no salão, mantendo suas costas para a multidão e fingindo examinar um quadro de Earl de Duncastle, permitindo que seu glamour sumisse. Com todos desarmados, decidiu que sua segurança estava garantida - bem, a não ser que alguém decidisse atacá-lo com os punhos - e não queria gastar energia para manter aquele disfarce o dia inteiro. O Earl, vendo sua transformação, murmurou, "Boa performance, meu velho," e Draco levantou uma sobrancelha e sorriu no melhor estilo Malfoy.

Severus estava observando a porta e os olhos deles se encontraram quando Draco se virou. Draco fez um gesto de reconhecimento e traçou seu caminho ao redor de uma gorda bruxa que, pelo volume de sua conversa animada, estava antecipando o resultado do julgamento com entusiasmo visível.

"Avada é bom demais para os tipos dele," ela estava dizendo, acenando dramaticamente e quase batendo em Draco com um braço animado. Conseguiu desviar no último segundo, e ela felizmente não prestou atenção nele, tão pega em sua conversa que estava. "Ele assassinou meu filho e a esposa dele - ela era nascida de Trouxas. Eles estavam tomando chá quando aconteceu..."

Percebeu que nem sabia qual família poderia ser. Havia muitas; elas se misturavam em uma coleção sangrenta. Uma família trouxa desaparecendo aqui, irmãos órfãos ali, um soldado capturado e torturado, um estabelecimento queimado ao chão. Tudo em um dia de trabalho para Lucius Malfoy, o eficiente e temido Comensal da Morte.

Mas se Draco não podia se lembrar, o salão do julgamento estava cheio de pessoas que podiam - todo detalhe, toda ação, toda morte - porque Lucius Malfoy tinha arruinado a vida deles. Eles estavam ali hoje para ter certeza que Wizengamot fizesse o mesmo com ele.

Com um suspiro, sentou no lugar ao lado de Severus em uma seção vazia. "Severus," ele cumprimentou. Como poderia ter dito, "Boa manhã?" Ambos sabiam que a manhã estava longe de ser boa.

"Draco. Como está sua mãe hoje?"

"Como esperado." Com isso a discussão terminara.

O som da multidão aumentou, atraindo sua atenção para o grupo entrando no salão. Severus também tinha percebido a mudança, e ambos trocaram olhares. Nenhum dos dois tinha dúvidas de por que eles estavam tão animados.

Potter.

Ele estava rodeado da multidão de Grifinórios - Granger, Longbottom, Thomas, Finnigan, e um exército de Weasleys. Eles o cercavam como guarda-costas, o que não estava longe da verdade. Pessoas perto dele se pressionaram mais perto dos recém-chegados, como se Potter fosse um imã e eles feitos de ferro.

Potter tinha sido uma grande parte dos pensamentos e conversas de todos por tanto tempo, tanto durante a guerra como nas semanas desde a batalha final, que Draco percebeu assustado que ele não o tinha visto em pessoa - ignorando as centenas de pessoas transformadas em Potters - desde sua última noite em Hogwarts. A noite em que eles se beijaram. Nos anos seguintes, havia se convencido que seu comportamento inapropriado era apenas uma ridícula tentativa de se segurar no que restava de sua inocência infantil. Nem tinha pensando no porque Potter retornou o beijo. Mas se isso era verdade, então por que seu cérebro o estava mandando nervosos sinais à imagem de seu antigo rival? Por que estava se sentindo tão inconfortavelmente nervoso à mera visão dele?

"Vamos nos ajoelhar," Severus disse, apenas para Draco escutar, com um tom de voz cheio de sarcasmo. "O Garoto de Ouro chegou."

Depois de tudo que aconteceu desde que deixou Hogwarts, Draco percebeu que sua animosidade em relação a Potter tinha diminuído consideravelmente. Tinha superado a raiva infantil sem estar ciente disso, e ele achava que todos tinham, também, então estava surpreso pelo ódio na voz de Snape.

Potter não estava muito diferente de como estava naquela noite; talvez com os ombros um pouco mais largos, mais músculos desenvolvidos por causa da guerra. A maior diferença era o olhar sério e a expressão cuidadosa.

O grupo avançou no salão lotado, até que Draco percebeu que estavam rumando até a seção quase vazia em que estavam. Potter saiu de trás de seus protetores para ficar diretamente na frente dele. Sentindo-se em desvantagem, levantou-se para encará-lo nos olhos e ficou grato em perceber que era um pouco mais alto do que o outro. Por pouco, mas o suficiente.

Potter estendeu uma mão e disse, "Malfoy."

Draco percebeu uma multidão de repórteres ajeitando suas câmeras, prontos para capturar esse momento histórico. Se sentindo um pouco inseguro, ele respondeu da única maneira possível, esperando que sua mão não estivesse suando de nervosismo. "Potter."

Do lado dele, Severus fez um som de ultraje.

Potter não retirou a mão tão rapidamente quanto Draco imaginava, prolongando o contato por um longo momento. Ele se perguntou se era apenas em consideração aos fotógrafos.

"Sinto muito," foi tudo que Potter disse, apesar de não especificar pelo que - a atenção de toda a multidão neles, o trauma do julgamento de seu pai, ou talvez a história feia entre eles.

"Eu sei," respondeu, embora não fosse sua intenção dizer isso.

Potter liderou seu grupo pelos assentos, parando para oferecer um breve aperto de mãos a Severus também. Severus não se preocupou em levantar. Dean Thomas se sentou na cadeira ao lado de Draco, e o cumprimentou calorosamente.

Sua resposta foi cortada pelo alto eco da porta do salão sendo fechada, o que atraiu a atenção de todos no local e fez com que o barulho diminuísse a meros murmúrios. Ao mesmo tempo, duas portas - uma à esquerda da plataforma e uma à direita - se abriram. Da primeira porta, os membros elegantemente vestidos do Wizengamot entraram, silenciosos e sérios, sentando-se atrás das mesas. Tinham alguns lugares vagos entre eles - percebeu que os membros mortos na guerra ainda não tinham sido substituídos, provavelmente como uma demonstração de porque estavam ali hoje.

Da outra porta, viu quatro Aurores ao redor da figura alta de seu pai; eles marcharam vagarosamente até o centro do salão e pararam embaixo dos juízes. Os advogados vieram a seguir. Draco sentia como se todos no local pudessem ouvir seu coração batendo, tão afetado que estava pela primeira visão de seu pai em meses. Mas a atenção da platéia estava fixada em Lucius, e eles reagiram com variados sussurros e xingamentos baixos, até que uma voz mais alta declarou.

"Comensal da Morte assassino e nojento."

A voz solitária logo foi ecoada por outra, e outra, até que gritos eram dados a todo o redor. Seu pai, congelado entre os guardas, não mostrava sinais de ouvi-los.

"Silêncio," veio o alto comando de um dos bruxos mais poderosos, obviamente o novo chefe do Wizengamot. Draco tentou lembrar do nome do homem - Eurybiades Tabernash. Draco se lembrava dele de alguns planos de ação na Guerra em que ambos estavam presentes, embora não soubesse da posição dele na época.

Lucius foi escoltado até uma cadeira no meio do salão. Enquanto seu pai sentava, fortes tiras de couro se amarravam em seus pulsos e tornozelos, o prendendo à cadeira. Convenceu-se de que não iria olhar na direção de Lucius, mas agora não podia olhar para mais nada. A última vez que o vira foi na noite em que salvou Dean e Seamus, e eles nunca puderam dizer adeus. O destino fizera com que não pudessem agora também.

Um dos membros do Wizengamot - uma bruxa com voz melodiosa - começou a ler as acusações contra seu pai. A duração do pergaminho o mostrou que ela estaria lendo por muito tempo. O imenso volume de ofensas era inacreditável. Algumas delas Draco havia visto, algumas apenas ouvido falar, e algumas eram novas. Cada ofensa sozinha era suficiente para condená-lo.

Seu pai não tinha a menor chance.

A bruxa finalmente terminou, e Tabernash perguntou ao seu pai diretamente. "Você é Lucius Malfoy?"

Houve uma longa pausa, feita para provocar, tinha certeza. "Sim."

"Você tem algo a declarar em relação às acusações contra você?"

Sem resposta. O advogado de seu pai, Lysander Redmund, se levantou de onde estava sentado um pouco atrás de Lucius e respondeu. "Senhor Malfoy não deseja testemunhar em seu favor."

"Muito bem," Tabernash disse, com alívio. Isso fazia com que o julgamento fosse mais fácil, embora não muito mais rápido.

Um pequeno bruxo deu um passo à frente e levantou a tampa de uma caixa na mesa. Draco reconheceu os pequenos frascos de Veritaserum, uma pequena dose para cada testemunha. Esse dia prometia ser longo.

O Ministério escolheu começar com o testemunho dos poucos sobreviventes dos ataques de Lucius, falando também de seus entes queridos que não tiveram a mesma sorte. As testemunhas mais eloqüentes tinham sido escolhidas, mas depois de muitas horas, as palavras começaram a ficar idênticas.

"Antes que pudéssemos nos abaixar, ele mirou uma maldição letal na direção do meu marido e eu vi a luz verde..."

"… e então ele apontou sua varinha para mim e eu o ouvi dizer, 'Crucio'..."

"… ele gritou 'Incendio', e o quarto todo ficou em chamas, eu mal consegui sair com vida..."

"… depois que ele assassinou todos os dez enquanto dormiam…"

"… então me torturou por horas, e então ele estava…"

"… sorrindo o tempo todo, como se gostasse..."

"… havia sangue em tudo…"

"… e eles eram apenas crianças, mas ele…"

O único som diferente era o abrir e fechar da porta do salão quando alguém descobria que as imagens eram muito gráficas para seus estômagos e escolheram sair discretamente.

Potter era a próxima testemunha, para a adoração da platéia. Sob Veritaserum, recontou sem emoções o papel de Lucius na ressurreição de Voldemort e suas atividades no Ministério na noite em que Sirius Black morreu, dois eventos que Draco nunca tinha escutado da perspectiva da Ordem. Potter havia ficado mais articulado nos últimos anos, e seu testemunho deixou todos na ponta de seus assentos. Após quase uma hora de narração, ele foi dispensado, mas Draco imaginava que o Profeta Diário estaria recontando aquela história por semanas.

"O Ministério convida Severus Snape para dar seu testemunho."

Pela primeira vez naquele dia, Lucius reagiu a uma testemunha, dando a Severus um olhar de puro nojo e dizendo, "Traidor de sangue." Severus não reagiu, nem olhou na direção do outro homem. Ele engoliu seu Veritaserum sem uma palavra.

"Qual era seu dever na Ordem da Fênix?" Tabernash perguntou.

"Eu era um espião infiltrado entre os Comensais da Morte. Eu tive sorte de não ser descoberto até a batalha final."

"A Ordem era consciente de suas ações?"

"Sim, é claro. Eu comunicava as atividades dos Comensais da Morte frequentemente."

"E você ajudou a montar a armadilha que levou à batalha final entre Harry Potter e Voldemort?"

"Eu ajudei, sim."

"E por serviços prestados ao Ministério você foi condecorado com a Ordem de Merlin, certo?"

"Sim."

Tabernash fez algumas perguntas relacionadas aos testemunhos passados, e encontrando confirmações das ofensas acusadas a Lucius. A atenção de Draco começou a se dissipar, até que ouviu Tabernash perguntar, "Você conhecia outros espiões entre os Comensais?"

"Sim."

"Quem?"

"O primeiro era o filho de Lucius Malfoy, Draco."

Seu coração começou a bater mais rápido, e ele desejava que tivesse prestando mais atenção. O que tinha levado o Wizengamot a perguntar sobre outros espiões? Ele tinha esperado - em vão, parece - que qualquer coisa relacionada a seu serviço não fosse mencionado. Cabeças viraram na sua direção.

"Quando Draco Malfoy começou a trabalhar para a Ordem?"

"Ele veio a mim enquanto ainda era um estudante em Hogwarts. Tinha acabado de fazer dezesseis anos na época. Eu trabalhei com ele e o treinei por vários anos antes que seu pai o chamasse para se tornar um Comensal da Morte, antes que a Guerra começasse."

Draco estava consciente da dos olhares surpresos dos Grifinórios, mas se recusou a levantar sua cabeça e encará-los.

"Draco conseguiu ficar infiltrado no meio dos Comensais por aproximadamente um ano," Severus adicionou. "Nós servimos juntos entre os Comensais da Morte."

"Por que ele partiu?"

"Foi uma decisão que eu pedi que tomasse. Dois membros da Ordem foram capturados, e um deles tinha informações que iriam levar à captura de Harry Potter. Draco os ajudou a escapar antes que fossem interrogados, o expondo como espião. Por seu trabalho contra os Comensais da Morte, o Ministério o condecorou com a Ordem de Merlin."

Severus estava sendo muito longo em suas respostas, ao contrário do treinamento deles com Veritaserum. Aparentemente, ele não achava que os feitos públicos de Potter fossem o suficiente para mostrar que Draco não era Lucius. Não que seu testemunho fosse de muito uso - a reputação de Severus era apenas um pouco melhor do que a de Draco.

Enquanto isso, Dean Thomas estava queimando um buraco nele com a intensidade de seu olhar, mas Draco ainda se recusava a olhar para ele.

"Havia outros com os Comensais da Morte trabalhando para a Ordem?"

"Mais um. Gregory Goyle."

Era a vez de Draco ficar surpreso - Gregory não era um Comensal o tempo todo?

Aparentemente não. "Goyle veio a mim depois que Draco partiu. Ele descobriu que Draco estava trabalhando para a Ordem e queria substituí-lo como pudesse."

"Aonde ele está agora?"

"Está morto. Ele não teve treino em espionagem e não era muito bom nisso. Foi descoberto um pouco antes da batalha final. O pai dele o matou."

Draco sentiu uma onde de fúria dentro de si, e foi necessário todo seu controle para permanecer neutro. Com os punhos cerrados no seu colo, sentiu suas unhas cortando sua pele. Sua raiva violenta deveria estar direcionada aos Comensais - ele sabia - mas ao invés disso a mirou contra todos os outros - raiva de Severus por não tê-lo informado sobre Goyle antes, raiva de Dumbledore por não ter forçado Gregory a ficar em Hogwarts, e especialmente raiva a si mesmo por não poder proteger seu amigo de longa data, o menino que queria ser como Draco, e que pagava por sua lealdade com a própria morte pelas mãos de seu pai.

Justo naquele momento, Lucius virou sua cabeça e o encarou nos olhos com um sorriso brutal. Estava grato que sua varinha tinha sido confiscada, porque poderia tê-lo matado naquele momento enquanto seu pai sentava lá sem nenhum remorso.

Mas teria que se contentar em deixar o Ministério fazer isso por ele - é claro, se eles estivessem caridosos. Senão, eles o iriam levar a Azkaban e dá-lo aos dementadores.

O Wizengamot levou cinco minutos para retornar com sua decisão contra o famoso Comensal da Morte Lucius Malfoy. Eles não estavam caridosos. Seu pai foi condenado a passar o resto de sua vida como uma concha vazia, sem sua alma. Beijado.

Draco se aproveitou da celebração do resultado para correr à porta, pegar sua varinha e sair do Ministério antes dos repórteres, da multidão, e de Harry Potter, que estava tentando alcançá-lo.

Ele não sabia por que passara pela rede de Flú, deixando seus pés o carregarem até a porta do Ministério e pisar na rua. Ele conseguiu perder Potter, mas, conhecendo a natureza do outro homem, não por muito tempo. Tinha a necessidade de manter-se em movimento - qualquer coisa para afastar as horas de inatividade e o choque do veredicto.

Ele parou quando viu uma coruja mensageira o perseguindo na rua. Era muito raro para uma coruja procurar alguém em lugares públicos, e pegou a carta com certo medo.

Nós faremos com que sua traição seja punida. Narcissa e Lucius não ficarão separados por muito tempo.

Seu corpo parecia estar dormente. Por um longo instante, ele conseguia ficar parado e olhar para o vazio, ignorando os olhares curiosos de quem passava.

Potter o alcançou eventualmente - será que ele acabara de chegar ou estava parado ali a algum tempo, seus olhos solidários e curiosos atrás de seus óculos ridículos? Sem dizer nada, o passou a carta e Aparatou, de volta a Mansão Malfoy onde sabia com certeza que era tarde demais.

Sully - viva mas inconsciente, ele rapidamente verificou - estava deitada no corredor fora do quarto de sua mãe, e ele a deixou ali pelo momento.

Abrindo a porta, conseguiu dar alguns passos no quarto antes que sua força o faltasse.

Narcissa estava morta, isso era certo.

Era uma mensagem carregada sem dúvidas no estilo dos Comensais da Morte. Seu assassinato foi planejado para causar o mínimo sofrimento à vítima - ele podia ver que ela morrera instantaneamente, e por isso era grato - e a maior dor era direcionada para quem a encontrasse.

Completamente previsível. Eles não queriam punir Narcissa, é claro. Com certeza não tinham nenhuma animosidade contra ela; eles provavelmente até gostaram da hospitalidade em alguma festa dos Comensais. Ela era apenas uma ferramenta conveniente, um talento que ela tinha aperfeiçoado durante seu casamento com Lucius; uma perda mínima para os assassinos que queriam mandar essa mensagem a ele.

Ele correu até o banheiro e vomitou na pia.

Todo membro vivo da Ordem que conhecia Draco, não importa quão distantemente - e alguns que ele nunca conhecera - foram ao funeral de sua mãe. Acreditava que tinha que agradecer a Severus pelo público ato de suporte, mas ele não iria mencionar nada. Severus não iria querer que ele o fizesse.