Capítulo 2: Demon Hunter


É difícil encontrar uma garota tão empenhada nas artes marciais quanto Cíntia. Encontrar alguma mais habilidosa do que ela então parece uma tarefa impossível. Praticamente todo dia a garota de 17 anos treina Kung Fu. Em apenas dois anos de treino ela já era um dos mais talentosos discípulos do instrutor Marcelo. Dentre as outras meninas da academia não havia nenhuma que chegasse sequer perto do seu nível. Cíntia é tão habilidosa que podia muito bem disputar com um dos rapazes. Pra ser sincero, também era bem difícil encontrar um rapaz que fosse páreo pra ela. Na academia apenas Marcelo sabia qual era o motivo de tanta dedicação da jovem. Ela possuía o sonho de entrar em competições. Um sonho quase impossível, levando-se em conta o passado da moça. Um passado negro que a marcou como uma condenada. Uma danação compartilhada por apenas uma pessoa na academia. O velho Francisco.

Por Marcelo já ter tido um irmão presidiário, ele era bem tolerante com ex-detentos. Adorava dar segundas chances. Não pensou duas vezes antes de acolher Cíntia como discípula (nem mesmo cobra dela mensalidade, mas isso os outros alunos não sabem) e a dar o emprego pra Francisco.

Francisco por outro lado não contou a Marcelo toda a verdade sobre o seu passado, do contrário nunca ganharia o emprego, pois boa vontade tem limite. A bem da verdade Francisco deu muita sorte. Depois que saiu da prisão não ficou nem um mês desempregado. Arranjou logo um trabalho de faxineiro na academia do bom samaritano Marcelo. Talvez a grande sorte de Francisco fizesse parte do pacto.

Naquele dia (fazia apenas dois meses que Francisco havia saído da cadeia, só pra você se situar), Quinze pra dez da noite. Francisco esperou o treino terminar, Cíntia era sempre a última aluna a sair, para ter uma conversa séria com a moça. Uma conversa que mudaria a vida da menina.

- Você ainda não toma não, né? – Perguntou Francisco, se referindo as drogas. Cíntia sempre ficava irritada quando ouvia essa pergunta que volta e meia faziam a ela. Uma pergunta que trazia a tona um passado que ela desejava deixar pra trás.

- Não. Por quê?

- Eu te vejo lutando todo dia e... Menina, você é muito talentosa! – Cíntia deu um sorrisinho. Adorava ser elogiada. – Tenho uma... Uma proposta de trabalho pra você.

- Hmmm?

- É meio difícil de explicar. Você poderia me acompanhar? É aqui perto. Não precisa nem pegar ônibus.

- Olha aqui, velho, se você...

- Hahaha. Se eu quisesse fazer algum mal a você faria a qualquer hora, em qualquer lugar, nem todos os lutadores daqui juntos seriam capazes de me impedir. – A moça relaxou com a resposta bem humorada do faxineiro idoso e aceitou a proposta. Afinal que mal poderia acontecer? O bairro era seguro e o homem era velho demais para representar algum perigo real ou assim ela pensava.

Os dois saíram juntos logo após Francisco ajudar Marcelo a terminar de fechar a academia. A dupla só precisou caminhar por algumas ruas. Não demoraram quase nada pra chegar ao destino. Uma pequena casa velha e abandonada. A porta da frente de tão velha nem se agüentava mais de pé, ficando só encostada na frente da casa. A pintura da frente da casa já foi branca um dia, mas, já bem desgastada e suja, estava ganhando um tom enegrecido.

- Xiiii. O que você quer me mostrar, velho?

- Antes de entrar é necessário que você saiba de uma coisa.

- Diga.

- Todo o dia. Toda hora. Nesse minuto, na verdade. Forças das trevas estão tentando penetrar nesse mundo. - Cíntia começou a sorrir incrédula. Já começava a achar que aquele velho estava ficando gagá. – E dessa vez eu não vou conseguir destruí-las sozinho. – Francisco tira a porta da frente e entra na, fedorenta e imunda, casa. Cíntia, mais curiosa do que prudente, entra logo em seguida.

No que já foi uma sala, havia um colchão incrivelmente velho e imundo, paredes pretas de tão sujas e um teto cheio de buracos. Ah, já ia me esquecendo, havia também uma menina de quatro anos com o pé esquerdo acorrentado ao chão. Ela olhava pra baixo para esconder o rosto, deveria estar chorando.

- Você é doente! – Diz Cíntia enquanto se preparava pra dar uma cotovelada na cara do velho. Inacreditavelmente, o ancião conseguiu bloquear o golpe da moça e, além disso, ainda a imobilizou. Colocando o rosto de Cíntia na direção da menina acorrentada. Estava Forçando-a a ver uma coisa.

- Quieta, guria. Olhe bem pra essa menina. Ela é uma das forças das trevas que você terá que enfrentar.

A menina levantou a cabeça, revelando assim seu rosto. Era cheio de cicatrizes e escoriações. Seus olhos eram completamente negros. Seu sorriso era macabro. Não era humana.

Francisco nem precisava mais imobilizar Cíntia. Ela por si mesmo já havia ficado paralisada. De medo. – I-isso...

- É um demônio, criança. Um maldito demônio.

No dia seguinte, Marcelo chegou no horário de costume na academia. Cinco da manhã. Ele sempre teve o costume de acordar cedo, mesmo quando não precisava. Pouco tempo depois, dez minutos pras seis horas, alunos já iam chegando para terem suas aulas. Muitos deles trabalhavam e estudavam, fazendo com que o único tempo livre disponível fosse aquele.

O dia ia se desenrolando normalmente. Pela manhã Marcelo ensinava três turmas. A tarde ele tinha um tempo livre, já que outro instrutor ficava em seu lugar na academia. Já de tardinha (aproximadamente cinco da tarde), ele voltava para pegar mais algumas turmas. Por fim ele fechava a academia às dez horas e ia pra casa, assistir algum filme ou namorar sua esposa. No dia seguinte retomaria a mesma rotina. Isso acontecia de segunda a sábado. Sendo que no sábado a academia de artes marciais só funcionava até o meio dia. Aquele dia foi igual a tantos outros só que com uma única diferença, Cíntia não apareceu para treinar e Francisco não apareceu para trabalhar. No dia seguinte aconteceu a mesma coisa. No dia posterior a esse também e assim por diante. Marcelo já estava ficando preocupado. Havia passado uma semana que os dois não davam as caras na academia. Era sabido ao instrutor que os dois saíram juntos no último dia que apareceram. Um monte de possibilidades trágicas infestava a mente do instrutor, afetando o seu desempenho no trabalho.

Na sexta feira, aproveitando a folga que tinha pela tarde, Marcelo foi caminhar pelos bairros próximos da academia para procurar saber se houve alguma tragédia por esses dias. Não descobriu nada. Estranho, quando acontecia um assassinato na região a história circulava mais rápido do que rastilho de pólvora. Isso podia ser bom, talvez nada de ruim tivesse de fato acontecido aos dois. Mas se é assim, porque eles sumiram? Aquilo era estranho, quanto mais pensava nisso, mais Marcelo ficava perturbado.

O tipo de treino que Cíntia estava recebendo não seria aceito em nenhuma academia. Era extremamente eficiente, no entanto era brutal demais para uma pessoa normal se sujeitar a passar por ele. Bem, talvez fosse usado no exército ou coisa semelhante.

A casa velha que Francisco mostrou pra moça há algumas semanas atrás servia pra muita coisa. Além de servir como cativeiro para um demônio que estava acorrentado na sala, também servia como local de treino. A casa não era tão pequena quanto aparentava do lado de fora. A parte do fundo era enorme. Dava pra treinar bastante ali. Pena que o mau cheiro ainda era uma constante, mas tudo bem, depois da terceira semana Cíntia nem mais se incomodava com ele.

- Acho que você já está pronta. – Diz o velho a jovem após a sétima semana de treino. – É chegado o momento de você enfrentar um desafio de verdade.

A menina estava encharcada de suor. Suas mãos estavam apoiadas em seus joelhos. Cíntia estava exausta pelo dia de treino incrivelmente intenso, muito mais puxado do que o normal. A moça viu seu novo instrutor sair do cômodo da casa em que ela se encontrava para ir em direção a sala. Estava tão cansada que nem raciocinou direito a última frase de seu tutor. "É chegado o momento de você enfrentar um desafio de verdade". – "Desafio de verdade"? – Pensou em voz alta a menina. – Ah não, Francisco. Ainda tem mais treino hoje? – Reclamou a garota em tom choroso. Mal sabendo ela qual era a natureza do "desafio" proposto pelo ancião.

Olhando para a porta que dava acesso a sala, Cíntia foi capaz de ouvir o som de corrente sendo arrastada. Seu sangue gelou na hora. Antes de qualquer coisa aparecer, Cíntia já sabia do que se tratava. A menina demônio entrou no cômodo. Francisco tinha misteriosamente sumido. Estavam ali presentes apenas a adolescente e a criatura desumana. Não havia como fugir, pois o demônio estava na frente da única saída. Não tinha nada que servisse como arma por perto, o cômodo era vazio. Ninguém iria ajudá-la, estava sozinha. Cíntia nem teve tempo de começar a chorar. A menina possuída pulou logo em sua direção. Tinha começado o ataque. – AAAAHHHH!! - O som do grito de pânico de Cíntia se misturou ao som do grito ameaçador da criatura. Uma batalha havia começado.

Do lado de fora da casa, Francisco ficava tomando conta da porta para impedir, caso o pior acontecesse, a criatura de sair. As pessoas que passavam olhavam para ele com cara de estranheza. – Que barulheira era essa? – Se perguntava a maioria dos transeuntes. Pow! Crack! AAAHH! ROAAARR! Do lado de fora era audível o barulho de socos, de coisas sendo quebradas, de gritos e de rosnados. A luta que desenrolava lá dentro estava sendo brutal. Foi tão furiosa quanto breve. Quatro minutos depois e o silêncio já voltava a reinar, como se nada tivesse acontecido. Só nesse momento é que Francisco entra na casa pra ver qual foi o resultado do "desafio de verdade" imposto por ele a jovem.

Ao ir pros fundos da casa, Francisco vê o corpo de uma menina de quatro anos estendido no chão com o rosto virado pra baixo e com a corrente que prendia o seu pé enrolada no seu pescoço. Cíntia estava ao lado do cadáver, ajoelhada. Tremendo tanto que parecia que estava com muito frio. Na verdade aquilo era medo.

Francisco não sentia pena nem preocupação ao olhar para o estado de sua discípula. Pelo contrário, se sentia até bem. Sentia-se orgulhoso. Era normal ficar transtornado na primeira luta com as forças das trevas, Francisco sabia disso. O estado da moça no momento não importava. O importante era que a menina tinha ganhado a luta. Tão jovem e já havia matado seu primeiro demônio. Francisco mesmo só conseguiu fazer isso aos vinte. Cíntia era precoce. Um talento. Iria ser uma excelente caçadora. Terá um futuro brilhante. Ou assim o velho pensava.

Ainda ajoelhada, a moça ficava recordando incessantemente das últimas palavras proferidas por aquele demônio enquanto ele estava sendo asfixiado. – Eu sei o que você fez! Eu sei pra onde você vai depois que morrer! Você não quer ir pro inferno, mas lá é o seu lugar! Olhe bem pra mim, é nisso que você vai se tornar!