Capítulo 3: Covenant


Nordeste do Brasil, em uma pequena cidade da região do sertão. Inicio dos anos 1970. Francisco era muito novo nessa época e ainda não era um condenado. Era um jovem matuto imaturo, bruto e ignorante. Vivia como um capataz de um grande fazendeiro. O salário era uma miséria. Ele mal conseguia comprar comida suficiente para se alimentar, quanto mais para dar de comer para a esposa e pros dois filhos. Isso sem mencionar a mascote da família, um vira-lata magricela chamado Badejo. Havia um motivo para o cão receber nome de peixe. Cão que pega raiva acaba adquirindo uma fobia de água. O nome de peixe, segundo a crendice popular, evitava que o bicho adquirisse a doença.

Em uma tarde, Francisco usa o pouco dinheiro que tinha pra encher a cara. Queria esquecer a fome, a família, o patrão... Queria uma nova vida, mas não sabia como. Escorado no canto mais escondido de um bar bem ralé, Francisco bebia na esperança que a bebedeira leva-se seus problemas embora.

- Posso me sentar ao seu lado? – Perguntou uma bonita moça que se aproximou de Francisco. – Pode ué. – O matuto estranhou um pouco aquilo. O que uma moça bonita como aquela iria querer com um zé ninguém como ele? De duas uma, ou ela era bem feia e só parecia bonita por causa da cana que já havia subido a sua cabeça ou ela era uma puta buscando clientela.

- Vida difícil?

- Cê nem imagina.

- E se eu te mostrasse uma maneira de aliviar o seu fardo? – Francisco deu um sorriso de canto de boca. A garota podia falar difícil, mostrando que era de um nível mais elevado do que a maioria das mulheres da cidade, no entanto, aquele tipo de proposta fez Francisco ter uma idéia do que ela queria.

- Você cobra quanto? Não tenho muito dinheiro.

- Não será preciso dinheiro. Só preciso de sua alma. – Francisco deu outro sorriso de canto de boca. Achava que o caminho que estava sendo dado para aquela conversa estava estranho demais. – Quando estiver desesperado. Chame por mim em alguma encruzilhada. – A moça só disse mais isso. Depois se levantou e foi embora, deixando Francisco voltar a se importar única e exclusivamente com sua bebida. No dia seguinte, o sertanejo iria se lembrar muito vagamente daquela conversa, sem saber se ela de fato aconteceu ou se não passou de um sonho estranho.

Os dias vão passando e Francisco cada vez mais ia se esquecendo daquela conversa. Só veio se recordar dela novamente no fim do mês, na hora de receber seu ordenado. Aquele mês em particular havia sido infernal. A labuta na fazenda foi tão árdua que o sertanejo precisou colocar toda sua família pra ajudar no seu trabalho. Ele, as crianças e a mulher estavam trabalhando por dezesseis horas todos os dias, sem direito a domingo. Francisco não via a hora de chegar logo o dia de receber seu suado salário. Eis que no aguardado dia ele é "agraciado" com uma péssima surpresa. Francisco não sabia contar direito, mesmo assim percebeu que o dinheiro que o patrão lhe deu era menos que o habitual. – A colheita foi pouca. – Foi à única desculpa que recebeu. Francisco ficou irritado, só faltou espancar o patrão ali mesmo. Péssima idéia. Os jagunços que trabalhavam pro grande fazendeiro estavam por ali. Eles protegeram o patrão e espancaram o empregado rebelde. Depois expulsaram Francisco da fazenda como se ele fosse lixo. Revoltado, o sertanejo andou sem rumo por aí amaldiçoando Deus e o mundo. Eis que o homem, coincidentemente, chega a uma encruzilhada. Neste momento uma voz fala em seus ouvidos fazendo-o lembrar da conversa que teve com a moça bonita há algumas semanas atrás. A voz dizia um nome. Um nome estranho. Um nome que, antes mesmo que Francisco percebesse o quão difícil era sua pronuncia, saiu quase que involuntariamente de sua boca.

- Daath. - No mesmo instante em que o matuto falou a mulher bonita do bar apareceu em sua frente se materializando do nada. Ela era linda. Uma verdadeira diaba.

- Pois bem. Você me chamou eu apareci. Diga. O que seu coração mais deseja?

Francisco chorava. Não de tristeza, mas de raiva. Pediu quase que sem raciocinar. – Vingança. Quero poder matar todos os meus inimigos. – Assim que o sertanejo fez o seu pedido a moça se aproximou e deu um prolongado e sedutor beijo em sua boca. O beijo era bom, Francisco pegou a moça pela cintura, aproximando o corpo dela ao seu e fechou os olhos pra continuar com o beijo. De repente não sentiu mais nada. Ao abrir os olhos novamente percebeu que a diaba havia sumido. – Ôxe. Devo estar é doido – Pensou Francisco. Sem ter mais o que fazer, o homem voltou pra sua casa e, sem nem falar direito com a esposa e as crianças, se jogou na cama. Esperava que o sono leva-se embora os seus problemas. Ao invés disso o matuto teve um sonho. Sonhou que invadia a casa do seu patrão à noite e matava ele, sua mulher, seus filhos e todos os jagunços que haviam o espancado. As mortes eram brutais, aquilo tinha cara de pesadelo, mas era prazeroso como um sonho. Já de manhãzinha, ao acordar, Francisco percebeu que estava todo sujo de sangue. O homem levantou-se da cama assustado. Correu pela casa procurando por sua mulher e seus filhos, mas não os encontrou. As roupas e coisas dos meninos também não estavam mais na casa. Parecia que haviam fugido.

Francisco estava tão agoniado, que nem se lavou antes de sair. Assim mesmo, todo empapado de sangue, ele saiu de casa e foi até o centro da cidade, procurar por sua família. Não foi uma idéia muito inteligente é claro. Por algum motivo a polícia estava em polvorosa na cidade. Não demorou muito para que ele fosse pego e levado até a delegacia para prestar esclarecimento.

- Você matou a família do senhor Mendonsa? – Perguntou o meganha.

- O quê? E desde quando eles estão mortos, seu moço? Ontem mesmo tive um dedinho de prosa com eles.

- Sei, sei. Testemunhas dizem que você brigou com o seu patrão ontem. Acho muita coincidência ele ter morrido justamente na mesma noite dessa briga. Fale a verdade! Você matou a família Mendonsa, não foi?

- Não, senhor.

- Mentira! – Splaft! – o policial meteu um tapa na cara do sertanejo antes de repetir a pergunta. Novamente Francisco nega, fazendo com que o policial repetisse o golpe. À medida que ia apanhando o ódio de Francisco ia crescendo. O homem agüentou muito até. Só quando o policial ia dar o sexto tapa é que ele reagiu. Pegando a mão do policial no ar e torcendo-a até quebrar. – AAAAHH! – O policial nem pôde gritar direito. Francisco pulou em cima dele tal como um bicho e tratou logo de quebrar seu pescoço. Do lado de fora da sala de interrogatório, os demais policiais da delegacia ouviram o barulho da briga. De armas em punho entraram logo barbarizando metendo tiro no suspeito. BLAM! BLAM! BLAM! BLAM! BLAM! Foi o mesmo que nada. O sujeito era rápido, um bicho, um demônio. Os cinco policiais não foram páreos para o sertanejo endiabrado, em menos de cinco minutos já estavam todos mortos ou com escoriações graves. Sem ter mais ninguém que o detivesse ali, Francisco saiu da delegacia e tratou logo de se mudar da cidade. Seria uma boa idéia começar uma vida nova em um lugar bem longe dali.

Francisco saiu da sua cidade natal a pé. Em suas andanças pelas cidades vizinhas acabou vivendo como mendigo ou fazendo bicos mal remunerados. No entanto, como ele não tinha mais família pra sustentar, os baixos salários desses trabalhos rendiam bem mais do que o trabalho que fazia em sua antiga cidade. O tempo ia passando rápido e antes que o matuto notasse dois anos já haviam se passado desde a estranha noite em que acordou ensangüentado. Várias vezes, geralmente um pouco antes de dormir, Francisco pensava sobre aquele estranho dia. Principalmente naquele estranho encontro que teve na encruzilhada. Será que aquela mulher tinha alguma coisa a ver com os estranhos acontecimentos ocorridos naquela noite? Francisco obtém a resposta para essa pergunta em uma tarde qualquer de junho, ao visitar pela enésima vez o bar da cidade. A bebida era um mal que ele não largava de jeito nenhum. Para falar a verdade ele nem sequer tentava.

Francisco era duro na queda, mas bastava uma dose para ele ficar embriagado.

Era sempre a décima quarta, dessa ele não passava. Quando a maldita já começava a atrapalhar seu juízo, Francisco viu a moça bonita daquele dia novamente a sua frente. Mas desta vez ela não queria papo com ele. Estava conversando com outro rapaz, há umas duas mesas de distância dele. Um jovem que, pela cara, já devia ta virando o quarto ou o quinto copo.

- Ei, moça! – Francisco se levantou de sua mesa e foi caminhando até a sedutora. O rapaz que conversava com ela não gostou nada da intromissão do homem.

- Sai daqui, porra! Não vê que ela ta na minha? – Pela expressão do jovem dava a impressão que ele estava querendo começar uma briga. "Tadinho". Nem teve chance. Francisco só precisou dar um tapa no garoto para ele dar de cara com o chão. Desmaiou na ora. Assim que o jovem tombou uma algazarra tomou conta do bar. O dono veio correndo até onde estava Francisco e tratou logo de enxotá-lo dali. No meio da confusão a moça bonita acabou desaparecendo como se fosse um fantasma.

Desesperado em busca de respostas. Francisco forçou a memória e tentou se lembrar do que fez para a moça aparecer para ele daquela vez. O matuto foi para a primeira encruzilhada que viu pela frente e chamou pelo estranho nome da entidade. – Daath – Francisco nunca teve muito estudo. Até o português ele falava com dificuldade. Mesmo assim, por um motivo que ele não sabia explicar, ele conseguia pronunciar aquele estranho nome sempre que assim deseja-se. Assim como da outra vez, a moça apareceu para ele. Parecia que ela estava ainda mais linda e radiante. Era um verdadeiro pecado.

- O que você fez comigo? Todo mundo da minha cidade pensa que sou um assassino! Perdi minha mulher, meus filhos! Perdi minha vida! O que você fez comigo, puta?!

- Você se lembra o que me pediu naquela tarde? "Quero poder matar todos os meus inimigos". Foi isso o que você me pediu. Eu só atendi.

- Meu Deus! Você fez isso em troca de quê?

- Em troca de sua alma. Já te disse.

- Não, não. Isso não é possível. Faça tudo voltar. Não quero mais isso!

- Problema seu. Uma vez pactuado, não tem mais volta.

- Nãooo!! Quero minha vida de volta!! – Francisco pulou no pescoço da diaba e deu vários socos em sua face. Daath, a diaba, além de não revidar, não parecia estar sofrendo nenhum dano com os golpes. Francisco já estava ajoelhado em cima da moça, que no meio da briga acabou ficando estendida no chão. Pow! Pow! Pow! Não importava quantos socos o sertanejo desse, o rosto da criatura ficava intacto. Os ataques poderiam durar uma eternidade, até que a moça abre a boca e uma fumaça espessa e negra sai de dentro dela. A fumaça sobe ao céu e voa em direção desconhecida. Sumindo de vista logo depois. Francisco fica assustado. Olhando atordoado para a jovem que estava sob seu domínio.

A moça estava com os olhos fechados. Estava imóvel. Francisco examinou sua respiração e chegou à conclusão de que ela havia morrido. Assustado, o sertanejo tratou logo de sair dali o mais rápido possível. Não queria ter mais uma acusação de assassinato nas costas. Por poucos dias o matuto nutriu a ilusão de que havia se livrado do pacto, pois achava que havia matado a diaba. Ele estava enganado. A diaba não morreu. Daath só desincorporou do corpo que estava possuindo, esse sim havia morrido. Para alguns demônios a morte é apenas um inconveniente.

Francisco, como um bom "machão", não era chegado a chorar. Era forte. Agüentava tudo. Mas aquilo era demais. Estava com medo. As duas últimas noites que teve foram acompanhadas com pesadelos horríveis, indescritíveis. Visões do inferno. Visões de sua última morada. Francisco não se preocupava com mais nada. Somente com sua alma. Algo estranho vindo de alguém que, até o momento, nunca havia sido muito religioso.