Capítulo 4: Possessed


Em algum lugar dos Estados Unidos, um demônio de olhos amarelos reúne pessoas com habilidades especiais em uma pequena cidade abandonada. De inicio essas pessoas não sabiam, mas estavam em um tipo de competição. O ganhador, no caso o único que conseguisse sair vivo daquilo, seria "honrado" com a chance de abrir os portões do inferno e trazer centenas de demônios para a Terra. A competição foi acirrada. Houve traições, mortes, demônios e pactos. Durante esses eventos, uma dupla de irmãos caçadores (sendo um deles uma das pessoas especiais) tentou impedir que o portão do inferno fosse aberto. Não obtiveram sucesso. Utilizando-se de uma arma antiga, uma pistola colt do século XIX, que também servia como chave, um negão invocado conseguiu abrir os portões. Várias fumaças negras, centenas delas, saíram de dentro daqueles portões danados. Cada uma era a personificação de um demônio. Essas nuvens ganharam os céus e se espalharam pelos quatro cantos do mundo possuindo aleatoriamente várias pessoas inocentes que, da noite pro dia, se transformavam em criminosos hediondos.

Zeca Yoshida já estava ficando irritado com o seu insistente hospede. Já haviam se passado seis meses desde que Francisco adentrou a sua porta. O velho havia dito que só iria ficar ali tempo o suficiente para ajeitas suas coisas. – Mais que "ajeitada" demorada. – Reclamava Zeca todas as vezes que tinha a oportunidade de falar com Francisco. O velho tinha saído de manhã cedo e até agora não havia voltado. O japonês planejava expulsa-lo assim que o coroa voltasse. Mas parecia que o desgraçado sabia disso, pois estava demorando como a zorra.

Hoje era dia de festa. Dia da padroeira da cidade. Deverão ter festa, bebida e comemoração por todos os cantos. Zeca esperava que a noite o restaurante ficasse cheio de clientes. O sol já começava a sumir. Eram cinco e meia. Zeca já começava a estranhar. Os festejos já deveriam estar começando a acontecer. Misteriosamente, ninguém estava andando pelas ruas. O dia que era pra ser mais agitado estava mais morto do que um dia regular.

- Parece até domingo – Reclamou o garoto que trabalha pro japa.

- Nem os domingos são tão parados assim, menino. Aí tem coisa. Sabe de uma? Fique aqui. Tomando conta do restaurante. Vou ver o que é isso e volto já, já.

- Pô, senhor Zeca!? Vai me deixar aqui sozinho?

- É rápido, menino. Vou num pé e volto no outro. – O patrão passou a mão pela cabeça do rapaz e logo depois cruzou a porta do seu restaurante. Poucos minutos depois já tinha andado pra bem longe dali, saindo do campo visual do rapaz.

A comemoração principal acontecia no centro da cidade. Em uma rua grande o suficiente pra caber um trio elétrico e um "mundo" de gente. Aquilo não chegava nem perto dos carnavais da capital, mas já era alguma coisa. Quando Zeca chega ao centro ele encontra o trio, os carrinhos de cachorro quente, os balões, as figuras da santa... Encontra tudo da festa menos as pessoas.

- Isso é coisa de demônio! – Reclamava o japonês. Que já tinha uma larga experiência em coisas desse tipo.

- Ora, ora. Sobrou um. Carne fresca. – A voz vinha de trás de Zeca. O japonês virou-se para ver quem era. Uma dupla de jovens mal encarados estava de olho nele. Um era negro de cabelo rastafari e o outro era louro com cabelo estilo Punk. Ambos tinham os olhos completamente negros, revelando o que realmente eram.

Antes mesmo da luta começar, Zeca já sabia que ela estava perdida. Ele era velho demais, estava desarmado e há muito tempo havia parado de caçar. Estava despreparado enquanto os dois demônios eram o que havia de pior no tipo. O japonês tentou dar um chute sem sombra no rosto do rastafari, mas esse conseguiu parar o golpe com apenas uma das mãos. Pra piorar, a criatura torceu o pé do homem. Agora Zeca também mancava, tornando sua situação ainda mais desesperada.

- Não entendo como você conseguiu escapar. Nossa gente possuiu a cidade inteira. Responda-me. Como você conseguiu esconder sua presença de nossa gente?

O japonês não sabia com certeza qual era a resposta para aquela pergunta, mas podia deduzir. Francisco devia ter colocado algum feitiço de proteção em sua casa. – Velho danado. – Pensou o japonês. E pensar que no inicio do dia ele queria expulsa-lo de sua casa. Zeca passou a sentir um pouco de vergonha de si mesmo por causa disso.

- Vamos, Adagio. Acabe com ele. – Pede o Punk ao rastafari.

- Tenho uma idéia melhor, Arcturus.

Adagio, o demônio rastafari, olha para cima fazendo o céu escurecer. Uma nuvem negra desce dos céus e entra pela boca do japonês. Zeca não era mais dono de seu corpo. Agora ele pertencia à outra entidade.

- Então, Daath? Gostou do meu presente?

- Esperava alguma coisa mais nova, mas tudo bem. Vai servir.

Em outro canto da cidade, Francisco e sua pupila, Cíntia, estavam tendo problemas para escapar de uma centena de demônios que havia cercado os dois em um mercadinho. Por sorte o lugar tinha muitas embalagens de sal. A dupla de caçadores não encontrou problema em espalhar pelas portas e janelas do estabelecimento linhas de sal, selando assim o lugar e impedindo que alguma criatura das trevas entrasse.

- Vamos ficar aqui até quando? – Perguntou a jovem que já estava irritada com a situação.

- Isso não está certo!! Como foram aparecer tantos demônios em uma cidade só?! Nunca vi isso acontecer antes.

- Mas também. Claro que tu nunca viu isso acontecer antes. Você ficou trinta anos na cadeia, lembra?

- Conheço um feitiço que eliminaria uma quantidade imensa de demônios, mas para isso vou precisar de uma virgem.

- Nem olhe pra mim, velho. Desde que meu padrasto passou a se interessar mais por mim que não sou mais virgem.

TRATRATRATRATRATRA! – Abaixa!! – Grita o velho a jovem, que obedece imediatamente ao comando. – Que merda! Onde esses tinhosos de uma figa encontraram uma metralhadora?

- Acorda, velho. Aqui na região tem umas três ou quatro bocas de fumo. -TRATRATRATRATRATRA! Os tiros continuavam. Mas nenhum deles chegou sequer perto da dupla, pois ambos estavam deitados no chão úmido do mercadinho. – O que vamos fazer, Francisco? O que vamos fazer?

- Calma menina. Tive uma idéia. Vou lá fora distrair esse pandemônio, enquanto isso você sai pelos fundos e dá um jeito de trazer uma virgem pra cá.

- Você pode com tantos?

- Não sei. Nunca briguei com tanta gente assim, mas também, depois do meu contrato, nunca mais perdi uma briga.

Se arrastando pra evitar os tiros, Cíntia foi até os fundos e saiu por uma porta escondida que dava acesso à rua de trás. Ela saiu correndo dali sem destino certo procurar por alguém da cidade que ainda tivesse castidade. Do jeito que aquela cidade era, mesmo que a maioria das pessoas não tivesse sido possuída, ainda assim seria uma missão difícil. Paralelo a isso, Francisco saia do mercadinho pela porta da frente. O caçador experiente se impressionou com a quantidade de olhos negros que o encaravam, mesmo assim ele não fraquejou. Pulou pra cima da multidão e espalhou socos e chutes para tudo que era lado.

O contrato que Francisco tinha feito anos atrás o deixou estupidamente forte. Nem mesmo uma centena daquelas criaturas das trevas estavam sendo páreas para ele. Vinte, trinta, quarenta, cinqüenta. Podiam vir um de cada, ou todos de vez, não fazia diferença. Parecia que nenhuma criatura, deste ou do outro mundo, podia com Francisco quando este estava virado na zorra.

De repente os demônios a sua volta pararam de brigar, Francisco estranhou. – O que será que estão planejando? – Se perguntou o idoso. As criaturas estavam dando espaço para que um deles em especial pudesse chegar perto do sertanejo. Tamanho foi o espanto quando Francisco percebeu que quem estava a sua frente era seu amigo de longa data, Zeca. Demorou um pouco pra a ficha de Francisco cair. Aquele não era seu amigo. Era só o corpo dele. A alma era de outra coisa. Também um conhecido das antigas, só que não um amigo.

- Já faz quase quarenta anos, não?

- Não é possível!

- É muito tempo. Você já brincou demais. Agora é minha vez. Psssiuuuu!! – Daath deu um assovio inumanamente agudo. Em resposta um cão preto surgiu correndo da multidão. Francisco olhou para o animal apavorado, ele já sabia o que aquilo significava. – Pega, pega. – O cachorro correu em disparada na direção de Francisco. Este, por outro lado, não teve outra opção a não ser sair correndo dali. Os outros demônios ao presenciar aquela cena não fizeram nada. Apenas riram da desgraça do homem.

A rua estava deserta, estava difícil encontrar uma pessoa, quanto mais uma virgem. As únicas pessoas que apareciam estavam possuídas, levando Cíntia a acreditar que não havia sobrado ninguém na cidade.

Durante as andanças da moça, ela acabou se esbarrando com a academia em que treinava antes de passar a receber os ensinamentos de Francisco. A academia estava aberta. Levando Cíntia a acreditar que os demônios haviam conseguido invadir o lugar e possuir ou matar todos que estivessem ali. Cíntia não devia parar pra examinar o lugar, mas sua preocupação com seus amigos era mais forte que sua prudência, ela entrou na academia e procurou por alguém. Não havia ninguém lá. Ao menos era isso que a moça acreditava até ouvir um barulho vindo do quartinho dos fundos. A moça abriu a porta com cuidado, já esperando ter que enfrentar alguma entidade. Ao invés disso só encontrou um grupo de três garotas, um garoto e mais seu antigo instrutor, Marcelo, encolhidos num canto. Incrivelmente assustados. Cíntia viu os rostos deles. Pessoas possuídas não expressavam muitos sentimentos, quanto mais pavor. Eles estavam limpos. Por um momento Cíntia ficou sem entender porque as criaturas das trevas não entraram na academia, mas aí a ficha caiu. Francisco deve ter colocado um feitiço de proteção na casa. O mesmo feitiço que colocou na sua e na casa em que estava hospedado. O feitiço em questão não impedia nenhuma criatura das trevas de entrar, mas fazia com que as pessoas que estivessem dentro da casa ficassem invisíveis para eles. O feitiço funcionava até o momento em que os tinhosos não cruzassem os limites da casa. Se isso acontecesse o feitiço se tornaria inútil.

Olhando para as meninas que estavam ali, Cíntia passou a se perguntar se elas seriam ou não virgens. De qualquer jeito aquela era a melhor chance que tinha. O problema agora, pensava ela, era dar um jeito de levar o trio até o mercadinho onde Francisco estava brigando com o exercito danado. A moça não sabia, mas há essa hora o corpo de Francisco já estava morto e ensangüentado no quarto que antes pertencia a Zeca. Tornando o plano assim impraticável.