Capítulo 5: Virgin Black
Cíntia não teve dificuldade em levar Marcelo e os quatro adolescentes para o mercadinho onde ela achava que Francisco se encontrava. O único empecilho foi um possuído que ficou no caminho do grupo. Mas Cíntia não encontrou problema em lidar com ele. Com menos de três golpes a menina conseguiu quebrar o pescoço do individuo. Marcelo, que a tudo assistia, ficou impressionado com a habilidade da jovem. O mestre Kung Fu não sabia onde ela estava nesses meses que andou sumida, mas com certeza não estava parada. Pelo contrário, ela parecia ter melhorado e muito, se é que aquilo era possível. Marcelo até chegou a se perguntar se ela não teria enfim ultrapassado suas habilidades.
Assim como havia saído, Cíntia entrou no bendito mercadinho escondida, usando a porta dos fundos. Os quatro adolescentes e Marcelo também entraram no local pela mesma entrada. – Sim? – Perguntou Marcelo. – O que faremos agora?
- Francisco sabe de um jeito de nos tirar dessa loucura.
- Francisco? Francisco Francisco?
- Sim, o velho que trabalhava pro senhor.
- As pessoas da cidade enlouqueceram! O que um sexagenário caindo aos pedaços pode fazer quanto a isso, menina?
- Muito mais do que você imagina. – Cíntia olhou cautelosamente para o lado de fora do mercadinho. A multidão demoníaca ainda estava lá, mas ela não conseguia ver o seu mestre. A jovem já começava a esperar pelo pior. – Droga! Acho que Francisco está morto.
- E agora? – Perguntou Marcelo.
- Bom, não sei fazer o feitiço que o velho tinha em mente, mas não tem problema. Basta perguntar a ele.
Marcelo tentou ignorar a parte em que Cíntia falava sobre feitiços. - Mas você não disse que ele estava morto?
- Sim? E daí?
O dia era tão estranho que os quatro adolescentes que estavam com Marcelo não reclamaram de nada que Cíntia fazia. Queriam uma solução para aquela situação e estavam dispostos a aceitar qualquer uma. Não importava o quão estranha ou absurda ela parecesse. Marcelo, por outro lado, toda hora fazia perguntas à caçadora. Que ou as ignorava ou dava respostas extremamente vagas.
- Vou precisar fazer um negócio lá em minha casa. Fiquem aqui escondidos fazendo o mínimo de barulho possível. Ah. Já ia me esquecendo. Mantenham as portas e as janelas sujas de sal. Isso é muito importante.
- Mas que coisa sem sentido!
- Cala boca, Marcelo! Só obedeça! – Marcelo se assustou com a resposta ríspida de sua antiga aluna. Ela nunca antes sequer havia levantado a voz ou reclamado com ele. Isso o pegou de surpresa. Por fim, todos resolveram obedecer a Cíntia, que voltou a sair do mercadinho pelos fundos só que desta vez com um destino já estabelecido. Sua casa.
Marcelo e os quatro adolescentes (três meninas e um menino) ficaram na mesma situação que estavam anteriormente, na academia. Escondidos em um canto esperando que um milagre acontecesse. Pelo menos agora Cíntia havia trazido mais esperança para eles. Ao menos mais esperança para os jovens, pois Marcelo não acreditava que sua antiga pupila pudesse fazer alguma coisa. Enquanto ficava ali, sem nada pra fazer a não ser rezar, Marcelo ficava se lembrando das barbaridades que viu naquele dia. Pessoas que ele julgava conhecer intimamente matando, esquartejando ou fazendo coisa pior. O mundo havia ficado louco, acreditava ele. Era isso ou o apocalipse estava chegando. Analisava o instrutor que nunca foi na vida muito religioso.
Crash! As cinco pessoas que estavam se escondendo no mercadinho tomam um baita susto. Não é de se estranhar. Imagine você em uma situação dessas, onde o menor barulho já é motivo de pânico, ouvir o som ensurdecedor de um fusca sendo arremessado como se fosse uma bola de tênis pelo mercadinho adentro. Quebrando tudo o que estava na frente e, pra piorar, estragando as linhas de sal que mantinham as criaturas do lado de fora.
As centenas de criaturas que estavam do lado de fora agora podiam entrar no mercadinho. E assim o fizeram, passando por cima dos escombros e dos produtos que estavam espalhados por toda parte. O quinteto, por "sorte" não havia sofrido nenhuma lesão, pois estavam no fundo do estabelecimento.
- Garotos, fujam daqui! – Ordenou Marcelo, fazendo com que os quatro adolescentes corressem para fora através da incrivelmente útil porta dos fundos.
- Ora, ora, ora. Francisco, seu bastardo. Vejam só, pessoal. O velho danado estava escondendo gente não possuída aqui. – quem falava era o líder do grupo. Um coroa japonês que já foi uma boa pessoa. Agora ele era um demônio, ele era Daath.
- Aaaahhh! – Marcelo, em um ato desesperado, tentou dar uma voadora na cara do japa. A voadora foi perfeita. A melhor que ele já fez na vida. No entanto, Daath possuía armas que desequilibravam e muito aquela competição. O demônio só precisou fazer um gesto com a mão para que Marcelo voasse e ficasse preso contra a parede. Daath estava usando uma diabólica telecinesia.
- É. Esse corpo é bem melhor que esse aqui. – Disse o demônio. Logo em seguida Daath, apontando o dedo indicador para a cara de Marcelo, fazendo com que o pobre homem ficasse de boca escancarada com sua telecinesia. Depois uma fumaça negra voou de dentro do corpo de Zeca e passou para o corpo de Marcelo, que agora era Daath.
Zeca, agora em pleno controle de si mesmo, ficou espantado ao se ver cercado de tanta gente possuída.
- Ora, ora. Você também é pactuado, certo? Vejamos se eu ainda me lembro. Vendeu sua alma para salvar sua querida filhinha. Mas que nobre! – Dizia Daath, se referindo a Zeca e usando um tom de deboche.
- Foi? Foi você?
- Que bom que se lembra. Pensei que já tinha esquecido.
Roooaarr! Zeca mal teve tempo de ouvir o rosnado do cão preto. Antes que notasse que ele já estava ali, o bicho infernal pulou sobre o coitado e em menos de um minuto ceifou sua vida. Espalhando sangue por tudo que era parte. Os demônios que estavam ali, assistindo a cena, apreciaram o "espetáculo".
Como Cíntia esperava, sua mãe não estava em casa. Ou estava morta, ou tinha sido possuída também. A moça não sabia escolher qual das duas opções era a pior. A casa de Cíntia era simples, humilde, apertada e um pouco bagunçada. A moça demorou quase uma hora para encontrar o que tanto procurava. Um tabuleiro espírita. Um presente que Francisco lhe deu por já prever o que ia lhe acontecer. A função do tabuleiro era de manter os dois em contato, mesmo após a morte do velho. Através daquele instrumento místico a jovem conseguiu trocar umas idéias com o seu falecido mestre. O velho lhe explicou detalhadamente como se fazer o feitiço para exorcizar todos os demônios da cidade, no entanto a jovem não gostou nadinha da resposta, pois o feitiço exigia o sacrifício de uma virgem.
Uma pessoa morta tem muito mais acesso a informações envolvendo o sobrenatural do que os vivos. Aproveitando-se disso, Francisco também advertiu sua pupila de que os quatro adolescentes não estavam mais no mercadinho, pra piorar, os possuídos conseguiram pega-los e, depois de torturas e humilhações inomináveis, eles não serviam mais para o ritual, se é que me entendem. – E agora? O que faço? – Perguntou a jovem ao seu mestre. – Tem um menino que trabalha no restaurante do Zeca que deve servir. Ele não é "uma" virgem, mas deve servir. – Respondeu o defunto. – Mas tome cuidado. O demônio Daath está controlando o corpo do seu antigo mestre. Ele será o pior dos seus problemas.
Cíntia tinha se tornado mais fria depois do treinamento com Francisco. Ela ouviu o que o defunto tinha a dizer sem nem se emocionar com os fatos revelados. Parecia não se importar mais com o bem estar de seus amigos. Tinha se tornado uma arma viva.
Cíntia já havia ido para o restaurante do Zeca umas duas ou três vezes durante esses quatro meses em que começou a treinar com Francisco. Por isso sabia muito bem onde ele ficava e não teve dificuldade em chegar até lá.
O restaurante estava imundo. O fedor de sangue ia longe. Cíntia viu o estado horrendo em que o corpo do seu mestre se encontrava mesmo assim não se abalou muito. Sua preocupação era encontrar o garoto. Precisava dele para exorcizar todos os demônios da cidade. Por sorte o menino não estava muito longe dali. Estava trancado na cozinha, se escondendo em baixo da pia. Cíntia não teve dificuldade em encontrá-lo. Nada que um arrombamento de porta não resolvesse.
O menino quase teve um infarto quando viu a moça. O jeito bruto que ela usou para tratar dele também não ajudou muito. Com um soco na testa, Cíntia conseguiu botar o menino pra dormir. A caçadora pegou o rapaz desacordado e o levou até a sala da casa. Assim era melhor. Sem explicar nada pro menino. Quanto menos ele soubesse melhor. Afinal ela duvidava muito que alguém iria aceitar se sacrificar pelo bem da cidade que, segundo ela, não valia muita coisa.
Depois de estender o corpo do guri no tapete da sala, a jovem se preparou para começar o ritual. Para isso, entretanto, precisava de uma faca. Por isso precisou ir para a cozinha por um instante.
- Nossa! Você vai fazer isso mesmo? É preciso ter muito sangue frio, garota. Até mesmo para um caçador. – Quando Cíntia voltou da cozinha com uma faca na mão ela percebeu que seu antigo mestre, ou melhor, Daath, estava esperando por ela na sala. – Sabe, menina. Nada disso é necessário. Por que não fazemos como pessoas civilizadas e entramos em um acordo, em?
- Nem pensar! Não quero vender minha alma!
- E quem disse que quero sua alma? Sua alma o meu pessoal já tem! Você se lembra o que fez no passado, não? – A moça engoliu um seco ao ouvir aquilo e não conseguiu responder foi nada. – Veja bem. Você deixa o meu pessoal em paz. Não mata esse moleque e, por conseqüência, não faz esse ritual. Em troca eu adio o seu julgamento por, digamos... Cem anos, duzentos, trezentos... Sei lá. Por tempo indeterminado. E então? Topa? – Cíntia continuou sem reação. – Vamos, mulher! Não tenho o dia todo.
- Não. – Disse Cíntia curta e grossa. Tão amedrontada que suas palavras quase não conseguiam sair de sua boca.
- Bom. Que depois ninguém venha me dizer que eu não tentei ser civilizado. – Crack! Daath só precisou fazer um gesto de mão para que, com sua telecinesia, conseguisse quebrar o pescoço da jovem. Agora ela se encontrava jogada no chão. Morta. As esperanças de salvar a cidade morrem junto com ela.
Logo após matar a garota, o tinhoso sai da casa ignorando o pobre rapaz, que fica lá, estendido no chão como se fosse lixo. O último humano vivo da cidade que não havia sido possuído.
