Saint Seiya pertence à Masami Kurumada e Toei
O nome Carlo é de autoria da fanficwritter Pipe
Boa Leitura e divirtam-se :)
As namoradas do zodíaco
por Pisces Luna.
Capítulo XXII: O que restou de nós
"Mikage, posso falar com você?".
"Hum...".
"É só um minuto".
"Ok" - ela respondeu, deixando a casa de Capricórnio em que mantinha uma conversa com a irmã e seguindo a pessoa silenciosamente, descendo as doze casas. - "Onde estamos indo?".
"Não sei" - respondeu franco - "Aonde você quer ir?".
"Para o seu quarto" - pensou consigo mesma, mas respondeu outra coisa - "Ao lago seria ótimo".
Eles iam, ainda em silêncio constante, até chegarem ao local proposto. O mesmo lugar onde ela tinha sido salva de um afogamento há algum tempo atrás.
Sentaram-se a margem do lago, tranqüilo, o sol refletia a superfície tornando quase insuportável mira-lo. As pedras e as libélulas eram as únicas testemunhas daquele encontro embaraçoso e delicado.
Não se podia dizer que Shaka estava confuso, mas temeroso pelas palavras dela. Ora, nunca fora de temer oponente, mas no jogo em que vinha mantendo nos últimos tempos o fato de estar ao lado dela deixava-o completamente debilitado. Estava começando a acredita no que Shion pregava: o amor os deixava fracos. Então, por que quando ela não estava por perto se sentia triste? Ficava mal-humorado na maioria das vezes apesar de fazer o possível para demonstrar a mesma passividade de sempre.
A garota de cabelos castanhos meio loiros – esse tinha escala de tom – pegou algumas pedras que estavam próximas de seus pés e começou a acertá-las na água, vendo-as baterem três vezes na superfície para depois afundar. Nunca fora tão desconfortável estar ao lado dele. Que vergonha! Que humilhação passara. Quando iria jogar a quinta pedra, sentiu uma mão firme impedir a sua de executar o ato.
"Mikage, eu...".
"Você não precisa falar nada, Shaka" - ela retribuiu - "Eu forcei a barra, desculpe. Podemos ser amigos se for só esse o seu desejo, acho que eu estava meio carente, foi só isso...".
"Carente?" - ele repetiu em tom de descrença - "Duvido".
Ela se calou e desviou o olhar para o chão, tentando afastar-se dele.
"Você já deu sua resposta, já não bastou ter me humilhado na festa e agora ainda continua a repetir palavras que eu não quero...".
"Mikage, desculpe. Eu acho que fiquei surpreso e na hora não soube como reagir. No fundo, queria que eu tivesse tomado a iniciativa...".
Silêncio.
"Eu adorei todos os momentos que passamos juntos. Na infância, agora na fase adulta e por quanto tempo você ainda me quiser, eu quero estar ao seu lado, mas não como amigo..." - ele falou bem perto da sua orelha - "Me deixe ser seu homem" - e depositou um beijo em seus cabelos castanhos e perfumados - "Me desculpa?".
"Não".
Ele sentiu como se a garganta ficasse seca e depois perguntou sem pestanejar.
"Por quê?".
"Você me magoou! Eu quero que faça por onde para reconquistar minha plena confiança... novamente".
"Certo...".
"E pode começar..." - ela fica de frente para ele e tira a máscara completamente deixando a mostra todo o belo rosto delicado - "... dando-me muitos beijos".
Ele abriu as pálpebras e ela pode ver o par de opalas azuis esverdeados encarando-a. Shaka espantou-se. Fazia tempo que não via aquelas feições e aquele nariz arrebitado tão bonitinho. Seu rosto se alongara, porém ainda podia ver tênues covas de um sorriso tímido marcar suas bochechas róseas. Estava tão vidrado medindo casa milímetro daquele rosto que se aproximou dela tocando a ponta de seu nariz e sorriu quando acariciou sua têmpora esquerda.
"Eu quase tinha me esquecido dessa marquinha de catapora".
"Boboca! Você falava que eu era furada por causa disso".
Ele sorriu se aproximou dela e segurou-a pelos braços, desceu a cabeça e depositou um terno beijo em seus lábios frescos. Com um pouco de incerteza e receio forçou-a a abrir os lábios, dando passagem com a língua. As mãos dele subiram por detrás do pescoço dela, enlaçando os dedos em seus cabelos e depois a soltando para fitá-la. Sem dúvida não eram mais crianças, não se sentiam como tal e nunca foram tão felizes por finalmente deixarem aquela síndrome de Peter Pan.
"Agora quero mostrar o quanto eu amadureci".
"Mesmo depois da reunião, você...".
"Essa reunião só serviu para me mostrar o tempo que perdi sem tocar sua pele e te sentir perto de mim" – falou a milímetros de seus lábios. "Nossa! Como beijar a pessoa que se gosta é maravilhoso!" - pensou em deleite.
Ela, por sua vez, fechou os seus olhos e duas lágrimas avantajadas rolaram, marcando seu rosto.
"Desde o dia em que você me carregou para casa nos braços, quando eu cai da bicicleta, eu já gostava de você. É claro, era uma coisa tola, de criança, mas quando eu cheguei nesse santuário, com você do meu lado..." - um soluço saiu de seus lábios e ela tampou o rosto com as duas mãos, tentando conter a emoção.
As testas se colaram uma contra a outra, assim com as mãos entrelaçadas e eles se acostumaram a isso, até serem levados cuidadosamente ao chão e ficarem se acalentando até o cair da noite áurea, o presente de todos os apaixonados e deslumbrados pelo amor.
"Kanon... Kassumi... e eu? E nós, Shion?" - perguntou-se Lolly quando uma das servas foi avisá-la de que o Mestre fazia questão de sua presença na 13ª casa zodiacal naquele exato instante.
"O que será que ele quer?" - a amazona de Câncer pensava enquanto ajeitava um pano com água gelada sobre a testa de Kassumi enquanto esta repousava no leito da enfermaria.
"De qualquer modo, você deve ver o que está acontecendo. Eu fico com ela mais um pouco".
"Alex, você já está aqui há muito tempo!"
"Sem problema, eu fico aqui agora".
"Juliane?" - espantaram-se ao vê-la na enfermaria, com os cabelos ruivos e compridos soltos até metade das costas. Acabara de chegar ao ambiente.
"Logo ela vai acordar e pedir informações e eu sei como é horrível ficar presa em uma enfermaria" - ela riu com a lembrança, pois, afinal, não era tão ruim ficar em uma enfermaria com Ikki. Logo depois entristeceu, pois a amazona de gêmeos não teria Kanon para consolá-la quando acordasse - "Vão repousar, eu fico".
"Obrigada, Juli" - disse Alex se aproximando - "É um favor que nos faz e a Aspasie também".
A médica estava sentada em uma cadeira, cochilando com a cabeça sobre o próprio ombro e parecendo realmente exausta.
"Essa aí morre, mas não sai da cola dos pacientes..." – admirou-se Alex com a dedicação da amiga.
"Pois é, podem ir. Tenho certeza que alguma amazona aparecerá para me fazer companhia" – incentivou a amazona de touro enquanto se aproximava da cama em que Kassumi repousava e terminava por cobri-la com um fino lençol de algodão.
As outras duas saíram e não demoraram a retomar questões sobre o assunto anterior enquanto caminhavam até as doze casas.
"Certo, você quer que eu vá com você?" - perguntou Alex seguindo lado a lado com Lolly.
"Não precisa. Com toda essa confusão você não teve tempo de falar comigo sobre Sorento".
"Sorento... se foi..." - ela sibilou parecendo triste momentaneamente - "Ah! Mas, você sabe como ele é né? Todo charmoso, fiquei ainda mais caída por ele, se é que isso é possível, mas eu to bem. Um dia a gente vai se ver, eu tenho certeza! Agora vai amansar a fera lá em cima" - ela apontou para o alto, indicando o enorme salão que se estendia mais para frente, enquanto elas passavam diante da casa de gêmeos.
"Você fica? Não quer nem ir dar um beijinho no Cacá lá em casa?" – perguntou Lolly com uma nota de alegria.
"Haha... Amy deve estar cuidando disso agora e eu não quero atrapalhar e acabar na parede da casa de Câncer XD".
"Tchau, Alex".
Ela fez um aceno discreto, entrou em sua casa zodiacal e encontrou Saga sentado sozinho em sua poltrona preferida fitando a parede.
"Pai?" - ela perguntou em tom de brincadeira, mas estava tão triste por tudo que apenas olhou-o.
Ele virou o rosto, abriu um dos braços e pediu com o olhar que ela viesse se sentar perto dele. Obedeceu. Sentou no braço do estofado e o abraçou desajeitado e este se deixou guiar pela discípula.
"Essa casa vai ficar bem silenciosa agora".
"Vai sim".
"Quando Kassumi volta?".
"Amanhã de manhã. Por que não foi vê-la?".
"Não tive coragem e, além do mais, eu sou a cara do Kanon, imagino que isso poderia martirizá-la".
"E nós, papi?".
"Nós esperamos".
"Odeio essa palavra" - replicou com impaciência, largando-o e seguindo pelo corredor até chegar a seu quarto.
Atenção!
Perigo! Você está entrando por sua própria conta e risco!
Ela sorriu tocando o cartaz da porta e lembrando de todas as piadas daquele dia, antes de irem ao shopping, depois recordou das partidas de truco de madrugada e, por fim, da cena que se sucedera a pouco menos de vinte e quatro horas, quando estavam arrumando os cavaleiros para a festa do trocado. Entrou no ambiente de cores escuras e frias e fechou a porta: seria a primeira noite que ela dormiria sozinha desde que chegara ao santuário de Athena.
"Mandou me chamar?".
"Sim".
"Pois, pode começar a falar".
"É meio complicado, mas eu quero que você entenda: é o melhor para todo mundo".
"Diga" - disse sem pestanejar, sentando no divã que fazia parte da decoração e ficava em um pequenino escritório ao lado da sala de reuniões.
Ele se calou, sentou-se em sua cadeira almofadada e disse de uma vez:
"Acabou".
O silêncio foi à resposta de ambos e por um momento ela pensou em fazer um escândalo e chorar, mas se conteve.
"Por quê?" - ela replicou simples.
"Porque é melhor".
"É por orgulho?".
"Não".
"Você tem outra mulher?" – perguntou apenas para ver sua reação.
"Por Zeus, nunca" - ele replicou prestes a perder a compostura - "Eu não posso mais cuidar do santuário e manter um relacionamento".
"Você é um homem".
"Não, eu sou o Mestre".
"Você é um egoísta " - ela falou com tristeza transformada em raiva.
"Provavelmente, eu sou".
"Como quer que eu me sinta?".
"Amada" - falou seriamente - "Faço isso para seu bem...".
"Pois bem, eu entendo que queira manter um exemplo e por isso acaba com a única coisa que parecia ser verdadeira em você".
"Eu não me arrependo de nada do que disse a você durante esse tempo que está aqui no santuário".
"Fim" - falou definitiva com uma expressão tão sóbria que não pareciam os olhos de Lolly por trás da máscara.
Ela foi até a porta, prestes a ir embora, mas quando colocou a mão na fechadura sentiu uma outra sobre a sua.
"Não posso deixá-la partir" - ele falou como se estivesse em uma crise de personalidade – "Não sem entender porque faço isso".
"Eu já entendi tudo. Não sou uma frágil Lolita que não sabe nada da vida".
"Não pode ficar comigo. Mas...".
"O que você quer?".
"Eu não sei" - falou honestamente.
"Então, me deixe ir".
Ele a puxou e manteve um braço de cada lado do corpo dela, o rosto virado para não encará-lo, um misto do que se tornaria choro ou injúria. Lolly retirou a máscara, deixando a mostra o rosto com os olhos verdes expressivos, a pele meio carmim, os lábios grossos, o queixo afunilado, a testa lisa e no início dela, pequenos fios novos de cabelos prateados, quase brancos, lisos e finos. Ela disse:
"Sabe que eu deveria te matar então?".
"Sim"
"Estaria disposto a me dar a sua vida para manter uma tradição?".
"Em nome de Athena e da minha função no santuário, eu não permitiria morrer nem mesmo pelas suas mãos, Lollita".
"Você é louco".
"O que quer de mim?" - ele perguntou quase caindo exausto pelo jogo de palavras.
"Um beijo".
Ele obedeceu prontamente, sedento, achatando seus lábios ávidos contra o dela enquanto as mãos tocaram o corpo esguio da amazona. Com ela se sentia fraco, com ela se fazia humano, com ela era gigante - e mataria quem a contrariasse - com ela era feliz e com ela sempre amou a tudo. Língua, saliva, desejo e tristeza se misturaram até ela se livrar dele, olhá-lo com frieza e dizer:
"Você morreu para mim hoje".
Retira-se de vez, deixando-o solitário e absorto em pensamentos.
"Foi melhor assim" - pensou erguendo o queixo em sua postura grandisiosa e voltou-se ferido para seu aposento particular. Ele não sabia o que doía mais: seu ego ou seu coração.
No Japão, Saori, Seiya, Shun e Nana tinham saído para passear e conhecer os arredores. Foi uma tarde bastante agradável, considerando que a deusa e o cavaleiro de Pégaso pareciam preocupados com o santuário e notícias sempre eram bem-vindas. No fim do roteiro turístico improvisado estava à visita ao orfanato "Filho das estrelas" e a italiana ficou fascinada com todas as crianças, apesar de não entender nada do que elas falavam.
"Tio Shun, você voltou" - respondeu uma menininha correndo para seus braços e pulando em seu colo.
"Olá, Nuriko" - ele falou sorrindo - "Como vai à escola?".
"Um saco, o Makoto pega meus cadernos toda hora".
"Ela que é uma chata e não sabe dividir".
"Quer levar um outro tapa, seu tampinha" - replicou brandindo o pirulito adocicado que ela carregava consigo.
"Tampinha?" - perguntou Shun - "Não pode chamá-lo assim".
"Mas, é o que ele é! Eu sou maior!".
Nana não pode deixar de sorrir ao ver essa cena. Primeiro porque as crianças eram muito engraçadas, apesar da peraltice, segundo porque aquela menina com aquele doce lembrava Lolly, no dia em que todos foram ao cinema. Nuriko pareceu finalmente notar que a moça estava ali, ao contrário das outras crianças que a fitavam com curiosidade absurda.
"Tio Shun, quem é essa moça bonita?" - perguntou erguendo a mão para tocar os cabelos loiros da garota, já que a maioria das japonesas não tinha cabelo originalmente daquela cor - "Ela é sua namorada?".
O rapaz corou e depois riu por um momento.
"Não, ela é uma amiga minha e do Seiya!".
"Ela é namorada do tio Seiya?".
"Não...".
"Nuriko, sua lenta! A namorada do tio Seiya é a moça do cabelo roxo" – disse Makoto se fazendo de sabido.
"Ahh" - ela balançou a cabeça em concordância.
"Shun, o que estão dizendo?" - perguntou Nana curiosa.
"Hãn... falaram que você é bonita e perguntaram se é minha namorada" - ele disse entre risos - "Crianças".
"Pois é" - ela replicou concordando.
"Tio Shun, posso sentar no colo dela?".
"Mas, pensei que você só gostasse de sentar no meu colo".
"Sim, você ainda é meu preferido, mas ela é diferente e parece boazinha".
"Ela é boazinha" - disse conciliador - "Nana, ela quer ir com você?".
"Co - comigo?" - ela retorquiu espantada.
"Pode?".
"Claro" - ela replicou com um sorriso de contentamento erguendo os braços para receber a garotinha que foi passada com dificuldade até se sentar em seu colo.
"Ohayo, Nana".
"Ohayo, Nuriko".
"Nana significa sete em japonês" - ela falou crente de que ela tinha entendido.
"Shun...".
"Hahaha... ela respondeu que Nana significa sete em japonês".
"Não sabia disso".
"Ela não sabia" - ele traduziu.
Depois de passar o resto do dia de tradutor, eles se despediram e voltaram para a mansão Kido, foram recebidos por Tatsume com uma mesa repleta de frutos do mar, conversaram e se prepararam para ir deitar.
"Acho que está tarde" - replicou Saori conferindo o relógio da sala de visita, vendo que já passava da meia-noite - "Boa noite".
"Tchau" - falaram em coro.
"Acho que também vou" - falou Seiya espreguiçando-se - "Estou podre, aquelas crianças me matam de tanto brincar".
"Você é igual eles".
"Né? O que eu posso fazer? Hehe... eles perguntaram por Kiki, estão com saudades dele".
"Como dissemos, está em Rozan" - falou Nana em fluente grego.
"Vou puxar as orelhas do Shiryu por isso" - disse sapeca - "To indo".
"Até amanhã" - completou a garota vendo-o se afastar - "E você? Não tem sono?".
"Acho que não, estou com um pouco de insônia" - ele refletiu - "Nana, você acha que eles...".
"Eles?".
"Você sabe".
"O quê?".
"Estejam... ah! Esquece, acho que fiquei espantado".
"Por eles estarem tão íntimos?".
"Sim" - ele replicou - "Isso mesmo".
"Saori parece outra pessoa, está tão dócil e meiga, não parece à mesma mulher. Eu lembro que quando a conheci, apesar da hospitalidade, achei-a mimada, talvez por ela carregar o título de deusa nas costas...".
"Não gostaria de ser uma divindade?".
"De modo algum, para isso teria que abrir mão das coisas que faço agora e de passar muito tempo com meus amigos e com você".
Ele sorriu. Por um acaso ele não se enquadrava na categoria "amigo"?
"Não gostaria de ficar longe de ti" - ele disse - "Por isso, agradeço por não ter mais Hadesdentro de mim".
"Shun. Não precisa falar do assunto".
"Mas, eu devo desabafar com alguém" - repetiu - "Se estiver sem sono, não quer passear comigo pelo jardim?".
"Sim! Podemos ir!" - ela se ergueu, arrumando sua blusa de moletom azul clara e sua calça jeans, enquanto Shun ostentava uma blusa verde e uma calça branca com suspensórios.
Pelo jardim, muito pouco florido daquela época do ano, eles caminharam por entre as folhagens. A iluminação era à base de postes estilo colonial que indicavam as plantas quase secas e de coloração avermelhada por causa do outono. Falaram do tempo em que Shun era guardião do espírito de Hades, de Ikki e Máscara da Morte, irmãos de ouro apesar de não serem muito pacientes sobre alguns aspectos, de Athena, do santuário, da política mundial, do outono, de livros, de música, de viver, deles próprios...
"Obrigado, Nana" - desabafou Shun sentando-se no chão, em um monte de folhas muito fofas - "Você é uma excelente ouvinte e amiga".
"Você também" - disse com ternura, até começar a tossir drasticamente.
"O que foi?"
"Cof, cof... nada, eu estou... bem...".
"Você é alérgica?".
"A pólen, mas não pensei que essas flores, ainda mais nessa condição...".
"Vamos para dentro" - ele disse preocupado, sustentando-a pelos ombros - "Desculpe, eu não pensei...".
"Não, vamos ficar aqui mais um pouco, é tão gostoso...".
"Não quero vê-la doente".
"Ficarei doente se me negar este gosto".
Ele riu antes de sentar-se junto com ela novamente no monte de folhas secas.
"Não seja teimosa".
"Não estou sendo" – contrariou.
Do lado de fora eles puderam ouvir quatro badaladas do relógio que era uma réplica da torre de Londres e ficava no interior da casa.
"Como será que eles conseguem dormir com esse barulho?" - perguntou ela.
"Costume" - disse - "E ai? Valeu a pena perder a festa do trocado para vir ao Japão?".
"Para ser sincera, ás vezes, aquela baderna me incomoda. Muita gente, sabe? Não que eu não goste, mas eu prefiro um canto reservado. Precisava dessas férias".
"Pena que o Shion quer que nos voltemos logo".
"É..." - ela disse sonhadora, colocando, distraidamente um fio dos cabelos verdes de Shun atrás de sua orelha.
"Nana...".
"Fale"
"Você me deixaria?".
"Por que pergunta isso?".
"Curiosidade" - falou incerto - "Me deixaria?".
"Não".
"Nunca?".
"Quantas perguntas".
"É mesmo, sou um tolo, desculpe" - ele disse, virando o rosto na direção contrária.
"Tudo bem, pode continuar eu não estou reclamando".
"Posso?".
"Sim" - ela disse esperançosa.
"Eu... eu..." - Shun parecia não conseguir completar, então ela disse.
"Também".
"Como?".
"Eu também..."
Eles se encararam cheios de mistério, mas isso tirou um peso das costas do rapaz e ele prosseguiu, sem parar de falar.
"Eu amo Nana. E gostaria muito, muito mesmo, de todo o coração que fosse a minha namorada".
"Shun..." - ela disse feliz - "Também amo você".
Ele aproximou-se dela, devagar, com delicadeza, gentil, dócil e depositou um beijo leve na face gelada. Ela fechou os olhos com o toque e depois afastou o rosto dele para localizar os lábios e dar-lhe um toque certeiro com a boca, tão fraco e tímido, para ficar mais bem elaborado, mais significativo.
Ficaram nessa brincadeira por longo tempo, até ele sentir que a garota que repousava em seu peito tinha adormecido por completo. Instintivo, o rapaz a carregou no colo, guiou-a para o interior da mansão até o segundo andar e a levou ao quarto de hóspede que ficava do lado do seu e era afastado dos aposentos de Saori e de Seiya, quase numa parte isolada do corredor.
Colocou-a sobre o colchão macio com leveza, ergueu um pouco seu corpo para poder tirar a colcha grossa, abriu um baú onde ficavam as roupas de cama e cobriu-a. Depois despiu o casaco de moletom e os calçados, não ousando tirar mais nada dela. Depositou um beijo na tez clara e quando se preparava para ir embora, sentiu um par de mãozinhas delicadas puxa-lo de volta.
"Nana?" - ele perguntou, vendo que a garota mantinha os olhos fechados e o rosto calmo, mas ainda o prendia segurando seu suspensório. Ela dormia, mas mesmo assim negava-se em deixá-lo. Abaixou-se e beijou-lhe os lábios carmim enquanto acariciava seus cabelos loiros e lisos
Ela abriu os olhos sonolentos.
"Desculpe por te acordar, pode voltar a repousar".
Shun se ergueu, deu um último afago nos cabelos dela e preparou-se para deixar o aposento.
"Você é real? Ou isso é um sonho?" - ela perguntou em alto e bom tom.
"Estou rezando para que não seja mesmo um devaneio meu" - ele retribuiu em resposta - "Durma bem".
Em uma casa de porte médio perto da região central de Atenas, uma garota falava ao telefone enquanto preparava seu jantar.
"Como assim não está pronto? Mas, era sua função conseguir essa entrevista. Não, não... a culpa é minha agora? Ah! Essa é boa! Por que você não me deixa em paz? NÃO! NÃO ESTOU MAL-HUMORADA! Estou gritando? Oh, desculpe... eu não queria, de boa, sério mesmo, foi horrível isso!".
Gabriela andava de um lado para o outro com o aparelho sem fio apoiado nos ombros enquanto arrumava uma mesa para dois, com direito à louça de primeira e taças de cristais. Há algum tempo seu namoro estava esfriando, mas agora, se tudo corresse bem, não demoraria nada para a relação dos dois voltasse às boas. Usava um vestido preto que ia até a coxa de alças finas, um salto agulha e os cabelos loiros... Estavam soltos e sem adorno graças a sua amiga lesada que não a deixava trabalhar em sua produção, enquanto ocupava-a ao telefone com problemas que poderiam ser resolvidos em outra ocasião.
"Certo... hum... ta... Ok! Eu tenho que... oi? O que? Não estou te ouvindo, está ruim, vai cair à ligação, alô, alô... CLANK!" - e joga o telefone com força na base. Bem, ela estava insustentável hoje. Tirou o fio da tomada para que não corresse o risco de que alguém a atrapalhasse em seus afazeres.
Foi até o quarto, abriu a gaveta da sua penteadeira e procurou um elástico trabalhado para prender o cabelo em um rabo de cavalo. Penteou com uma escova de cerdas, deixando-os mais lisos - se é que isso é possível - e arrumou o penteado. Procurou o batom de tom rosado, passou pelos lábios tirou o excesso com um lenço, um retoque nos cílios e... Pronto. Se isso não resolvesse seu relacionamento de vez... Desistia, pois não era possível que aquele homem não percebesse que estava tudo indo para o ralo.
"Eu juro que se ele me der bolo de novo, me atiro nos braços do primeiro que aparecer na minha porta!" – pensou.
A campainha tocou sonora, ela deu uma última olhada no espelho, alisou o vestido no corpo e foi receber o seu convidado. Não se deu sequer ao trabalho de espiar pelo olho mágico, uma vez que não poderia ser outra pessoa.
"Boa noite" - ela disse sorridente, mas sua boca abriu involuntariamente quando viu quem estava parado diante de sua porta - "Camus?".
"Olá, Gabriela. Você... fica muito bem de preto. Está linda".
Ela estava linda? Será que esse homem não tem espelho em casa? Se ela estava aceitável, Camus estava perfeito! Os cabelos azuis do mesmo modo de sempre, os olhos penetrantes e gelados, o corpo bem trabalho oculto por uma camisa branca e um paletó preto por cima, fazendo conjunto com uma calça do mesmo tom. Estava tão surpresa com a visita inesperada que ficou olhando-o sem conseguir pronunciar nada.
"Posso entrar ou vai me deixar tomando sereno?" - ele perguntou com um sorriso cínico.
"Hãn... Ah, claro. Entre, por favor!" - e deu passagem para que aquele maravilhoso espécime de mais de 1,80 m adentrasse pela soleira de sua porta - "Quer que eu guarde seu casaco?".
"Seria bom" - ele retirou a peça de roupa deixando mais evidente os músculos definidos do braço e tórax, ela guardou o abrigo em um cabide á moda antiga que ficava próximo da porta.
"A que devo a honra de sua visita?" - ela perguntou.
"Hum... não disse que eu poderia vir quando quisesse? Pois bem, surpresa" - ele retribuiu sorrindo - "Eu tentei ligar, mas só dava ocupado".
"BURRA" - pensou possessa consigo mesma.
"Bonita casa" - comentou olhando os móveis.
"Obrigada".
"Você mora aqui sozinha?".
"Sim, me mudei a seis meses da casa dos meus pais".
"Solitário?".
"Não, de modo algum! Eu gosto daqui, tenho meu canto, meu espaço, minhas coisas, meu computador... é bem melhor. Estava cansada de depender deles. E você? Até hoje não me disse onde mora e trabalha".
"Eu trabalho no santuário de Athena...".
"Camus, ali só tem ruínas".
"Err, pois é, eu sou guia turístico" - ele respondeu de súbito, foi à primeira coisa que aflorou em sua mente - "Guia? Que mentira deslavada!".
"Nunca dei a devida atenção ao lugar, mas afinal, não gosto de pedras..." - falou francamente - "Lá me parece muito pacato e chato... não tem nada de especial...".
Ele sorriu com a declaração, afinal de contas ela sequer podia imaginar o que havia por detrás da ala dos turistas. Era fascinante conhecer alguém tão alheia ao seu mundo de lutas e guerras.
"Afinal de contas, você está muito produzida, está esperando alguém?".
"Hum, bem... na verdade estou sim, o meu namorado".
"Certo, desculpe. Eu posso me retirar e voltar outro dia".
"Tudo bem, fique! Ele não chegou mesmo e nem sei se vai aparecer" - ela sibilou meio triste - "Mas, deixa para lá! Quer beber alguma coisa? Vinho?".
"Seria ótimo!"
Ela foi até a cozinha, tirou a garrafa do balde com gelo que estava estrategicamente posicionado e pegou o abridor para abri-lo.
"Permita-me" - falou aparecendo atrás dela.
"Nossa, de onde você veio?" - ela balbuciou espantada com a rapidez.
"Da sala" - pegou a garrafa de suas mãos e começou a destampá-la, até que a rolha saiu soltando um estampido surdo, depois ele pegou duas taças e serviu-as - "Deguste-a".
Ela obedeceu, tirando um primeiro gole de muitos que viriam.
"Delicioso" - ele sibilou depois de fazer o mesmo - "Vinho envelhecido?".
"Sim! Afanei da adega de meu pai. Não teria condição de escolher uma por mim mesma em uma loja".
"O homem tem bom gosto" - refletiu - "Esse aqui deve estar guardado por uns vinte e cinco anos, mais ou menos".
"Vinte e dois" - ela disse analisando o rótulo - "Mais velho do que eu".
"Nunca perguntei sua idade".
"E nem poderia, não sabe que é deselegante?" - perguntou debochada enquanto pedia para ele servir um pouco mais de vinho em sua taça enquanto eles jaziam ao pé do armário.
"Não é tão velha assim".
Passou-se três horas de conversa, já era mais de onze e os dois já estavam bem á vontade - Camus com uns cinco botões da camisa abertos e Gabriella com os cabelos soltos e sem sandálias -, estavam sentados no tapete da sala de estar e tinham detonado quase a garrafa de vinho inteira. As duas taças, mais o balde de gelo estavam dispostos sobre a mesa de centro feita de vidro e pareciam prestes a cair.
"Hahaha... aquele imbecil não veio" - ela falou fitando o relógio - "Eu não te disse?".
"Que homem em sã consciência te deixaria aqui sozinha? Devo concordar que é um... louco" - repetiu Camus terminando sua última taça - "Chega, mais que isso morro de coma alcoólico".
"Pois, eu ainda agüento mais uma..." - ela disse tentando arrancar a garrafa das mãos dele.
"Tsc, tsc... não pode".
"Ai, Camus, me dá!" - ela disse tentando tomar dele, enquanto esse levantava o braço para o alto, tentando arrancar de suas mãos - "Eu acabei de levar o décimo bolo do broxa do meu namorado, preciso do néctar".
"Não o difame, por mais que esteja com raiva contenha essa língua ferina".
"Haha... Camus... Camus..." - caiu por cima dele numa tentativa de arrancar a garrafa de suas mãos.
Ele só conseguia ver o tronco da garota um pouco acima de sua cintura, o calor emanava por todos os poros de seu corpo e ele estava vendo tudo um pouco nublado.
A puxou com força para baixo a fim de beijar seus lábios, com luxúria, rolando por cima dela e invertendo as posições, as pernas posicionadas para separar as dela.
"Nunca pensei que por trás daquele homem sério e compenetrado existisse um outro tão... tão...".
"... fogoso?" - ele completou voltando a encará-la - "Só quando eu acho necessário e julgo que esse é o momento preciso".
"Então, porque parou?".
"Será que não vai se arrepender amanhã?".
"Seja como for, depois eu penso nisso... agora fica quieto e faça algo" - ela puxou o pescoço dele para baixo...
O clima prosseguiu assim...
... Até o que se poderia chamar de...
... Últimas - e me arrisco a dizer, únicas - conseqüências.
N/A: Luna termina de jogar o açúcar sobre a tela do computador... Aiai, que capítulo docinho! Haha, foi muito gostoso escrever isso tudo! Só o final que ficou um pouco mais quente, mas até aí tudo bem, eu nunca achei que o Camus tinha – por exemplo – a veia romântica do Shun.
Quanto a Shaka e Mikage? AH! Tava atrasada para fazer os loiros se entenderem. Enquanto alguns ficam felizes, outros... Doeu em mim escrever a cena do Shion e da Lolly porque esse é um casal muito gostoso de descrever a relação. Eu passei três dias refletindo como iria fazer essa cena... bem...
Capítulo pronto! Apesar de tudo gostei do resultado.
Espero que estejam bem! Lembranças a todos!
Atenciosamente
Pisces Luna
11/07/07
PS: Estou orgulhosa de mim mesma! Capítulo postado em nove dias:) Huhuhu...
