Guerra mutante – sexta parte
Lago Alkalai, antigo território do Canadá.
Ela abriu os olhos, as íris coloridas scaneando o lugar. Ela ergueu-se do assento, aproximando-se do vidro. Ao redor da nave, tudo que se podia ver era um lago vasto e silencioso, com as montanhas cobertas de neve a sua volta.
- É aqui?
- Segundo as coordenadas, sim. – respondeu Heero, que controlava a nave.
- Não há nada aqui além de água. – comentou Duo, esfregando os olhos.
Júlia estreitou os olhos, pensativa.
- Heero, passa o infravermelho na água.
O japonês girou o assento, após ligar o piloto automático, encarando-a.
- Baseado em...?
- Um palpite.
- Nós vamos precisar mais que isso. – disse Wufei, chegando a cabine de controle e parando ao lado da jovem.
- Acreditem em mim nessa. Não vai doer usar o infravermelho, vai?
O americano revirou os olhos para os dois e ergueu-se, inclinando-se contra o japonês, apertando o botão do infravermelho. Ele aproveitou para sentir o calor do corpo do outro o mais discretamente possível. Júlia sorriu.
- Obrigada por ser o único a me entender nessa nave Duo.
- No problem. – o jovem voltou ao seu assento.
Os quatro aproximaram-se do radar, observando a análise do infravermelho. Algo apareceu por segundos no radar, mas logo sumiu.
- Vocês viram? – exclamou Júlia.
Heero ligou o infravermelho novamente e aquele mesmo ponto apareceu por segundos no radar, antes de sumir. O japonês congelou a coordenada, logo direcionando a nave, pairando acima dela.
- O que acha que é? - perguntou Duo, observando curioso a paisagem lá fora.
- Consegue pousar na água sem problemas Heero? - perguntou Júlia.
- Hai. - respondeu o moreno, logo manobrando a nave, fazendo-a pousar num baque suave.
Ele se dirigiram ao compartimento de carga, abrindo-a, ouvindo quando o metal bateu contra a água. Trowa parou ao lado deles, cruzando os braços.
- O que faremos agora?
- Ora, agora entramos na água. - comentou Júlia.
- Água que deve estar a menos vinte graus?
- Foi pra isso que nós humanos criamos as roupas impermeáveis.
A morena entrou no compartimento, voltando minutos depois vestindo uma espécie de roupa de mergulhador, parando ao lado deles na porta.
- Trowa, Wufei, vocês me acompanham?
- Eu acho que... - começou o americano, mas foi interrompido pela morena.
- Duo, Heero, fiquem aqui e monitorem os arredores, se nós conseguimos achar essa pista, ninguém garante que ninguém mais achou.
'Aproveita e curta um tempo a sós com ele'. sugeriu Júlia dentro da mente de Duo.
O americano desviou o olhar, voltando para a cabine de comando da nave. Heero apenas arqueou a sobrancelha, antes de segui-lo. Wufei sorriu, cruzando os braços.
- Nada contra em ir investigar com você, mas acha mesmo que deixá-los a sós vai fazer com que eles pulem um em cima do outro?
- Você sabia? - perguntou Júlia, rindo ao encarar o outro.
- Sós aqueles dois idiotas não sabem. - quem respondeu foi Trowa, voltando do vestiário, usando uma roupa parecida com a de Wufei.
- Fato. - concordou o chinês - Eu já volto.
Júlia viu o outro se afastar, voltando seu olhar para o rosto sério do outro piloto. Ela se aproximou, mordendo o lábio inferior.
- Trowa?
Os olhos verdes a encararam. Ela devolveu o olhar, mas ainda mordendo o lábio inferior.
- Nós vamos salva-lo. Você sabe disso, né?
Trowa continuou encarando-a, para depois desviar o olhar, observando a imensidão de água que os rodeava.
- É, eu sei.
- E então, o que encontraram? - perguntou Heero pelo intercomunicador.
- Uma porta, que provavelmente leva a uma espécie de comporta, ela tem um lacre muito forte para conseguir agüentar essa pressão submarina.
- E como vamos abri-la?
- Provavelmente se ela não tivesse tanta água em volta, conseguiríamos abri-la sem problemas, mas assim é impossível.
- Me deixem tentar. - disse Júlia.
Wufei e Trowa se entreolharam enquanto Júlia nadou mais ao fundo, parando do lado da porta, seus pés procurando apoio no chão.
- O que vai fazer Júlia? - disse Duo pelo intercomunicador.
- O possível.
A morena esticou os braços, fechando os olhos, se concentrando. A água começou a borbulhar em volta dela enquanto uma fina linha alaranjada contornava seu corpo. Trowa e Wufei nadaram, se aproximando dela, quando sentiram a água em volta de si se agitar.
Júlia abriu os olhos, não mais coloridos. Eles estavam negros como a noite, chamas contornando suas íris, emanando poder. A água começou a se afastar, fazendo com que Trowa e Wufei tocassem os pés no chão. Eles a encararam surpresos.
- Júlia?
- Abram a porta e entrem antes que eu não consiga mais segurar a água. - sussurrou a morena, sua voz saindo gutural e ecoando no espaço vazio.
O chinês apenas acenou com a cabeça, se dirigindo a porta, logo sendo ajudado por Trowa. Com um pouco de força eles conseguiram abri-la, pois o material estava enferrujado pelo tempo e umidade. Eles entraram no corredor escuro e logo gritaram.
- Venha!
A jovem começou a caminhar naquela direção, em passos lentos, como se tivesse o peso do mundo em seus ombros. Ela atravessou a porta, seu corpo ficando mais e mais brilhante por causa do poder.
- Fechem a porta.
Os dois pilotos trataram de fazer o que lhes fora pedido. Assim que o metal foi trancado. Júlia fechou os olhos, caindo de joelhos no chão. A água voltou ao seu lugar, fazendo um estrondo quando se chocou contra a porta. Wufei logo parou ao seu lado.
- Tá tudo bem?
Júlia apenas afirmou com a cabeça, fracamente.
Do outro lado da base, um par de olhos brilhou na penumbra quando captou a imagem dos três entrando na base. Ele fechou os punhos, apertando o botão que liberava todas as passagens e virou-se, indo de encontro a eles.
Fazia tempo que não exercitava os músculos. Mas sempre era como andar de bicicleta.
- Esse local parece...conservado. Há quanto anos isso foi trancafiado?
- Segundos os arquivos do Doutor J, em 2003 antes da colonização.
- Só por essa informação, esse local é suspeito. - comentou Trowa, com a arma em punho.
Wufei e Júlia acenaram em concordância, entrando em mais uma curva do intricado labirinto que era aquela base. O ar estava parado, quase sufocante, mas ainda assim respirável. Os três soldados foram andando pelo caminho tortuoso, ouvindo o eco de seus passos, o gotejar de algum teto distante, relembrando-os a todo momento da represa acima deles.
'Venham mais perto.'
Júlia parou de andar quando ouviu aquele sussurro. Era quase como um formigar em sua mente, fraco, mas ainda sim ela conseguiu sentir.
- O que foi? - sussurrou Wufei, parando ao seu lado, tocando seu pulso.
- Tem mais alguém aqui.
Trowa olhou-a por cima do ombro, logo voltando seu olhar para a frente, dando um chute na porta que haviam encontrado. Eles atravessaram, entrando na ampla sala, as armas em punho. O intricado corredor chegara ao fim, dando espaço a uma espécie de laboratório, se todos aqueles aparelhos, macas e agulhas indicavam alguma coisa.
- Experimentos? - disse Trowa, uma ponta de reconhecimento na voz.
- Parece. - disse Júlia, franzindo o cenho. Ela voltou seu olhar para o moreno - Como é que voc...
- Cuidado!!
O grito de Wufei interrompeu qualquer coisa que Júlia fosse falar. Ela virou-se e viu quando aquele homem pulou na direção dela, com garras em suas mãos. Os cinco disparos ecoaram no vazio, atingindo o homem em cheio, fazendo-o cair morto aos seus pés.
- Você está bem? - perguntou o chinês, parando ao seu lado.
Júlia apenas acenou com a cabeça, ainda paralisada. Ela era um soldado, ela nunca paralisara antes em ação. Mas algo naquele homem, naqueles olhos...refreara suas ações.
A morena agachou-se, tocando a mão do homem, estendidas ao lado da sua cabeça, o sangue começando a rodeá-lo. Ela deslizou o contorno da divisória dos dedos.
- Eu não estou sonhando, ele tinha...
- Garras. Sim, nós vimos também. - completou Trowa, agachando-se ao lado da jovem - Acha que é...?
- Um mutante? Provavelmente.
Ambos levantaram-se, Júlia ainda com o cenho franzido. Quem era ele? Não havia registros dele nos arquivos encontrados pelo doutor J, mas por outro lado, os dados do outro lado da guerra dos mutantes, dos inimigos de Magneto, eram obscuros e difíceis de encontrar. O único dado decifrável foi a localização daquela base.
- Parece que matamos o habitante deste lugar. - comentou Júlia por fim.
- Não mataram.
A voz grossa e rouca entrou por seus ouvidos antes que seu cérebro acompanhasse. Ela virou-se e logo foi prensada contra a parede, o baque de suas costas contra o concreto atingindo dolorosamente seu corpo. O homem agora a encarava, seus olhos escuros cheios de uma fúria selvagem...quase animalesca. Sua mão direita a segurava pelo pescoço, a esquerda ergueu-se com precisão, uma garra saindo do nó dos dedos, encostando-se contra a sua jugular.
- Não se mova. - disse Wufei, seco, apontando-lhe a arma.
O homem inclinou a cabeça, um osso estalando em seu pescoço com o gesto. Ele virou-se para encarar o chinês.
- Vocês já devem ter visto que essas armas não vão surtir efeito algum. Acho bom vocês não se mexerem se quiserem ver sua amiga aqui ainda viva.
- Quem disse que eu preciso de ajuda?
O mutante voltou seu olhar e arregalou os olhos quando as íris coloridas de Júlia mudaram de cor, adquirindo uma tonalidade preta, envolta em chamas. Seu corpo foi forçado para trás, suas costas batendo contra a parede oposta.
Júlia fechou os olhos, tossindo, voltando a respirar normalmente. Wufei apontou a arma para o homem.
- Você pode não morrer com isso, mas você vai sentir muita dor, eu te garanto.
O homem levantou-se devagar, estalando alguns ossos do corpo, seus olhos selvagens encarando-os sem medo. Ele parou o olhar em Júlia, arqueando uma das sobrancelhas.
- Quem diria que eu veria uma mutante viva após todos esse anos? - havia um tom neutro em sua voz.
- Não viemos para machucá-lo. - comentou a morena, se aproximando dele, mas parando ao lado de Wufei - Na verdade, viemos porque precisamos de ajuda.
O homem riu, o som irônico.
- E porque eu ajudaria vocês?
- Porque uma tal de Mística está à solta e ela pretende libertar Magneto também. Reconhece? - disse Trowa seco, suas palavras diretas.
O mutante estreitou os olhos ao ouvir aqueles nomes. Ele mexeu os ombros, como se tirasse poeira de um casaco imaginário.
- Adoraria quebrar a cara daquele idiota e espancar aquela vadia, mas eu estou ocupado no momento. Fora que se vocês forem lutar contra eles, precisarão bem mais que eu e...bem ela. - terminou, apontando para Júlia.
- Você é a única informação que temos do lado oposto da guerra dos mutantes. Mística foi solta do congelamento criogênico, ela provavelmente já descobriu como fazer isso com Magneto também.
O homem arqueou a sobrancelha novamente, mas dessa vez por curiosidade. Como Júlia conseguia interpretá-lo tão bem?
- E vocês conseguiriam fazer o mesmo?
Trowa e Wufei arquearam a sobrancelha, mas a morena percebeu.
- Há mais mutantes aqui, mas eles também estão congelados não é?
Ele deu de ombros.
- Única maneira de mantê-los vivos. E então, acham que conseguem...digo, descongelá-los? Talvez seja nossa única chance.
Trowa parou por um segundo antes de abaixar a arma, guardando de volta na barra da roupa que usava. Após um momento, o chinês fez o mesmo.
- Nós temos a habilidade para isso, não custa tentar.
O homem sorriu divertido, antes de virar-se, começando a andar.
- Me sigam então. - ele olhou-os sobre o ombro - A propósito, meu nome é Logan.
Fim da sexta parte
