O Diário
II
Meu coração não é de gelo!
Camus mandou Hyoga fazer qualquer coisa no seu treinamento, deixou o garoto ficar correndo por todo o santuário para aquecer seus músculos e treinar sua velocidade. No entanto a verdade era que Camus não tinha cabeça para pensar em treinar seu pupilo no momento. Afinal, ele havia acabado de dormir com seu melhor amigo! E ainda não havia descoberto quem era seu admirador secreto. Tudo era muito caótico, ele desejou mudança, mas não em uma única noite.
O olhar do francês evitava a todo custo o cavaleiro de escorpião que ficava observando-o descaradamente, não tinha como não notar. Camus sentou-se numa pedra, sentindo os raios do sol baterem contra seu couro cabeludo, ele passou a mão por seu pescoço, sentindo o curativo que havia colocado no local para esconder a marca que Milo havia deixado.
- Bom dia, Camus.
O francês olhou para o lado vendo que era Saga que se aproximava com um sorriso gentil no rosto. O cavaleiro de gêmeos ficou em pé ao seu lado, com os braços cruzados, enquanto observava dois jovens guerreiros que estavam sob seu treinamento.
- Bom dia – disse baixinho – "Será que seria o Saga?" – pensou, olhando discretamente para o seu colega. Gêmeos sempre estava conversando com ele e também notava o quanto ele tentava puxar conversa com ele quando estava sozinho. Sempre pensou que Saga gostava de sua companhia, mas com esses novos eventos, talvez ele fosse o admirador.
- Eu fiquei contente por você ter saído ontem conosco – comentou, olhando para o semblante calmo e frio de Camus, notando que havia uma certa inquietude em seu olhar que não conseguia identificar muito bem.
- Eu acho que precisava espairecer um pouco – comentou.
- Eu concordo – murmurou – o que acha de jantar na minha casa hoje? – indagou em seguida.
O coração de Camus parou uma batida. Saga o estava convidando para jantar em sua casa? Desde quando ele o convidava para fazer alguma coisa que não fosse revisar documentação sobre os bens de Saori Kido?
- "O que eu faço? Aceito..." – pensou, sentindo um conflito no seu peito – e quem mais vai? – indagou, sentindo sua voz sair insegura.
- A princípio você e eu – disse – quer levar alguém?
- Não – disse rapidamente, sentindo seu corpo ficar um pouco mais quente só de pensar na noite que havia passado com Milo.
- Então, está marcado? – Saga indagou, dando um passo para frente, assim poderia ver todo o rosto de Camus.
- Ah... tudo bem – disse, inseguro. Camus olhou o sorriso animado que Saga lhe deu, estranhando essa animação por parte do cavaleiro de gêmeos, que era bem sério e reservado, apesar de participar das farras de Aldebaran e Aioria.
Com um aceno com a cabeça Saga se afastou, indo até os jovens guerreiros que tremeram ligeiramente ao ver o cavaleiro de gêmeos se aproximando. Camus ficou observando o caminhar de Saga, pensando se ele era seu admirador secreto, mas algo dentro de seu corpo gritava negativamente para ele.
- "A conversa... é mesmo. Milo e Saga estavam falando de mim outro dia" – pensou de repente, erguendo seu olhar, vendo que Milo havia se aproximado de Saga e agora ambos conversavam - "será que ele contou para o Saga o que fizemos? Ah, por favor, Milo não conte" – suplicava em silêncio, observado os dois cavaleiros conversando.
- Camus?
O francês olhou para Hyoga que estava eufórico ao seu lado, cisne estava sentado ao seu lado, mas logo jogou seu tronco para trás, deixando seu peito subir e descer por causa da respiração acelerada. Camus sentiu dó de Hyoga por um instante.
- Hyoga... – o chamou, sentindo seu coração disparar por um segundo. Ia pedir um favor para seu pupilo, mas sentia-se inseguro.
- O que foi?
- Posso te pedir um favor? – indagou, olhando nos olhos do loirinho, que o olhou com atenção – "será que eu faço isso mesmo?" – pensou em seguida.
- Claro – respondeu prontamente – o que seria mestre?
- Eu estou inseguro – revelou, fazendo os olhos azuis claros de Hyoga arregalarem-se com a revelação. Desde quando Camus era inseguro? Seu mestre era perfeito aos seus olhos, livre de qualquer emoção.
A boca de Hyoga abriu e ele havia esquecido de fechar, deixando Camus receoso com isso. Afinal poderia contar o que estava pensando para seu pupilo?
- Eu... queria saber se você pode investigar algo para mim – disse baixinho.
- O que seria mestre? Eu faço qualquer coisa – disse, sentindo seu coração encher-se de alegria. Camus seu grande mestre, aquele quem admirava estava abrindo-se com ele, pedindo um favor e ainda revelou estar inseguro. Hyoga começou a se sentir especial finalmente, amando toda aquela situação.
- Mas não pode contar para ninguém – Camus avisou, olhando-o nos olhos.
- Claro, pode falar – disse, olhando para os lados, vendo se ninguém estava por perto para ouvir o que seu mestre lhe falaria.
- Eu fiz algo na noite passada... com o Milo – disse, olhando as feições de Hyoga – eu... estava bêbado. E fizemos aquilo, sabe? – dizia pausadamente, para que Hyoga não perdesse nenhum detalhe – e ele está conversando com o Saga... e eu quero saber o que eles falam de mim. E mais uma coisa, tem uma pessoa que fica me mandando mensagens no celular, mensagens amorosas... e eu quero saber quem é também – concluiu, sentindo um alívio momentâneo no seu peito. Será que seria bom compartilhar dos seus problemas?
O coração de Hyoga parou uma batida. Camus e Milo haviam dormido e seu mestre estava recebendo mensagens amorosas pelo celular de um desconhecido? Tudo isso era uma loucura. Desde quando Camus era tão desejado pelo santuário? Sentiu um ciúme doentio de repente, fazendo seus músculos ficarem tensos. No seu íntimo pensava que era o único que nutria algum sentimento pelo francês, mas a verdade estava vindo a tona como um furioso tufão.
- Pode fazer isso? – indagou, vendo que o semblante antes calmo de Hyoga estava perplexo agora com as informações que havia passado.
- Mestre... você... dormiu com o Milo. Mas... você sente algo... por ele? Digo... er...
- Não, ele é meu amigo – mentiu, afinal sentia atração por Milo no seu íntimo. Entretanto não era uma mentira total, afinal não amava Milo, não tinha o sonho de namorá-lo, simplesmente aconteceu – "acho... que não" – pensou em seguida.
O loirinho levantou-se de repente olhando ao seu redor, pensando em quem estava importunando seu mestre daquele jeito. Talvez fosse uma piada, talvez alguém estivesse de sacanagem com o famoso cubo de gelo, o coração gelado do santuário. E se descobrisse que era realmente isso, Hyoga ia acabar com a raça do sujeito.
- Mestre, eu vou descobrir. E não se preocupe... não falarei para ninguém – disse, olhando nos olhos de Camus. O francês lhe exibiu um sorriso doce e gentil, que fez o coração de Hyoga se derreter. Camus sorrindo daquele jeito? E ainda por cima para ele. Tudo isso parecia um sonho.
- Obrigado, Hyoga – agradeceu.
O loirinho afastou-se sendo observado por Camus, que voltou a olhar para Saga que Milo que para o seu terror estavam vindo na sua direção.
- "Calma Camus, calma. Você sabe lidar com essa situação" – pensou consigo mesmo, tentando normalizar sua respiração. Ele colocou sua máscara fria deixando seu semblante inexpressivo. Nesse momento agradecia a todo treinamento que havia recebido para não demonstrar suas emoções.
Saga e Milo sorriram para o francês que continuava sentado naquela pedra, olhando-os com um semblante impassível. Mas por quanto tempo Camus ia agüentar ficar naquela situação? Ele estava surpreso com fato de não conseguir controlar seus batimentos cardíacos.
- Vamos almoçar com o pessoal, quer ir? – indagou Saga, apontando para um grupo de cavaleiros de ouro que estavam conversando, encerrando o treinamento para a hora do almoço.
Camus olhou para o grupo que ele apontou, vendo que Mu, Shaka, Aioria, Shura e aioros estavam reunidos, conversando alto. O francês levantou-se sem dizer nada e começou a caminhar na direção do grupo que Saga apontou, deixando Milo e Saga incomodado com o desprezo do francês. Eles caminhavam atrás de Camus, que quando se reuniu à roda foi muito bem recebido por todos. Afinal Camus era um doce de pessoa, quando não soltava comentários arrogantes.
- "Será que pode ser um deles..." – pensou, olhando para todos, enquanto caminhavam em direção ao centro do comércio do santuário, onde havia vários restaurantes. Eles pararam na frente de um restaurante italiano e adentraram, sendo muito bem recebidos.
Uma mesa redonda de madeira estava reservada para os cavaleiros. Uma toalha xadrez vermelha foi colocada em cima da mesa juntamente com pratos e duas taças de cristal para cada cliente. Eles sentaram-se perto de uma grande janela de vidro que tinha um par de cortinas vermelhas com detalhes em branco. O chão de madeira brilhava com a cera, juntamente com o balcão de pedidos, onde um garçom muito bem humorado pegava os pedidos.
Camus descobriu que tinha muita afinidade com Mu, o ariano gostava das mesmas coisas que ele, e acabaram isolando os demais cavaleiros na mesa, entrando nos mais diversificados assuntos. Quando os pedidos chegaram, eles finalmente pararam de conversar, e deram atenção ao prato de macarronada que estava em suas frentes.
- Camus, nunca pensei que você falava tanto – Milo comentou de repente, sentindo uma pontada de ciúme no seu interior. Desde quando seu melhor amigo era tão receptivo?
O francês travou de repente, abaixando sua cabeça, não dizendo absolutamente nada. Camus detestava ser o centro de alguma coisa, apesar de querer mudar seu jeito frio e indiferente, ainda não estava preparado para ser o centro de uma conversa. Os outros cavaleiros perceberam o rápido isolamento que Camus criou ao seu redor, e rapidamente alguns pés começaram a chutar Milo embaixo da mesa.
O escorpiano não disse mais nada ou seria fuzilado por todos que estavam ali. Mu tentou puxar outro assunto com Camus, mas este travou novamente ao se lembrar das palavras de Milo, respondendo secamente para o ariano que olhou com certa irritabilidade para Milo.
- "Por que não podem me ver como alguém normal?" – pensou, enquanto jogava mais queijo na sua macarronada – "eu não sou tão quieto assim... ou sou? Que seja, por que eles não param de ficar me chamando a atenção?" – concluía em seus pensamentos.
Eles terminaram seu almoço e voltaram para o campo de treinamento. Hyoga apareceu perante Camus, mas não disse nada, afinal ele não havia conseguido nenhuma informação com seus demais colegas de bronze. O loirinho confiava em Seiya e nos demais, mas não havia contado tudo que Camus lhe falara, apenas havia comentado que precisava achar o engraçadinho que estava 'infernizando' Camus e que ele queria saber se era Milo e Saga. Os demais cavaleiros de bronze aceitaram buscar informações a respeito do assunto, prometendo não contar a ninguém. Que de fato seria verdade, pois todos eram como irmãos.
Camus passou reto por seu pupilo sem dizer nada, indo direto para as casas zodiacais. Ele começou a subir rapidamente até que finalmente avistou a penúltima casa do zodíaco, entrando nela e indo até seu quarto. Ele precisava desabafar. O pequeno caderno de capa dura foi aberto.
Grécia, dia: 14/12
Meu caro diário. Eu dormi com meu melhor amigo ontem, o Milo. Ele agiu tão friamente comigo de manhã, eu sei que foi apenas uma noite e estávamos bêbados, mas ele é meu amigo... eu me senti como um garoto de programa. "pegue umas roupas e vá tomar banho" – ele disse mais ou menos isso. "suma logo daqui", foi o que eu senti. Ele me deixou sozinho na sua casa, eu nunca fiz isso com ele na casa de aquário.
Eu estou desconfiado que Saga seja o admirador secreto. Talvez seja ele mesmo, mas o que me incomoda é que ele e Milo andam sempre juntos. Será que estão falando de mim? Caçoando de mim?
Hoje pedi para Hyoga me ajudar, ele ficou tão... estranho, eu não entendi. Eu espero que ele não fique contando aos ventos o que eu lhe pedi, mas certamente deve ter contado para os cavaleiros de bronze. Ah, será que fiz o certo?
Estou pensando de aceito o pedido de Saga. Eu estou tão perdido. Eu aceito? Será que ele irá se revelar? Afinal... ele nunca me convidou para algo assim. Eu estou confuso, perdido.
Eu preciso... de um chocolate. E eu estou realmente viciado nisso. Será que eu vou engordar? Hahaha... que hilário eu pensar nisso.
PS: descobri que gosto de... sentir o peso de um homem sobre o meu corpo.
Isso foi o fim para mim!
Camus fechou o diário, mas antes deu uma olhada na última linha, sentindo um arrepio pelo seu corpo. Ele havia adorado sentir Milo o dominando daquele jeito. E quando ia imaginar que adoraria ser dominado por outro homem? O livro foi guardado no seu lugar de sempre, com muito cuidado e apresso.
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A noite foi caindo no santuário, o céu estava azul e muitas estrelas brilhantes foram penduradas no céu. Camus estava saindo do banho, ele tinha que ir até a casa de gêmeos como havia combinado com Saga.
Ele passou pelo seu quarto com uma toalha em volta da cintura, passando por um grande espelho, de repente Camus parou, retirou sua toalha e ficou olhando-se nu para o espelho.
- "Será... que eu sou bonito?" – pensou, passando a mão por seu tórax, olhando seu rosto com atenção – "que bobagem, pára com essas futilidades" – pensou de repente, balançando a cabeça de um lado para o outro, tentando tirar esses pensamentos de sua cabeça.
O armário de Camus abriu-se e ele começou a pegar uma roupa decente. Pegou um jeans velho que estava escondido no canto do armário, o jeans era escuro e um pouco justo ao seu corpo, acabou vestindo, vendo que ficou bonito através do espelho. Depois colocou uma camiseta branca que chegava um pouco abaixo do quadril e calçou um par de sandálias de couro sintético na sua cor natural. Seus cabelos foram penteados e Camus os prendeu num baixo rabo de cavalo.
- "Preciso cortar esse cabelo, está enorme" – pensou, olhando para o seu comprimento – "acho que... Mia sabe cortar".
Mia era a empregada de Camus. O cavaleiro de aquário começou a caminhar por sua casa zodiacal encontrando a jovem moça conversando com o cozinheiro, quando eles viram o patrão, eles ficaram em silêncio.
- Mia, pode vim aqui por um instante? – pediu.
- Sim, senhor. O que deseja?
- Você me disse uma vez que trabalhava como cabeleireira, estou certo?
- Sim, senhor. Por quê?
- Poderia cortar meu cabelo?
O rostinho da garota ficou assustado e sentiu uma certa pressão com tudo aquilo. Ela teria que cortar os cabelos de Camus, um cavaleiro de ouro. E isso a deixava com medo.
- Mas... mas... eu tenho medo – disse de repente.
- Mas você sabe cortar. Qual o problema? – indagou, sem entender.
A garota abaixou sua cabeça, ficando em silêncio, deixando suas bochechas ruborizarem-se de vergonha. E vendo todo esse caos que estava se formando na cabeça da menina, Camus colocou suas mãos em seus delicados ombros, fazendo-a olhá-lo com surpresa.
- Eu confio em você se você também tiver confiança em você mesma. Poderia me ajudar? – disse, com um sorriso gentil a amável.
O coração da garota derreteu-se, ela abriu um lindo sorriso e depois olhou para o cozinheiro que a incentivava a fazer o que Camus lhe pedia.
- Vou pegar minhas coisas – disse animada, saindo correndo.
Momentos mais tarde, Camus estava sentado numa cadeira no seu quarto, olhando para o grande espelho a sua frente. A garota estava penteando seus cabelos para trás.
- Qual comprimento?
- Lembra de como meu cabelo era? Até o meio das costas, um pouco mais para cima – disse.
- Tudo isso? – indagou, assustando. O cabelo de Camus chegava até abaixo de seu quadril no momento. Ia ter que contar muito cabelo e isso a deixou insegura novamente.
- Sim, por favor, fique calma – pediu.
Aos poucos a tesoura começou a cortar os fios azul petróleo de Camus, fazendo seu rosto ficar mais leve. Sua franja não foi tocada, pois Camus gostava de seus cabelos caírem sobre seus olhos. A garota sorriu com tranqüilidade quando viu que não era nenhum terror cortar os cabelos de seu admirado mestre e quando terminou, retirou a toalha que estava nos ombros de Camus.
O francês levantou-se e olhou-se no espelho, vendo que seu cabelo estava muito melhor desse jeito. Havia as duas grandes mechas na frente como antes, que agora chegavam em seus ombros e atrás o comprimento chegava dois palmos abaixo de seus ombros. Estava perfeito.
- Obrigado – disse, olhando para a garota que sorria triunfante.
- De nada, senhor! Se precisar de novo é só chamar – disse, começando a limpar as coisas.
- Eu vou sair agora. Obrigado – disse, limpando alguns fios que estavam grudados em sua roupa, e começou a caminhar para fora do quarto.
Camus saiu de sua casa zodiacal sentindo-se mais livre, leve e solto, ele sorriu de canto sentindo uma certa ansiedade. Será que seria Saga o seu admirador? Ele começou a descer lentamente, passando pela casa dos outros cavaleiros de ouro, não os encontrando, até que ele finalmente chegou à casa do geminiano, surpreendendo-se com o som alto e com todos os cavaleiros ali. Quando Camus chegou, todos pararam para olhá-lo.
Aquele era o famoso cubo de gelo? Camus parecia tão sublime perante eles e ainda tinha um sorriso indecifrável no rosto. Saga aproximou-se dele, cumprimentando-o e agradecendo pela sua visita.
- Pensei que fosse um jantar – Camus comentou, olhando todos bebendo.
- Eu pensei, mas meu cozinheiro falhou comigo hoje, ele pediu uma folga por problemas familiares – explicou – pegue uma cerveja naquela lata ali, qualquer coisa me chame.
- Obrigado, Saga – agradeceu, indo até a lata, olhando para as long necks que estavam mergulhadas no gelo, ele levou sua mão até ali e pegou uma latinha para ele.
- Ei! Camus, se estiver com pouco gelo aí, poderia colocar mais?! – gritou Aldebaran.
Camus pegou uma garrafa de cerveja e depois olhou para o interior daquela grande lata, ele ergueu um pouco sua mão e fez seu cosmo dourado envolvê-la, e aos poucos foram caindo algumas pedras de gelo que brilhavam com a luz do lustre central da sala.
Aldebaran andou até ele, olhando para a lata que estava cheia de gelo agora e abriu um grande sorriso, feliz por ter alguém que mantivesse a temperatura da bebida adequada. Camus ia comentar alguma coisa, mas sentiu o peso do braço de Aldebaran em seu ombro, e antes que pudesse reclamar foi literalmente arrastado pelo salão sob o olhar assustado de casa um. Afinal Camus era muito escorregadio perante todos, caso algo o incomodasse ele ia embora.
Aioria parou de conversar com seu irmão por um instante pensando em salvar Camus daquele atentando que estava sofrendo, mas antes que se movesse, Milo parou na frente do cavaleiro de touro.
- Você vai sufocá-lo desse jeito, seu touro – disse, olhando para a face séria de Camus, definitivamente ele não havia gostado de ser arrastado pelo salão.
- Eu estou levando nosso coração de gelo até o outro latão para ele gelar – disse alto, fazendo todos levarem suas mãos até a testa, batendo com força. Como Aldebaran podia falar algo tão insensível e estúpido? Era certo que todos tinham a mesma opinião que Aldebaran e até falavam pelas costas, mas na frente de Camus isso era inaceitável.
- "Coração de gelo? Eu... eu não sabia desse apelido" – pensou, entristecido – "afinal, o que eu estou fazendo aqui? Todos devem ficar fazendo piadas ao meu respeito... todos... até o Milo" – concluiu, olhando para o seu amigo, não conseguindo evitar sentir um leve frio na barriga.
Milo abriu a boca para falar algo, mas ele ficou sem o que falar quando viu um semblante entristecido na face de Camus. Desde quando aquário tornara-se tão sensível? E antes que pudesse ficar apreciando aquele olhar tão atípico do francês, Aldebaran voltou a arrastá-lo, levando-o até outra lata com cerveja.
- Olha Camus! Pode colocar gelo pra gente! – disse Aldebaran, dando dois tapas nas costas de Camus que moveu seu corpo para frente. Aldebaran era muito forte e não media sua força.
- "Só sirvo para... colocar gelo mesmo" – pensou, olhando para dentro do grande latão, vendo que o gelo havia se tornado água com o tempo. Camus colocou sua mão dentro do latão e começou a congelar aos poucos, deixando alguns pedaços de gelo caírem por suas mãos – "talvez eu não possa ser diferente. Talvez eu seja... mesmo...".
- Camus, você cortou o cabelo – Milo disse de repente, interrompendo o pensamento depressivo que Camus estava tendo. O francês olhou para seu amigo que vinha na sua direção.
- Ah, sim. Estava me incomodando – disse, com uma voz um pouco amargurada. Por que não conseguia se controlar? Tinha vontade de sair correndo dali, como se fosse uma garotinha que levou um fora numa festa.
- Ficou como antes, eu prefiro assim – Milo disse, com um tom de voz mais baixo, fazendo Camus voltar a se lembrar da noite passada. Como Milo conseguia deixá-lo tão perturbado?
- Também prefiro assim – disse.
Mu aproximou-se rapidamente de Camus e começou a conversar com ele a pedido de Shura e Aioria que viram toda a situação constrangedora que Aldebaran havia formado. No entanto, touro não fazia por mal, ele estava bêbado e não ponderava suas palavras e para o terror de todo mundo, ele voltou a puxar Camus pelo salão.
- Camus vai surtar – Mu comentou, olhando para Milo, que colocou as duas mãos na cabeça, num desespero silencioso. Apenas observavam a situação catastrófica que Aldebaran estava criando. Ele havia cismado com Camus e não seria fácil tirar o francês das garras daquele bêbado.
O corpo de Camus foi literalmente jogado contra o sofá, ele sentiu suas costas baterem contra o encosto macio daquele móvel. Aldebaran sentou-se ao seu lado e começou a conversar animadamente com Camus, falando de algumas piadas que os cavaleiros faziam com ele.
- Camus, nós adoramos fazer piadas de signos, pensando em nós mesmo é claro. Sabe qual a minha?
- Nós quem? – indagou, tentando interagir com touro. Afinal tinha que tentar relaxar e esquecer o que havia acontecido.
- Todos nós, mas deixa eu te falar a minha. Sabe por que touro atravessou a rua?
- Não, por quê? – indagou, dando um gole na sua cerveja, apreciando o líquido amargo que escorreu por sua garganta.
- Porque touro viu uma farra com galões de pinga do outro lado – disse rindo alto – e sabe qual é a de virgem?
- Não – disse, dando um sorriso amarelo. Onde tinha graça naquela piada?
- Por que o virginiano atravessou a rua, ou no caso o Shaka? – indagou.
- Não sei – disse secamente, ele queria sair correndo dali. Detestava esse tipo de charada.
- Porque ele viu um carneirinho do outro lado – disse, dando altas gargalhadas, não apenas ele, mas outros cavaleiros que ouviram também.
- Carneirinho? – indagou, ficando um tempo pensativo – "Carneiro é igual... Áries, que é igual... ao... Nossa, ao Mu" – pensou, ficando abobado com a piada. Camus olhou para Mu que se encolheu um pouco do lugar que estava, sentindo pena pelo desconforto que ele sentiu. Aquilo era constrangedor!
- E qual é a minha? – Camus indagou, sentindo um pouco de receio em ouvir.
- Ah, aquário. Vamos lá, então – disse, animado.
Milo e Mu correram até Aldebaran, interrompendo a conversa de repente. Entretanto Aldebaran já estava começando a perguntar para Camus o porquê do aquariano atravessar a rua.
- Não sei – disse Camus.
- Aldebaran... tem caipirinha ali na mesa – Milo disse de repente, fazendo o taurino abrir um largo sorriso e esquecer de terminar de contar a piada para o francês.
Touro levantou-se e foi até a mesa rapidamente, não encontrando a tal bebida que Milo disse que tinha, ele olhou para o escorpiano um pouco desconfiado e antes que pensasse em ir tirar satisfações, Aioros e Kanon puxaram-no para conversar num canto, e aproveitando para lhe dar severas broncas.
- "Por que aquário atravessa a rua?" – pensou, ficando curioso – "todos formulam a piada juntos. Então é o que pensam a respeito do outro. Mu e Shaka é evidente, eles não escondem para ninguém isso. Mas o que eles falam de mim".
- Eu fiquei feliz por você ter vindo Camus – Milo disse de repente, olhando para o francês.
Camus não respondeu, ele estava absorto em seus pensamentos, ele começou a se levantar e caminhar lentamente na direção de Aldebaran que sorriu com a aproximação de Camus.
- Termine a piada – pediu, com um semblante sério, fazendo aioros e Kanon entrarem em desespero.
- Ah, é verdade Camus! – disse – então você sabe o porquê?
- Não, não sei. Por quê? – indagou.
- Porque ele se ente muito sozinho do outro lado do iceberg – disse, rindo bem alto - Criamos essa piada há três dias, porque ultimamente você tem ficado muito tempo conosco. Deve estar meio frio do seu lado – concluiu, soltando uma gargalhada alta.
O coração de Camus, diferentemente do que todos pensavam não era de gelo e muito menos frio, seu sangue começou a ferver de repente. Então criaram a piada há três dias? Então todos estavam comentando sua aproximação repentina? Todos sempre pediram para ele participar das coisas e quando participa é alvo de críticas e de piadas? Se o coração de Camus era gelado, então por que parecia estar sendo pisoteado nesse instante.
A alta risada de Aldebaran entrou pelos seus ouvidos, invadindo sua mente, não conseguia pensar em mais nada. Ele ouvia Milo ao seu lado, falando alguma coisa, dando alguma desculpa, avisando que era uma brincadeira sem importância. Entretanto não conseguia raciocinar. Por que ser diferente e excluído doía tanto assim? Desde quando isso lhe importava?
Camus voltou à realidade quando sentiu um toque no seu ombro, era Milo que lhe falava alguma coisa, que demorou a tentar entender.
- E quem fez essa piada... foi o Milo – Aldebaran comentou, depois do seu acesso de riso – junto com... deixa-me ver quem... o Saga e... o Aioria. Sim, e eu estava junto também. Não é brilhante!?
- Muito brilhante – Camus respondeu, com um tom frio e seco – "ah, que cretinos. Cansei, cansei dele. Cansei de tentar ser alguém, eu não deveria ter vindo aqui" – pensou, sentindo o odioso sentindo o ódio se apoderar de seus pensamentos.
- Verdade – Aldebaran disse, mas logo começou a mudar de assunto, pois estava tão bêbado que não media suas palavras. Ele começou a fazer outras piadas dos outros signos, e Camus notou que nenhuma era tão maldosa como a dele. Todas cutucavam um pouco cada cavaleiro, mas nada desagradável.
- Não, ligue para ele Camus – quem falou agora foi aioros, olhando para o semblante sério do francês.
- Ah, ele tem razão. Ele não deveria tentar interagir com ninguém – disse, chamando a atenção de Kanon, aioros e Milo que estavam ao seu lado – foi um grande erro, afinal, o cubo de gelo não sabe se relacionar – disse em seguida, deixando todos perplexos. Desde quando Camus se importava?
- Não... não é isso, Camus – Kanon tentou falar alguma coisa, mas Camus logo voltou a falar, deixando todos atentos as suas palavras.
- Eu vou indo. Não se preocupem – disse, colocando a garrafa de cerveja em cima de uma mesa onde tinha alguns salgados, saindo rapidamente pelo salão.
Camus elevou seu cosmo e começou a caminhar mais rápido, passando pelas casas zodiacais apressadamente, indo até sua casa, sem olhar para trás. Por um momento foi seguido por Milo, mas acabou pegando mais velocidade e o despistado. Agora ele estava na sua casa, caminhando até seu quarto, trancando-se.
O grande espelho do quarto refletia um homem de vinte e cinco anos, forte, inteligente, simpático, bondoso, leal, amigo e com outras maravilhosas qualidades que ninguém poderia ver naquele homem. Apenas viam um coração de gelo que nem sequer existia e a pergunta era: Camus já teve um coração de gelo? Como alguém que lutava tão fervorosamente para proteger a Terra e os humanos, abdicando de prazeres naturais a qualquer ser humano poderia ter um coração de gelo?
Camus ergueu seu olhar e viu sua figura patética, ele sentou-se no chão, encostando-se na sua cama, sentindo seu peito doer por uma dor esmagadora que ele mesmo não sabia por onde vinha. Aos poucos algumas lágrimas começaram a escorrer por seu rosto, manchando sua bela face. Cada lágrima parecia que retirava um pouco de dor do corpo de Camus, e aos poucos começaram a cair rios de lágrimas que morriam na curva do seu pescoço.
- "Eles ficam... rindo de mim por eu ser sozinho..." – pensava, enquanto permitia-se chorar – "eu sou tão fracassado. Só sirvo para proteger Athena e nada mais... não consigo deixar de ser um mero soldado".
Momentos mais tarde, Camus acalmou-se e pegou seu diário. Com uma mão tremula segurou a caneta e ficou olhando para a folha em branco.
Grécia, dia: 14/12
Eu sou tão desprezível. Não posso obrigar ninguém a gostar de mim, não posso deixar essa fama patética que eu tenho. Eu não tenho um coração de gelo! Nunca tive e nunca vou ter, mesmo que eles fiquem afirmando que eu tenha.
Saga o meu admirador?! Que besteira, ele ficou rindo também, todos estavam rindo, eu sei que estavam. Não quero mais ver ninguém, não quero mais. Eu quero... eu queria fugir, ir para outro lugar onde eu pudesse recomeçar, onde ninguém ficasse me julgando. Onde eu pudesse ser eu mesmo. Será que eu consigo? Será que consigo abandonar minhas obrigações com Athena e tentar ser feliz?
Eu estou com ódio! Tanto ódio... e estou chorando, eu nunca mais havia chorado... não depois daquele dia... depois nunca mais chorei. Até hoje, maldito seja Milo! Meu melhor amigo! E que amigo eu tenho...!
Camus começou a rabiscar as últimas linhas com força, furando algumas partes do caderno para depois resolver fechá-lo, antes que destruísse os seus pensamentos transcritos. Ele o guardou e deitou-se em sua cama, ficando em silêncio, ouvindo a música alta que vinha da casa de gêmeos.
Apesar de estar cansado, Camus não conseguia dormir. Achou melhor tomar alguma providência ou ia enlouquecer no seu quarto, o cavaleiro de aquário saiu do seu quarto e foi indo até a cozinha, abrindo a porta do armário de madeira, pegando uma caixa de remédios. Ele procurou os medicamentos com atenção.
- "Esse deve servir" – pensou consigo mesmo, pegando uma cartela de comprimidos em sua mão. Ele pegou uma pílula e um copo com água para ajudá-lo a engolir, quando o fez, guardou a caixa e voltou para o seu quarto, deitando-se na cama.
Aos poucos as pálpebras de Camus começaram a cair, a medicação começava a fazer efeito e não demorou a desligar-se totalmente das feridas no mundo exterior, caindo no mundo dos sonhos. E quem sabe conseguisse ser a pessoa que tanto desejava nos seus sonhos? Afinal, era o único lugar onde ele poderia controlar suas emoções de acordo com sua vontade.
A noite passou e no dia seguinte, Camus acordou com o som de seu despertador, ele olhou para o lado com muita preguiça e resolveu levantar, indo diretamente para o banheiro, tomando um banho demorado. Quando saiu, vestiu uma calça de pano, sandálias e uma camiseta branca de algodão.
Camus saiu de seu quarto e sentiu a presença de outro cavaleiro em sua casa zodiacal. Ele suspirou já reconhecendo o cosmos do cavaleiro que estava na sala. Camus caminhou até lá encontrando Saga sentando no sofá.
- Saga...
- Camus, eu queria me desculpar com você a respeito de ontem. Nada que foi dito tem minha opinião e aceitação – disse rapidamente, antes que Camus pudesse completar alguma frase.
- Saga... todos vocês fizeram aquela piada idiota – disse, sentando-se no sofá, cruzando seus braços.
- Não. Eles aparecem do nada e perguntam que palavra ficaria boa numa frase, e então eu às vezes sugiro algo, mas nem sei do que estão falando. Então quando eu vejo o resultado final... perdoe-me Camus. Era minha casa, e não queria que se sentisse mal – desabafou, exibindo um olhar preocupante para Camus.
- "Talvez... esteja certo. Talvez só alguns dele fiquei zombando de mim, mas o Saga não... talvez seja realmente ele" – pensou, sentindo um certo contentamento no seu peito. Alguém se importava finalmente.
- Camus, eu não gostaria que você... se isolasse. Eu sei que você deve pensar nisso. Afinal somos muito parecidos. Eu mesmo demorei a me adaptar ao santuário depois que fui revivido, lembra do terror que vivia? Ninguém falava comigo, eu até pensei em desistir, mas você e Shura sempre me apoiaram – desabafou após um longo suspiro.
Um sorriso gentil desenhou-se nos lábios de Camus. Era incrível como a companhia de Saga lhe fazia bem mesmo estando numa situação tão problemática para consigo mesmo.
- Perdão se eu desconfiei de você, Saga – pediu, olhando nos olhos de Saga que pareceram se tranqüilizar.
- Tudo bem, Camus. Não vou mentir que não sabia dessas coisas, não sou hipócrita, mas não queria que soubesse. Apesar de tudo somos bastante infantis – disse.
- Tudo bem, Saga – disse, levantando-se – já tomou café?
- Ainda não – disse.
- Gostaria de me acompanhar no café a manhã? – indagou.
- Adoraria – disse, levantando-se em seguida.
Camus começou a andar pelos corredores guiando o cavaleiro de gêmeos. Eles chegaram até a sala de jantar, onde havia uma mesa redonda de madeira com muitas frutas cortadas em forma de coelhinho espalhadas numa tigela. Havia suco de laranja, leite, café, pães e uma torta do dia anterior.
Saga esperou Camus sentar-se e sentou-se de frente para ele, esperando que o francês começasse a se servir para depois começar a se servir também. Eles começaram a conversar tranqüilamente enquanto tomavam um demorado café da manhã, sem se importarem de chegar atrasados no campo de treinamento.
- "Será que é você Saga?" – indagou em pensamento, olhando discretamente para os lábios finos e carnudos do geminiano, observando seus gestos e de como seus cabelos caiam perfeitamente pela sua face amorenada por causa do sol intenso da Grécia. Por um momento percebeu que estava flertando Saga em silêncio. Camus desconcentrou-se no que fazia, esbarrando sua mão na xícara de café, queimando sua mão.
Um olhar preocupado foi dirigido até a mão de Camus, Saga pegou um guardanapo e entregou ao francês que se derreteu por dentro com o gesto atencioso de Saga. Desde quando estava tão sensível aos gestos de Saga? Saga sempre foi desse jeito. Camus não sabia se estava começando a criar um Saga romântico e apaixonado em sua cabeça, onde ele fosse o adorável admirador secreto, pelo fato de desconfiar que fosse seu admirador secreto realmente.
Desviando-se de seus pensamentos, pegou o guardanapo agradecendo Saga com um sorriso gentil. Ele secou sua mão que ficou um pouco avermelhada e depois limpou a mesa, colocando mais café na sua xícara.
Quando terminaram o café da manhã, Camus e Saga começaram a sair animadamente da casa de aquário. O geminiano parecia surpreso por ter conseguido animar Camus tão rápido, pois o francês estava bem receptivo. Eles foram descendo as escadarias lentamente, não encontrando nenhum cavaleiro por ali. Também estavam bastante atrasados, mas não se importavam. Quando chegaram ao campo de treinamento, Saga e Camus despediram-se indo para suas obrigações.
Hyoga veio até seu mestre com um sorriso ansioso no rosto, Camus ficou curioso com a reação de seu pupilo. Talvez ele tenha descoberto algo.
- Olá, Hyoga – o cumprimentou.
- Mestre, você cortou os cabelos, ficou muito bonito – disse com certo entusiasmo.
- Ah... obrigado – disse, um pouco sem jeito.
- E eu estava pesquisando o que você me pediu. Eu tenho certeza que não é nenhum cavaleiro de prata e nem de bronze que fica mandando mensagens – disse.
- Como pode ter certeza? – indagou, intrigado.
- Eu tenho meus contatos – disse, dando uma piscada para Camus, que achou melhor não pergunta – eu conheço a mAioria e o shun se da bem com quase todo mundo, não demorou a rondarmos o assunto.
- Obrigado, Hyoga – disse.
- Com certeza não é o Milo, nem Mu e Shaka, obviamente – murmurou, olhando para os cavaleiros, fazendo Camus olhar também – acho que Aldebaran também não, e eu ainda acredito que o Afrodite fique em cima do Shura... então, eu acho que a lista está menor.
- Ah, com certeza, Hyoga. Não são muitos para investigar – disse – obrigado pela sua ajuda. Você gostaria que eu fizesse algo por você? – indagou.
Cisne travou de repente. Ele olhou bem para seu mestre e começou a pensar em bobagens. O que queria de Camus? Será que seria muito pedir um beijo de seu mestre?
- Ah... eu vou pensar – disse, inseguro de se revelar para Camus. Apesar do francês estar bem humorado ultimamente, isso não queria dizer que tinha fugido da sua personalidade seca e fria de sempre.
- Pois então, pense e depois me diga – disse – agora eu gostaria de lhe ensinar algumas coisas teóricas. Vamos a minha casa.
- Claro – sorriu.
Os dois saíram do campo de treinamento sob o olhar de alguns cavaleiros. Aldebaran por exemplo estava louco para correr atrás de Camus e pedir perdão pela noite passada, mas não sentiu coragem de ir atrás dele. Talvez mais tarde. Sentia-se constrangido.
- E você já recebeu mais mensagens? – Hyoga perguntou.
Camus arregalou seus olhos, ele havia se esquecido de ver as mensagens de seu celular. Ele estava tão entretido em ficar imaginando que Saga era o admirador, que havia se esquecido dele realmente.
- Eu não vi – disse.
- Deve ser umas mensagens desagradáveis mesmo – Hyoga comentou.
- Ah... isso, são insuportáveis – mentiu. Não se sentia à vontade para expressar seus sentimentos com Hyoga.
Eles continuaram subindo até que chegou à décima primeira casa do zodíaco. Camus e Hyoga sentaram-se na sala e começou uma aula de química e física.
A noite começou a cair de repente e Camus achou melhor liberar seu pupilo antes que ele desmaiasse de cansaço. O cavaleiro do gelo deixou alguns livros para Hyoga estudar e o liberou por três dias para seu aprendizado.
- Irei fazer um teste oral depois – Camus disse, olhando para Hyoga.
- Sim, mestre – disse, sentindo suas bochechas ficarem vermelhas por começar a imaginar coisas eróticas com seu mestre. Teste oral? Hyoga adoraria o teste se fosse do jeito que ele estivesse pensando.
- Hyoga, você está bem? – indagou, vendo que seu pupilo estava ficando vermelho de repente.
- Ah, sim! Até mais, Camus – disse, saindo rapidamente da frente do francês, antes que ficasse mais vermelho.
O francês ficou olhou para Hyoga se afastar por um tempo, sentindo a brisa da noite bater contra seus cabelos. Quando Hyoga desapareceu, Camus saiu correndo como uma criança até seu quarto, indo até o aparelho celular que estava em cima do cômodo ao lado da cama, vendo que havia duas mensagens.
1° mensagem: "Eu fiquei surpreso de como você se diverte com os outros. Fiquei enciumado por não poder estar ao seu lado".
2° mensagem: "Sua beleza é intoxicante. Não consigo parar de observar. Será que você me acha infantil por me aproximar assim de você?".
Camus viu o horário das mensagens que eram bem diferentes. Mas a mensagem número dois havia sido mandada um pouco antes de ir a festa de Saga.
- "Será que ele estava na festa? Se for... isso pode ser uma piada. Podem estar brincando comigo" – pensou, sentindo uma angústia no peito.
Os dedos ágeis de Camus começaram a digitar uma mensagem para o número secreto. E escreveu:
"Não acho infantil, apenas insegurança, como eu também tenho. Quando quer me ver e falar tudo pessoalmente? Marque um dia que eu irei".
Camus enviou a mensagem e ficou olhando para o aparelho a sua frente, ficando um bom tempo observando, até que recebeu uma resposta. Ele pegou o aparelho rapidamente e leu:
"Acho melhor nos encontrarmos. Dia 20/12 na montanha sul, abaixo do Ipê roxo. Assim que o sol se pôr. Espero ser recebido por seu sorriso".
Os olhos de Camus emitiam um brilho enigmático, ele sentiu suas mãos tremerem enquanto digitava a mensagem seguinte.
"Tudo bem, até lá".
Camus jogou-se na sua cama, sentindo seu coração acelerar. O encontro seria amanhã mesmo. Será que estava preparado para a revelação? Não sabia ao certo, mas sua inquietação não ia parar até que descobrisse quem era esse admirador que tanto o elogiava.
O caderno secreto de Camus foi aberto pelo seu próprio dono que começou a escrever.
Grécia, dia: 15/12
Caro diário, hoje estou melhor. Eu acho! Saga veio conversar comigo e eu me senti melhor, pelo menos ele não é tão insensível como meu melhor amigo Milo. E que amigo!
Dia 20/12 irei conhecer o meu admirador secreto. Será que é o Saga? Eu mesmo não sei o vai acontecer. Eu estou me contendo para não ficar ansioso e esperançoso, para depois ter que me magoar, mas não estou conseguindo me controlar. Eu preciso... de um chocolate... ah! Essa ansiedade está me matando.
Isso é tão hilário. Eu, o famoso príncipe do gelo, poderoso e admirado cavaleiro de ouro, esse guerreiro da décima primeira casa, está com vontade de comer chocolate e com medo de engordar! Isso é tão estranho. Aos poucos eu mesmo acabo vendo que não me conhecia direito. Então não posso julgar os outros por me taxarem de maldito cubo de gelo e coração de gelo. Mas eu os odeio quando fazem piadas ao meu respeito.
Eu quero muito que seja uma pessoa especial e que não seja uma brincadeira, ou então... eu acho que irei surtar.
Camus fechou o diário e ficou olhando para o que escreveu, dando atenção aos seus sentimentos. Aquário guardou o caderno embaixo da cama e saiu do quarto. Afinal ele tinha que comer alguma coisa para alimentar sua terrível ansiedade. Seria Saga o homem que se ocultava em seus sonhos? Ele mesmo não sabia, mas desejava ser alguém especial, que o entendesse e que não precisasse usar a máscara fria e solitária de sempre.
Continua...
Olá, obrigada pelos comentários. Espero que comentem esse capítulo para me incentivar com a história. Comentários... Lalalala.
O admirador secreto! Quem será? Eu já me decidi. Mas não conto! Leiam se tiver curiosidade. No próximo capítulo prometo que terá um lemon muito interessante.
Um agradecimento especial a Atsuko Uehara que corrigiu esse capítulo para mim. E agradeço as pessoas que se ofereceram para fazer a correção, isso significa muito para mim.
Finalizado em 8/7/2008
Leona-EBM
