Por Leona-EBM
O Diário
Capítulo IX
Nós somos sozinhos, Camus!
OoO
Jesus,
Jesus help me
I'm alone in this world
And a fucked-up world it
is too
Tell
me, tell me the story
The one about eternity
And the way it's
all gonna be.
OoO
O olhar de Camus mirou o cavaleiro de escorpião que estava sentado no chão, encarando-o com mais atenção e um sorriso maroto nos lábios.
- "Milo, o que você pretende agora? Dessa vez eu não vou perdoar!".
Aldebaran puxou uma cadeira e fez com que o cavaleiro de aquário se sentasse a contragosto, o anfitrião também se acomodou e o silêncio reinou durante poucos segundos, pois logo começaram a conversar.
- Camus, nós queríamos pedir desculpas a você. – falou Saga em primeiro lugar, recebendo um olhar de completo desprezo do francês. Os sentimentos de Camus estavam em evidência, ele não ia fingir que nada lhe aconteceu, não dessa vez.
- Só isso? – indagou o francês, pronto para se levantar. Não queria ficar olhando para os demais cavaleiros, que provavelmente estavam começando a sentir pena dele. Não queria esse tipo de sentimento. Nunca teve amigos e não seria agora que pediria por eles.
- Camus, por favor, não vá embora. – Milo pediu com uma voz rouca, lançando um olhar de desespero.
O francês suspirou, olhou para os rostos daqueles que estavam lhe recebendo. Não custava nada ouvir o que eles tinham a dizer. O aquariano encostou-se ao encosto da cadeira e cruzou as pernas, deixando seus braços igualmente cruzados, mostrando que estava introspectivo, mas que ouviria a eles.
- Nós sempre quisemos saber mais de cada cavaleiro. No começo nós nunca conversávamos ou então sempre que nos encontravámos tinha uma rivalidade idiota, sendo que todos nós tinhámos o mesmo objetivo. – começou Shaka, com sua voz calma e baixa – eu mesmo achei que não precisava de ninguém, até que descobri que o relacionamento humano era demasiado importante para a formação do nosso ser.
- Eu mesmo não queria falar com vocês por causa do ocorrido com o meu irmão Aioros, eu odiava a todo por me discriminarem, mas conhecendo vocês aos poucos eu vi que não eram ruins e apenas zelavam pela proteção de Athena. – falou aioria.
- O que estamos tentando dizer é que temos uma certa necessidade de conhecer ao outro, pois somos muito isolados do resto do santuário. Nós viramos uma família. – disse Aldebaran em um dos seus poucos momentos de seriedade.
- Certo. – Camus se proununciou – e essa mesma família adora fazer brincadeiras. Ótimo jeito de quererem me aproximar através de uma aposta estúpida. O que acharam que iam conseguir? Sorrisos e abraços? Sei que ninguém aqui me conhece, mas pelo menos deviam saber que eu não ia gostar nenhum pouco de uma coisa dessas.
- Realmente foi ridículo. – Mu falou – mas aconteceu, nós estamos nos desculpando. Geralmente brincamos com os outros, mas com você realmente foi algo muito cruel.
- Certo. E era isso que queriam falar?
Todos ficaram em silêncio se encarando, até que olharam para Milo. Afinal ninguém sabia como lidar com Camus, somente o escorpiano poderia dizer algo para Camus se sensibilizar e perdoá-los.
- Era só isso mesmo, Camus. Apenas não pense que não tem amigos. – disse Milo.
Camus deu um meio sorriso de divertimento e se ergueu, despedindo-se dos demais com um leve aceno com a cabeça, saindo da casa de touro. Os demais cavaleiros olharam para Milo novamente.
- Por que só falou isso, Milo!? – indagou Mu.
- Você deveria ter dito algo a mais! – Shura repreendeu – não adiantou nada aproximá-lo de nós.
- Calma, calma. Camus é assim, ele é racional demais, ele pega uma conversa, mastiga, mastiga, mastiga, depois ele vai digerindo aos poucos. Eu conheço ele! – falou – não adianta falarmos um monte de coisas, assim seria até pior.
- Por que pior?
- Ora! Por que sempre que falamos demais, deixamos algumas palavras a mais para Camus poder mastigar, mastigar, mastigar e jogar contra nós. Eu sei bem do que eu estou falando, quando eu converso com o Camus, eu penso direitinho no que vou falar ou então ele joga tudo contra mim. – suspirou, coçando a cabeça levemente – eu sei bem disso. Camus é uma enciclopédia ambulante.
- Não fale isso alto ou ele pode ouvir e pensar que estamos brincando novamente. – falou Saga.
Enquanto os cavaleiros conversavam, Camus continuou seu caminho, mastigando e digerindo as informações que obteve dos demais companheiros de batalha. Quando ele chegou em sua casa, foi diretamente para o seu quarto, jogando-se na cama de casal para assim refletir.
- "Muito conveniente aproximar-me de todos agora. Parece que eles necessitam do meu perdão, como se não pudessem conviver com isso. Afinal, somos realmente isolados e querem a todos por perto. Isso parece um manicômio." – suspirou, olhando para a gaveta fechada a chave, o lugar que estava seu diário.
- "Eu sei que gosto do Milo, mas eu gosto do Shion também. É muito fácil eu escolher ficar com o Milo, porque eu estou gostando dele. Mas eu vou viver saindo a noite com os outros, minha vida vai ser exposta, Milo é extremamente possessivo, não é somente pensar no meu sentimento, mas existe o depois. Eu estou muito bem com Shion, eu vou aprender a gostar dele". – concluiu com um leve sorriso nos lábios, como se tirasse um grande peso das suas costas – "obrigado Milo, depois dessa conversa que você deve ter promovido com todos, eu finalmente me decidi. Somos todos uma família e eu vou construir a minha!".
Camus deu um salto da cama e se trancou no banheiro, ficando lá por um longo tempo, até sair com um sorriso leviano nos lábios, com uma toalha em volta da cintura. Ele se sentou na sua penteadeira e viu seus cabelos chegarem até a cintura, ele não gostava mais desse comprimento.
Seus olhos percorreram o quarto, procurando algo até que chamou um de seus fiéis empregados que lhe veio com um largo sorriso. Camus pediu para que seu cabelo fosse cortado no comprimento dos ombros e assim foi feito. Suas madeixas azuladas ficaram na altura dos ombros, sendo que duas mechas da frente ficaram um pouco menores, modelando seu rosto oval. Com menos cabelos, Camus ficou mais bonito, mostrando suas formas, retirando aquele grande peso que lhe escondia.
Depois de cortado, o empregado limpou o quarto, enquanto Camus olhava para o seu guarda-roupa, escolhendo uma calça de sarja escura e uma camisa leve e folgada.
Passou perfume, arrumou o cabelo com os dedos e saiu de sua casa, dirigindo-se ao salão do grande mestre, quando chegou começou a procurar seu namorado por todos os lugares, até que o achou sentado no escritório, avaliando alguns documentos.
Shion estava distraído, mas quando sentiu o cheiro forte de Camus no cômodo, ele ergueu seu olhar e aquilo foi sua perdição. Naquele momento nada poderia fazê-lo desviar de seus pensamentos e desejo. Camus estava lindo e estava ali para vê-lo, para tê-lo e não negaria atenção e carinho.
O ariano fechou imediatamente o que estava lendo e se ergueu, indo até o mais novo, puxando-o pelo braço e antes de dar um beijo saudoso, uma mão tratou de alisar a face alva e assim veio o beijo, carinhoso a princípio, carregado de desejo a seguir e se separaram.
- Cortou os cabelos. – observou, passando a mão por suas madeixas – ficou muito bom.
- Obrigado, eu estava pensando em fazer isso faz tempo. – sorriu – está ocupado hoje?
- Não, não para você.
Shion o puxou pela mão até o sofá, onde se sentaram. Os olhos rosados pareciam brilhar mais que antes, observando os lábios de Camus se moverem para lhe contar algumas coisas, e assim ficou perdido naquela pessoa, suspirando internamente como um bobo apaixonado, sendo que tinha mais de trezentos anos de idade.
- (...) então descobri que o diário faz isso. – concluiu o francês, sob o olhar sério e ponderado de seu namorado. – o que você acha, Shion?
- Eu já sabia.
- Já!? – indagou com surpresa, arregalando seus olhos e abrindo sua boca por um segundo.
- Sim, eu sei de muitas coisas nesse mundo e essa é uma delas. – falou – por isso respeito você e jamais o leria. São coisas que até você se surpreende com o que escreve.
Camus abaixou a cabeça, refletindo por um momento, sentindo-se um bobo por ser o último a saber daquilo. Por que Shion nunca lhe contou?
- Por que nunca me falou?
- Porque não queria interferir no que Athena estava fazendo. – falou – e agora que já sabe. Camus, diga-me, o que você descobriu sobre você mesmo naquele diário?
O coração de Camus acelerou uma batida. Quando falava com Shion, ele sentia que poderia contar tudo, pois ele era um bom ouvinte, mas certamente ele não gostaria de ouvir que amava o cavaleiro de escorpião, ninguém ia gostar de ouvir que ama outra pessoa, isso era cruel. E assim Camus ficou estático, perdido nos seus devaneios.
- Tudo bem se não quiser contar. – falou, alisando o rosto do outro – mas se estiver confuso, apenas pense no que você realmente quer fazer nesse presente momento, Camus.
- Agora?
- Sim. O que você tem vontade de fazer nesse momento?
E assim ele fechou os olhos, visualizando a imagem do cavaleiro de escorpião e isso o desagradou, não queria Milo nos seus pensamentos. Era tão mais fácil imaginar Shion e continuar com ele. Ou então ele ainda visualizava Milo, pois tinha assuntos pendentes com ele? Será que se relacionasse com Milo ele teria certeza do que queria?
- Abra os olhos Camus. – Shion pediu e quando Camus abriu, ele se arrependeu um pouco de ter pedido aquela ação. Os orbes azulados transmitiam confusão e conflito.
- Eu não queria estar aqui. Você me odeia Shion?
- Nunca. – respondeu.
- Por que as coisas não são como desejamos?
- Não sei, - sorriu – mas elas sempre dão certo no final, pois mesmo que escolhermos caminhos errados e no final der tudo errado, o importante é como estamos nos sentindo. Se você estará em paz consigo mesmo é a resposta, então deve seguir esse caminho.
- Mesmo que seja errado?
- Mesmo que seja errado. – sorriu.
- Mas...
- Camus. – o chamou, segurando o seu rosto com as duas mãos – eu já te disse que te amo, não disse?
O aquariano balançou a cabeça positivamente, concordando.
- O amar ficou banalizado nesse época, mas eu falo sério, eu te amo. Você sabe o que é amar, Camus?
- Acho que sim.
- Será? Amar uma pessoa é algo forte demais para que os jovens dessa época entendam. Eu só ouço vocês falarem de boca para fora facilmente para no dia seguinte achar outra pessoa para falarem o mesmo.
- E como você me ama, Shion?
- Te amo como amo a Deusa, eu não vou interferir no seu caminho, apenas olhá-lo pacientemente como fiz durante anos com Athena e deixar que o mundo se encarregue de você.
- Apenas me observa?
- Sim, apenas te observo, te protejo e desejo sua felicidade.
- "Tão diferente de Milo que prefere que eu viva com ele do que com Shion". – pensou de repente, permitindo-se dar um leve sorriso. Os dois cavaleiros eram muito diferentes.
- E está feliz apenas com isso, Shion?
- Está preocupado em me magoar e não pensa em você mesmo. – suspirou – com essa conversa, você já disse tudo o que não queria dizer, Camus. Eu já sei o que pensa desde o momento que abriu seus olhos. Você não quer estar aqui comigo, mesmo que se force a isso. E por ser assim, desse jeito único que eu escolhi você para amar.
Shion sorriu doce e triste, deixando seus lábios tocarem nos de Camus, num beijo calado, tépido, com um ar de despedida.
- Eu queria uma relação com você. – disse firme, puxando a cabeça de Shion para perto, abraçando-o.
- Queria? Usa o verbo desse jeito? Você devia falar: eu quero. Camus, não nos magoe.
O cavaleiro de aquário engoliu aquelas palavras e fechou os olhos, afundando sua cabeça na curva do pescoço de Shion, ficando ali por um tempo, acalmando-se.
- Meu coração quer outra pessoa, mas minha cabeça quer você.
- E você age pela sua cabela?
- Sim. Eu penso mais do que sinto.
- Então quer ficar comigo sem sentimentos?
- Não é assim, Shion. Quem disse que não sinto nada por você?
- Vamos fazer o seguinte. Vamos dar um tempo, assim você descobre o que sente por esse cavaleiro de escorpião e se não for o que você esperava, eu estarei aqui para você.
- Isso não é justo.
- Nem tudo tem que ser certinho como você, Camus. Eu estou te dando essa oportunidade, por favor, pense direito.
- Desculpe-me. – pediu, apertando o abraço.
- Agora vá embora, pense e faça o que eu te peço. Se ainda pensar em mim, apenas volte.
Camus se afastou com a cabeça baixa, não tendo coragem de olhar para Shion, ele se virou e saiu, sentindo uma forte pressão no peito e um incômodo irritante na garganta. Ele saiu da casa do grande mestre com os olhos cheios de lágrimas. Certamente havia magoado Shion.
Na casa de aquário, ele pegou seu diário, acalmando-se um pouco quando se sentou na escrivaninha e lá começou a escrever.
Grécia 25/12
Caro diário, minha vida está um verdadeiro inferno. Pela primeira vez na minha vida eu não sei o que fazer e sinto que estou perdendo coisas importantes enquanto não me decido. Eu penso demais, e isso me tortura, eu gostaria de ser mais impulssivo às vezes. Eu sofro antecipadamente, durante e depois de minhas decisões.
O que eu devo fazer? Eu não sei, nunca li sobre isso nos meus livros, nunca tive um amigo para conversar também. Afinal, o único amigo que eu tenho está envolvido nas minhas confusões sentimentais. Será que deveria falar com alguém? Com quem? O máximo que eu tenho seria Hyoga, e francamente, não vou falar sobre essas coisas com o meu pupílo.
Shion terminou comigo e pediu para eu me achar. Será que eu vou falar com Milo? Milo sempre me fez muito mal e agora eu vou dar o gosto de dizer que o amo, que vida injusta. Por que eu não posso dar a volta por cima? Eu não pertenço aquela família que os cavaleiros formam. Eu não pertenço a lugar algum, com esse diário, eu descobri que sou mais sozinho do que pensei. Mais triste do que pensei.
Ah! Na verdade eu sei o que quero, por isso estou assim. Eu queria estar com Milo, sim. Essa é a verdade que eu tento negar, eu queria que Shion me pedisse para ficar com ele, assim teria a desculpa de estar escutando-o, mas não! Shion pediu para eu pensar e ver o que queria, eu acho que ele mesmo sabe o que eu vou escolher. Todo mundo sabe o que eu quero, até eu mesmo sei, o problema é que eu NÃO quero o que está destinado. Eu quero fugir, ir para outro lugar, mas lá não terei Milo, nem Shion... então serei mais sozinho que sou e bem mais triste também. Eu serei um homem morto.
OoO
Wake
up, wake up dead man
Wake up, wake up dead man.
Jesus, I'm
waiting here, boss
I know you're looking out for us
But maybe
your hands aren't free.
OoO
Camus suspirou e parou de escrever, lendo em silêncio o que havia escrito, quando terminou, ele passou a mão por sua cabeça diversas vezes, enquanto sua respiração se mantinha pesada. Ele se levantou de repente, pegou o diário na mão e saiu de sua casa.
O francês andava apressado e chegou na casa de escorpião, encontrando-a vazia, ele foi até o quarto de Milo e se sentou numa cadeira, ficando ali por um longo período, esperando seu anfitrião que chegou horas demais, surpreendendo-se com sua presença no quarto.
- Camus! – exclamou com surpresa – o que faz aqui?
- Eu quero falar com você.
- É sobre os outros? Camus, não os leve a mal, eles...
- Não é sobre os outros. – disse.
Camus pegou seu diário e jogou na direção de Milo que o pegou com uma única mão.
- O que é isso?
- Meu diário, você o conhece bem.
- Eu sei que é seu diário.
- Então, por que a pergunta?
- Eu quero saber o motivo de estar dando-o para mim.
- O que podemos fazer com um diário?
- Ler?
- Não. Escrever. – disse o francês – eu quero que você escreva o que pensa sobre mim nesse diário, Milo.
O escorpiano ficou paralisado, ele voltou a olhar para o caderno e sentiu um frio correr sua espinha. Será que aquele diário arrancava seus sentimentos mais profundos? Não sabia como funcionava.
- Por que isso, Camus? Eu não vou escrever nada.
- Escreva. – ordenou num tom baixo e felino, exibindo um olhar penetrante.
Milo bufou, ele pegou a caneta que estava junto ao diário e se sentou na cama, abrindo uma página em branco, vendo que a página ao lado tinha as anotações de Camus, mas não se atreveu a ler. Ele fechou os olhos e começou a escrever.
Pois bem, aqui estou escrevendo as ordens de Camus, que está me olhando como se fosse um cão selvagem preste a me morder. Eu não sei o que falar, mas ele pediu para escrever sobre os meus sentimentos. O que eu digo sobre esse cavaleiro de aquário?
Milo ia escrevendo, e Camus notou que seus olhos começaram a ficar vermelhos e o caderno começou a ter uma coloração diferente, as páginas ficaram douradas, uma coisa que jamais percebeu. Então aquele diário era realmente místico.
O cavaleiro de aquário foi meu melhor amigo por anos até que eu fiz muitas burradas, eu fui muito estúpido, pois adoro brincadeiras, adoro tirar sarro da cara dos outros, quero estar sempre por cima. Gosto de rir por último, até mesmo dos meus amigos. Isso é divertido, mas depois eu me chateio, pois vi que peguei pesado demais e não faço isso somente com Camus, mas com os demais também. Até me lembro do dia que Saga chamou minha atenção. Uma grande bosta!
Agora o Camus está longe de mim e ficando com aquele maldito cadáver vivo do Shion. Como eu não gosto daquele merda! Mas tenho que admitir que o cabeça dura do Camus está bem melhor nesses tempos, ele anda com um sorriso bobo nos lábios, o que me deixa enjoado e... com ciúme. Camus nunca sorria desse jeito para mim, eu até que tentei, mas ele raramente o fazia.
Certo, eu demorei para admitir que o amava, porque eu não queria ter sentimentos assim por ninguém, isso vem da minha infância, minha família e dos poucos amigos que tive. Eu queria amar apenas a Deusa e viver e prol da humanidade. Eu não queria amá-lo, mas fiquei amigo dele, eu o magoei com minhas brincadeiras, mas a cada rosto triste dele, eu me repudiava. Ai, que ódio que eu ficava de mim mesmo!
Nossa, e o dia que nós ficamos juntos. Eu pensei que ia morrer depois que me encontrei sozinho na noite seguinte! Como eu desejo repetir, ter aquele corpo debaixo do meu e fiquei feliz ao saber que ele gostou também. Ah! eu sou correspondido pelo famoso cubinho de gelo, isso me deixou perdido por um tempo, mas eu caí na real e vi que era isso mesmo que eu sempre desejei. O jeito agora é tirar o Camus daquele carneiro de qualidade vencida e pegá-lo para mim.
Milo parou de escrever, piscando duas vezes até a coloração de seus olhos voltar ao normal, ele ia ler o que escreveu, mas o diário já estava nas mãos de Camus.
- Hei, deixe-me ler! – Milo pediu.
- Fica sentado. – mandou de pé, enquanto lia.
- Nossa, nem lembro direito o que eu escrevi. – sorriu amarelo – não ligue para os erros, hein!
- Eu pareço um cão selvagem que vou te morder? – Camus indagou com um leve sorriso.
- Camus, você já se olhou no espelho quando faz essa cara e... espera aí! Você cortou o cabelo?
Camus ignorou aquela pergunta e voltou a ler, ficando surpreso com algumas coisas, concordando com outras, e rindo dos apelidos que ele dava a Shion até que chegou na última linha.
- O que foi? Do que está rindo?
- Eu deveria fazer você escrever aqui mais vezes. – disse – não se lembra de nada do que escreveu?
- Claro que lembro, em partes, mas não os detalhes. Sei lá, esse negócio é estranho.
- Você me chamou de cubinho de gelo. – disse seriamente.
- Ah! Camus... não leve isso tão a sério. – pediu em desespero, querendo arrancar aquele diário das mãos de Camus e num movimento rápido realmente o fez.
Camus suspirou e se sentou na poltrona, olhando para Milo que lia em silêncio, rindo baixinho em alguns momentos, ficando mais sério nos outros e quando terminou ele deu um lindo sorriso para Camus.
- São meus sentimentos e desculpe-me pelo cubinho de gelo e cão selvagem.
- Tudo bem, eu já te xinguei bastante também.
Milo correu os olhos para a página ao lado, onde tinha a letra primorosa de Camus, lendo rapidamente o que estava escrito, surpreendendo-se mais uma vez.
- Nossa, Camus.
- Leu o que eu escrevi de novo. – suspirou.
- Eu sinto muito. – falou.
- Não, tudo bem, eu deixei você ler dessa vez.
- Não, eu sinto muito por você se sentir assim a respeito dos seus sentimentos. Seria mais fácil amar Shion, seria mesmo. Eu fui muito estúpido com você, Camus. Perdoe-me, por favor.
- Ah, Milo, eu sempre perdôo o que você me faz.
- Você se sente sozinho, Camus. – falou, colocando o diário em cima da cama. Ele se aproximou da cadeira, ficando próximo a Camus, olhando-o de cima.
- E não deveria?
- Não mais.
- Por quê?
- Porque nos gostamos.
- E isso apazigua tudo?
- Em partes. Podemos fazer nossa família se quiser.
- Leu tudo mesmo, pelo jeito.
- Eu sempre presto atenção em você, Camus, sempre.
- Somente agora.
- Não, eu sempre notei suas mudanças, mas você é difícil de se analisar também. Não é muito fácil ver o que está pensando, mas eu sempre fui o melhor nisso.
- O melhor, Milo, o melhor, pois eu nunca tive outra pessoa tão próxima a mim.
O escorpiano sorriu com aquilo, gostando de ser especial na vida do francês. Ele estigou seu braço e tocou numa mecha azulada, sentindo sua textura, depois desceu sua mão até o abraço de Camus e o puxou para cima, erguendo-o.
- Perdão, Camus. – pediu novamente, abraçando o corpo menor, deixando seu rosto próximo ao de Camus.
E dessa vez os braços de Camus se moveram, abraçando o homem a sua frente como uma criança perdida, deixando sua cabeça pousar no seu ombro forte, ficando ali por um longo tempo, sentindo Milo acarinhar suas costas com as mãos.
Milo o puxou até a cama, fazendo-o se deitar, mas em nenhum momento pensou com malícia ou então tocou em outra parte do corpo do francês. Quando de deitaram, Milo voltou a abraçá-lo, deixando seu corpo embaixo do aquariano, assim podia alisar suas costas e sua cabeça.
- Por que eu tenho que amar alguém tão canalha como você? – indagou num sussurro para Milo.
- Não sei, – respondeu no mesmo tom de voz – mas não fale assim de mim, por favor.
- Desculpe-me, mas tenho muita raiva.
- Eu imagino, Camus. Eu também tenho raiva de mim mesmo.
- Será que vou sentir isso para sempre?
- Não, Camus.
- Como pode ter certeza?
- Pois a partir de hoje, eu vou me dedicar a você. E modéstia a parte, eu sou aquele que vai te fazer feliz.
OoO
Listen to the words
they'll tell you what to do
Listen over the rhythm that's
confusing you
Listen to the reed in the saxophone
Listen over
the hum of the radio
Listen over the sound of blades in
rotation
Listen through the traffic and circulation
Listen as
hope and peace try to rhyme
Listen over marching bands playing out
their time.
OoO
Camus sorriu com aquilo, com o jeito daquele escorpião que conhecia tão bem. Os olhos de Camus foram se fechando e ele finalmente dormiu, aquele dia havia sido muito agitado.
Na manhã do dia seguinte, Milo foi o primeiro a acordar, mas não moveu um músculo sequer ao ver que tinha um anjo deitado sobre o seu corpo, respirando pesadamente.
- "Ah, Camus, você fica tão bonito com esse rosto limpa de máscaras". – refletiu.
Aos poucos Camus foi acordando, encontrando o rosto primoroso de seu amigo lhe encarar. E nesse momento foi Camus que encontrou sua perdição, ele não queria mais sair dali ou então desviar sua atenção para outra coisa. Seu coração bateu forte, não tinha como negar e nem viver com Shion apenas por usar o lado racional de seu cerébro, o que mandava na verdade era o seu coração.
- Você dormiu bastante. – Milo comentou – quer comer?
- "O que eu falo?" – indagou para ele mesmo, perdido, não sabe como se comportar.
- Camus, quer comer algo?
- Eu vou para minha casa. – disse, sentando-se na cama de repente.
- Já?
- Sim. – respondeu seco – "na verdade queria ficar mais, ser puxado por você e ser obrigado a repetir aquela noite, mas não consigo dizer isso".
Milo nada disse, vendo o outro se levantar, arrumando suas roupas que estavam bem amassadas, olhando para o corte mais curte de cabelo.
- Tome café comigo. – pediu.
- Eu já estou indo. – falou – "pelo amor de Athena, me impeça de ir embora".
Camus começou a andar até a porta lentamente, se arrastando na verdade, querendo que Milo intervisse. Ele abriu a porta, sentindo o vento fresco da manhã lhe atingir e deu um passo para frente, saindo do quarto, começando a andar pelo corredor, sentindo um forte incômodo pela garganta.
- "Ah, Camus, vamos. Não seja criança, não vá chorar por isso!" – pensava, pisando firmemente contra o piso, dirigindo-se para a saída daquela casa zodiacal.
- Camus!
O francês parou e olhou para trás, encontrando um escorpião que ofegava.
- O que foi, Milo?
- Não vá.
Alguém tinha que ceder e nesse caso seria Camus. Ele se virou por completo e ficou parado na saída daquela casa e a resposta de Milo foi o que ele sempre desejou. O escorpiano o puxou pelo braço num tranco e abraçou seu corpo, afundando a cabeça nos seus lábios, beijando-o com paixão, saudade, pedindo perdão e desejando sua permanência, ou melhor, exigindo que ficasse ali.
Milo o começou a puxar para o interior de sua casa, indo novamente para o quarto, para o lugar que Camus nunca deveria ter saído, que nunca deveria ter deixado que ele saísse e agora não ia mais repetir esse erro. E ali deixou Camus, sentado na sua cama para observá-lo, admiti-lo como a pessoa que amava.
Ambos tinham sérios problemas, tanto Milo como Camus. Eram pessoas solitárias apesar de tudo. Sempre escondendo seus sentimentos, um através do silêncio e do ar intelectual e o outro através da máscara brincalhona e o sorriso constante nos lábios. Jeitos diferenciados que buscavam a mesma coisa: a paz interior, a felicidade e o calor de alguém. E por isso resolveram ser cavaleiros, proteger os que não podiam se defender sozinhos, unindo-se a uma Deusa que zelava o amor e a família.
- Nós somos sozinhos, Camus. – Milo disse.
Camus apenas concordou com um aceno na cabeça.
- Vamos morrer em batalha algum dia, não teremos amigos fora do santuário, nem uma família.
E novamente Camus concordou, abaixando seu olhar.
- Mas enquanto esperamos esse destino, nós podemos ser felizes, não é mesmo? – sorriu – podemos tentar mudar esse quadro, essa tristeza.
- Nunca te vi falando assim. – Camus observou.
- Assim como não sei muita coisa sobre você, você não sabe muita coisa sobre mim.
- Tem razão. Temos que ver as pessoas com outros olhos todos os dias. – observou – eu apenas me esqueci que você é mais que um rapaz brincalhão.
- Eu sou um homem, Camus. Um homem acima de tudo. – falou, sentando-se ao seu lado – um homem que quer te fazer feliz.
Camus sorriu ao ouvir aquilo, como se fosse um bobo apaixonado. Eles se abraçaram e se beijaram, passando a mão por seus corpos, apertando seus músculos, desejando-se. Mas não transaram, não nesse momento, apenas se beijavam, comentando algumas coisas, rindo baixinho, permitindo-se conhecerem-se novamente, mas dessa vez sem máscaras.
- "Por favor, céus. Que eu seja feliz no destino que me foi dado. Levante-me dessa tristeza, desse mundo mórbido que eu criei".
OoO
Wake
up, wake up dead man
Wake up, wake up dead man.
Jesus, were
you just around the corner?
Did you think to try and warn
her?
Were you working on something new?
If there's an order in
all of this disorder
Is it like a tape recorder?
Can
we rewind it just once more?
Wake
up, wake up dead man
Wake up, wake up dead man.
Wake up, wake
up dead man.
OoO
Continua...
Outro capítulo e digo que o próximo será o último. As coisas acabaram fugindo um pouco de controle por causa do roteiro inicial, Camus sempre se mostrou apaixonado pelo melhor amigo apesar do admirador secreto lhe fazer descobrir novos sentimentos, mas nem sempre podemos agir com a cabeça.
Obrigada pelos comentários. E espero que me digam o que estão achando desse capítulo.
Música: Wake Up Dead Man. Banda: U2.
Tradução: http:// letras. terra. com. br/u2/141344/ (junte os espaços do link, pois foi separado para ser aceito no site).
21/4/2009
e-mail/msn: gotasdegelo(arroba)
Por Leona-EBM
