Nem bem entrou no bar, Kagome se arrependeu. A julgar pelas dezenas de olhares masculinos que se fixaram nela, feminismo devia ser palavra desconhecida naquela distante cidadezinha do Texas.
Nervosa, ajeitou os cabelos castanhos e jogou-os para trás, esperando que o gesto demonstrasse desafio. Em seguida, pediu uma cerveja ao atendente. Outro gesto de desafio: afinal, em seus vinte anos de vida, jamais provara cerveja.
— Oi, belezinha. Quer dançar comigo?
"Ai, meu Deus! Perigo à vista", pensou ela, quando identificou o dono da voz, um homenzarrão barbudo cujo olhar parecia devorá-la.
— Não, obrigada. — Segurou a caneca com as duas mãos para disfarçar a tremedeira, — Eu... eu estou esperando alguém.
Era verdade, ou quase. Havia tempos que esperava por alguém, só que "ele" ainda não surgira em sua vida. Infelizmente! Céus, como precisava "dele" agora! Estava morando com um tio cobiçoso, daqueles que procuram subir depressa na vida sem olhar onde pisam. E esse tio resolvera entregar a sobrinha a um amigo fazendeiro, velho e feio, cuja única virtude era ser rico. A herança de Kagome, ainda em custódia, forçava-a a suportar a tirana presença do irmão de sua mãe.
Sim, ela sonhava dia e noite com a libertação, mas esse cowboy barbudo e mal cheiroso decididamente não tinha a menor semelhança com um príncipe.
— Ora, meu potinho de açúcar, seja mais boazinha comigo. — Os dedos do homem apertaram-lhe o braço por cima da blusa, e Kagome logo se lembrou de cobras. — Sei muito bem do que você precisa. Não, não fuja de mim, coraçãozinho...
Ninguém notou quando o moreno se levantou e se aproximou, os olhos claros despejando fagulhas pontiagudas de prata, em completo silêncio.
Ele usava jeans também; não impecáveis como os de Kagome, mas desbotados e gastos pelo trabalho. As botas folgadas não viam graxa havia muito, e nem de longe lembravam as elegantes botinas texanas. Era alto, muito alto.
— Você vai ver como eu sou bom na cama, bonequinha. Vamos... — O galanteador parou de chofre quando avistou o outro se aproximando e piscou várias vezes. — Ha... Olá, Inuyasha. Eu... hã... não sabia que ela estava com você.
— Agora você sabe.
A voz, grave e cheia, trouxe um calafrio à espinha de Kagome. Ela ergueu a cabeça, deparando com um par de olhos de diamante que lhe tiraram o fôlego.
— Pensei que você não viesse mais — disse ele, puxando-a pelo braço. — Vamos para a mesa, é mais confortável. Traga sua cerveja.
Kagome obedeceu como um autômato, agudamente consciente dos dedos firmes que a conduziam para o fundo do bar.
— Obrigada — balbuciou, aceitando a cadeira que ele lhe ofereceu. Um cigarro aceso no cinzeiro e um copo de uísque cheio indicaram-lhe que o desconhecido chegara pouco antes dela.
— Quem é você? — perguntou ele, estendendo a mão para o cigarro. Mãos limpas, de unhas bem-cortadas, sem anéis.
— Meu nome é Kagome. E o seu?
— O pessoal me chama de Inuyasha.
Para ter o que fazer, ela experimentou a cerveja. Horrível! Deus, como uma bebida tão bonita podia ser tão ruim?!
Um sorriso breve desenhou-se nos lábios bem-delineados de Inuyasha.
— O que faz aqui a esta hora da noite? Vejo que não está acostumada com cerveja e muito menos com bares como este. É uma debutante ou o quê?
— Fugi de casa — esclareceu ela, com um risinho. — Estou em franca fase de rebelião doméstica. Ou, se preferir, vim para conhecer a vida noturna.
— E tem idade suficiente para isso?
— Para pedir uma cerveja no bar, tenho. Daqui a pouco faço vinte e um anos.
— Não parece.
Kagome estudou com mais atenção o rosto moreno, as mechas encara coladas amontoadas em desordem sobre o colarinho. Com um pouco mais de trato, ele poderia se tomar num homem de charme irresistível.
— Você mora aqui? — perguntou, por fim.
— Desde que nasci.
— Trabalha?
— Moça, por estas bandas do Texas todo o mundo tem de trabalhar para sobreviver. — Os olhos dele se desviaram para a pulseira de ouro de Kagome. — Quase todo o mundo, quero dizer. Usar um enfeite como esse nesta parte da cidade é procurar encrenca, moça. Puxe mais a manga para esconder.
Ela obedeceu prontamente, assombrada com a própria docilidade. Talvez estivesse bêbada. Mas como, se não tomara mais que um gole de cerveja?
— Que é que você faz, além de dar ordens? — perguntou.
— Sou capataz de uma fazenda das redondezas. Por isso, sou obrigado a mandar.
— Ah, um cowboy! Eu nunca conheci um de verdade.
— Bem se vê que você não é daqui.
— Nasci na Geórgia e vivi lá até agora. Meus pais morreram num desastre de avião e... Bem, vim morar com meu tio. Minha vida se transformou num inferno desde então.
— Pois caia fora — retrucou ele, com simplicidade. — Não acredito em prisões forçadas, não desse tipo.
— Não é tão fácil assim. Veja, eu sou rica. Mas não posso tocar num único tostão antes de completar vinte e um anos. Enquanto isso, meu tio faz o possível e o impossível para eu me casar com um sócio dele, não sei por quê. Suspeito que haja um interesse escondido, mas ainda não descobri qual.
— Será que você existe mesmo, ou saiu de um conto de fadas? Que diabos, moça, mande seu tio plantar batatas, ponha-o para correr e seja dona de seu nariz, ora essa! Na sua idade eu já trabalhava para mim mesmo, não para meus parentes.
— Você é homem.
— E daí? Até onde sei, estamos no século vinte. Já ouviu falar em feminismo?
Kagome sorriu para si mesma. Alguns minutos antes, seria capaz de jurar que ninguém naquele bar tinha ouvido falar nessa palavra.
— Não sou feminista, para dizer a verdade. Sou até meio antiquada. Quadrada, como dizem por aí.
— Nenhuma mulher quadrada entraria num bar destes para pedir cerveja. E sozinha!
— Se ela estivesse a fim disso, entraria, sim, senhor — rebateu Kagome rindo, os olhos verdes brilhando intensamente. — Além disso, estou protegida. Nada vai me acontecer, porque você está aqui.
Uma sombra fugaz perpassou os olhos claros de Inuyasha.
— Em outras palavras, você acha que comigo está em segurança.
O coração de Kagome disparou de repente.
— Eu... espero que sim — disse, exalando fundo, — Creio que cometi uma bobagem vindo aqui mas, com toda a sinceridade, não gos taria de ser castigada por isso. Principalmente por você.
Ele sorriu.
— Gostei do que ouvi. Parece que você aprende depressa as lições, moça.
— Lições? Que lições?
— Da vida. Quando não se aprende da primeira vez, é preciso repetir até acertar.
Inuyasha depositou o copo sobre a mesa e fez um sinal ao garçom.
— Agora vamos. Eu levo você para sua casa.
Kagome suspirou, amuada.
— Já? Mas esta é minha primeira noite de liberdade! E tenho a leve impressão de que será a última também...
— Nesse caso, vou fazer o que posso para que você fique com uma boa lembrança dela — murmurou ele, colocando o chapéu e erguendo-se. — Você é corajosa?
Kagome aceitou a mão estendida e também se levantou. Não sabia ex plicar, mas alguma coisa lhe dizia que podia confiar nesse homem des conhecido, bonito e moreno.
— Sou — replicou, com um sorriso.
Inuyasha tornou-lhe o braço e guiou-a para fora, depois de distribuir alguns cumprimentos secos.
— Você parece popular nesse bar — comentou Kagome, inspirando com prazer o ar puro da noite fresca.
— Não é para menos. Andei me metendo em muitas brigas aí dentro. Coisas de homem solitário, acho. Nem sempre eu tinha uma moça ao meu lado para me deter, sabe como é?
Caminharam em silêncio por alguns minutos.
— Escute, moça bonita, eu sei apreciar uma ou outra aventura, mas isso é tudo o que terá de mim. Se ficar nesta cidade por mais tempo, vai entender por que não gosto de mulheres ricas. Enfim, hoje eu me sinto generoso.
— Acho que não entendi.
— É, parece que não mesmo. — Ele riu sem vontade. — Você não devia ter saído de casa.
— Ouço essa cantilena todos os dias. Mas como vou aprender a viver dentro de uma redoma?
— Saindo dela — admitiu Inuyasha. — Tem razão. Ponto para você. – Pararam diante de uma caminhonete velha e enferrujada, cheia de pontos amassados no para-lama.
— Desculpe se não tenho um Rolls-Royce, debutante. Eles não são muito bons para transportar gado.
Kagome piscou diante da piada de mau gosto.
— Nem que fosse um cavalo eu me importaria. Não julgo as pessoas pelo que elas possuem, sabia?
— Desculpe, foi uma brincadeira infeliz. Entre, por favor. E cuidado com essa mola solta; ainda não tive tempo de consertá-la.
A caminhonete cheirava bem, a couro, fumo e asseio. Inuyasha deu a partida e perguntou, curioso:
— Escute, como veio até aqui? De carro?
— Vim.
Entre divertido e atônito, ele pousou os olhos num reluzente Mercedes estacionado entre outras caminhonetes e ferragens velhas.
— Sim, é meu — admitiu ela, num fio de voz. Mas acrescentou em desafio: — E não precisa me olhar desse modo.
— Vê? Já está brigando comigo. E mal nos conhecemos ainda!
A caminhonete ganhou a estrada de terra batida, iluminada apenas pela luz leitosa da lua.
— Que é que você faz, além de fugir à noite? — perguntou ele, de bom humor.
— Estudo piano, pinto, leio. E tento não enlouquecer com as festas, recepções e jogos de carta que tenho de aturar à noite. E você?
— Minhas tarefas são bem menos apaixonantes que as suas. Cuidar do gado, marcar os animais, admitir e despedir peões, tomar decisões — Ele pigarreou e olhou-a de soslaio. — Vez por outra presido a sessões do conselho também.
— Mas você não é capataz?
— Entre outras coisas, moça. Bem, aonde gostaria de ir?
— Para falar francamente, não sei. Só sei que não quero ir para casa ainda.
— Há uma festa em San Moreno, com muita cerveja e dança.
Os olhos de Kagome brilharam.
— Daquelas de rua? Ótimo, acho que vou adorar. Você dança?
— Sou capaz de dar alguns passos, se for absolutamente necessário. Seu problema maior vai ser com a cerveja. É a única bebida que lhe recomendo; tequila, além de forte, dá uma dor de cabeça tremenda no dia seguinte.
— Ora, eu aprendi a gostar de caviar depois de muita luta comigo mesma. Creio que posso aprender a gostar de cerveja também.
Inuyasha não fez comentários e ligou o rádio. Kagome fechou os olhos e deixou-se embalar pela música suave, pensando com crescente espanto na confiança absoluta que depositava num homem de quem só conhecia o primeiro nome. Tinha a impressão exata de que ambos eram velhos amigos que se reencontravam depois de alguns anos.
Essa impressão perdurou enquanto caminhavam pelas ruas iluminadas de San Moreno. Passearam entre lanternas coloridas, barracas adornadas com flores de papel crepom, músicos cantando a plenos pulmões. A cerveja quente e a música ensurdecedora não incomodavam a ninguém; ao contrário, havia uma alegria contagiante no ar.
— O que eles estão celebrando? — quis saber Kagome.
— Que importa? — riu ele. — Vamos dançar.
Riram, conversaram, dançaram, cantaram. Kagome nunca se sentira tão bem em toda a vida; se lhe dissessem que ela morreria no dia seguinte, receberia a notícia com alegria, porque valera a pena viver só por causa dessa noite. Até a cerveja quente descia com incrível facilidade, prin cipalmente depois de uma dança animada. Era uma sensação gostosa, a de estar entre os braços musculosos de Inuyasha, aspirar seu aroma de couro e fumo, sentir seu hálito morno perto do rosto. No final, Kagome estava mais embriagada de Inuyasha que da cerveja propriamente dita.
A orquestra deu início à última música, suave, calma. Kagome deslizou para o aconchego do peito maciço, e os braços de Inuyasha envolve ram-na, apertando-a docemente. A melodia penetrava seus ouvidos en volta numa neblina dourada de puro prazer, o corpo reagindo a proxi midade masculina de um modo novo e desconhecido. Assustada, ela ergueu os olhos tímidos, cheios de curiosa apreensão.
— Está tudo bem, doçura — disse ele, entendendo.
— Eu... eu não sei o que está acontecendo comigo. A cerveja...
— Não é preciso fingir, querida. Não comigo. —As mãos de Inuyasha emolduraram-lhe o rosto por alguns instantes. — Acho que está na hora de voltar.
— Precisamos mesmo?
— É tarde.
Pegou-a pela mão e levou-a até a caminhonete. Inuyasha percebera com clareza o que se passara com Kagome e, mesmo a contragosto, fora forçado a admitir que com ele acontecera algo parecido. Contudo, não tinha o menor interesse em se envolver com uma ricaça mimada. Só Deus conhecia o inferno por que passara quando o pai resolvera se casar com uma delas. Fora um desastre completo, a ruína e a vergonha da família. O pai perdera a cabeça ao encontrar à disposição uma herdeira e casara-se com ela, mal enviuvara. Enfim, Kagome decerto ouviria a história completa, acrescida de certos detalhes trágicos, bem ao gosto das co madres fofoqueiras. Ele, Inuyasha, não começaria algo que seria incapaz de terminar. Mesmo tendo se sentido atraído pelo corpo macio e sensual de Kagome, não iria mais longe que uma inocente dança. Kagome com certeza já tivera uma dúzia de amantes, e ele não pretendia ser mais um retrato da galeria.
Quando pararam em frente ao elegante Mercedes, a alegre animação de Kagome diminuiu consideravelmente. Quando voltaria a encontrar o bonito e alto texano?
— Obrigada, Inuyasha — disse, pegando o chaveiro da bolsa. — Foi uma noite mágica para mim.
— Eu que o diga, moça — Inuyasha abriu a porta do Mercedes e sorriu. —Mas não volte mais para este lado da cidade. Você não combina com ele.
Os olhos verdes fixaram-se nos dele.
— Detesto minha vida.
— Cabe a você mudá-la. É só uma questão de querer e lutar.
— Não estou acostumada a lutar.
— Então é bom começar a se acostumar, moça, porque a vida não dá, ela toma. Vale à pena lutar pelo que se quer, acredite.
Kagome brincou com as chaves, pensativa.
— No meu mundo essa luta pode se transformar numa guerra feia e sangrenta.
— No meu também, mas isso nunca me intimidou. Erga a cabeça e vá em frente.
Os olhos dela pousaram no peito largo que lhe servira de travesseiro durante os momentos mágicos de dança.
— Não vou me esquecer de você, Inuyasha.
— Cuidado comigo, moça — murmurou ele, ajeitando os cabelos compridos de Kagome atrás da orelha. A orelha mais delicada e cor-de-rosa que já vira. — A última coisa que desejo na vida é me envolver com alguém. Seu mundo jamais combinaria com o meu. Não procure en crenca, por favor.
— Mas você acabou de me dizer que lutasse.
— Sim, mas não para o meu lado — Ele soltou um riso seco, quase sem vida. — Até a vista, Kagome. E dirija com cuidado.
— Você... Você não vai me dar um beijo de boa-noite, pelo que estou vendo. Não gostaria nem de experimentar?
— Muito. E é justamente por isso que não vou beijá-la.
Muda e magoada, Kagome entrou no carro e deu a partida, sentindo que algo se partira dentro dela. Quando ganhou a estrada, já não viu mais Inuyasha. Era como se tivesse perdido um pedaço de si mesma.
E talvez tivesse perdido mesmo, pois nunca se sentira tão ligada à outra pessoa como nessas últimas horas. Os pais, mergulhados na vida mundana da alta sociedade, haviam se limitado a dar-lhe mesadas e a fazer-lhe festinhas no queixo. Ela crescera sob os cuidados de gover nantas numa mansão imensa, sem irmãos ou primos para amenizar sua solidão.
Miouga Rollins, o tio Miouga, era um caso perdido, em sua opinião. A princípio, ele chegara a enganá-la com seu jeito alegre e receptivo, mas em breve Kagome percebeu que se iludira com ele. Tio Miouga fazia de tudo para aparentar uma riqueza que estava longe de possuir. É lógico que a tutela da sobrinha lhe caíra dos céus, e ele logo se pusera a promover festas e recepções em casa, sob o pretexto de apresentá-la à sociedade. Oferecia caviar, champanhe, contratava orquestras regionais, tudo para impressioná-la. Deslumbrada com o tratamento régio que lhe era dispensado, Kagome não protestara; mais tarde, embora convencida de que as atenções do tio eram apenas interesseiras, achou muito mais cômodo não brigar. Nessa noite, quando descobrira que tio Miouga con vidara uma única pessoa para jantar, rebelara-se pela primeira vez. Por que o convidado era o tal sócio do tio, Bankotsu . Assim, pegara o carro e fugira do desagradável jantar a três.
O destino levara-a para um bar insignificante, numa rua insignificante da parte mais insignificante da cidade. E ali ela conhecera um homem que lhe abrira os olhos e fizera-a enxergar aquilo em que se transformara: uma criança débil e submissa, tímida demais para lutar pelo que era seu.
Bem, ainda estava em tempo de virar a mesa. E era isso, exatamente, o que pretendia fazer. A partir daquela noite.
Inuyasha fascinara-a. Só de pensar no modo manso e firme com que ele a livrara do incômodo galanteador, seu corpo vibrava de prazer. As mãos morenas e quentes enlaçando-lhe a cintura, os olhos de diamante lapidado, o sorriso breve, quase imperceptível, todas essas lembranças faziam com que seu coração disparasse.
Mas ele não gostava de mulheres ricas. Chamara-a de debutante al gumas vezes, numa clara alusão às mocinhas milionárias que eram apre sentadas pela primeira vez à sociedade em bailes luxuosos. Era evidente que não havia o menor interesse dele em conhecê-la melhor, uma vez que nem sequer lhe perguntara onde ela morava e qual era seu nome de família.
E quem era Inuyasha, afinal? Capataz de uma fazenda. Era tudo o que descobrira.
Kagome suspirou. Sabia que nunca esqueceria o bonito moreno que lhe abrira os olhos na noite mais memorável de sua vida.
