Kagome conseguiu transpor com bravura o resto da tarde, demonstrando alegria e animação. Por dentro, porém, sentia-se um deserto desprovido de vida. Alimentara esperanças de que Inuyasha tivesse se interessado por ela, mas a atitude dele indicara-lhe, com incrível eficiência, que quanto mais depressa desistisse da idéia, melhor.
Quando finalmente descobrira que ele era o célebre Inu Taisho, o choque não fora tão grande assim. A descrição de Sango encaixava-se como luva em Inuyasha, e ela se surpreendia por não ter desconfiado antes que ambos eram a mesma pessoa.
Mais tarde, por meio de perguntas discretas, descobrira que Inuyasha era o nome do meio do temido cliente. E começara a compreender a razão de todos do escritório não apreciarem as breves visitas dele. Que homem difícil e imprevisível!
Na noite em San Moreno, Kagome experimentara uma doçura indescri tível, e julgara que ele tivesse sentido o mesmo. Ao que tudo indicava, porém, esses sentimentos haviam partido apenas de seu lado.
Bom, o remédio era esquecer os sonhos dourados e tentar se con centrar no trabalho. Já tinha problemas o suficiente com que se preocupar, e não precisava de mais um na vida.
O destino, contudo, parecia conspirar contra ela. No dia seguinte, atraída por uma lanchonete limpa e arejada, Kagome resolveu entrar para almoçar. E deu de cara com Inuyasha Taisho assim que apanhou a bandeja e sentou-se no único lugar vazio. Foi presenteada com um olhar venenoso e uma careta de desgosto que transformaram sua espinha em sorvete.
— Eu avisei ontem e repito agora, moça. Não gosto de ser perseguido.
Kagome ficou escarlate com a frase cortante, dita num volume alto o bastante para todos se virarem, espantados. Seus olhos verdes fitaram-no, arregalados, e seus lábios começaram a tremer.
— Eu não sabia que você estava aqui... — começou, morta de ver gonha.
— Não mesmo? — O sorriso dele era a personificação do desprezo.
— Para começar, meu carro está estacionado no pátio. E, para terminar, não sou tão pequeno assim para não ser notado. Desista, debutante. Não gosto de crianças mimadas, portanto pare de me seguir. Entendido?
Assim dizendo, Inuyasha engoliu o café, levantou-se e saiu sem olhá-la. Kagome afundou o nariz no prato, rezando para que o chão se abrisse c a tragasse ali mesmo. A comida descia como serragem pela sua gar ganta, e por fim ela largou o prato pela metade, amaldiçoando a hora em que entrara naquela lanchonete. Nunca mais voltaria ali, nunca mais!
Foi com dificuldade que retomou o serviço. Seguir Inuyasha pela cidade, com efeito! Se nem sabia que carro ele tinha! Naquela noite Inuyasha, estava com uma caminhonete velha, não um carro. E no estaciona mento não havia nenhuma caminhonete igual à dele.
Bem, paciência. Inuyasha que pensasse o que quisesse, mas um dia a verdade viria à tona. Ela "não" estava caçando ninguém, muito menos Inu Taisho.
Na tarde seguinte, Sango surgiu no escritório e fez-lhe um convite.
— Hoje há um baile beneficente no clube. Sei que está em cima da hora, mas você não quer ir conosco?
— Será que meu tio vai estar presente?
— Duvido. E que diferença faz? Vamos, Kagome, você merece se divertir um pouco. Quero apresentá-la a alguém no baile. Alguém solteiro, sim pático e rico o suficiente para não se importar com sua herança.
— Hã... E o Sr. Taisho? — Sango fez uma careta.
— É, eu soube o que aconteceu no Cole's. Que situação, hein? Mas não se preocupe, ele não é homem de bailes.
— Ainda bem! Engraçado, Sango, na primeira vez que nos encon tramos ele foi tão gentil, que não dá para acreditar. Mudou por completo comigo. Julga que eu ando atrás dele, imagine!
— Você não é o tipo de Inu querida. Sua fortuna basta para as sustá-lo. Sem falar na diferença de idade, porque ele está na casa dos trinta e tantos. E vive dizendo que não gosta de mulheres muito jovens.
— Para mim ele não gosta de nenhuma mulher — replicou Kagome, com um suspiro. — Especialmente de mim. Mas eu não estava atrás dele, juro!
— Não se aborreça com isso.
— Tem certeza que ele não vai ao baile?
— Absoluta.
Quando Sango, Miroku e Kagome entraram no majestoso edifício, o baile já começara. Jóias faiscavam sob os imensos lustres de cristal, e a orquestra tocava com entusiasmo, embalando os pares que deslizavam sobre a pista iluminada. Kagome escolhera um vestido longo de seda branca, preso a um dos ombros por um broche de esmeralda e brilhantes. Os cabelos presos num coque e o outro ombro nu conferiam-lhe elegância e leveza.
Logo na entrada, Sango e Miroku encontraram um casal amigo, e Kagome, que tinha sede, resolveu deixá-los ali e ir em busca de refresco. Onde encontrar um garçom no meio daquela multidão? Correu os olhos em tomo, caminhando distraída, e...
— Oh, desculpe — murmurou, armando seu melhor sorriso. Que morreu imediatamente.
— Outra vez? — cuspiu Inuyasha. — Por Deus, você tem radar ou o quê?
Kagome nem respondeu. Deu-lhe as costas e voltou para Sango, decidindo que não tinha mais sede nenhuma. Nada, nem mesmo água pura, con seguiria naquele momento atravessar o nó que se formara em sua gar ganta.
Percebendo a perturbação da amiga, Sango voltou-se em tempo de vislumbrar a silhueta maciça e elegante que se afastava.
— Céus, querida, me perdoe, sim? Juro que eu não sabia que ele viria. Inacreditável! Até onde sei, Inuyasha odeia bailes. Bom, fique perto de nós por enquanto. Conosco você está salva.
— Não foi sua culpa, Sango — murmurou ela, recobInunoo o fôlego perdido. — Azares do destino, creio...
— Imbecil emproado! — sibilou a amiga. — Se ele fosse menos importante como cliente, eu iria até lá para lhe dizer umas poucas e boas. Ah, lá está nosso salvador em pessoa. Kouga!
Um homem magro e louro virou-se ao chamado de Sango. Tinha os olhos azuis e travessos como os de um moleque prestes a aprontar uma traquinagem.
— Ora, que surpresa deliciosa! — exclamou ele, não se dando ao trabalho de esconder a admiração pela linda moça que acompanhava Sango. — As deusas gregas resolveram descer à terra hoje, pelo que vejo. Por favor, moça, reserve uma valsa para mim antes de voltar para o Olimpo.
— Esta é Kagome Higurashi, a nova secretária de Kohaku e Miroku — apre sentou Sango, rindo. — Kagome, este é Kouga Markham, presidente da associação local de criadores.
— É um prazer, Sr. Markham — disse ela, estendendo-lhe a mão.
— Kouga, por favor.
— Kouga — sorriu ela, enlevada com o olhar franco e admirativo. — Pelo visto, todos aqui têm o mesmo objetivo, não é mesmo? Gado, quero dizer.
— Eu cresci numa fazenda. Trabalho numa firma de contadores, mas meus pais ainda mantêm uma grande criação de Santa Gertrudes.
— Não entendo muito disso, mas estou aprendendo depressa.
— Bem, minha amiga vai ficar por sua conta, Kouga — anunciou Sango. — Cuide bem dela. Principalmente, mantenha-a afastada de Inuyasha. O homem pensa que ela quer laçá-lo a qualquer custo!
— Mesmo? — Kouga voltou-se para Kagome, um brilho divertido brincando nos olhos azuis. — Por que não tenta me laçar em vez dele? Sou um partido muito mais atraente, em minha humilde opinião. Além do mais, você não precisa tomar injeções preventivas antes de sair comigo.
Kagome sorriu, deliciada com a brincadeira sutil. Kouga declarara, de modo inequívoco, que para sair com Inuyasha ela teria de tomar injeção contra raiva...
— Vamos dançar? — propôs ele.
— Com prazer.
Kagome deixou-se conduzir para o centro da pista, onde os outros pares dançavam um fox arrastado e dolente. Sabia exatamente onde Inuyasha Taisho se achava, como se de fato possuísse um radar, e fez questão de não olhar para seu lado.
De seu canto, Inuyasha seguia os movimentos graciosos e fluidos de Kagome com os olhos, detestando mais do que nunca seu mais encarniçado inimigo, Kouga Markham. Não gostava do modo como ele a segurava, nem dos sorrisos luminosos que ela lhe dirigia em resposta.
Não que se importasse com ela, apressou-se a dizer para si mesmo. Kagome significava encrenca, e ainda por cima era mais de dez anos mais nova que ele. Não, não havia lugar para crianças em sua vida, apesar da atração surpreendente que sentira naquela noite em San Moreno. Tinha plena consciência de que fora rude e bruto com a moça, mas não vira outro modo de se livrar da poderosa força que o arrastava até ela, como imã incontrolável.
Kagome era etérea, frágil, linda. Até o nome lhe lembrava fada. Uma criatura tão meiga e delicada só poderia sofrer em suas mãos rudes de capataz. E a reputação do pai agravava ainda mais sua situação. "Outro Taisho caçador de ricaças", diriam as línguas maldosas. A esse simples pensamento, Inuyasha tinha náuseas.
E mais náuseas ainda tinha quando via as mãos de Kouga enlaçando a cintura fina de Kagome. Diabos, por que viera ao baile? Desgostoso, serviu-se de outra dose de uísque.
— Diga a verdade. Você está mesmo atrás de Inuyasha? — Kagome sorriu e encarou com firmeza o par.
— Que pergunta! Lógico que não. Ele é que está com mania de grandeza, creio.
— Foi o que pensei. Tal pai, tal filho, já diz o sábio ditado.
— Como assim?
Kouga obrigou-a a dar uma viravolta graciosa, recebendo-a de volta com um passo impecável. Era excelente dançarino, e não se fazia de rogado para demonstrar sua perícia.
— Depois que a mãe de Inuyasha morreu, Inuno Taisho atolou-se em dívidas de toda a espécie, chegando ao ponto de quase perder a fazenda de gado. Minha tia era jovem, simples e tímida, meio feiosa. E muito rica também. Inuno então começou a assediá-la abertamente, e ela, muito bobinha e inexperiente, acabou caindo nas malhas da sedução. Ficou grávida e, está claro, casou-se com ele. Minha tia adorava Inuno. Beijava as pedras por onde ele passava, era uma paixão sem remédio. Pouco a pouco, porém, ela foi descobrindo a verdadeira razão que movera Inuno a seduzi-la. Quando se convenceu, a coitada não conseguiu continuar a viver. E se matou.
— Meu Deus! — murmurou Kagome, chocada.
— Inuno Taisho nem se deu ao trabalho de comparecer ao enterro. Devia estar celebrando em algum bar, creio. Morreu alguns anos mais tarde, e acredite em mim, ninguém sentiu.
— Inuyasha não tem culpa dos atos do pai — arriscou ela, com timidez.
— O sangue é o mesmo — replicou Kouga, como se dissesse a frase mais justa do inundo. — E você é rica.
— Ele me detesta!
— Puro charme, minha querida. Inuyasha não perdoa nenhuma mulher rica que lhe atravesse o caminho.
— É mesmo? — Kagome começou a se irritar. — E quantas ele já teve?
— A vida amorosa de Inuyasha não me interessa — foi a resposta seca e tensa.
"Se não interessa, como sabe tanto a respeito?", indagou-se ela em silêncio.
— Vocês não devem ser grandes amigos, pelo visto.
— Nós discordamos em quase tudo, Kagome, principalmente no que diz respeito às ridículas teorias de Inuyasha sobre criação de gado. — O riso de Kouga, de repente, soou estridente e desagradável aos ouvidos dela. — Você tem razão, querida. Nós não somos, em definitivo, grandes amigos.
Depois dessa conversa, a animação de Kagome diminuiu. Compreendia agora toda a situação com nitidez cristalina, e essa compreensão tira va-lhe metade do prazer. Contudo, não se recusou a dançar nenhuma vez. Foi par de solteiros, casados e desquitados, todos elogiando-lhe a beleza e a elegância.
Quando, muito mais tarde, os convidados começaram a se dispersar, Kagome notou, surpreendida, que Inuyasha não fora embora. Continuava de pé ao lado da pista, conversando com amigos, o eterno copo de uísque nas mãos.
A orquestra deu início a uma música lenta e apaixonada. A letra era bonita, e falava dos desencontros e desenganos de um amor impossível. Súbito, Inuyasha surgiu do nada e arrebatou-a nos braços, levando-a para o meio da pista. Atônita, muda e feliz, Kagome deixou-se flutuar no vamente no mundo da fantasia. Era impressionante como se sentia bem nos braços de Inuyasha. Aquela, sim, era a sua casa.
Por fim, encontrou a voz e a serenidade.
— Essa não foi uma boa idéia, Sr. Inuyasha Taisho. Porque eu vou pensar que você está me encorajando a caçá-lo mais um pouco.
— Não, esse perigo já passou. A estas alturas, seu interesse por mim diminuiu bastante, aposto. Kouga Markham deve ter enchido seus ou vidos com minha história, não foi assim?
Kagome baixou o olhar. Por trás da camisa fina, os pelos negros do peito de Inuyasha convidavam-na a encostar a cabeça neles, a experimentar sua textura. Que devia ser muito, muito sedosa.
— É, ele contou uma ou duas coisinhas, sim. — Inuyasha sacudiu-a de leve, sorrindo.
— Ei, que é que há? Está dura como uma tábua. Solte-se, vamos. Você não corre perigo nenhum comigo, calma. Pelo menos não aqui, diante de meia Jacobsville.
Kagome não ergueu a vista; apenas, por precaução, desviou-a do peito de Inuyasha.
— Você já disse, com toda a clareza, o que pensa de mim. Se não me quer nos seus calcanhares, pode ao menos me explicar por que me convidou para dançar? Por que, em nome dos céus?
Os olhos cinzentos fixaram-se nela por um longo momento.
— Você não sabe?
Deus, os lábios dele estavam tão próximos. E tão longe.
— Acho que sei. É uma provocação a Kouga.
— É o que pensa?
— Bem, que mais pode ser? Escute, não quero ser usada como ins trumento de vingança de ninguém.
Os dedos de Inuyasha acariciaram-lhe o ombro nu, produzindo uma sensação deliciosa de calor e aconchego.
— Não sou uma pessoa vingativa, Kagome. E não quero ser acusado de seguir os passos de meu pai.
Havia uma nota angustiada na voz de Inuyasha. Kagome fechou os olhos, inebriada pelo aroma masculino que lhe chegava às narinas.
— Ainda falta algum tempo para eu ficar rica — murmurou, assom brada com a própria ousadia. — Por enquanto, não passo de uma simples secretária.
— Compreendo. E durante esse tempo você será de meu nível. Nada de Mercedes, nada de talões de cheque, nada de mansões ou iates.
— É o que estou tentando dizer, sim. — Ela se aconchegou mais, entontecida. — Que tal alguns momentos de paixão louca e selvagem? Podemos ir até o vestiário, jogar algumas peles de raposa no chão e...
Dessa vez a risada de Inuyasha foi sincera, a primeira que ela ouvia. Um riso grave, que soou como alegre clarim.
— Eu faço parte da Associação Protetora de Animais.
— Mesmo? É daqueles que protestam contra experiências de laboratório e jogam tinta em quem sai na rua com casacos de pele?
— Meu fanatismo não vai tão longe — volveu ele, bem-humorado. — Apenas acredito que os animais merecem ser tratados com respeito, ainda que sejam utilizados em experiências médicas que podem salvar vidas humanas. Quanto aos casacos de pele, penso que uma lei proibindo o abate de animais seria mil vezes mais eficiente que um galão de tinta. Afinal, quem usa peles está compactuando com a matança de animaizinhos bonitos e inofensivos. Você tem casaco de peles?
— Não posso — foi a vez de Kagome rir. — Sou alérgica. Só de olhar para um, ganho pipocas no rosto.
Ele sorriu e fez um volteio, amparando-a com firmeza.
— Uma milionária sem casaco de peles... Que tragédia!
— Obrigada pela compreensão, mas tenho um ótimo casaco de ve ludo, e me contento com ele.
Kagome colou-se de novo ao corpo quente e masculino. Uma compulsão doce e estranha levava-a a provocá-lo, a tentá-lo como podia. Súbito, Inuyasha apertou-lhe os quadris com força, puxando-os para si quase com rudeza.
— Tome cuidado comigo, moça — murmurou, a voz rouca. — Você está uma sereia dentro desse vestido, e meu corpo se desperta com mais facilidade do que imagina. Quer uma prova?
— Não, obrigada — Kagome afastou o corpo rapidamente. — Basta sua palavra.
— Ora, ora, o que temos agora? Você enrubesceu mesmo ou eu estou vendo coisas?
— Aqui dentro está muito calor.
— Ah, sim, a mesma e velha desculpa — Inuyasha inclinou-se e encostou o rosto bem escanhoado na face escaldante de Kagome, sussurando.
— Que desperdício para nós!
— Desperdício? Por quê?
— Porque, minha querida — disse ele, mordiscando-lhe a pontinha da orelha — eu sou dinamite na cama.
— Não diga — balbuciou Kagome, num fio de voz. — Verdade?
A mão dele acariciou-lhe a nuca, acompanhando o ritmo dolente da música.
— É o que dizem por aí.
— Não acha que está indo longe demais? Afinal, ainda ontem você armou um escândalo só porque fui comer no mesmo restaurante que o seu...
— Tenho certeza que Kouga já lhe explicou meu problema. Sendo rica, você está riscada de minha agenda. Pobre, está na lista dos produtos de alto risco para mim, porque é bonita demais.
— Então minha única saída é plantar você no meio do salão.
— Quer mesmo fazer isso?
O tom de Inuyasha, baixo e quente, derreteu-a por dentro. Devagar, ele a puxou para si, as coxas poderosas pressionando-a. Suas mãos firmaram-lhe a cintura e obrigaram-na a colar o corpo contra o seu. Apesar das camadas de fazenda que os separavam, Kagome pôde senti-lo palpitante, estudante de virilidade e desejo. Era uma sensação maravilhosa e embriagadora.
— Gosta de comida chinesa?
Incapaz de falar, Kagome assentiu com a cabeça.
— Em Houston há um bom restaurante de estrada. Que acha de irmos até lá na sexta-feira?
— Você está me convidando para sair?! Você?
— Por que não? Não espere lagosta nem caviar. Ganho bem, mas não o suficiente para grandes luxos.
— Não fale assim — pediu ela, magoada. — Não sou desse tipo.
— É, eu sei — respondeu Inuyasha, acariciando-lhe o queixo. — É por isso que fica tudo mais difícil para mim. Pensa que me diverti tratando-a com grosseria? Não há futuro para nós, pequenina.
Os olhos cinzentos e atormentados fitaram-na com uma luz diferente. Havia dor e melancolia neles, uma dor maior que o mundo. Mas o momento passou depressa, e Kagome sentiu que ele já se arrependia de tê-la convidado.
— Aceito seu convite — disse, mais que depressa. — E nada de beijos ao luar na volta, combinado? Como você mesmo falou, não vale a pena começar algo que não podemos terminar.
— Dessa vez, acho que posso terminar.
— Não. Posso arriscar meu estômago com você, mas não meu co ração.
— Quer dizer que se fizer amor comigo, seu coração estará em perigo?
— Precisamente. Além do mais, não costumo dormir com ninguém no primeiro encontro. Nem no segundo — juntou rapidamente.
Inuyasha pestanejou, e uma ruga quase imperceptível se formou na testa morena. Não admitia, nem para si mesmo, que a idéia de Kagome nos braços de outros o incomodava. Sem dúvida ela possuía uma legião de admiradores; talvez até fosse mais experiente em sexo do que ele próprio. Mas, de modo inexplicável, a idéia doía-lhe fundo na alma. Pela primeira vez na vida, ele se pegou preocupado com o passado amoroso de uma mulher, e essa descoberta desgostou-o profundamente.
— Inuyasha? Que houve?
— Nada.
— Ei, essa resposta é privilégio das mulheres.
— Nada disso, temos tanto direito a evasivas quanto vocês. Sexta-feira, então. Vou buscá-la às seis, está bem?
— Eu não moro mais com tio Miouga...
— Sei onde você mora — cortou ele, muito quieto. — Jantamos à moda chinesa primeiro, e depois você poderá me mostrar tudo o que sabe. Será uma experiência e tanto...
Kagome não conseguiu dormir naquela noite. As últimas palavras de Inuyasha voltava-lhe à mente como fantasma, atormentando-a. Sentia em cada poro que se metera numa encrenca.
Queria-o mais que a própria vida, e um encontro com ele seria o mesmo que achar o pote de ouro no fim do arco-íris. Mas, para ser honesta consigo mesma, Kagome fingira ser algo que não era. E não sabia como deveria agir, caso Inuyasha resolvesse levá-la ao pé da letra.
— Ei, menina, que é que há com você? — perguntou Sango no dia seguinte, assim que bateu os olhos em Kagome. — Que aconteceu?
— Inuyasha me convidou para sair.
— Inu? Não me diga! E o preconceito contra mulheres ricas?
— Bom, eu contei a ele que vou continuar pobre por mais duas semanas. Acho que Inuyasha decidiu que por enquanto eu não represento perigo.
— Entendo. — A expressão de Sango denotava franca preocupação. — Querida, não quero parecer intrometida, mas Inuyasha é um mulherengo incorrigível...
— Sei disso — atalhou Kagome, com um sorriso apagado. — E não foi difícil perceber, acredite.
— Mas ele também é cavalheiro, lá ao seu modo esquisito. Tome cuidado para não lhe dar corda demais, ou você acaba se enforcando nela.
— Imagino.
— Bom, se isso servir de algum consolo, sei exatamente como se sente. Eu era louca por Miroku, mas ele gostava de outro tipo de mulher, bem diferente do meu. Nosso caminho até o altar não foi muito florido.
— Ainda assim, ele é louco por você.
— Ah, lá isso é... — Sango riu, feliz. — Mas nem sempre foi desse modo.
— Inuyasha já me avisou mais de uma vez que não quer compromisso nenhum. Contudo, sair com ele para mim é... É como se eu chegasse pertinho do céu, entende?
— Mais do que pensa — suspirou a outra, lembrando-se do primeiro encontro com Miroku. — Gosto de você, Kagome, e não quero vê-la ma chucada. Cuide-se, garota.
Sango encaminhou-se para o gabinete do marido com uma ruga na testa. Inuyasha era conhecido em Jacobsville como solteirão inveterado, daqueles que têm horror de virgens e fogem só de ouvir mencionar a palavra casamento. E ela seria capaz de apostar a vida na inocência de Kagome. No minuto em que Inuaysha descobrisse isso, sumiria para sempre da vida dela.
Nos dias que se seguiram, Kagome trabalhou como um autômato. Inuyasha não apareceu nem telefonou, fato que lhe dava uma incômoda sensação de insegurança. Quando a sexta-feira veio e passou em brancas nuvens, ela deixou o escritório certa de que o tão esperado encontro fora es quecido.
Arrastou-se até o apartamento sem vontade, preparando-se para sofrer mais uma decepção, quando o telefone tocou. Kagome agarrou-se ao receptor como quem se agarra a uma bóia salvadora.
— Alô?
— Vou passar aí daqui a uma hora. Você não esqueceu?
— Claro que não — a voz dela estava calma, mas sua alma dançava. — Como poderia? Sou louca por comida chinesa, ora essa!
— Hum. Não gostei da ironia, mas entendi o recado. Só se interessa pela comida, não é assim? Até daqui a pouco, então.
Kagome voou para o quarto, livrando-se pelo caminho da saia e da blusa amarrotadas. A única peça decente que possuía para uma noite informal era um conjunto de seda pura, cuja fazenda parecia se liquefazer de tão macia. Só faltava uma etiqueta de luzes pisca-pisca, avisando: "produto caro". Kagome desanimou. Com certeza Inuyasha trincaria os dentes de des prezo quando o visse. Mas, além de jeans e vestidos longos, só lhe restava esse conjunto mesmo, pois seu guarda-roupa não era muito va riado. Para contrabalançar a riqueza da seda, resolveu escolher uma blusa simples de algodão bege, além de não usar jóias nem maquiagem.
Quando se olhou ao espelho, suspirou. A seda verde-água combinava com seus olhos, e o efeito final era discreto, mas algo lhe dizia que "ele" não gostaria. Se fosse convidada de novo, o jeito seria investir parte do salário em roupas mais baratas, decidiu. "Se" fosse convidada.
Tinker mil vezeeees obrigada pela sua Review, isso nos dá ânimo demais para continuar a história, pensei que estava sozinha aqui postando toda desanimada, mas obrigada por ter injetado essa dose boa de ânimo para continuar. HAHAHAHAHA Esse Inu é fodaaaaaaa! você não viu nadaaaaa ainda, e a nossa Kag também é firme e linda, vai deixar ele de quatro hahahahahaha. Espero que goste!
