Era uma segunda-feira de manhã e ele andava pelo corredor do Ministério entediado. Mesmo sabendo que era uma emergência, que era algo ligado aos incêndios criminosos, ele não gostava de ir até lá e ter que dar de cara com o seu patrão. Que era ninguém mais, ninguém menos que Arthur Weasley.

Quanta vergonha. Seu pai passara a vida tendo um cargo alto e ele estava ali, se rebaixando ao cargo de subordinado de um Weasley.

Afastou os cabelos do rosto, suspirou resignado e adentrou o escritório de seu chefe.

- Mandou me chamar, Weasley? – Draco não conteve o desdém em sua voz, típico de si.

- Mandei sim, Draco. – como sempre, Arthur não se deixava atingir pelo deboche do rapaz. – Por favor, sente-se. – e apontou uma das duas cadeiras à frente de sua mesa, agora bem maior que a que tinha anteriormente.

Draco olhou, desanimado, e só então percebeu que havia mais alguém ali. Um homem, provavelmente da mesma idade dele, cabelos muito negros e amarrados em um rabo de cavalo. Os olhos eram castanho-claros e a barba estava por fazer. E havia ainda uma cicatriz embaixo do olho esquerdo, o que lhe dava ares de marginal.

- Draco, este é Daemon McNeelan. – O loiro e o moreno se cumprimentaram enquanto Draco se assentava ao lado dele. – Ele veio da Irlanda para nos ajudar no caso dos incêndios.

- Ah, essa era a urgência! – Draco retorquiu indignado – Você me tira de meu sossego para me dizer que eu sou tão incompetente a ponto de você achar necessária ajuda externa!

- Controle seus ímpetos, garoto! – Arthur o repreendeu. – Não digo que você é incompetente, nem jamais o diria por mais que o odeie! Você trouxe minha filha de volta à vida e isso nada pode pagar!

- Aprenda a separar as coisas, Weasley! Fiz um favor a sua filha! Aqui sou apenas seu empregado!

- De qualquer forma – Arthur achou que seria mais produtivo apenas ignorar Draco. – Ele não está aqui porque você é incompetente. Ele está aqui porque diz saber de algo que pode nos ajudar.

Draco olhou para o homem ao lado dele com descrença. Arqueou as sobrancelhas em puro descaso e soltou um muxoxo.

- Não me subestime, meu amigo. – a voz do homem soou fria e extremamente familiar a Draco, mesmo que ele não conseguisse se lembrar de onde conhecia aquela voz. – Posso parecer um simples marginal, mas sei mais do que pode imaginar.

Draco quase não conseguiu disfarçar o desconforto que sentia perante o insistente olhar que Daemon depositava sobre ele. Balançou a cabeça e voltou ao assunto principal.

- Tudo bem, mas o que é que você sabe além do que nós próprios já sabemos?

- Posso prever onde será o próximo incêndio.

- E você me permite perguntar como?

- Antes que você fique pensando que eu sou um adivinho charlatão, eu te digo que por meio de uma base de cálculos e deduções, eu chego na próxima casa vítima do fogo.

- Nossa... Como ele é brilhante! Nós já fizemos isso. Não há elemento de ligação entre nenhuma das casas.

- Ah não? – Daemon levantou uma sobrancelha. Depois atirou uma pasta sobre o colo de Draco, que olhou intrigado. – Há um elemento de ligação quase imperceptível entre elas sim, senhor Malfoy.

Novamente Draco sentiu algo malditamente familiar na entonação dele.

- E qual seria?

Daemon sorriu de maneira perversa e Draco viu, por uma fração de segundos, seus olhos reluzirem em um tom diferente.

- Dê uma olhada neste mapa, senhor Malfoy. – ele estirou um mapa sobre a bagunçada mesa de Weasley. Depois, tocando-o com a ponta da varinha, as casas já atacadas se uniram, formando um símbolo muito conhecido. O pentagrama invertido. – Aí está o seu elemento de ligação, tão óbvio quanto podemos respirar. E aqui – apontou uma casa no mapa – será o próximo ataque.

Lá estava. Era uma rua perto do centro de Londres, que fazia o pentagrama se fechar perfeitamente.

- Tudo bem, eu admito que deixamos isso passar. – Draco falou, suspirando. – Mas se você já sabe disso há tanto tempo, por que não nos informou antes?

- Como pode precisar a quanto tempo sei disso?

- Porque isso exige cálculos, deduções e investigações que tomam um tempo precioso. Se você me traz isso pronto, com perfeição de cálculos e com uma vítima em potencial, eu só posso deduzir que ou você demorou bastante tempo analisando a situação, ou você é cúmplice dos incêndios.

O raciocínio de Draco espantou Arthur. Mesmo tendo experiência, estava tão empolgado por finalmente ter conseguido uma pista convincente, que não levou aquela probabilidade em consideração. Contrariando as expectativas do loiro, Daemon apenas sorriu levemente.

- Bem que você gostaria que eu fosse um cúmplice disfarçado para que você, finalmente, pudesse botar sua cabecinha no travesseiro e dormir em paz consigo mesmo, sabendo que sua missão estava cumprida. Não, garoto. Não lhe darei esse prazer.

Respirando bem fundo e se controlando para não partir a cara do rapaz à sua frente e, conseqüentemente, perder o emprego, Draco muda de assunto.

- Isso – ele aponta para o mapa. – é de extrema valia para nós, senhor McNeelan. E você deve saber disso. Qual seu preço?

- Meu preço? – o interpelado soltou uma risada quase inaudível e novamente Arthur se surpreendeu com seu subordinado. – Deus, você não deixa escapar detalhe algum. Muito me admira que não tenha percebido a estratégia dos incendiários.

- Seu preço, senhor McNeelan. – ele insiste, afastando o foco de si.

- Tudo bem. Trezentos galeões.

- O quê?!

- Ou a autorização do Ministério para participar das investigações e das caçadas.

Ponderando, Draco sabia que ele poderia muito bem estar se aproveitando da situação. O mapa valia trezentos galeões, ou até mais. Mas, para alguém que se apresentou como leigo, ele estava sabendo demais. E exigindo demais.

- O que o senhor disse que faz mesmo? – ele perguntou, querendo descobrir algo mais sobre aquele misterioso visitante.

- Eu não disse. Mas sou comerciante na minha querida Irlanda.

- Para um comerciante, você está sabendo demais sobre um assunto que deveria ser sigiloso.

- Existem vários tipos de comércio, senhor Malfoy. E então? O que me diz?

Resignado, Draco resolveu tirar a responsabilidade de si.

- Veja esses detalhes com o meu chefe. – e apontou para Arthur, que, há algum tempo, nada fazia, além de observar a tensa conversa entre os dois.

Ah... Sim, claro. – o pai de Ginevra finalmente deu sinal de vida, remexendo em alguns papeis que estavam sobre a mesa. Draco aproveitou a oportunidade e, sem pedir licença ou prestar satisfações, saiu da sala.


Estava escuro, o suficiente para que ninguém na casa os percebesse. Mesmo porque, era tarde, todos estavam dormindo.

Já tinham feito o barulho que podiam e agora a tática precisava mudar. Ou enfrentariam o risco de serem pegos.

Se separaram e um deles se esgueirou para dentro de um quarto. Apesar da pouca luz, dava para perceber que era um quarto de criança. Brinquedos espalhados pelo chão, pôsteres com ídolos de Quadribol voando por eles e outras coisas mais. O dono do quarto, sem suspeitar da visita inesperada a observá-lo, dormia profundamente.

Sorrindo malignamente, a sombra levantou a varinha para o garoto.

- Quietus. – uma névoa avermelhada envolveu a garganta do menino, que ainda permanecia dormindo, sem perceber nada. O sorriso da sombra se alargou quando proferiu o outro feitiço. – Crucio.

Sem aviso, assustado, o garoto foi tomado pela maldição e se contorcia em sua cama, sem poder gritar. Não havia sinais de que o homem fosse parar tão cedo.

A tortura prolongou-se por tanto tempo que o garoto chegou a pensar que dias tivessem transcorrido até que uma outra sombra invadisse seu quarto e sussurrasse algo que, em seu sofrimento, não pôde ouvir. Abençoou quem quer que tenha entrado, pois, imediatamente, a primeira sombra cessou o feitiço. Arfando e rezando para que não precisasse passar por aquilo novamente, o garoto ainda viu os dois desaparatarem antes de perder os sentidos.


A polícia bruxa estava lá em peso. O alarme havia sido soado minutos antes, alguém tinha invadido a casa. E deixado um belo estrago para trás.

Um dos habitantes, um garoto de apenas dez anos, tinha sido torturado até a beira da insanidade pela maldição cruciatus. Seus pais tinham sido, provavelmente, torturados e logo depois mortos pela avada kedavra. E a irmã mais nova, de apenas dois anos, seqüestrada.

Draco, muito nervoso, chegava a respirar com dificuldade diante de tamanha impotência. Não pôde fazer nada. Mesmo avisado, mesmo colocando a casa sob vigilância, quem quer que fosse o tinha passado para trás novamente.

Daemon, ao seu lado, parecia tão afetado por aquela cena quanto ficaria um cego diante de uma profusão de cores.

- Como consegue? – Draco finalmente perguntou.

- O quê? – Daemon o olhou, intrigado com a pergunta.

- Ficar impassível diante de tanta crueldade! Tem uma criança ali dentro que está órfã, à beira da loucura e cuja irmã pode nunca mais ser vista com vida!

- Eu já vi coisa bem pior, senhor Malfoy. Isto... Não é nada. Confie em mim. – ele retorquiu, impassível. Draco poderia jurar que vira um sorrisinho brotar no canto de seus lábios, mas, sendo verdade ou impressão, como veio, foi.

O loiro sentiu-se tentado a perguntar algo mais, mas se conteve. Resolveu entrar na casa e procurar por algo que ao menos indicasse quem esteve lá dentro. Qualquer tipo de pista era bem vindo.

Vasculhando pelos quartos, deixou o do casal por último. Evitou olhar para a cama onde o casal ainda jazia, enquanto fotógrafos do Profeta Diário, sem nenhum escrúpulo ou pudor, tiravam fotos dos cadáveres, com os olhos arregalados em puro terror.

Olhando ao redor, instintivamente, seus olhos pousaram em um espelho. Ele conhecia aquele tipo de espelho, em sua casa costumava ter um.

Um espelho de inimigos aperfeiçoado. A imagem do agressor ficaria gravada no espelho por até vinte e quatro horas. Com a autoridade de auror, confiscou o espelho para investigação.

Mesmo assim, saiu de lá contrariado e com a sensação de que algo mais poderia ter sido feito para salvar aquela família.


- Está se tornando um incorrigível sentimental, Tom. – Harry debochou, olhando para o bebê que dormia tranqüilamente nos braços de seu amigo.

Tom apenas sorriu, contemplando a figura indefesa.

- Não pretende fazer isso em todas as casas que atacarmos a partir de agora, pretende?

- Isso o quê? – ele redargüiu, sem desviar o olhar para Harry.

- Seqüestrar criancinhas que ainda não têm idade para se lembrar dos pais.

- Eu vou devolvê-la, Harry.

- A quem, se me permite perguntar? Pai e mãe, eu matei. O irmão você torturou até, creio eu, a loucura. Quem resta para devolver?

- Um velho amigo nosso, Harry.

O olhar de Harry tomou um aspecto doentio.

- Alvo? Alvo Dumbledore? Quer nos entregar direto na bandeja do inimigo, Tom?

- Veja a beleza da coisa, meu caro Harry... Estamos protegidos pelo feitiço fidellius nesta casa. Fomos inteligentes o suficiente para matar o fiel do segredo. Nada... Nem ninguém pode nos tocar aqui.

- Pretende entregá-la viva?

- Sim... E não ao mesmo tempo. Quero que Dumbledore saiba com que tipo de inimigo está lidando...

- Algo me diz que ele já sabe.

- Não o superestime, Harry... Ele é apenas um velho caduco agora. Em nada lembra o Dumbledore que nós dois conhecemos.

- Não tem como você saber disso. E ele sempre soube de coisas que eram quase impossíveis de saber. Ele sempre soube que você abrira a Câmara Secreta da primeira vez. Ele sabia de coisas que ainda nem tinham acontecido. Não duvido nada que já saiba que eu não morri porra nenhuma e que eu e você estamos por trás destes atentados.

- Odeio quando você tem razão.

- Então você me odeia por um espaço bem grande de tempo... – Harry sorriu, enquanto retirava um cigarro do bolso e o acendia.

- Desde quando você se tornou tão arrogante, Potter?

- Desde que, há dez anos atrás, você achou interessante me transformar em você. – ele respondeu, enquanto soltava a fumaça no rosto dele. Estirou-se em um sofá empoeirado e ficou olhando para o teto. – Enquanto você brinca de irritar o diretor, eu vou continuar com minha vingancinha pessoal.

- Que quer dizer? O que está aprontando, Harry?

- Vai dizer que ainda não sabe quem está no comando das investigações do nosso caso?

- Sinceramente, eu não presto atenção a esses detalhes. Combinamos que isto seria tarefa sua.

- Ah, mas você ficará surpreso em saber que o filho único de seu antigo braço direito é agora renomado auror.

Tom olhou para Harry com um olhar quase cômico. Quanta ironia.

- Isso mesmo, meu caro amigo. Draco Malfoy é quem nos investiga.

- Mas isso é o destino querendo nos pregar uma peça! – Tom comentou, deixando escapar uma gargalhada.