Bem como Kagome temia, a expressão de Inuyasha se fe chou em sombras quando seus olhos pousaram no elegante terninho de seda.

— É um conjunto velho — gaguejou ela, incoerentemente. Inuyasha enfiou as mãos no bolso do surrado casaco de couro. O terninho de seda contrastava de modo gritante com sua camisa branca, o jeans e as botas bem engraxadas.

— Você está bonita — disse por fim.

— E luxuosa, não é? — perguntou ela, encabulada. — Desculpe.

— Por quê?

— Bem, eu não queria que você pensasse que eu escolhi esta roupa de seda de propósito.

O sorriso de Inuyasha foi breve e seco.

— Tudo o que vou fazer é levá-la a um restaurante chinês. Nenhum pedido de casamento virá junto com a sobremesa.

Kagome corou outra vez.

— Sei disso.

— Então para que se preocupar com sua aparência? — perguntou ele, dando de ombros. — Uma coisa é sair com alguém; outra, muito diferente, é assumir um compromisso sério. Olhe, vamos deixar isto bem claro antes de mais nada, Kagome. Eu nem de leve admito a possibilidade de existir maior envolvimento entre nós. Mesmo que nos transformemos no casal mais quente do Texas debaixo dos lençóis, ainda assim não existirá compromisso.

Kagome precisou usar de todo o seu poder de controle para não reagir àquela provocação ostensiva.

— Obrigada, estou bem prevenida.

— Ótimo — Inuyasha circunvagou o olhar, franzindo o sobrolho.

— Seu apartamento é bem simples, não?

— Foi o melhor que consegui com meu salário — explicou ela, sorrindo. — Não ligo muito para ele. É apenas um lugar para eu dormir e comer à noite.

— Miouga não lhe dá uma mesada?

— Tio Miouga não é rico, e eu não quero pedir nada a ele. Mesmo porque, daqui a duas semanas, ele entregará meus documentos ao Sr. Holman e eu estarei livre dessa tutela.

Inuyasha não respondeu, mas de repente começou a enxergar certos detalhes que antes lhe haviam passado despercebidos. Se Miouga não era rico, como oferecia aquelas recepções graciosas? Tendo o controle absoluto da fortuna de Kagome, não lhe seria difícil transferir parte para sua conta bancária. Mas ela não parecia preocupada e, afinal de contas, o assunto não lhe dizia respeito. Talvez Kagome, como muitas herdeiras que conhecera, não fizesse idéia do valor do dinheiro.

De repente, percebeu que ficara em silêncio durante mais tempo do que devia. Tirando as mãos dos bolsos, aproximou-se e tomou as de Kagome entre as suas.

— Vamos? — convidou, com um sorriso brilhante.

Kagome nunca imaginara que o simples fato de estar de mãos dadas com um homem poderia ser tão excitante. Enquanto caminhavam, ela expe rimentava um prazer sensual no contato dos dedos quentes entrelaçados aos seus. Era como deslizar entre nuvens, pensou.

Pararam diante de um Chevrolet verde-garrafa, cujo estado de con servação era bem melhor que o da caminhonete. Era esse, então, o outro carro dele. Sóbrio e simples, como o dono. Kagome entrou e sentou-se, preferindo não fazer comentários.

De seu lado, Inuyasha lutava bravamente para não sucumbir a sen sações bem semelhantes às dela. Até agora não compreendia a razão de ter convidado Kagome para esse jantar. Algo o impelira a fazê-lo, algo que o assustava um pouco e o deixava surpreendido. Kagome era delicada, apetitosa mesmo, cheia de contradições. Para Inuyasha, quanto mais difícil um quebra-cabeça, maior o desafio; e assim era a personalidade de Kagome. Um enigma. Que pretendia resolver depressa, mesmo que para isso tivesse de levá-la para a cama.

Com certeza, estava diante de uma moça com grande experiência sexual. Como seria o desempenho dos homens milionários na cama? Aguado, no mínimo, a julgar pela falta de imaginação nas mesas de reunião.

Inuyasha sorriu diante da própria intolerância. Sabia que seu pre conceito contra as pessoas ricas era produto direto da experiência do pai, e não ignorava que havia uma dose exagerada de frustração e in justiça no seu modo de julgar. Contudo, a atitude de Inuno Taisho deixara cicatrizes profundas em sua alma.

Até hoje a lembrança do episódio o magoava. Não tirava da cabeça a figura patética do pai correndo como doido atrás da feia herdeira, uma semana depois de ter enterrado a companheira de vinte anos. Inuyasha presenciara tudo nauseado e desgostoso, e por fim explodira numa briga monumental com o velho. Depois disso, deixara a fazenda e nunca mais falara com ele. Quando Inuno morrera, comparecera ao enterro apenas para cumprir uma formalidade social, mas não derrubara uma única lágrima.

Muito tempo se passou antes que Inuyasha, finalmente, soubesse com detalhes a razão do passo tresloucado do pai: a Fazenda Taisho, que pertencia à família havia três gerações, estava a um passo da falência. Para não perdê-la, Inuno buscara a solução mais fácil. Casara-se pelo dinheiro, a fim de que o filho pudesse herdar a propriedade livre de dívidas.

— Você está muito calado hoje — a voz de Kagome despertou-o das reminiscências. — Arrependido de ter me convidado?

— Não. Apenas dei um mergulho no passado.

— Lembrando o quê?

Ele acendeu um cigarro, os olhos pensativos fixos na estrada.

— Meu pai se desgraçou por minha causa. Casou-se por dinheiro, para que a fazenda ficasse comigo e com meus filhos. Irônico, não acha? Porque nunca hei de me casar, justamente por causa do exemplo que ele me deu.

Kagome cruzou as mãos no colo. Respeitava a dor de Inuyasha, e o fato de ele lhe confidenciar assunto tão pessoal pareceu-lhe um alto elogio.

— Se você não tem filhos, para quem irá seu fazenda?

— Tenho um sobrinho de dez anos, Shippou, filho de minha irmã. É uma história comprida, Kagome, e não quero aborrecê-la.

— Não, por favor, conte mais. Onde está sua irmã?

— O pai de Shippou morreu num desastre. Rin, minha irmã, casou-se de novo, mas morreu logo depois. Shippou ficou com o padrasto, mas este resolveu se casar de novo, e por isso matriculou o garoto num colégio interno, no mês passado. Em resumo, meu sobrinho está sozinho e infeliz. E odeia o padrasto.

Inuyasha respirou fundo, o semblante carregado.

— Naquela noite em que nos encontramos no bar, eu tinha recebido uma carta de Shippou. O menino quer vir para Jacobsville morar comigo.

— Parece uma boa idéia. Ele sacudiu a cabeça.

— Não há a menor chance, Kagome. Meu cunhado e eu não nos damos bem, e é quase certo que ele não concorde em me dar a custódia do garoto.

— É uma história triste — disse Kagome, com meiguice. — Shippou sente falta da mãe, com certeza.

— Nunca menciona o nome dela.

— Decerto porque sofre.

Houve um curto silêncio. Depois, obedecendo a um impulso, ela acrescentou:

— Eu sofro com a falta de meus pais. Eles morreram num desastre de avião. Não nos víamos com freqüência e não existia um relaciona mento maravilhoso entre nós, mas mesmo assim... mesmo assim eu me sinto muito sozinha.

— Você não morava com eles?

— Oficialmente, sim. O problema é que papai e mamãe adoravam viajar. Não me levavam junto para não atrapalhar meus estudos, e eu acabei me acostumando a ficar sozinha em casa. Isto é, sozinha é modo de dizer. Havia empregados e a governanta, além de uma tia-avó que gostava muito de mim, mas vivia na cama com enxaqueca. Para encurtar, tive uma infância solitária. Principalmente nos feriados.

Kagome não desviou a vista da estrada, embora sentisse um par de olhos curiosos estudando-a com atenção.

— Se um dia eu tiver filhos — disse, de repente — eles jamais saberão o que é passar o Natal sozinhos. Juro que não!

— É — comentou Inuyasha, pensativo. — Há coisas que o dinheiro não pode comprar.

— Oh, uma lista interminável. Começando e acabando pelo amor. — Para aliviar a atmosfera carregada, ele riu.

— O amor também pode ser comprado, você sabe.

— Não concordo. Podemos comprar a ilusão, o sexo. Mas uma simples sessão de cama não é amor de verdade.

Dessa vez o riso de Inuyasha saiu espontâneo.

— Acho que tem razão, não é mesmo? Dizem que essa experiência é pouco satisfatória. Quanto a mim, não posso opinar, porque nunca tentei, mas creio que não teria nenhum prazer em desfrutar de um corpo pelo qual paguei alguns dólares.

— É assim que eu penso também.

A tensão se dissolveu, e Kagome viu-se mais relaxada e contente. Minutos depois, Inuyasha estacionava num pátio enfeitado com graciosas lan ternas de papel.

— Chegamos, debutante. Espero que goste.

O restaurante, pequeno e aconchegante, oferecia música suave e ser viço de primeira qualidade.

— Conte sobre seu emprego, Kagome— disse ele, servindo chá de jas mim. — Que tal é ganhar a vida?

Os olhos verdes de Kagome ganharam um brilho dourado.

— Confesso que estou adorando. Nunca soube o que era indepen dência, e a experiência é eletrizante mesmo. Eu havia me acomodado a receber ordens, e nem sabia mais o que era tomar uma decisão. Cheguei a transferir essa dependência para tio Miouga, imagine só! Por isso é que insisto em dizer que aquela noite no bar foi decisiva para mim. Você me abriu os olhos, acredite. Fez-me ver que eu podia mudar, se quisesse. E eu não estava brincando quando lhe disse que você tinha desempenhado um papel definitivo nessa mudança.

— E eu, pensando que você tinha arrumado o emprego por minha causa! — Inuyasha sorriu, algo embaraçado. — Não é esnobação minha, Kagome. Já tinha acontecido antes.

— Eu sei — volveu ela, baixando a vista. — Você não é feio e... e é um homem e tanto. Mas eu não tinha intenção de persegui-lo. Sou orgulhosa demais para isso.

O que provavelmente era a pura verdade. Inuyasha sorriu, apreciando a franqueza direta de Kagome. Gostava também dos modos discretos, da elegância sem alarde. Não era uma mulher estonteante, mas bonita o suficiente para virar a cabeça de qualquer um. E possuía um coração generoso. De repente, ele se pegou imaginando se Shippou gostaria dela.

O jantar transcorreu em franca cordialidade. Conversaram sobre po lítica, cinema, gado, ecologia. Comeram camarões empanados e peixi nhos diminutos que derretiam na boca. Acima de tudo, riram e brincaram sem que uma sombra de tensão estragasse a noite.

— Você não me contou sobre seu tio — disse Inuyasha, já no caminho de volta. — Vocês se dão bem?

— Mantemos uma relação polida. Tio Miouga anda muito calado e nervoso nos últimos dias, não sei por quê.

Miouga Rollins calado? Miouga Rollins nervoso? Aí estava uma novi dade difícil de acreditar.

— Suponha que você herde dois dólares e um pedido de desculpas de Miouga. O que faria? — Kagomesoltou uma risada.

— Duvido que isso aconteça.

— Mas e se acontecer?

Ela considerou o assunto durante alguns minutos.

— Seria um choque e tanto para mim, porque não estou acostumada a contar dinheiro nem a me privar de presentes. Mas acho que acabaria me habituando. O trabalho não me assusta.

Inuyasha, mais uma vez, apreciou a franqueza e a simplicidade da resposta.

— Para onde vamos? — indagou Kagome, ao notar que ele desviara do caminho principal.

— Quero lhe mostrar minha fazenda — Inuyasha piscou um olho matreiro. — E meu aviário novo. Tem um feno cheiroso e fresquinho no chão...

Ela entendeu o recado, mas preferiu fingir ignorância.

— Você cria pintinhos? Galinhas?

— Também. De vez em quando gosto de ovos quentes pela manhã.

Inuyasha não acrescentou que o aviário ajudava bastante nas despesas, principalmente na entressafra do gado.

— E a carne que você come?

— Essa eu compro. Gosto demais de animais para abatê-los. Mesa Blanca tem muito gado de corte, mas eu procuro não lidar com esse setor.

A imagem que Kagome tinha de Inuyasha não combinava com o que ouvia. Um amigo dos animais com coração de aço era uma mistura bem pouco homogênea.

— Você tem cães?

— Pencas deles. E gatos. São tantos que às vezes, quando a população aumenta, sou obrigado a distribuir alguns de presente.

— Por que não os solta, simplesmente? — Ele sorriu de leve.

— Porque na rua eles não seriam bem tratados. E você, Kagome, já teve um cachorrinho de estimação?

— Não — volveu ela, tristonha. — Meus pais detestavam animais. Mamãe teria um chilique se encontrasse um gatinho no meio da mobília Luís 15...

Inuyasha riu alto.

— Pois eu prefiro um gato a uma poltrona de seda.

— Eu também, mil vezes!

Ele achou graça no fervor da resposta. Bom Deus, essa moça era bem diferente do que imaginava!

— Chegamos. Esse é o meu palácio, Kagome.

Era um chalé gracioso de madeira e pedra, erguido no meio de um jardim extremamente bem-cuidado. Sob os jorros prateados da lua, Kagome divisou canteiros de flores variadas, árvores seculares, caminhos sinuosos de pedregulho orlados de lágrimas-da-noite.

— Meu Deus — murmurou ela, engasgada. — Que beleza!

— Obrigado.

— É você que trata do jardim?

— Claro. Ninguém mais põe as mãos em minhas plantas. Jardinagem é meu hobby preferido.

Transpuseram uma varanda coberta de hera e primavera, cujos cachos cascateavam, exuberantes, sobre o gradil de madeira. Kagome imaginou Inuyasha sentado na cadeira de balanço, observando o pôr-do-sol naquele pedaço de paraíso, e teve inveja. De vez em quando um mugido cortava o silêncio da noite.

— Você tem gado aqui?

— Santa Gertrudes. Mas só para reprodução, não para abate.

— Ora, que surpresa! — comentou ela, só para provocar. Ele riu e abriu a porta.

A sala era ampla, decorada com sobriedade e bom gosto.

— Hum... Para um solteirão, você ê ótimo dono-de-casa.

— Obrigado, mas o crédito dessa vez não é meu, é da mulher de meu caseiro.

No mesmo instante, uma pontada de ciúme varou o coração de Kagome. Inuyasha, que a observava, soltou uma risada gostosa.

— O nome dela é Kaede. Tem cinqüenta anos e adora o marido. Kagome enrubesceu. — Ainda bem que ele não acendera as luzes ainda! Inuyasha girou o comutador e ela se adiantou, a fim de esconder o rubor.

— Cuidado...

Mas já era tarde. Uma bolinha fofa de lá com dentes atacou-a no calcanhar, provocando um salto e um gritinho aflito.

— Deus do céu! — exclamou ela, rindo. — O que é isso? Um tigre em miniatura?

— É Kirara, meu gato. É filhote ainda.

— Kirara?

— Pois é — explicou ele, com uma careta engraçada. — Deu uma trabalheira danada ao nascer, e não parou até hoje de me dar dor de cabeça. Não imagina o que ele fez com minhas cortinas.

Kagome abaixou-se e tomou-o no colo com cuidado. O animalzinho exa minou-a com ar solene, os olhos imensos e doces orlados por uma faixa de pêlos negros.

— É lindo!

— Também acho. Ei, cuidado! Ele gosta de seda, e vai acabar com sua roupa. Venha cá, Kirara.

Inuyasha esticou o braço para tirá-lo do colo de Kagome, mas esta recuou, surpresa com o comentário.

— Deixe, não tem importância. Gostei de Kirara. — Ele parou, tão surpreendido quanto ela.

— Esse terninho deve ter custado uma pequena fortuna — insistiu, ao cabo de alguns segundos.

E, tornando-lhe o bichano do colo, fechou-o no quarto, sem dar aten ção aos protestos de Kagome.

— Quer café?

— Aceito, obrigada.

— Fique à vontade então. Volto num minuto.

Kagome tirou o casaco e dedicou-se a inspecionar a sala, cuja decoração era em estilo rústico. Havia muito xadrez escocês, peças de latão polido e vigas de madeira. Gravuras de cavalos puro-sangue e cães de raça pendiam sobre a lareira de pedra bruta. Kagome examinou as peças com interesse, detendo-se por fim diante da fotografia de um menino. Era bastante parecido com Inuyasha, exceto pelos olhos pretos e tristes.

— É Shippou.

Inuyasha encostara-se à soleira, aguardando que a água fervesse, e mirava-a em silêncio com seus olhos de diamante líquido.

— É parecido com você.

— Sim, porque Rin se parecia comigo também. Mas os olhos dele são escuros, iguais aos do pai.

— Conte-me mais sobre Shippou — pediu ela. — Do que ele gosta?

— De artes marciais. O forte de meu sobrinho é o Tae Kwon Do.

— Tae...?

— Kwon Do. É uma espécie de jiu-jítsu, só que se baseia nos calcanhares. Essa arte veio da Coréia há pouco tempo, embora seja antiga.

— Ah, eu já sei. Não é aquela que foi incluída nas últimas Olimpíadas?

Ele sorriu, admirado.

— Essa mesma. Shippou tem esperança de participar das Olimpíadas de 96, em Atlanta, e por isso treina todos os dias. É um garoto esforçado.

— O pessoal de Atlanta lutou com bravura para conseguir que esses Jogos se realizassem lá. Tenho uma amiga estudante que se inscreveu na comissão organizadora. Ficou quase maluca, a coitada.

— Você não tem muitas amigas em Jacobsville, não é?

— Tenho Sango Ballenger, que é ótima companheira. E eu me dou muito bem com minhas colegas de escritório.

— Eu quis dizer amigas de seu nível social. — Kagome repôs a fotografia no lugar.

— Nunca tive. Não gosto da conversa delas.

Inuyasha se aproximou devagar. Suas mãos enlaçaram-na pela cintura e puxaram-na com suavidade.

— Sobre o que elas conversam? — perguntou, beijando-a de leve no queixo.

— Dormir com homens — Kagome deixou escapar uma risadinha nervosa. — Esse é o assunto principal. Além de não me agradar, acho um suicídio sair por aí e dormir com qualquer um. Basta escolher o parceiro errado e... e...

— É, eu sei — murmurou ele.

Sua língua deslizou pelo pescoço longo e acetinado, detendo-se na artéria, onde ele sentiu o sangue de Kagome se acelerar selvagemente sob seu loque. As mãos dele buscaram os quadris macios, apertando-os de encontro aos seus.

— Inuyasha — ouviu-a sussurrar, num suspiro. Acariciou-lhe as costas em movimentos suaves e circulares, enquanto parte de seu cérebro trabalhava com rapidez. Kagome não agia como mulher experiente, pelo menos não naquele momento, e isso o preocupava. Algo lhe dizia que ela era virgem, tão pura quanto um recém-nascido. Deus, precisava descobrir se isso era verdade.

— Quero sua boca, Kagome— murmurou, a voz enrouquecida de desejo. — Quero sentir seu gosto.

Ela ergueu a cabeça, totalmente rendida. Os lábios se encontraram em meiga exploração, mesclada da exigente e imperiosa paixão que se avolumava, crescente e impetuosa. Ambos precisavam desse beijo e por ele ansiavam como as flores precisam do sol. Precisavam desse raro e único sentimento de compartilhar e dar. Tocaram-se, buscaram-se, co nheceram-se, numa troca maravilhosa de bem-querer, de ternura, de entendimento mútuo. Era como se nada mais existisse no mundo além dos dois, como se a vida pertencesse somente a eles e a eles se entregasse, envolta num nimbo de luz dourada.

Não era assim que ele queria, Deus, não assim! Inuyasha percebeu que seu tremendo poder de autocontrole o abandonara por completo. Mal conseguia raciocinar agora. Os beijos voltaram em carícias tortu radas, despertando sensações há um tempo delicadas e violentas.

Nunca antes Inuyasha sentira algo semelhante. Kagome Higurashi atingira o mais fundo de seu âmago e desvendara-lhe fontes de emoções e senti mentos que nem ele próprio pensava existir dentro de si. Tão intensos que o assustavam e maravilhavam ao mesmo tempo. Suas pernas co meçaram a tremer e seu corpo reagiu como jamais o fizera.

Kagome gemeu alto, arrebatada. Via-se afundar num abismo de estrelas brilhantes que a atraíam e ofuscavam. Abandonou-se com volúpia, re conhecendo a pujante masculinidade de Inuyasha, explorando-lhe o peito pela camisa entreaberta, abrindo os lábios para receber a língua exigente. Inuyasha presenteava-a com um prazer novo e enlouquecedor, e ela queria retribuir da mesma forma.

As mãos morenas invadiram sua blusa e buscaram, sôfregas, os seios delicados. O fecho do sutiã abriu-se como por encanto. O seios saltaram firmes, como que agradecidos pela súbita liberdade. E quando a boca de Inuyasha pousou sobre um deles, Kagome gritou de prazer. Um prazer quase intolerável, que a arrastou para o êxtase até então desconhecido do desejo sexual.

— Tão linda — murmurou ele, erguendo o rosto. — Kagome, você faz meu corpo vibrar. Veja. Sinta!

E colou suas coxas às dela, para demonstrar com inequívoca elo quência o que queria dizer. Kagome buscou-lhe a boca, convidando-o para um beijo tão ardente quanto as carícias que ele lhe fazia nos seios.

— Pequenina — A voz dele saiu entrecortada. — Sabe o que está para nos acontecer agora? Você me quer?

— Quero, Inuyasha... Quero.

Ele se endireitou com dificuldade, todo o seu ser pedindo o corpo de Kagome por inteiro, sem reservas. Como ela devia ser linda nua, bom Deus.

— Você precisa se preparar antes? — indagou, mordiscando-lhe o lobo da orelha. — Está tomando pílula?

Ela hesitou, sem saber ao certo como devia responder. Por fim, optou pela verdade.

— Não.

A palavra caiu como bomba nos ouvidos de Inuyasha. "Não." O que queria dizer, muito simplesmente, que poderia deixá-la grávida. Grávida!

Foi uma ducha gelada. Ele a empurrou. Não foi rude nem grosseiro, mas firme. Ainda ofegante, olhou-a em muda reprovação, os olhos claros ainda turvos de desejo. Minutos depois, deixava a sala e batia com violência a porta da cozinha.

Kagome desabou sobre o sofá, recompondo-se como podia, as mãos tre mulas se recusando a acertar com tantos colchetes e botões. Foi preciso parar, recuperar o fôlego e ralhar consigo mesma uma dúzia de vezes antes que pudesse se ajeitar de maneira razoável.

Quando Inuyasha voltou com uma bandeja nas mãos, ela não teve coragem de encará-lo. Além de envergonhada, tinha plena consciência de que ainda arquejava e tremia da cabeça aos pés.

Não levantou a vista nem quando ele depositou uma xícara à sua frente, nem quando o sentiu sentar-se a seu lado. Lutando para segurar as lágrimas, apanhou a bebida quente, mas tremia tanto que a xícara começou a dançar perigosamente no pires.

Foi então que a mão dele fechou-se sobre a sua, ajudando-a. Kagome ergueu os olhos verdes, esperando uma explosão de ira. Mas Inuyasha fitava-a apenas com curiosidade, misturada a uma pitada de ternura.

— Obrigada — balbuciou, levando a xícara aos lábios.

Ele sorriu. Um sorriso de verdade, luminoso, o primeiro que ela via desde que o conhecera.

— Sempre às ordens... debutante.

— Eu... Oh, Inuyasha, desculpe...

— Não, eu é que peço desculpas — disse ele, colocando um dedo sobre os lábios dela. — Não devia ter ido tão longe.

— Você ficou tão zangado naquela hora...

— Minha querida, eu estava doido para possuir você. Senti um desejo desesperado, quase incontrolável. Foi algo que chegou a me surpreender, de tão intenso. E fui obrigado a parar no meio... Convenhamos, eu tinha minhas razões para me aborrecer, não acha?

Ela assentiu em silêncio, enquanto o observava bebericar o café.

— Por que você ainda é virgem? — perguntou ele, de chofre.

A xícara adernou na mão de Kagome, que conseguiu equilibrá-la no último instante.

— Que foi que disse?

— Você me ouviu muito bem, moça. Nem fingir direito você sabe! Mas não me provoque, porque não sou de ferro. Da próxima vez que eu a tocar, será para valer.

— Por que não experimenta? — convidou ela, mais senhora de si.

— Um dia, quem sabe? — Os olhos de diamante brilharam com malícia. — Bem, pelo menos foi uma experiência fascinante e nova para mim. E você, sua louquinha, não tem senso de autopreservação?

Kagome fuzilou-o.

— Está se divertindo a minha custa?

— Muito, obrigado — Inuyasha recostou-se no sofá, os olhos abertos fixos no teto. — Que seios maravilhosos, Deus. Cor de pôr-do-sol no outono.

— Pare com isso, Inuyasha Taisho — fungou ela, nervosa. — Não é decente ficar relembrando meus... ha, o que aconteceu.

Uma sobrancelha se ergueu, gaiata.

— Estamos no século vinte.

— Maravilha. A vida é liberal, não há mais regras nem códigos de moral. Não admira que o mundo esteja virado de ponta-cabeça.

Ele riu baixinho.

— De certo modo, concordo. Regras e normas de conduta até que podem ser muito proveitosas para a humanidade, se aplicadas de forma adequada. Acontece que as pessoas precisam aprender a renová-las de vez em quando. Já ouviu falar nos Anos Selvagens? .

— Já, foi na década de 20. Gim correndo soldo, mulheres fumando, doenças venéreas grassando, promiscuidade...

— E tudo isso não significa nada para nós agora. A humanidade vive de ciclos, desde o Império Romano. Um período de orgia é seguido por outro de extrema austeridade, e assim vai indo.

— Esse retrato é bem desencorajador.

— Contudo, são precisamente as novidades, boas ou más, que trazem mudanças ao mundo. Sem elas, nossa aldeia global estagnaria.

— Mudei de idéia. É encorajador! — Ele riu.

— Você me surpreende, Kagome. É rica, desejável, inteligente... e virgem! Céus, isso não combina. Estranho, muito estranho que tenha um senso moral tão aguçado.

— Então eu devia ser lasciva e sensual só porque sou rica? E olhar com desprezo para meus parceiros de sexo? Ora, Sr. Taisho, isso é puro preconceito. É uma idéia estereotipada, e agora é a minha vez de dizer que estereótipos não combinam com sua inteligência.

— Tem toda a razão. Acaba de marcar um ponto brilhante, Kagome Higurashi.

Seguiu-se um silêncio comprido. Inuyasha endireitou o corpo e fitou-a com intensidade, os olhos claros semelhantes a dois lagos profundos.

— Deus! Você me deixou endoidecido, Kagome. Mas, de certo modo, estou contente por você não ter tomado nenhuma pílula.

— Não foi essa a impressão que tive.

— Porque a frustração foi grande demais na hora — explicou ele, com toda a simplicidade. — O que me fez parar foi exatamente a falta da pílula. Não tenho nenhum preservativo aqui para protegê-la contra a gravidez, e esse é um risco que eu não quero correr, sob nenhum pretexto.

Ela sorriu, envergonhada.

— Nem pensei nisso — confessou.

— Pois eu sim, e foi bom, porque evitei uma possível encrenca. Por outro lado, sou quadrado demais para desonrar uma linda senhorita ino cente. E, pode rir à vontade, mas é assim que eu sinto.

Com efeito, Kagome ria até não mais poder.

— Pelo visto, estamos os dois deslocados no tempo e no espaço. Não há lugar para nós neste mundo maluco...

— Claro que há, doçura. Num domingo desses vou levá-la à igreja e provar que não estamos tão sozinhos como pensa.

— Eu... acho que gostaria mesmo de ir à igreja. — Kagome ficou séria de repente. — Quando era pequena, gostava de ir com a governanta. Depois... depois não sei por que esqueci o costume.

— Pobre menina rica.

Kagome ergueu a cabeça com vivacidade, mas só encontrou carinho e compreensão na expressão de Inuyasha. Nesse momento, ela teve certeza de que poderia amar esse homem até a loucura. Se ao menos ele lhe desse uma chance...

— Bem, moça, está na hora de voltar para casa. E, de hoje em diante, cuidado com solteirões ardentes e fazendas isoladas como esta. Combinado?

— Mas foi você que me trouxe para cá!

— Isso, ponha a culpa em mim. É sempre o homem o vilão da história. É ele que conduz as inocentes senhoritas aos vícios do pecado... Agora, falando sério, é isso mesmo que acontece a maior parte das vezes.

— Há casos em que sucede o contrário.

— Qual! Não existem homens inocentes, fique sabendo.

— E padres, monges?

— Alguns — admitiu ele, entregando-lhe a bolsa.

— Gosto muito de sua casa, Inuyasha.

— Eu também. Coincidência, não?

Entraram no carro em silêncio. Um silêncio leve, em que ambos pareciam comungar com a noite estrelada.

Inuyasha deu a partida no motor e virou-se para fitá-la.

— Pode ser que seja uma loucura rematada, Kagome, mas eu sou corajoso. E você, tem coragem?

— Co... coragem?

Ele a puxou para pertinho e emoldurou-lhe o rosto com ambas as mãos. O beijo veio doce, meigo.

— Antigamente — sussurrou, souprando-lhe os cabelos — isto se chamava cortejar.

Muda de espanto, Kagome limitou-se a fitá-lo em silêncio, os olhos grandes como dois pires de esmeralda.

— É, moça, eu disse que não acreditava em casamento. Mas há sempre uma mulher capaz de dissolver as mais duras armaduras de um homem. — E sua boca buscou a dela mais uma vez. — Quero cuidar de Shippou, e se eu me casar, tenho boas chances de ficar com ele. Enquanto isso, eu e você podemos enriquecer nossas vidas dando-nos um ao outro. Vamos começar pelo princípio querida. Passar bastante tempo juntos, conversar e nos conhecer a fundo. Não sei no que vai dar, mas podemos tentar.

— Eu... eu sou rica — balbuciou ela.

— Não faz mal. Posso conviver com isso.

Acariciou-lhe o queixo de leve, ruminando em silêncio suas suspeitas. Tinha quase certeza de que Kagome não herdaria fortuna nenhuma, fato que o deixava mais à vontade para pedir-lhe a mão. Quando recebesse a notícia, Kagome ficaria só e perdida, mas ele estaria por perto para ampará-la. Era uma mulher doce, bonita e apaixonada, artigo não tão fácil de en contrar como parecia. Shippou precisaria de um lar estável. E ele... bem, ele a desejava. Casando-se, sua chance de assumir a presidência do conselho subiria, embora esse fosse o ponto menos importante da história toda.

Deixou para pensar nas possíveis conseqüências de seu gesto mais tarde. Primeiro, queria montar um lar para Shippou.

Sorrindo, Inuyasha manobrou o carro.


Tinker: Muuuuuuuuuito obrigada, to amando suas reviews! Acho que vou vai pirar com esse cap então, agora as coisas vão começar a pegar fogo entre os dois, isso que é o perigo! Ela é muito mocinha, e ele muito machão, essa combinação vai ser de piraaaaaaar!

neherenia sereniti: Esse encontro vai ser no mínimo curioso, aos poucos vai dando pra perceber que ele não é esse homem grosso e bronco, ele tem é medo de se entregar hahahaha mas esses dois ainda vão se estranhar.. continue acompanhando e muuuito obrigada pela review 3