Na primeira noite

Eles se aproximam

E colhem uma flor

De nosso jardim

E não dizemos nada.

Na segunda noite,

Já não se escondem:

Pisam as flores,

Matam nosso cão,

E não dizemos nada.

Até que um dia

O mais frágil deles

Entra sozinho em nossa casa,

Rouba-nos a lua e,

Conhecendo o nosso medo,

Arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,

Já não podemos dizer nada.

Maiakowsky


Tremia de medo sempre que ia entrar naquela sala. Mesmo que jamais demonstrasse a ninguém, seu trabalho era algo quase insuportável. Mas ela era a única que, quando fizeram a descrição do emprego, não desistiu em prol da própria vida. Ela sabia que era por um bem maior. Mas por aquele bem maior, sua vida era arriscada todo santo dia.

Muitos de seus colegas lhe perguntavam porque ela continuava. Ela poderia ter uma vida tranqüila se quisesse. Sem riscos, cômoda, e com um salário digno de sua participação na erradicação d'Aquele-que-não-deve-ser-nomeado.

Não fosse por ela, era lógico que o menino-que-sobreviveu não teria chance alguma de derrotar Lorde Voldemort. Ela ensinara quase tudo que ele sabia. Ela, mesmo contrariada, o ajudara a encontrar e a matar o pior bruxo de todos os tempos.

Agora ela era praticamente obrigada a ir, todos os dias, até aquela sala. Claro, ninguém a obrigava, só o seu senso de "Fazer a coisa certa".

Respirou bem fundo e girou a maçaneta. Ao entrar, viu o único conforto que tinha em seu emprego sorrir-lhe, de um modo que só fazia para ela. Mas logo depois o sorriso dele desvaneceu.

- Bom dia, Severus... – sua voz saiu um pouco arrastada. Apesar de adorar a presença dele, de ser aquele o único momento de conforto que tinha em sua existência, não conseguia afastar de si o motivo de estar naquele lugar insalubre.

- Bom dia, Hermione. Chegou cedo hoje.

- Senti sua falta.

- E eu a sua. – ele retrucou, enlaçando-a em um terno abraço, roubando-lhe um leve beijo dos lábios. – E ainda estou tentando entender por que se apaixonou por um rabugento como eu.

De fato, Hermione mal se lembrava do dia em que descobriu seus sentimentos por seu ex-professor de Poções.

Mas se lembrava.

Ouvira alguém – Simas Finnigan, acreditava – apostar com alguém que, em pouco tempo, ela estaria namorando Ronald Weasley. A primeira coisa que veio à sua mente foi revolta. Como é que estavam fazendo aquilo, apostando sobre o SEU futuro amoroso! Aquilo dizia respeito a ela e a mais ninguém!

Depois veio a dúvida. Por que achavam aquilo sobre ela e seu melhor amigo? O único amigo real que tivera após a fuga e a morte de Harry. Ela própria não podia conceber aquela cena, era como incesto! Eram como irmãos, se consolaram após a trágica notícia do assassinato do amigo!

Então, pela primeira vez parou para pensar. Quem a mexia? Quem tocava seu coração? Quem a fazia se sentir completa?

E nenhum outro nome lhe vinha à mente, a não ser o do professor de poções.

Mas era outra cena completamente inconcebível! Além da diferença de idade, ele era intragável! Bom... Não era. Mas a considerava uma "intragável sabe-tudo" de acordo com palavras dele próprio!

Aquela união seria impossível... Ou, melhor colocando, seria aquela união impossível?

Com o passar do tempo, aquele sentimento passou a sufoca-la, tendo acessos de raiva quando alguém sugeria um relacionamento com Weasley. Mesmo colocando o sentimento de lado, eram incompatíveis! Ele era boa pessoa, mas seu intelecto era inferior.

Detestava pensar daquela maneira de seu melhor amigo, mas era a mais pura verdade. A ignorância e a imaturidade de Rony a irritavam. Jamais conseguiriam manter um relacionamento estável.

Ao contrário, Severus Snape parecia-lhe simplesmente a perfeição! Apesar de sua aspereza, ela tinha a sensação de que, por detrás daquele olhar frio, poderia haver um coração esperando para ser amado. E, desde quando entrara para a Ordem da Fênix, percebia o incrível e inteligente homem que ele era.

Chegava a ser torturante, mas ela ainda guardava segredo. Apenas ela sabia de seus sentimentos. Mas um dia aquilo transbordaria com a força de um maremoto.

E o dia chegara, sem aviso nem preparação. Ficara de detenção por ajudar Neville Longbottom a consertar uma poção feita de maneira errada. Este, apesar de chateado pelo "destino" da amiga, não pôde deixar de agradecer, pois ela levara toda a culpa, ficando ele, livre da fúria de Snape.

Lá estavam os dois, sozinhos. Hermione mal se controlava, tremendo. Ele a olhou, debochado.

- Com medo de uma detenção, senhorita Granger?

Negou com a cabeça, ainda apavorada com as próprias reações na presença dele. Desta vez o olhar dele denotava curiosidade, beirando o fascínio.

- O senhor... O senhor ainda não me disse qual será minha detenção!

- E a senhorita não precisa me lembrar de minhas obrigações, eu as conheço perfeitamente. – ele respondeu seca e asperamente. Hermione baixou os olhos.

- Desculpe... – a tristeza que saíra daqueles lábios tão pequenos e bem desenhados cortaram o endurecido coração de Snape de maneira que ele não previa. Desconcertado, ele logo se recuperou e procurava por algo em suas anotações.

O silêncio instalado entre eles era angustiante. Angustiante demais para a pobre menina que, a cada segundo, se controlava mais para não berrar, a plenos pulmões, seus sentimentos fechados em uma caixa. Mas nem todo o autocontrole do mundo a seguraria. Não mais.

- POR QUÊ??? – ela berrou, se erguendo, atraindo o olhar estupefato de Severus.

- Enlouqueceu, menina?? Sente-se agora mesmo!!

- NÃO! NÃO POSSO ME SENTAR!! NÃO ENQUANTO NÃO TIRAR ISSO DE DENTRO DE MIM!! EU AMO VOCÊ, PROFESSOR!! SEI QUE É DIFÍCIL DE ACREDITAR, MAS EU AMO VOCÊ!!! JÁ NÃO CONSIGO CONTROLAR, É IMPOSSÍVEL!!!

Os olhos de Snape pareciam querer saltar das órbitas. Estava perplexo.

- HÁ MUITO TEMPO QUE EU QUERO GRITAR ISSO, PARA TODOS OS CANTOS!!! – ela continuou, sem dar muita atenção para a reação dele. – NÃO SUPORTO MAIS INVENTAREM NAMORICOS MEUS COM O RONY, NÃO AGÜENTO MAIS ESPECULAÇÕES E APOSTAS QUANTO À MINHA VIDA AMOROSA!!! EU!! AMO!! VOCÊ!!!

Ela ofegava agora, aliviada de ter arrancado de dentro de si toda a angústia de guardar aquele segredo tão conflitante.

Mas ele a olhava como se ela não fosse real. Como se ela fosse algo tão magnífico, tão incrível, que precisaria de uma prova para ter certeza de que era ela ali, de pé, acabando de fazer uma declaração de amor.

- Eu... Só precisava desabafar... – ela voltou a se sentar, o rosto muito vermelho – Me perdoe, esqueça o que eu disse.

Foi como se ele despertasse de um sonho. Se erguendo de sua cadeira, ele se aproximou lentamente da menina.

- Você... Não está mentindo, está? – ele perguntou, tendo um pouco de receio da resposta.

- Pra que eu mentiria? – ela redargüiu, os olhos baixos, evitando o olhar de Severus. – Eu amo tanto você...

Ele continuava a olha-la com profundo estupor. Era praticamente impossível que ela, uma garota jovem, bela, inteligente e praticamente perfeita em tudo... Não. PERFEITA em tudo, o amasse.

Mas ela o amava, havia gritado aquilo com força, convicção e uma ponta de desespero. E aquilo era errado! Ele era seu professor! Era antiético, era imoral!

- Senhorita Granger... – ele falou, com o máximo de brandura que sua voz poderia suportar. – Volte para a Torre da Grifinória.

- Mas professor...

- Quanto a este assunto, nos falamos após sua formatura. Não se preocupe, ninguém ficará sabendo. Só você e eu.

- Mas o senhor... Ao menos tem uma resposta quanto ao que eu sinto?

- Tenho sim, senhorita Granger. Creio eu que a resposta vai te agradar, mas não podemos mais tocar neste assunto enquanto for minha aluna. Por favor, retorne à Torre da Grifinória e esqueça, por ora, o que se passou aqui.

Ela sorriu, o coração leve e alegre. Ela sabia o que ele tinha dito. E ele estava certo, não podiam fazer nada enquanto fossem professor e aluna. Em silêncio, mas radiante de alegria, recolheu seu material e saiu das masmorras, tentando se conter, mas percebendo a dificuldade que teria em fazê-lo.

Foi bruscamente acordada de suas deliciosas lembranças pela dura realidade. Severus a havia soltado e segurava agora o jornal do dia, lhe entregando para que lesse.

"Famosa ex-comensal é assassinada em casa"

A ex-comensal, Pansy Parkinson, que há uma semana havia sido absolvida de seus crimes pelo Supremo Tribunal Bruxo, foi encontrada morta, junto ao marido Sebastian Dorel. Também seu filho mais velho, Christian, foi torturado pela maldição Cruciatus e se encontra em estado grave no Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos.

As circunstâncias do ataque ainda são desconhecidas, mas os peritos suspeitam de que os incendiários estejam envolvidos.

O auror encarregado do caso, Draco Malfoy, não quis prestar nenhum depoimento a nossa reportagem.

A filha mais nova do casal, de apenas dois anos, está desaparecida.

Hermione leu aquilo com revolta, mas sem derramar uma única lágrima. No fundo sentia que Pansy merecera aquilo, mas evitou manter aquele tipo de pensamento.

- É por isso que eu nunca desisto de vir até aqui, Severus. Estamos tão perto de descobrir o contra-feitiço! Um feitiço que possa anular o Avada Kedavra seria tudo o que precisamos para acabar com essa matança!

- Eu sei, querida. Mas não é isso o que me deixa mais preocupado.

- O que é então? – ela olhou para ele, interrogativa.

- Recebi uma carta de Remus.

- E daí?

Suspirando, ele a olhou, entristecido.

- O conteúdo da carta me deixou profundamente abalado, Hermione, porque ele diz saber quem é que está matando essas pessoas.

- Mas isso deveria ser uma coisa boa, Severus! – ela, por um segundo, sentiu-se animada, mas a expressão dele ainda a preocupava. – Severus, quem ele disse que é o culpado?

- Você não vai acreditar se não ler esta outra carta. – ele ergueu para ela um maço de folhas com garranchos que ela conhecia bem.

- Não, Severus! Não pode ser, ele morreu!!

- Leia a carta que você vai compreender, Hermione.


Pela primeira vez ele caminhava sozinho desde o dia em que matara seus tios e seu primo. Como sempre, caminhava à noite para que não fosse reconhecido. Mesmo no centro da Londres Trouxa alguns bruxos ainda poderiam estar, então ele nunca se arriscava.

Passeando sem destino e sem a intenção de matar ninguém, sua atenção se voltou para uma igreja. Uma bela igreja, construída no estilo gótico, com torres enormes e pontiagudas.

As portas estavam abertas, mesmo sendo muito tarde.

Sentiu uma enorme curiosidade, pois só entrara em uma igreja uma única vez em sua vida, no Brasil.

Deu uma longa tragada no cigarro e entrou, enquanto soprava a fumaça.

Podia ouvir um canto muito baixinho, ele deduziu que saia das caixas de som que causavam contraste com o resto da decoração da igreja.

Andando calmamente e sem pressa, observava as imagens dos santos. Os olhares que causavam temor e devoção aos fiéis, mas que a ele só causavam uma maior curiosidade.

Resolveu se sentar enquanto terminava seu cigarro. Fixou seus olhos no altar. Fechou os olhos e começou a se lembrar dos fatos de três anos atrás. Helena, André, Tom, Caleb... Tudo tão fresco, tão palpável que era como se estivesse acontecendo naquele minuto.

- Pensando na vida, Harry? – uma voz conhecida ecoou em seus ouvidos, fazendo-o abrir os olhos calmamente. Ao seu lado, um padre, de batina preta e colarinho branco. Tinha olhos castanhos e cabelos idem. Não era de aparência feia e parecia ser jovem. Seu semblante era tranqüilo, quase pacífico e apaziguador.

- Não. Só me lembrando de algumas coisas. Já faz algum tempo, não é mesmo?

- Dez anos, Harry. Você mudou bastante.

- O mérito é todo seu, Caleb. – ele respondeu, coçando a barba mal crescida, que ele não pretendia aparar tão cedo.

- O que o traz à minha igreja?

- Curiosidade.

- Sabia que me encontraria aqui?

- Talvez soubesse, não tenho certeza...

- E como vão as coisas com você e Tom?

Harry soltou uma breve risada.

- Não haja como se não soubesse, Caleb. Não existe nada que você não saiba. Pelo menos quando diz respeito a mim e a Tom. – ele parou, novamente olhando o altar. – Apesar de tudo, é bonito, não acha?

- O altar? Sim, é muito bonito. Vocês estão prestes a serem descobertos.

- Eu sei. Cedo ou tarde Remus contaria a verdade para alguém. Mas ele não sabe sobre Tom, o que nos dá alguma vantagem.

- Você sabe que Dumbledore sabe. Ele pode ser o pior empecilho.

- Dumbledore é problema de Tom. Eu não tenho nada contra ele. Não vou me meter na vingança dele e ele não vai se meter na minha.

- Certo... Mas ele será um problema para os dois, Harry.

Harry sorriu, olhando para o padre ao lado dele.

- Sabe de alguma coisa que eu não sei, meu caro amigo? – a ironia cortava a voz do jovem moreno de olhos verdes.

- Sempre, meu jovem, sempre. Preciso ir. Vai ficar ainda muito tempo?

- Não sei... Se quiser, pode fechar as portas, eu posso ir embora aparatando.

- Foi um prazer revê-lo, Harry. – Caleb apertou a mão de Harry enquanto se levantava.

- O prazer foi todo meu, Caleb.

Harry não viu quando as portas se fecharam, nem viu por onde Caleb saiu. Só muito tempo depois foi embora.