Ela não sabia porque. Mas estava apavorada. Sentia que alguma coisa estava errada e que, em minutos, tudo poderia explodir. Andava apressada pelas ruas, usando roupas trouxas, tentando se passar por invisível.
Mas era inútil, pois ele a enxergava. E ela não enxergava ele. Ela nem sabia que ele estava por perto, mas sabia que algo estava terrivelmente errado.
Parou. Aquela esquina era o único caminho para sua casa, mas o beco estava sem luz. E deserto. Sentiu um calafrio correr sua espinha, mas ficar ali era tão perigoso quanto atravessar o beco.
Decidiu ir, apressando ainda mais o passo. Então, quando estava quase na metade do beco, ouviu passos. Pensou em aparatar, mas não tinha concentração nenhuma. O pânico começava a aflorar, em sua respiração, no descompassar de seu coração.
"Maldição", pensou, enquanto percebia os passos se aproximando perigosamente. "Estou perdida... São ladrões, tenho certeza! Ou mesmo pior!"
Virou-se para trás bruscamente, num assomo de coragem e numa tentativa de assustar quem quer que a estivesse seguindo.
Nada. Ninguém. Nem mesmo um gato, ou uma mosca, qualquer coisa.
- Mas... Eu ouvi, tenho certeza! Tinha alguém atrás de mim!
Atônita, após processar aquilo por alguns segundos, virou-se para frente e não se deu ao trabalho de suprimir um grito.
- Cho Chang... – a mórbida figura à sua frente se pronunciou, a voz um pouco mais rouca e envelhecida, mas nada que não a fizesse reconhecer. Mesmo assim, preferiu não acreditar.
- Não... Não! Impossível!! Você está morto!!
- Você já deu mais confiança ao "Profeta Diário", Chang... A este ridículo jornal que você amassa entre os dedos.
- É IMPOSSÍVEL!!! VOCÊ ESTÁ MORTO!!! MORTO!!! CHORAMOS SUA MORTE POR DIAS!!!
Irritado, num impulso ele agarra o pescoço dela e aperta.
- Se estou morto, sou um fantasma. Diga-me, Chang... Fantasmas têm consistência? São corpóreos como eu?
- Não pode... Não pode ser... – ela falou, com certa dificuldade, pois os dedos dele começavam a apertar com mais força seu pescoço.
- Então choraram minha morte? Diga-me outra coisa, Chang... – a ênfase debochada que ele deu no nome dela a fez tremer. – Você chora toda vez que meu nome é mencionado? Claro, porque, quando, naqueles breves dias do quinto ano, estivemos juntos, tecnicamente falando, nosso primeiro e único beijo foi trocado enquanto derramava lágrimas por um defunto. Um defunto frio, que você não deixava descansar em paz, pobre Cedric! À menor menção, à menor lembrança, a um fedor que a fizesse se lembrar dele... Você poderia ter abastecido novos oceanos.
- Solte-me... COF... Solte-me!
- Agora, vejamos o que Rita Skeeter tem a dizer sobre mim. Ouvi dizer que aquela arara foi quem escreveu a matéria. – ele tomou o jornal das mãos de Cho, que derramava algumas poucas lágrimas de pânico.
Harry sorriu.
- Ela não mudou nada, não é mesmo?
"Incendiário misterioso é o 'Menino-que-sobreviveu'"Em relato exclusivo a nossa redação, o professor/lobisomem Remus J. Lupin, disse que Harry James Potter, o mesmo que matou e livrou o mundo bruxo da ameaça "d'Aquele que não devia ser nomeado"...
Harry não agüentou. Riu-se gostosamente. Rita tinha escrito como se soubesse que Tom poderia ler e gostar de saber que, mesmo depois de "morto", seu nome ainda não era pronunciado.
- Convenhamos, ela me mata de rir... Não sei por que me irritava quando ela escrevia aquelas matérias absurdas sobre a minha nobre pessoa. Continuemos nossa leitura, isto parece que vai ficar interessante.
... é o responsável pelos incêndios que vinham ocorrendo em Londres e, também, pelo assassinato da ex-comensal Pansy Parkinson.
De acordo com o relato de Lupin, Harry, durante todo o tempo, esteve vivo e refugiado no Brasil, onde teria salvado, novamente, a comunidade bruxa de ser dizimada. Mas, ao que parece, os métodos que ele utilizou foram menos nobres que os utilizara da primeira vez, se aliando ao espírito d'Aquele que não devia ser nomeado para conseguir o poder que precisava para destruir uma espécie rara e perigosa de demônio, conhecida como "Devorador de Almas".
A prova para o relato do professor é uma carta, mandada pelo próprio Harry ao professor, contando o que ocorrera.
A reportagem completa e a íntegra da carta, vide página 15.
O sorriso de Harry era cada vez maior. Olhou para Cho, largando o jornal no chão. Já sabiam de sua identidade, já sabiam quase tudo. Mas não sabiam nem onde, nem como encontrá-lo.
E ali ele estava, apertando o pescoço de uma bruxa, no meio da cidade, sem nenhum auror nas proximidades. Ele era mais simples do que especulavam, por isso ninguém o pegaria.
- É, ela está um pouco mais contida. Acho que o tratamento que Hermione deu a ela, na época do falecimento de seu querido Cedric, a ensinou uma lição. Mas não pense que fui tolo o bastante naquela carta que, com certeza você já leu, escrevi a Lupin.
- Que quer dizer??
- Acha mesmo que Tom, Voldemort para os mais íntimos, se deixaria morrer de forma tão tola e vil? Não, minha cara Chang... Ele está muito bem vivo e tem sede de vingança contra todos aqueles que um dia estiveram em seu caminho!
Em novo assomo de coragem, a jovem chinesa cuspiu no rosto de seu possível algoz.
- Pois ele deveria ter matado você!
Sem se abalar, Harry tirou um lenço do bolso e limpou o rosto.
- Não reparou então, minha bela gueixa? Oh, me perdoe. Gueixas são do Japão. Mas, como eu dizia, ele me matou. Não me matou fisicamente, mas toda a humanidade que existia dentro de mim, toda aquela ingenuidade que você conheceu e da qual se aproveitou... Aquilo tudo não existe mais.
Os olhos dele se estreitaram enquanto, furtivamente, alcançava sua varinha dentro das vestes.
- Eu matei Pansy após tortura-la por quase uma hora. Fiz o mesmo com o idiota do marido dela. Tom torturou o filho deles. Sem contar nas casas que incendiamos, enquanto ouvíamos, deliciados, o som dos gritos de seus ocupantes. Mas, até agora, nada me deu tanto prazer quanto matar meus tios e meu primo. Meus últimos familiares vivos.
- Você é um monstro, um demônio!!!
- Elogios à parte, minha cara. Eu disse que nada me deu tanto prazer... Até agora.
Por um segundo o coração de Cho falhou e seu sangue parou de circular. Ele iria matá-la. Ali, naquele beco escuro, sem ninguém por perto!
- Comecemos por uma brincadeirinha. Primeiro, o silêncio... Quietus.
A sensação era a mesma de terem congelado suas cordas vocais. Queria gritar, mas a voz dela estava paralisada, presa. Chorou.
- Agora, a dor. O motivo real para o choro. Crucio.
Foi pior do que qualquer coisa que pudesse imaginar. Sentia suas entranhas se revirando e uma dor alucinante cortando-a em mil pedaços pequenos, sem que nenhum deles sentisse o alívio.
- Quer que eu pare, Chang? Implore que eu pare... Arraste-se a meus pés. Posso pensar em ser condescendente... Ou não, a escolha é sua!
Ela não tinha forças. A dor era tamanha que qualquer tipo de humilhação era válido para pará-la. Mas ela não tinha forças para se arrastar. Não tinha forças nem para chorar.
Mesmo assim, Harry não se deu por satisfeito. Queria mais, queria ver sangue. Queria vê-la sofrendo mais ainda.
Com a varinha ainda apontada para ela, fê-la voar contra uma parede com toda a força. Depois em outra e novamente na primeira. Ela estava preste a perder os sentidos quando ele parou.
Foi se aproximando lentamente e se ajoelhou do lado dela, que estava com o lábio e a testa cortados e sangrando.
- E por fim, selo sua morte com um beijo. O nosso segundo beijo, o único que não será molhado por lágrimas.
E a beijou, de maneira violenta e furiosa, sentindo prazer pelo gosto de sangue que o corte provia. Não houve correspondência, mas ele nem esperava por isso.
- Adeus, Cho Chang. Um dia, nos veremos no inferno, se é que existe um. Avada Kedavra.
O raio verde atingiu o peito da mulher, que, pela primeira vez naquela noite, encontrou o alívio.
- ELE ESTÁ BRINCANDO COMIGO!!! – um novo objeto se espatifava contra a parede. Daemon não se deu ao trabalho de se assustar, ou mesmo de se preocupar.
- Sua mobília não tem culpa, Malfoy.
- Prefere que eu desconte em você? – ele perguntou, com falsa calma.
- Não. Vá em frente, destrua tudo.
- Muito obrigado pelo consentimento!
- Olha, eu não sei pra que tudo isso. Não vai te ajudar em nada.
- Vai me ajudar a não partir sua cara, imaginando ser a cara do Potter! É nisso que isso me ajuda!
- Largue de tolices! O que você tem que fazer agora é sentar, se acalmar e pensar em uma maneira de pegá-lo!
- HARRY JAMES POTTER MATOU CHO CHANG PRATICAMENTE DEBAIXO DO MEU NARIZ, SENHOR MCNEELAN!!! NÃO PEÇA QUE ME ACALME, NÃO AGORA!!!
- Você já sabia que era Harry, não sabia?
- Sabia! O pior de tudo é que eu sabia!! Graças àquele espelho de inimigos da Parkinson! Era agora para ele pensar que eu não fazia idéia, para que eu pudesse encontrar seu rastro sem levantar suspeitas! Mas nãão... AQUELA DESGRAÇADA DA SKEETER TINHA QUE INVADIR A CASA DE LUPIN, ROUBAR AQUELA CARTA E INVENTAR AQUELA HISTÓRIA RIDÍCULA DE RELATO EXCLUSIVO!!
- Não é tão ridícula assim. Existe a possibilidade.
- Não conhecendo Lupin como eu conheci. Ele faria o impossível para preservar isso no mais absoluto sigilo! Ele é um cara discreto, jamais faria o alarde que aquele jornaleco fez!
- Tudo bem, então vá a público e diga que é uma informação falsa!
- Daemon, você já me pareceu mais esperto.
- Não tenho usado muito o intelecto, quero preserva-lo para mim e para meus propósitos.
- Que continuam uma incógnita para todo o Ministério! O fato é, Daemon, que agora não adianta tentar abafar isso! Já está em cada lar bruxo de Londres, sem contar de outras cidades vizinhas que também assinam o jornal! Agora Potter já sabe que sei sua identidade! E ficará duas vezes mais alerta!
- Que barra... – Daemon se limitou a dizer. Estava sem inspiração para gastar saliva, preferiu ser lacônico.
- Sem contar que, a contar das vítimas incendiadas, apenas duas não têm nenhum tipo de ligação aparente com Potter. Todas as outras, desde seus tios, passando por Crabbe e Goyle e chegando agora na Chang... Todos eles estragaram a vida daquele desgraçado de alguma maneira.
- E com isso você chega à conclusão de quê...
- Eu chego à conclusão de que sou uma vítima em potencial.
- Uuhh... Estamos em apuros, senhor Malfoy?
- Sim... E não. Por enquanto ele não vai me atacar. Quer fazer terrorismo, quer me deixar em pânico. Mas não vai conseguir... Ah, mas não vai mesmo! Vai precisar comer muito arroz com feijão para me deixar com medo dele.
- E o que pretende fazer enquanto isso, após terminar de re-decorar sua sala?
- Ainda não sei, McNeelan... Mas vou pensar em alguma coisa.
- Que bom, você deixou a todos nós mais aliviados...
- Dispenso sua ironia. Agora dê licença da minha sala, este não é o único caso no qual trabalho.
- Claro... Estarei esperando seu chamado com ansiedade, senhor Malfoy.
Ele saiu, deixando Draco para trás, com muita coisa no que pensar e, dando ao loiro, alguns minutos de sossego.
