Kagome nunca pôde se lembrar com clareza de como chegou ao escritório no dia seguinte. Sentia-se tão leve e es tranha, que se surpreendia quando olhava para baixo e via os pés pou sados no chão.
Inuyasha pedira-lhe a mão. Queria se casar com ela, Kagome Higurashi, a mesma que ele acusara de caçadora poucos dias antes. Que ironia!
Desde o começo ele fizera questão de frisar: não queria saber de moças ricas. Por que mudara de idéia tão de repente? Kagome sabia que fora honesta e não escondera nada. Contara-lhe que herdaria uma pe quena fortuna dali a dias. E mesmo assim...
Havia Shippou, é verdade. Inuyasha precisava montar um lar a fim de obter a custódia do garoto e, de quebra, se tornar presidente do conselho, mas para isso não precisava de nenhuma herdeira. Bastava-lhe esticar a mão e apanhar uma das admiradoras, que, aliás, deviam ser inúmeras. Mistério!
Mas havia muito trabalho esperando sobre sua mesa. Resoluta, Kagome afastou os problemas pessoais e concentrou-se com afinco na pilha de formulários que deveria entregar no fim do dia.
Na hora do almoço, a exuberante Sango foi buscar o marido para almoçar e parou em frente à escrivaninha da amiga.
— Ei, bom dia! Você está tão absorvida no trabalho que nem me ouviu entrar. Que tal foi ontem?
— Maravilhoso!
— Mesmo?
Kagome olhou em volta e baixou a voz, debruçando-se sobre a mesa:
— Ele me convidou para sair de novo.
— Inuyasha?
— O próprio — riu Kagome. — Por que tanto espanto? Se quer saber, ele se portou como um perfeito cavalheiro. E chegou até a propor um compromisso mais sério comigo.
— Inuyasha — repetiu Sango, incrédula.
— Sim senhora. Você sabia que ele tem um sobrinho e quer entrar com uma ação para obter a custódia do menino?
— É verdade. O pobre garotinho tem passado um cortado com o padrasto, pelo que ouço contar. Não sou grande fã de Inuyasha, mas sou forçada a admitir que ele é ótimo tio e gosta bastante do sobrinho — Sango franziu a testa, pensativa. — É por isso que ele está levando a sério esse namoro?
— Provavelmente... — Kagome sorriu. — Não sou tão ingênua a ponto de acreditar que ele se apaixonou de repente por mim, minha amiga. Mas talvez um dia ele venha a me amar, quem sabe?
— É, quem sabe? — volveu a outra, sonhadora, lembrando-se da própria história. — E sua herança?
— Ele diz que não se importa.
Sango preferiu não prolongar o assunto e pediu licença. Somente quando se viu sozinha com o marido no restaurante é que desabafou.
— Miroku, estou aflita por causa de Kagome— começou. — Ontem Inuyasha convidou-a para sair e...
Contou tudo o que sabia, relatando inclusive os comentários que ouvira da amiga. E rematou:
— Inuyasha disse a ela que não liga para a herança, mas você sabe como ele costuma agir com moças ricas. Em minha opinião, Kagome não será exceção.
— Acho que sei o que está se passando na cabeça de J. D., querida. Ele suspeita que Miouga Rollins ande aprontando alguma travessura com o dinheiro de Kagome. E, se você quer saber, eu próprio também tenho minhas dúvidas quanto à honestidade do caro tio Miouga. É bem capaz que a fortuna de Kagome não passe de algumas moedas a estas alturas.
— Coitadinha! O pior é que Inuyasha não a ama, eu sei que não. É mulherengo demais para sentir algo mais profundo do que simples atração sexual.
Miroku mordeu os lábios e dirigiu-lhe um sorriso embaraçado.
— Talvez ele seja um mulherengo em fase de reforma — disse, buscando a mão pequena da mulher sobre a mesa. — Todos os homens passam por isso, querida. Minha felicidade é ter encontrado um porto seguro em você, Sango.
— Você é que foi um porto para mim, querido. Você e os pequenos são a alegria de minha vida.
Dizendo isso, ela se debruçou e beijou-o com ternura, alheia aos olhares espantados dos outros fregueses.
— E, nós somos felizes — concordou Miroku. — E o melhor ainda está para vir. Somos um casal de sorte, meu bem.
— Muita. Só espero que Kagome encontre essa mesma paz um dia.
Mas naquela noite Kagome não saiu com Inuyasha, nem nas que se seguiram. Ele telefonou para avisar que faria uma viagem curta, sem dar maiores explicações. Sua voz traía tensão e uma certa impaciência, como se estivesse com pressa de desligar.
Dois dias depois, Kagome teve outro aborrecimento no escritório de Jaken Holman. Tio Miouga, nervoso e deprimido, achava-se lá quando ela che gou, e a expressão preocupada do advogado era eloqüente o bastante para deixá-la alerta.
— Sente-se, Kagome— disse-lhe Holman.
— O senhor tem más notícias para mim.
Não era uma pergunta, mas simples constatação de um fato inexo rável. Os olhos verdes pulavam do tio para o advogado, ansiosos.
— Infelizmente sim, minha querida — confirmou Jaken, a expressão grave.
Meia hora depois Kagome se deparava com a aterradora realidade: não possuía mais nenhum tostão.
— Sinto muito — murmurou Miouga Rollins, quando o advogado terminou. —Fiz o que pude para ajudá-la. Tentei empurrá-la para Bankotsu porque achei que ele poderia salvar a situação, uma vez que é rico. Se vocês se casassem, seu baque não seria tão grande como agora.
— Mas por que não me contou?
— Não tive coragem. Seu pai gostava de especular, e tinha excelente tino para ganhar na Bolsa. Dessa vez, porém, ele moveu a peça errada e investiu toda a fortuna em ações de uma companhia que foi à falência. Quando soube disso, corri para tentar vender as ações a qualquer preço, mas já não encontrei comprador. Não sobrou nada, meu anjo. — Havia angústia e apreensão na voz de Miouga. — Mas você poderá sempre vir morar comigo...
— Eu tenho um ótimo emprego, obrigada — atalhou Kagome, lembrando-se instantaneamente que o emprego era temporário.
— E tem seu Mercedes também — interveio Holman. — Esse é inteirinho seu, Kagome, e vale bastante dinheiro. Posso cuidar da venda, se você quiser. Com isso, você terá um razoável capital inicial para abrir um pequeno negócio. E ainda dará para comprar um carro de menor valor.
— É, faça isso — Kagome pronunciava as palavras com dificuldade, como se estivesse no meio de um pesadelo — Amanhã vou trazer os documentos do Mercedes.
— Muito bom. Agora só falta cumprir uma pequena formalidade e assinar alguns papéis.
Kagome assinou tudo, sem se dar conta do que fazia. Tinha as pernas bambas e seus dedos pareciam de chumbo. Não fazia uma semana ainda, estava nos braços de Inuyasha sonhando com um futuro cor-de-rosa, a cabeça fervilhando de planos. Imaginara comprar as terras ao lado da fazenda, a fim de ampliá-la, e pensara até num pequeno lago artificial onde ambos poderiam criar patos, cisnes, marrecos... Tudo se esvaíra em fumaça. Mesmo Inuyasha parecia ter desertado de sua vida.
Quanto mais cismava, mais negro se lhe afigurava o futuro. Dúvidas se acumulavam em sua mente, torturando-a. Que faria quando terminasse o contrato de trabalho? Qual teria sido o objetivo real de Inuyasha quando lhe propusera um possível casamento?
A resposta era uma só: a custódia do sobrinho. Que ele não a amava, não havia sombra de dúvida. Rejeitara-a vezes sem conta, chegara mesmo a tratá-la com grosseria, porque não queria se envolver com mulheres ricas. E de repente, ao perceber que poderia ficar com o menino, tor nara-se subitamente interessado. Mas o entusiasmo inicial esfriara, e agora ele se pusera arredio e distante, como que arrependido.
Pálida e tristonha, Kagome trabalhou com coragem pelo resto do dia, esforçando-se para sorrir e fingir alegria.
Miroku, que tinha espírito generoso e atento por natureza, não tardou a perceber o lamentável estado da nova secretária e resolveu agir por conta própria. Trancou-se no gabinete e ligou para Jaken Holman.
— Escute, Holman, sei que por motivos éticos você não pode me revelar muita coisa, mas meu objetivo é apenas ajudar. Kagome não vai receber herança nenhuma, não é assim?
Do outro lado do fio não houve resposta, mas o silêncio foi eloqüente.
— Foi o que adivinhei — volveu Miroku, devagar. — Pobre moça!
— Bem, se você quer mesmo ajudá-la, lembre-se que o emprego de Kagome é temporário. Esse fato deve estar corroendo a coitada por dentro como ácido.
— Já pensei nisso, meu velho, e decidi que estamos precisando de mais uma secretária efetiva. Não há problema por esse lado. Maldito seja Miouga Rollins!
— Não foi culpa dele, e sim de um investimento mal colocado. Investiguei a história minuciosamente, e de fato o erro foi do pai da moça. Azares do destino, eu diria. De qualquer modo, é uma tragédia para Kagome, pois ela ficou sem nada, exceto o Mercedes. Mas preste atenção, Miroku: você nunca ouviu nenhuma palavra minha a esse respeito.
— Claro que não! Vou dizer apenas que o escritório passou a fun cionar muito melhor com a ajuda dela, o que, de resto, é verdade.
— Ela vai gostar de ouvir isso.
— É bem merecido. Para quem nunca trabalhou na vida, o desem penho dela é surpreendente. Bem, até outro dia. E obrigado.
Miroku desligou e ficou pensativo por alguns momentos, o cenho franzido, os dedos tamborilando sobre a escrivaninha. Por fim, discou outro número.
— Alô.
— Pensei que você estivesse viajando — começou Miroku.
— Cheguei há quinze minutos. Que houve? Algum problema com o gado?
— Com Kagome Higurashi.
Houve um silêncio mortal. Miroku já estava a ponto de se arrepender de ter chamado o renitente solteirão quando este perguntou num tom que não escondia inquietação:
— Que aconteceu com ela? Algum acidente?
Miroku sorriu e recostou-se na cadeira, mais aliviado. Havia preo cupação genuína na voz de Inuyasha, o que já era um bom começo. Entretanto, ainda era possível que ele estivesse preocupado em perder o casamento cora uma rica herdeira. Se assim fosse, Miroku iria prestar um imenso favor a Kagome naquele instante.
— Ouça, vou lhe revelar um segredo. Algo que eu não devia saber, nem você. Portanto, cuidado para não deixar escapar uma palavra sobre esta conversa.
— Estou ouvindo.
— Kagome não recebeu nem um tostão. Parece que o pai, antes de morrer, tinha investido a fortuna em ações frias. Tudo o que ela herdou foi o Mercedes.
Inuyasha fez novo silêncio comprido, enquanto Miroku apertava o receptor entre os dedos, sentindo uma pena imensa de Kagome. Mas se Inuyasha só queria o dinheiro dela, então era melhor apressar a crise e...
Uma sonora gargalhada cortou-lhe os pensamentos sombrios.
— Então ela está falida. Exatamente como eu desconfiava... Não me interprete mal, Miroku. Sinto pena de Kagome, mas por outro lado estou realmente contente. Quero ver agora quem é que vai mexericar por aí que o filho de Inuno Taisho está correndo atrás de outro baú cheio de ouro...
— Então seu interesse é sério mesmo?
— É tão difícil de acreditar assim? Ora esta, Kagome possui um coração de ouro — Inuyasha fez uma pausa e em seguida estragou a imagem de si próprio de maneira cruel e deliberada. — Ela é a madrasta ideal para Shippou.
— Só por isso que você se casaria com ela?
— Seja qual for a razão, você não tem nada com isso, Ballenger — a réplica veio pronta e seca. — Se Kagome quiser se casar comigo, a decisão é dela e somente dela.
— E se a moça estiver apaixonada?
— Kagome não tem idade para se apaixonar por ninguém — Inuyasha assumiu um tom descuidado. — Está entusiasmada comigo, concedo, mas não passa disso. Ela precisa de segurança, de companhia e de um teto. Tudo isso eu estou apto a dar para ela, em troca de Shippou. Não acha que chega?
Miroku deixou escapar um palavrão que faria Sango corar.
— Você é mais baixo do que eu pensava, Inuyasha.
— E eu repito que você não tem nada com isso. Meta-se com seus negócios que é melhor. Amanhã cedo passo por aí para verificar os relatórios de Mesa Blanca.
Dizendo isso, bateu o telefone com raiva.
Inuyasha sorveu um gole de café sem lhe sentir o gosto. Gostava de Kagome, e ela o atraía sexualmente como nenhuma outra mulher ainda o fizera. O simples fato de ser virgem excitava-lhe a masculinidade.
Mas o importante, no momento, era recuperar o filho de sua irmã, arrancá-lo do inferno em que o menino vivia desde que a mãe morrera. Precisara utilizar todo o seu poder de persuasão para convencer o venenoso cunhado a deixar Shippou passar com ele as férias da primavera. Uma vez conseguido isso, Inuyasha acreditava que o primeiro grande passo fora dado. Já conversara com o advogado a respeito, e este lhe dera boas esperanças de ganhar a custódia em pouco tempo.
— Tem certeza que eu não vou atrapalhar, tio Inu? — perguntou uma vozinha tímida.
Inuyasha virou-se para o sobrinho e fitou-o com afeição. Como era parecido com ele mesmo, quando tinha essa idade!
— Tenho, campeão. Nós vamos nos dar muito bem juntos.
— Podemos passear a cavalo amanhã?
— Talvez, mas primeiro vamos ao escritório da cidade. Quero apre sentá-lo a alguém.
— Kagome?
Ante a expressão surpreendida do tio, Shippou sorriu.
— Adivinhei, porque você só falou nela durante a viagem.
Aborrecido, Inuyasha acendeu um cigarro sem olhar para o garoto. Não sabia que era tão transparente sua ansiedade. Sentira falta de Kagome, mas não gostava de admiti-lo nem para si mesmo, quanto mais para um pirralho que nada entendia da vida. Mentalmente, Inuyasha decidiu que precisaria tomar mais cuidado no futuro. Sempre fora dono absoluto do próprio nariz, e não pretendia mudar, mesmo que se casasse com Kagome.
— Você vai telefonar para ela, tio Inu?
— Não.
Bem que ele queria, mas preferiu não ceder ao que qualificou de impulso infantil. Agir como um adolescente apaixonado não o ajudaria a manter o controle da situação.
— Aqui é legal — disse Shippou, correndo os olhos em torno. — Mil vezes melhor que a escola militar! Lá a gente não pode fazer nada sem licença. Um horror!
— Ei, garotão, calma aí. Eu também tenho algumas regras aqui na fazenda.
— Tudo bem, não me importo. Pelo menos você gosta de mim. Meu padrasto me odeia, especialmente agora que "ela" ficou esperando um bebê. O homem não gostava nem mesmo de mamãe, você sabia?
A expressão de Inuyasha se endureceu. Conhecia bem a estroinice do cunhado, tendo ouvido histórias que o deixaram de estômago virado. Rin se apaixonara e se casara com ele apesar de suas constantes ad vertências. O casamento não modificara os hábitos do cunhado, que saía para noitadas alegres e largava a mulher sozinha em casa, às vezes durante dias a fio. Um simples caso de pneumonia fora o bastante para levar a desiludida e infeliz Rin, que não encontrara outra maneira de escapar de uma vida atormentada.
— Não sei o que mamãe viu nele — continuou o menino, os grandes olhos espelhando espanto doloroso. — O homem vive bebendo e nunca pára em casa. Aposto que ele já está enganando a... a outra.
"Não seria de admirar" pensou Inuyasha, sombriamente. Afinal, quan do Rin morrera, o cunhado já passeava por todo o canto com aquela que agora era sua mulher.
— Vamos esquecer seu padrasto por enquanto, Shippou. Que tal uma partida de xadrez?
— Genial!
Kagome sempre se perguntara, ao longo da vida, como enfrentaria a pobreza. Era, portanto, chegada a hora de verificar de perto se teria condições psicológicas e físicas para tanto. Se conseguisse conquistar um lugar ao sol através do próprio esforço, seria uma bonita vitória. Em boa hora Inuyasha a empurrara para o primeiro passo em busca da independência! Se ainda estivesse vivendo com o tio, sua luta teria sido dez vezes pior.
Compreendia melhor a atitude do tio. Num impulso instintivo de superproteção paternal, ele tentara forçar seu relacionamento com Bankotsu , a fim de suavizar o golpe que a sobrinha sofreria quando soubesse que a herança não passava de um sonho. Organizara festas e recepções ca ríssimas, pagando do próprio bolso, com o único intuito de deslumbrar o possível pretendente à mão de Kagome. Pobre tio Miouga! Contudo, preferia que ele não tivesse escondido o segredo por tanto tempo.
Deus, por onde começar?
— Nada de choro — ralhou-se baixinho, enquanto limpava uma lágrima solitária. — Não se entregue, Kagome Higurashi.
Bem, sempre havia o recurso de pedir a ajuda de tia Kana, caso a situação se tornasse muito negra. Ambas continuavam grandes amigas, e Kagome nutria um carinho especial pela velha solteirona que dela cuidara na infância durante os períodos prolongados de ausência dos pais. Nunca deixava passar em branco o aniversário da tia, e sempre lhe enviava uma carta afetuosa. Na verdade, Kagome talvez fosse a única pessoa que gostava da tia peio que ela era, e não por causa do dinheiro.
Outro problema era encarar de frente um provável rompimento com Inuyasha. Ele dissera e repetira inúmeras vezes que não apreciava mu lheres ricas, mas entre a teoria e a prática o caminho era longo.
Com um suspiro melancólico, Kagome forçou-se a sair de seu estado letárgico e foi procurar os documentos do Mercedes. O tempo lhe diria quais eram as intenções verdadeiras de Inuyasha; de nada adiantava encher a cabeça com mais preocupações. Por ora, devia planejar com todo o cuidado o que faria com o dinheiro apurado na venda do carro.
Na manhã seguinte, Kagome trabalhava no escritório quando foi sur preendida pela visita de Inuyasha. Seu coração disparou quando ele entrou, trazendo pela mão um garoto de cabelos tão pretos quanto os dele.
— Este é Shippou — anunciou Inuyasha, ao invés de um bom-dia. — Shippou, esta é Kagome Higurashi.
— Muito prazer — disse o menino, fitando-a com curiosidade. Não havia timidez nos grandes olhos escuros, mas um ligeiro toque de tristeza. — Você é bonita.
Ela sorriu, embaraçada com a ingênua franqueza.
— Obrigada, Shippou.
— Meu tio gosta muito de você, sabia?
— Shippou — cortou Inuyasha — por que não desce ao pátio para ver os animais? Já está na hora de dar ração a eles.
— Oba, posso mesmo?
— Claro. Mas não chegue muito perto dos currais, porque os touros não gostam de visitas na hora do almoço.
O menino virou-se e saiu correndo, feliz da vida. A um vaqueiro que passava, Inuyasha pediu:
— Ei, Ted, pode ficar de olho no garoto?
— Com prazer, Sr. Taisho. — Inuyasha voltou-se para Kagome.
— Meu sobrinho é impulsivo e tem o gênio meio esquentado. Preciso vigiá-lo o tempo todo, senão ele acaba se machucando.
Embora sua expressão não indicasse nenhuma emoção, os olhos de diamante traíam um brilho de contida excitação. A verdade é que a simples presença de Kagome despertava-lhe os cinco sentidos, fato que Inuyasha aceitou com filosofia. Contudo, não aceitou com o mesmo con formismo outra realidade: acabara de descobrir, entre espantado e irritado, que sentira saudade dela. Muita saudade.
No entanto, Kagome não lhe parecia nada receptiva naquela manhã. Por baixo do seu sorriso, Inuyasha adivinhou tensão e receio.
— Fez boa viagem? — perguntou ela, para quebrar o silêncio.
— Otima. Shippou e eu chegamos ontem à tarde.
O sorriso de Kagome continuou no mesmo lugar, embora seu coração tivesse perdido o ritmo regular de repente. "Ontem à tarde", repetiu para si mesma. Ele chegara na tarde anterior e não lhe telefonara, nem sequer para dizer "olá, cheguei". Bem, pelo menos já sabia a quantas andava com relação a Inuyasha Taisho.
— Seu sobrinho é uma criança bonita.
— Puxou pela mãe. Que tal almoçar conosco? Shippou é louco por ham búrgueres.
Kagome virou o rosto para não se trair. Claro que adoraria ir com eles! Mas era melhor acabar com tudo de uma vez, antes que Inuyasha a ferisse mortalmente. Por enquanto, sofrera apenas escoriações das quais ainda poderia se curar.
— Hoje não posso, obrigada.
— Não? — Inuyasha pareceu surpreendido. — Por quê?
— Tenho de levar os documentos do Mercedes para meu advogado — Kagome ergueu um par de olhos fulgurantes e desafiadores para encará-lo. — Não tenho dinheiro nenhum, Inuyasha. Meus pais... Enfim, a herança não existia mais quando eles morreram. — Numa tentativa desesperada de manter intacto o orgulho, Kagome ergueu um pouco mais o queixo. — Tudo o que me resta é o Mercedes, e eu pretendo vendê-lo o quanto antes.
Inuyasha não gostou do tom agressivo. Dava-lhe a impressão de que Kagome julgava que seu interesse se prendia ao dinheiro.
— Sua herança não tem a menor importância.
— Não? — rebateu ela, com ironia. — Será mesmo? — Os olhos de Inuyasha escureceram.
— Então você acreditou em Kouga. Pensa que sou tão ganancioso como meu pai — disse, cerrando os punhos para controlar a raiva cres cente. Doía-lhe fundo descobrir que Kagome, a meiga Kagome, julgava-o da mesma forma que os outros mexeriqueiros de Jacobsville. — Está bem, debutante. Se for isso o que pensa de mim, então pegue seu reluzente Mercedes e vá para o inferno com ele.
Dizendo isso, girou nos calcanhares e saiu em busca de Shippou. Kagome quedou paralisada, fitando com olhos esgazeados a porta. Melhor assim, repetiu-se dezenas de vezes. Tudo o que fizera fora se proteger de sofrer mais ainda. Inuyasha não a amava. Mas como doía admitir essa triste verdade!
— Que houve, tio Inu? — indagou Shippou, intrigado.
— Nada.
Mastigando com fúria o charuto, Inuyasha caminhava a largas pas sadas para o carro, quase arrastando o menino, cujas perninhas tinham de correr para acompanhá-lo.
— Você não convidou Kagome para almoçar conosco?
— Ela está ocupada. Entre, vamos.
Shippou fungou.
— Adultos!
Bastou bater os olhos em cima de Kagome para Miroku compreender.
— Pelo que vejo, Inuyasha andou por aqui.
— Com o sobrinho, Shippou — respondeu ela, com um sorriso triste.
— Um menino encantador.
— Que aconteceu?
— Contei a ele que não havia mais herança nenhuma. Fui bastante agressiva, dei a entender que ele estava livre. É claro que Inuyasha não gostou — Kagome suspirou fundo. — Foi embora.
Miroku deixou escapar um assobio baixo.
— Não sei se agiu direito, mocinha Inuyasha tem uma espécie de trauma com tudo o que se relaciona a dinheiro. O pai dele...
— Conheço a história toda — atalhou Kagomecom delicadeza. — Foi melhor assim. Inuyasha não gostava de mim. Se houve algum interesse, foi porque ele enxergou a possibilidade de obter a custódia do sobrinho. Não sou boba, Miroku. Sei que ele não me ama.
Miroku gostaria de negar, de consolá-la, de apagar o sofrimento calmo e conformado que lia no rosto pálido. Mas Kagome estava certa: Taisho, na realidade, não agia com ela como um homem apaixonado.
— É cedo ainda — disse por fim, na esperança de levantar-lhe o ânimo. — Dê-lhe um tempo. Inuyasha é um solteirão solitário, meio assim como Kohaku. Por isso é que eles se dão tão bem, creio. Particularmente, não sou grande admirador de Inuyasha. E não é por sua causa, acredite!
— Não sei se fiz bem. Afinal, Inuyasha é um grande cliente seu. Se acha que isso pode atrapalhar seus negócios, telefono e peço des culpas...?
— Nada disso — retorquiu Miroku. — Deixe as coisas como estão, por enquanto. E bom que ele sinta o gosto da derrota, para variar.
— Quer dizer que geralmente ele sai vitorioso... Sim, faz sentido. Inuyasha deve ter partido alguns corações por aqui.
— Então cuide do seu, querida. Escute, lembra-se quando eu falei que este emprego seria temporário, apenas até a volta de Kagura? — Miroku sentiu um aperto no coração quando a viu assentir em silêncio. — Pois bem, andei verificando seu trabalho e devo confessar que estou surpreso com o resultado. Kagura vai indo bem com Kohaku, mas eu gostaria de ter uma secretária só para mim. Que me diz de ser efetivada?
O rosto de Kagome se iluminou.
— Céus, é sério mesmo?
— Seríssimo. Além disso — e Miroku deu uma risadinha — Sango seria capaz de se divorciar de mim se eu a deixasse ir embora. Ela gosta muito de você, Kagome.
— E eu dela. É claro que aceito! Mas... e Kagura? Não se importa de trabalhar só para Kohaku?
— Já perguntei, e ela só faltou beijar meus sapatos! Ora, para Kagura vai ser um presente celestial trabalhar menos.
— Então só me resta agradecer, Miroku — O sorriso feliz de Kagome era por si só tão eloqüente, que ele se sentiu gratificado. — Não imagina como gosto deste escritório! Além disso, você está me salvando de um aperto danado. Eu... não menti para Inuyasha, Miroku. Minha herança já não existe mais.
Miroku não pôde dizer que já sabia. Limitou-se a sorrir e a esten der-lhe a mão:
— Nesse caso, o proveito será mútuo. Seja bem-vinda, minha nova secretária!
— Obrigada, Miroku. Mesmo!
— O prazer é todo meu.
Kagome voltou a atenção para o computador com renovado entusiasmo. Pelo menos possuía um emprego definitivo, o que já era um grande passo. Quanto a Inuyasha... Bem, o jeito era tentar superar aquela dorzinha funda que lhe varava o peito a cada vez que pensava nele. Precisava se convencer de que tudo fora pelo melhor.
A raiva esfriara, mas a mágoa ficara. Então, para Kagome, ele não passava de um mercenário, de um caçador de dotes. De um crápula, em resumo.
Libertando os restos de fúria que se acumulara, Inuyasha jogou fora o segundo charuto e acendeu o terceiro, enquanto Shippou o observava em silêncio. As engrenagens do carro gemiam sob as violentas mudanças de marcha.
Inuyasha, porém, possuía o dom precioso da autocrítica inteligente. À medida que a indignação se acalmava, sua cabeça trabalhava, analisando com rigor a atitude de Kagome. E, para ser sincero consigo mesmo, não havia como negar que ela tinha certa dose de razão. Afinal, tudo o que ele fizera fora dar-lhe beijos ardentes e dizer-lhe que precisava de alguém para cuidar de Shippou.
Precisava encarar os fatos: ele não lhe dera nenhuma chance. E, para coroar sua falta de jeito, informara-a com a maior calma do mundo que chegara no dia anterior, sem se dar ao trabalho de ter-lhe telefonado. Deus, cometera um erro em cima do outro.
Acima de tudo, não dera a menor consideração aos sentimentos de Kagome, que decerto sofria com a perda da herança. Não só a herança, mas todo um estilo de vida! Kagome teria de se adaptar à pobreza e ao enorme peso de novas responsabilidades. Ela, tão nova, tão ingênua, tão sozinha no mundo. Necessitada de apoio e conforto, recebera dele apenas uma frase brutal.
— Nossa, que cara a sua! — Shippou não se conteve, assustado com a aparência lamentável do tio. — Tem certeza que está bem?
— Não por enquanto — respondeu Inuyasha, dando uma guinada brusca na direção. O carro chiou na estrada, corcoveou e fez um giro sobre si mesmo, retomando o caminho da cidade. — Mas daqui a pouco acho que vou estar, campeão.
Consultou o relógio, impaciente. A essas horas, Kagome já estaria voltando para casa.
Não sabia ainda o que lhe diria, mas pensaria nisso pelo caminho.
Oláaaaaaaa Pessoal, mais um capítulo dessa história LOUCA, esse Inuyasha é um bronco mesmo né? Quem ai está acompanhando, mandem reviews, é sempre bom saber a opinião de vocês! Beijinhos Mah Taisho.
Tinker: Oiiiiiiiiiiiie, esse Inuyasha é uma montanha russa mesmo de emoções, nunca se sabe como ele vai estar! e a Kagg é bem espertinha, você tem que ver os proximos caps hahahahahaha esses dois vão ser combustão pura, espero que esteja gostandooo 3 MUUUITO obrigada pelas reviews, me fazem mt feliz.
neherenia sereniti: Oiiiiiiie, está gostando da história? A kag é muuuuito nova, porém não é nada boba, e ela vai acabar mostrando isso para o Inu! E ele tem um plano, mas quando envolve sentimentos, nada sai como o planejado não é mesmo? KKKKKK fique ligada nos próximos cap, e MUUUITO obrigada por estar acompanhando e comentando, é mt importante msm p mim.
