Ó boca em trompa retorcida
Cuspindo injúrias para o céu
Aberta e pútrida ferida
Em tudo pondo igual labéu,
Bendita seja a negra boca
Que tão malditas coisas diz!
Cruz e Souza
Nunca pensou que pudesse rir tanto com uma matéria de jornal. Ainda mais uma matéria que deveria ser considerada como séria, de alerta. Mesmo assim, ria-se como uma criança.
Harry tinha saído, então ria sozinho. Mas, de tanto rir, acabou por acordar a criança.
Levantou-se, sorrindo, e foi até o berço improvisado, onde a menina chorava a plenos pulmões.
Pegou-a nos braços e embalou-a, com uma brandura e um carinho que não lhe eram condicionados antes.
- Vamos, minha menina, não chore... – ele murmurou, sua voz cheia de candura.
- MAMÃE!!! – a menina berrou, as lágrimas correndo por seu rostinho rosado.
- Vamos... Relaxe... Mamãe não pode mais cuidar de você... Estou aqui para cuidar de você...
- MAMÃE!!! – ela ignorou totalmente as palavras de Tom, mesmo porque, não as compreendera por completo. – QUELO A MAMÃE!!!
- Vamos lá... – tornou a dizer, enquanto cantava, bem baixinho, uma antiga canção de ninar. Ele não soube como, mas se lembrara da música que a única pessoa que o amou no mundo cantou para ele, quando tinha a mesma idade da menina em seus braços.
Uma velha senhora, que uma vez o adotara, pelo breve espaço de tempo de dois dias. Após travar uma terrível batalha judicial, conseguira adotá-lo. Dois dias depois, morreu de infarto.
Mas, durante aqueles dois dias, o amara como ninguém mais no mundo soube fazer.
Agora ele pensava retribuir aquele amor à criança.
Tudo bem, ele detestava sentimentalismo, mas não havia ninguém ali para censurá-lo.
Não, não estava se apegando à criança. Pretendia devolvê-la em breve. Mas, ao destino que ela tinha, resolveu que, ao menos uma vez, aquela menina se lembraria que recebera carinho. Assim como ele.
- Eu já disse, você está se tornando um sentimental incorrigível, Tom. – a voz de um recém-chegado Harry soou nos ouvidos de Tom.
- E você um assassino sem escrúpulos. – Tom lhe sorriu, depositando a criança, já adormecida no berço. – Como foi a "caçada"?
- Ótima, como você, com certeza verá no "Profeta" de amanhã... Matei a Chang.
- Oh... Aquela garota chinesa que... Você gostava e que fez hora com a sua cara?
- A própria. Mudando de assunto, o que diabos você pretende fazer com a menina, Tom?
- Ainda não te contei? Estou distraído... Sem mais delongas, Harry, você conhece uma maldição chamada "Sussurro do Diabo"?
- Não. Nem sequer ouvi falar dela.
- Nem poderia... Eu a criei. Quando ainda era Voldemort. E eu te garanto, nem mesmo as três imperdoáveis juntas são tão terríveis.
- Já atraiu minha atenção, Tom... Do que se trata?
- Você saberá no devido tempo. – finalizou, dando um de seus sorrisos dementes. Harry sabia que de nada adiantava perguntar, agora, qualquer coisa. Ele não diria.
Louco. Era assim que tinha sido chamado por quase todos dos poucos que restavam na Ordem. Não que se importasse.
Nunca tinha sido considerado normal, nem mesmo por seus alunos, pra que esperar tal consideração de quem o conhecia? Era mesmo um velho louco e beirando a caduco.
Cria que sua maior loucura era confiar. Confiar nas coisas corretas, como utopicamente deveriam ser. Que mesmo o pior dos seres humanos pudesse ter alguma honra. Afinal, era nisso que a maioria dos humanos se firmava. Numa honra, individual ou coletiva.
Mas agora que estava ali, naquela antiga igreja, passava por sua cabeça... Teria Tom Servoleo Riddle algum tipo de honra, escrúpulo ou mesmo sentimento além do ódio e do orgulho pessoal?
Teria ele sido prudente aceitando o convite?
O padre que saiu de dentro da sacristia sorriu-lhe levemente. Sorriu de volta.
- Não se preocupe, Alvo. – o padre falou, brandamente. – Tom não deve se demorar.
- Sei que não, Caleb. Não me preocupo. Estou apenas curioso. O que ele deseja de mim agora, sendo que, antes, me temia e odiava?
- Ora, sou apenas um velho e centenário demônio, Alvo. Não sei o que se passa dentro da cabeça daquele jovem.
- Um jovem... Um jovem de vinte e sete anos. A última vez que o vi era quase um velho.
- As coisas mudam, não é mesmo?
- As coisas estão em mutação contínua.
- Menos você, não é mesmo, velho? – a voz debochada e jovial era inconfundível. Dando um leve sorriso, Dumbledore se levantou e virou-se. Lá estava o mesmo Tom que conhecera há anos atrás. Carregando uma menina de dois anos. – Às vezes me pergunto se, na realidade, você não é o verdadeiro portador da Pedra Filosofal. Quando te conheci, você já era velho!
- Vou deixá-los a sós. – disse Caleb, enquanto se retirava.
- Pra que isso, Tom? – Alvo perguntou, olhando com certo temor pela menina.
- Não se preocupe com a pequena Clair... – ele disse, passando a mão pelos cabelos dela. – Não a machuquei. Vim apenas para conversarmos, como dois velhos conhecidos.
Dumbledore não se sentiu intimidado pelo olhar frio de Tom. Apenas sentou-se e esperou que ele se aproximasse.
Não demorou para que ele se sentasse ao lado do diretor, sorrindo.
- Lembra-se do meu último ano em Hogwarts? – o rapaz disse, sorrindo sonhador.
- Como me esquecer? Foi quando você, após se formar, me revelou ter aberto a Câmara Secreta.
- Pobre Rúbeo, deve ter se sentido o maior dos idiotas quando você lhe contou o que tinha acontecido.
Alvo não respondeu.
- Foi quando eu resolvi começar minha vingança também. Fui quase bem sucedido, não fosse o moleque do Potter...
Tom não viu o olhar do homem ao seu lado tornar-se sombrio e triste. A menina, Clair, corria entre os bancos, mostrando-se alheia a tudo à sua volta.
- Imagine só a minha satisfação em conseguir tê-lo como um aliado, depois que ele me trouxe de volta dos mortos. Ele teve o trabalho de me matar, só, e somente só para me trazer de volta!
- Contra quem é sua vingança, Tom? Contra mim ou contra ele?
- Ora, velho! Minha vingança contra o garoto já está concluída! A honra agora é toda sua...
- Eu bem imaginava... Pretende me matar aqui?
- Não... Há lugares mais apropriados para matar. E este não é um deles. Vim apenas entregar-lhe um pequeno presente.
- Presente?
- Na verdade, vim devolver uma coisa que não me pertence. Considere este meu último ato honrado. Clair.
A menina, atendendo ao chamado, correu até Tom, pulando em seu colo.
- Vim para devolvê-la. Não pense que estou ficando sentimental. Ela apenas não me tem valor algum.
Tom colocou uma chorosa e protestante Clair no colo de Dumbledore, que o olhou, surpreso.
- Quem sabe nos vemos por aí, pequena? – Tom disse, se levantando. Olhou para Dumbledore de relance, desviou o olhar para a sacristia e aparatou, deixando um aturdido Alvo Dumbledore para trás.
Mal sabia o diretor do mal que estava plantado dentro da menina, que agora choramingava a falta de Tom.
"Filha desaparecida de Parkinson reaparece de forma misteriosa"
Como sempre, o Profeta fazia alarde. Se você quisesse que algo ficasse em absoluto sigilo, não contasse para ninguém. Alguém acabava vendendo a história para o Profeta Diário.
A matéria não colocava os detalhes do reaparecimento, mesmo porque Dumbledore não explicara a ninguém como foi que encontrara a menina. Apenas disse que não tinha sido Harry quem devolvera a menina.
Mas, se não fora Harry, quem tinha sido? Até onde tinha conhecimento, Harry não tinha cúmplices. Quem, no mundo, estaria ajudando o "cicatriz"? Weasley? Teria o pobretão ruivo também forjado sua morte?
Rapidamente afastou essa idéia absurda de sua cabeça. O Weasley filho, o homem mais novo dos... Quantos? Seis. Seis? Não, sete. Havia a menina. Como aquela mulher pequenina tinha conseguido tal façanha?
Reatando a linha de pensamento, Ronald não tinha intelecto para aquilo. E mesmo que tivesse, era honrado demais para submeter-se às trevas.
Mas então, quem? Quem poderia...
Foi brutalmente arrancado de seus devaneios e cogitações. O berro histérico de mulher o chamando. Controlou-se e engoliu um palavrão. "Ela me pôs no mundo, agora eu aturo..."
Andando sem pressa, enquanto os gritos se intensificavam, foi até o quarto de sua mãe. E lá a cena era terrível.
Narcissa Malfoy estava deitada em sua cama. Tinha emagrecido demais e seus cabelos estavam desarrumados e visivelmente sujos. Apresentava olheiras cadavéricas e suas mãos pareciam ter envelhecido mais rápido que o resto do corpo, estando muito enrugadas e magras.
Mas os gritos que cortavam Draco por dentro não eram de súplica ou de piedade, como poderia parecer. Eram gritos de fúria, de uma mulher enlouquecida pela morte do marido.
Ela não o chamava, chamava por Lucius, desesperadamente. Draco fingiu que não ligou.
Quando ela viu o garoto, à porta, com seu olhar habitualmente frio, trazendo consigo uma pequena bandeja com uma poção nada convidativa e uma seringa, tornou a berrar, desta vez de raiva.
- MALDITO!!! SUJO!!! DESAPAREÇA DAQUI, DESGRAÇADO!!! VOCÊ É UM MALDITO, UMA DESGRAÇA!!!
- Oi pra você também, mãe...
- E NÃO ME CHEMA DE MÃE, SEU PERDIDO!!! VOCÊ É NOJENTO, UM TRASTE!!! VOCÊ É MENOS QUE NADA!!!
Draco achava melhor, para a própria sanidade mental, fingir-se de surdo aos gritos e injúrias que a mãe berrava, no auge da loucura. Preparou a injeção.
- VÁ EMBORA DAQUI, ME DEIXE EM PAZ!!! SUMA!!! DEIXE QUE EU ME ENCOTRE COM MEU MARIDO!!!
- Imobillus...
A mulher parou de se debater, mas continuava a esbravejar injúrias contra o filho. Ele permaneceu fingindo-se de surdo e aplicou a injeção. Narcissa, aos poucos, foi parecendo se acalmar, até que parou de gritar.
Estava catatônica. Olhar para ela daquele jeito fez Draco se lembrar de Ginevra Weasley. Mas e daí? Arthur queria que a filha voltasse ao normal.
Ele não. Se deixasse a mãe em seu estado normal, sem controlá-la com poções e medicamentos, ela se mataria. E ele não se permitiria perder a última coisa que o importava no mundo. Não importava que fosse no pior dos estados.
"Quando se olha no espelho, quem você vê?"
Eu me vejo.
"E quem é você?"
Tom Servoleo Riddle.
"Então você é Tom?"
Sou.
"Então quem é Este?"
Um homem morto.
"E quem o matou?"
Potter.
"Potter... Ou você mesmo?"
Potter.
"A quem pretende enganar com isso?"
Não estou enganando ninguém.
"Só a você mesmo."
Esta discussão é infundada.
"Não é não. Sempre há fundamento quando se discute."
Menos quando a discussão é consigo mesmo.
"Principalmente quando a discussão é consigo mesmo."
Cansei desta conversa.
"E com quem vai conversar? Com Potter, seu novo amigo?"
Ele não é um amigo, é um aliado.
"No seu caso, dá no mesmo."
Vou me deitar. Deixe-me em paz. Você morreu, agora é minha vez.
"Que seja. Boa noite, Tom Riddle."
Adeus, Voldemort.
