- Avada Kedavra.

O raio verde cruzou a sala e atingiu o peito da mulher que, aterrorizada, não teve tempo de gritar. Caiu no chão.

O homem que tinha proferido o feitiço, em pânico, correu até ela e a pegou nos braços.

Qual não foi sua surpresa.

Hermione ainda respirava! Não se conteve, apertando a mulher num abraço cheio de alívio.

Aos poucos ela abriu os olhos e viu o sorriso de Severus. Sorriu também.

- Ou estou no céu, ou fomos bem sucedidos. – sua voz estava um pouco fraca.

- Por um segundo... Eu... – as lágrimas que teimavam em cobrir os olhos de Severus não o permitiram terminar a sentença.

- Eu também... Mas pelo visto deu certo. Vamos, me ajude a levantar. Ah... – ela tinha começado a se levantar, mas logo se deteve, fazendo uma cara de sofrimento.

- O que foi?! – ele perguntou, aflito.

- Não... Não é nada. Droga... Receber uma Cruciatus é menos doloroso... Mas eu supero isto, não estou morta.

- Pelo menos agora... Não precisará se submeter a este tipo de tortura nunca mais, Hermione.

- Não é bem assim, Sev... A minha intenção é transformar a Avada Kedavra em uma maldição tão inútil quanto uma capa de invisibilidade era para o olho mágico de Alastor Moody. Por isso, vamos continuar tentando, até que nem mesmo uma coceira eu sinta!

- Estamos falando de uma maldição imperdoável e teoricamente indefensável, Hermione! Nós tivemos sorte que você tenha sobrevivido!

- Se ele sobreviveu mais de uma vez, eu vou sobreviver também, Severus! – a voz dela se alterou.

- Por favor, não faça disto uma vingança pessoal!

- O que eu estou querendo é apenas vê-lo pagar pelo que fez àquelas pessoas! Pelo que me fez passar quando recebi a notícia de que tinha "morrido"! Ele me fez de boba, fez toda a Inglaterra bruxa de boba!

- Hermione, me escute! Se ele descobrir o que você está fazendo... Se ele imagina o seu paradeiro, você estará em sérios apuros! Ele é um homem muito perigoso, você viu o que ele fez à Chang!

- Pois eu acho que ele não faria algo contra mim, Severus! Cho Chang o fez passar por uma situação horrível, Parkinson também, Crabbe e Goyle nem se fala! Mas eu fui a melhor e única amiga dele por muito tempo, ele vai levar isso em consideração!

- Mas e se ele não levar, Hermione?

- Então terá sido um prazer estes anos que vivi com você.

- Não diga isso! Nem de brincadeira!

- Desculpe-me, Severus. Mesmo assim, continuo achando que não corro riscos. Não iminentes, como está correndo o Malfoy.

- Malfoy... Por Merlin, não quero imaginar o que aquele psicopata pretende fazer com Malfoy!

- Quando Harry começou o sexto ano em Hogwarts, antes de ir matar Voldemort e ter que fugir para o Brasil, eu me lembro do que ele disse. Foi a única vez que eu senti medo dele.

- O que ele disse, Hermione?

- Ele disse que iriam pagar. Todos aqueles que o fizeram sofrer iriam pagar. Mas não foi o que ele disse que me assustou. Foi o brilho no olhar que ele ostentava ao dizer aquilo. No fundo ele sabia o que estava preste a acontecer.

Hermione fechou os olhos, se lembrando da última briga que tivera com Harry, antes que ele partisse para matar Voldemort.

Ele estava saindo do dormitório da Grifinória, com um semblante estranho e um olhar distante. A garota correu até ele, preocupada.

- Aonde vai, Harry?? Dumbledore proibiu você de sair da Torre, sabe que Voldemort está à espreita!!

- Sim, eu sei, Hermione. – a voz dele saiu fria e em um tom seco. Hermione se assustou. – E é exatamente por causa disso que eu estou saindo.

- Pretende fugir?

- Não.

- Mas então...

- Pretendo por um fim nisto de uma vez por todas! – ele quase gritou. – Dumbledore só quer saber de me proteger, mas de que adianta proteção se aquele desgraçado entra na minha cabeça toda hora?? Não adianta nada!! Nada!! Essa proteção é praticamente nula se não posso me proteger de mim mesmo!!

- Mas... Eu pensei que você soubesse Oclumencia!!! Você me disse que...

- Sinceramente, Hermione, eu pensei que você fosse um pouco mais inteligente! Isso não tem nada a ver com possessão ou com ler minha mente!! Sou EU quem não agüento mais isso! Eu quero poder colocar minha cabeça no travesseiro à noite sem pensar no que Voldemort possa estar tramando!! Sem pensar se a minha, a sua vida ou a do Rony corre algum risco por minha causa!

- As nossas vidas correm risco com ou sem você, Harry! Se você não existisse, a única diferença seria essa! O pai de Rony faz parte da Ordem da Fênix, se você não se lembra!

- SE EU NÃO EXISTISSE, NADA DISSO ESTARIA ACONTECENDO!!! MEUS PAIS ESTARIAM VIVOS, CEDRIC ESTARIA VIVO, SIRIUS ESTARIA VIVO!!!

- Se você não existisse, é bem provável que muitos mais tivessem morrido!! Você o parou, Harry!! Você retirou os poderes dele!! Se, naquela noite, quinze anos atrás, ele não tivesse ido até você, quantos mais teriam morrido?? O próprio Sirius talvez não tivesse sobrevivido!!

- Você tem razão em uma coisa, Hermione! Eu o parei uma vez. Agora quero pará-lo de vez!!

Ele já ia saindo da Torre, quando Hermione tornou a falar.

- Eu... Quero te ajudar.

- Então o faça e saia do meu caminho. Se tentar me ajudar vai acabar se machucando e, conseqüentemente, me atrapalhando.

- Deixa eu te ajudar!

- Não! Não, já chega de pessoas morrendo e se ferindo por mim, já basta o que aconteceu no Departamento de Mistério ano passado!

- O que aconteceu no Departamento não foi culpa sua, foi de...

- NÃO! Pare de tentar me isentar disso! A culpa foi minha, eu fui burro o suficiente para acreditar naquela visão!

- Você tinha tido outros sonhos daqueles que se provaram reais, é perfeitamente normal se enganar daquele jeito! Harry, se existe algum culpado, este é Voldemort, não você!

-Pois bem, Hermione! – ele disse, e ela pareceu se sentir aliviada por alguns segundos. – Voldemort é o culpado!

O silêncio prevaleceu por um minuto, que pareceu uma eternidade.

- Se ele é o culpado, alguém tem que fazê-lo pagar! E infelizmente, esse alguém tem que ser eu!

- Não tem não, Harry! Pare de tentar bancar o herói, você não precisa salvar a todos!

- Preciso sim, Hermione! Porque aquela profecia que Longbottom quebrou no Departamento de Mistérios diz isso! Ou eu ou Voldemort! Os dois não!

- Quer dizer que...

- Voldemort só morrerá por minhas mãos. – ele disse, em um tom um pouco derrotado. – Ou eu só morrerei pelas mãos dele. Um não poderá viver enquanto o outro sobreviver... Era isso que a profecia dizia.

- E você vai se atirar nas garras dele??? Vai deixar que ele te mate e acabe com todas as nossas esperanças de viver em um mundo de paz???

- Não, Hermione. Eu só estou indo fazer o que ninguém espera que eu faça. Atacar, ao invés de contra-atacar.

- E se você morrer??

- Aí saberemos para quem o destino pendia. Pra mim ou pra ele.

Novamente ele começou a se dirigir para fora da Sala Comunal, mas se deteve.

- Eles vão me pagar, Hermione.

- Quem? – ela perguntou, sem se dar ao trabalho de esconder a angústia que estava sentindo.

- Todos eles. Voldemort, Bellatrix Lestrange, Pedro Pettigrew… Todos eles vão pagar pelo que me fizeram sofrer! E qualquer um que entre em meu caminho também.

Hermione não pôde deixar de tremer. A maneira como ele falava... Não era o Harry que ela conhecia.

- Cansei de fazer só aquilo que querem ou esperam que eu faça. Cansei de dar uma de menininho bobo que não entende o que se passa à sua volta. Eu sei o que se passa à minha volta. E não quero mais esperar sentado para ver como vai terminar.

Dito isto, saiu para sempre da Sala Comunal da Grifinória, deixando para trás uma Hermione amedrontada, angustiada.

A garota só tinha uma certeza. Nada daquilo podia acabar bem.

Abrindo os olhos, percebeu que Severus já a chamava há um bom tempo.

- Está tudo bem? – ele perguntou, um pouco preocupado. Levando a mão ao rosto, Hermione percebeu que algumas lágrimas haviam descido, molhando seu rosto.

- Está... Só estava me lembrando de algumas coisas. Ah, isso me deixa revoltada! – ela se irritou, desferindo um murro contra a parede. – Ele se tornou tudo aquilo contra o que lutou!

Por alguns minutos, um constrangedor silêncio se estabeleceu entre o casal.

- Há mais uma coisa, que você deveria saber. – Severus foi quem quebrou o silêncio. Havia se lembrado de algo importante.

- Não pode ser pior do que já é.

- Bom, Dumbledore não quis me passar detalhes. Mas Potter tem um cúmplice.

- Isto já era óbvio. Harry não conseguiria manter tanta coisa sozinho. Mesmo porque, Dumbledore disse que não pegou a menina de volta com Harry, e sim com outra pessoa.

- Mas o que me assusta é que Dumbledore me passou a impressão de que nós já o conhecemos.

- Quem que nós conhecemos se aliaria a Harry?? Ninguém o faria, por mais que ele tenha sido um herói!!

- Não consegue pensar em ninguém? – ele disse, esperançoso de que ela chegasse à mesma conclusão que ele chegara.

Ela pensou por alguns segundos. Não poderia ser Rony. Não por que ele "jamais faria isso", ele faria sim. Mas ele não forjou a própria morte. Ele morreu nos braços dela.

Então ela fechou os olhos, numa expressão terrível de incredulidade.

- Voldemort não morreu no Brasil. – ela concluiu. – Harry mentiu.

- E Dumbledore sabe.

- Isso quer dizer... Que Dumbledore esteve cara a cara com Voldemort!! E um Voldemort mais jovem, mais poderoso!! Por Merlin, ele poderia ter morrido!!

- Esta é uma das coisas que mais me assusta. Voldemort teve a chance de matar Dumbledore. Por que não o fez?

Hermione não respondeu. Estava se fazendo esta mesma pergunta.


Ela estava sozinha em seu quarto, não acreditando no que o Profeta Diário dizia. Ele era um herói, não um assassino! Ele a salvou, ele salvou o mundo bruxo!

Foi arrancada de seus pensamentos. Alguém aparatou em seu quarto. Mal pôde segurar um grito de êxtase.

- Harry!! – ela se levantou de sua cama e o abraçou com força. – Você voltou!! Voltou pra mim!!

Ele se desvencilhou do abraço dela e a olhou, como se a analisasse.

- Voltar pra você?

- Sim, você voltou pra mim! Eu sabia! Sabia que você me amava!

- Amar você?

- Claro! Por que mais você viria aqui??

- Sua boba... – disse ele. – Eu jamais amaria você.

- O quê? – ela olhou pra ele, com incredulidade.

- Você me é digna de pena, Weasley. Quer saber por que foi que eu vim aqui? Eu te digo. Fiquei sabendo que você enlouqueceu quando pensou que eu estava morto. Eu vim aqui tirar esta dúvida, você realmente fez isso?! Se o fez, meus parabéns! Você é mais patética do que eu imaginava!

- Não... Não fale assim! – ela falou, com a voz engasgada.

- Quando, me diga, quando em longos anos de convivência, eu te dei qualquer sinal de que amava você?

Nunca, era a resposta. Mas ela alimentava esperanças de que, no fundo, ele apenas não soubesse que a amava.

- E a resposta é: Nunca. Eu não amo você, Ginevra. Eu nunca amei você nem ninguém.

- Pare com isso!

- Você é muito boba por pensar que, algum dia, eu te veria além do que você é. Uma menininha ingênua, sem graça.

- Pare!! – ela agarrou os próprios ouvidos, na tentativa de não escutar o que ele dizia. As lágrimas caiam em abundância de seus olhos.

- Agora olhe para mim, Ginevra! – ele agarrou o rosto dela com raiva, a obrigando olhar para ele. – Eu sou exatamente o que o Profeta Diário diz que eu sou. Um assassino. Sem escrúpulos. Sem moral. Ao menos uma vez aquele jornal diz a verdade sobre mim. E sim, eu trouxe Voldemort de volta à vida, exatamente como diz aquela carta! Mas eu tenho uma novidade para você, Ginevra Weasley. Ele não está morto!

- O quê?? – o olhar dela assumiu um pânico inominável. Harry sorriu.

- Tom Servoleo Riddle lhe manda lembranças, Ginevra. Disse que sente saudades da época em que ele foi seu melhor e único amigo.

- É MENTIRA!! – ela gritou, tentando se soltar dele, mas ele ainda segurava seu rosto com convicção.

- Mentira? – uma outra voz ecoou no quarto dela. O sangue de Gina gelou.

Tom se aproximou dela e Harry a soltou, deixando a garota mais em pânico. Mesmo depois de tudo o que ele disse, ela estava se sentindo mais segura com ele perto dela.

- Se for mentira, então tem algo errado. – Tom disse, pegando no queixo de Gina e sorrindo de forma demoníaca.

- AFINAL, O QUE QUEREM DE MIM??? – ela gritou, angustiada.

- Nada. – Harry sentenciou, acendendo um cigarro. – Pra quê quereríamos qualquer coisa com você? – ele disse, com indizível desprezo na voz.

- Apenas relembrar os velhos tempos, Ginevra. – Tom disse, com o mesmo sorriso de antes. – Agora, eu e o Potter vamos embora. Foi bom revê-la.

E aparataram, deixando uma Gina completamente desnorteada para trás.


"Ginevra Weasley é encontrada morta em casa."

Apesar da onda de assassinatos atribuídos a Harry James Potter, tudo leva a crer que a jovem, de apenas dezenove anos, tirou a própria vida.

Ginevra foi encontrada em seu quarto por seu pai, o chefe do Departamento de Defesa Mágica, Arthur Weasley, às aproximadamente três da manhã.

Mesmo muito abalado, ele concedeu uma breve entrevista à nossa reportagem. De acordo com Weasley, Ginevra sofria de depressão e já tinha sido internada anteriormente, mas nunca imaginou que ela pudesse atentar contra a vida.

"Gina era uma garota um pouco problemática, eu assumo isso! Acho... Que o fato de ela sempre ter sido apaixonada por Harry (Potter) e descobrir as coisas que ele foi capaz de fazer a desequilibrou por completo."

Nossa reportagem ainda tentou tirar fotos, mas fomos brutalmente retirados de lá pelos irmãos mais velhos de Ginevra, Frederic e Jorge Weasley, os famosos donos da maior loja de logros do Beco Diagonal.

Agora a pergunta é: até quando Harry Potter vai seguir causando sofrimento por onde passa? Quem será capaz de pará-lo?

Daemon esperou pacientemente que Draco processasse o que estava escrito na manchete do Profeta Diário. Estavam na cozinha da casa do loiro, tomando café, cada um deles segurando um exemplar do jornal.

- Bando de parasitas, esses jornalistas. – Daemon falou, brandamente. – Nós mal recebemos a notícia e eles já vêm com a matéria completa.

- Se matou?? – Draco disse, atônito.

- Bom, acho que quando uma pessoa tira a própria vida, fica subentendido que ela se matou, não é mesmo?

- Sua sensibilidade me toca profundamente, Daemon.

- Obrigado.

- Será que ela realmente se matou? E se Potter tem algo a ver com isto?

- Ele tem.

Daemon falou aquilo com muita convicção, o que alarmou Draco.

- Como pode saber?

- Diretamente não. Mas indiretamente ele tem. – ele disse, calmamente. – Ginevra era apaixonada por ele. Descobriu que ele era um assassino. Pirou de vez.

- Bom... – Draco ponderou à explicação.

- E convenhamos. A ruivinha não era um poço de sanidade mental! Ela não passou... Dez anos internada no St. Mungus?

- É, por aí... – Draco respondeu, um pouco distante. O que realmente teria acontecido para que Gina resolvesse pôr fim à própria vida? Seria a simples notícia do verdadeiro caráter de Harry Potter ruim o suficiente para que ela enlouquecesse de vez?

- O que foi, garoto? – Daemon riu-se da expressão sonhadora que o outro ostentava. – Ficou abalado com a morte da Weasley?

- O quê? – o loiro retornava à realidade. – Não, não. Não, eu estava pensando em outra coisa.

- No quê?

- Entre várias coisas, em como foi que eu pude aceitar que você viesse morar na minha casa! – respondeu, irritado. Detestava aquela mania do moreno de querer saber tudo o que se passava na cabeça dele.

- Simples. Se eu fosse ficar em um hotel, o dinheiro para pagar as minhas diárias sairia do seu salário!

O loiro bufou e saiu da cozinha. Daemon apenas riu e voltou sua atenção para o café que ainda tomava. Draco voltou, quase imediatamente.

- Por que infernos você me chama de garoto se tem a mesma idade que eu??

- Quem disse que tenho a mesma idade que você? – Daemon sorriu, sem olhar para Draco.

- Seus documentos!

- Ora essa... Documentos são papéis. Rasga-se um papel com muita facilidade. O que indica a idade de uma pessoa é o que ela já viveu, não quanto tempo ela está neste mundo.

- Quem diabos é você? – Draco perguntou, finalmente. Daemon sorriu e se ergueu de sua cadeira.

- Sou aquilo que você sempre desejou ser.

Ele ia saindo da cozinha, mas Draco tornou a interpelá-lo.

- E o quê você é?

- Garoto, se quiser saber mais, vai ter que se formar em Leglimencia. Agora, se você me dá licença, preciso me arrumar. E você também, temos um enterro para ir. – ele apontou com a cabeça o Profeta, esquecido em cima da mesa.