O dia tinha amanhecido chuvoso, como se chorasse a perda da jovem. Pessoas que há anos não se viam estavam ali, reunidos para a última despedida a Ginevra Weasley.
Fred e Jorge não se davam ao trabalho de conter as lágrimas que escorriam livremente pelo rosto deles. Gui e Carlinhos estavam um pouco mais contidos que os irmãos, mas ainda sim se mostravam devastados.
Arthur era obviamente o mais triste. Mas, inexplicavelmente, não conseguia derramar uma única lágrima, mesmo que seu coração estivesse dilacerado.
Hermione estava ao lado de Severus. A jovem derramava lágrimas discretas e um soluço, vez por outra, e era amparada pelo marido.
Draco e Daemon só estavam lá por etiqueta. Talvez houvesse uma certa consideração por parte do loiro, mas o moreno era só por etiqueta mesmo.
Alvo Dumbledore também estava lá. E talvez, depois do pai, era um dos que mais estivesse sofrendo. Nunca ninguém pareceu tão velho como ele parecia naquela hora, das homenagens finais.
Muitos outros se encontravam lá. Dean Thomas, Neville Longbottom, Luna Lovegood dentre outros colegas e conhecidos.
Mas, provavelmente, a presença mais inesperada fosse a de Percy Weasley.
Andando entre os presentes, alcançou o pai e, em prantos, pediu-lhe perdão. Arthur, calejado pela vida e muito triste para qualquer outra reação, também chorou e perdoou o filho.
Hermione olhava para a cena, consternada, quando algo desviou sua atenção.
Um pouco distante do local onde estavam, havia uma figura alta, a barba já grande, uma roupa toda preta, com uma capa de lã por cima, fumando um cigarro.
Olhou sem ver. Só então percebeu de quem se tratava, voltando sua atenção novamente.
O homem sorriu para ela e retirou os óculos escuros que estava usando, revelando os olhos gritantemente verdes.
Teve vontade de reagir, gritar, fazer qualquer coisa, mas não sabia o que fazer.
Pediu licença ao marido, dizendo que já voltava. Precisava ser discreta ou o homem fugiria.
Harry deu as costas para o funeral e foi andando calmamente, esperando que Hermione o alcançasse, o que não demorou muito.
- É muita cara-de-pau a sua, aparecer no velório dela. – Hermione rosnou. Harry sorriu, divertido, dando uma longa tragada em seu cigarro.
- Cara-de-pau por que, minha cara amiga? – ele perguntou, sem olhar para ela e ainda andando pelas lápides. – Eu não a matei. Eu seria cara-de-pau se resolvesse ir ao enterro dos Dursley, da Parkinson ou de qualquer um desses que eu matei.
- Por que você está fazendo isso?? Espera se safar dessa??
- Não só espero como vou me safar.
- Tenho certeza que vão te pegar, cedo ou tarde.
- Não alimente tolas esperanças, Hermione.
- Eu sei que mentiu na carta. – ela resolveu mudar o foco do assunto.
- Sabe, é? Sobre o quê?
- Não se faça de bobo! Voldemort...
- Voldemort está morto e enterrado. Se for ao túmulo dele vai encontrar os ossos e a carne em decomposição. Quem é o meu cúmplice, como vocês estão chamando, é Tom Servoleo Riddle.
- E a diferença está onde, exatamente?
- Você ficaria surpresa em ver o quão diferente ele é de Voldemort. E o quão diferente eu sou de Harry James Potter.
- Escute aqui, Harry, se acha que eu não vou contar que você está aqui...
- Eu já teria sumido antes mesmo que você alcançasse seus amiguinhos. Seja realista, Hermione. Se quiser me pegar, vai ter trabalho.
- Ah, eu vou te pegar, Harry. Não tenha dúvidas disso.
- Estou sabendo que você agora é imune à maldição Avada Kedavra, é verdade?
- Como... – ela ficou horrorizada. Somente ela e Severus sabiam disso!
- Você sempre foi tão inteligente, o orgulho de toda a Grifinória. Mas nunca te ocorreu que, além de Oclumencia, eu também tenha aprendido Leglimencia?
- Ah, claro...
- Bom, meus parabéns. Você conseguiu o que todos os bruxos achavam impossível.
- É, eu sei.
- Claro, o mérito é meu. – Harry sorriu. – Porque você queria se vingar de mim. Agora... Pelo amor de Merlin, Hermione, casar com o Snape?? Rony deve ter morrido de desgosto!
- Na verdade Rony foi o padrinho. E não foi o desgosto que matou ele, foi... Outra coisa.
- Rony está morto?? – Harry pareceu um pouco surpreso com a revelação.
- O que foi, não tinha lido isso em minha mente? – Hermione disse, com certo deboche.
- Não me ocorreu procurar algo sobre Rony dentro de sua mente. Quando foi isso?
- Há alguns meses, quase um ano. Ele se tornou auror, assim como você queria ser.
- Você não vai conseguir me tocar com lembranças do passado, Hermione. Eu queria ser auror sim, mas agora sou aquele que é caçado pelos aurores... É muito mais emocionante.
- Vou apenas ignorar a sua concepção de emocionante, Potter...
- Mas diga-me, Hermione. Como ele morreu?
- Por que eu diria? Você é meu inimigo agora. Não lhe devo satisfações.
- Em nome de nossa antiga amizade, considere como seu último favor a mim. Depois saio da sua vida e você só vai precisar saber de mim quando for realmente necessário.
- Pois bem... – Hermione deu-se por vencida. Sabia que ele estava mentindo, mas não fugiria dali, pois sabia que ele era infinitamente mais poderoso que ela. E o que tinha de mais? – Não foi nada com Comensais ou a ver com você. Foi um acidente. Ele trabalhava comigo no projeto de... Transformar a Avada Kedavra em uma maldição inútil.
- Uuh... – ele exclamou, com um sádico e divertido sorriso nos lábios. – Então você o matou.
Ela pareceu exaltada, mas não respondeu. Afinal, ele tinha razão, ela o matou.
- É, Hermione... Você sempre foi meu maior motivo de orgulho de ser da Grifinória...
- Deixe-me em paz, Potter!! – ela resolveu sair e deixar Harry ali. De nada adiantaria ficar ali com ele, só lhe traria aborrecimento. E também, Severus provavelmente estaria preocupado com ela.
- Pelo amor da minha saúde estomacal, Hermione, como pode amar aquele homem?
- Não tenho amor algum pela sua saúde estomacal, Potter! – ela saiu num rompante, mas Harry a segurou pelo braço e a trouxe para junto de si.
- Hermione... Hermione... Acha mesmo que vai conseguir escapar de mim?
- O que pretende fazer, Harry? Me matar? Então aproveite a oportunidade. Estamos em um cemitério, poupará tempo.
- Por quem me toma, Hermione? Acha mesmo que eu iria te matar? Desperdiçar tanta inteligência e tanta beleza para que os vermes comam?
Aquele olhar dele começava a intimidar. Não por ser um olhar maléfico, mas pela intensidade. Ele parecia querer violentá-la com os olhos.
- Me solta. – mas ela não tinha convicção alguma em suas palavras.
- Por quê? – ele perguntou, em tom mais baixo que o normal. Ela sentia a ameaça e o convite naquela voz rouca e grave que a voz de Harry tinha se transformado.
"Você é um assassino, deixe-me ir!!!" – mas não era isso que queria dizer. Queria dizer outra coisa.
- Por favor, me solta.
- Tem medo do que eu possa fazer?
- Não. – ela disse, a voz baixa e o rosto um pouco enrubescido. – Tenho medo do que eu possa fazer.
Harry sorriu, um sorriso que ela não conhecia. Jamais seria capaz de decifrar o que ele quis transmitir ao sorrir daquela maneira para ela. Sua respiração descompassou.
- É bom, não é? – ele falou, ainda mais baixo.
- O quê?
- A sensação de estar fazendo o proibido, de quebrar regras, de desejar o errado e o inalcançável.
Hermione compreendeu. Ela era uma mulher casada e estava ali, quase se entregando nos braços de um assassino inescrupuloso e sádico. E estar sendo abraçada por ele não parecia ser o suficiente. Ela queria mais.
- Eu posso te dar mais.
- Não vale a pena.
- Por que não?
- É sacrificar demais. Jogar fora uma vida estável ao lado de alguém que eu sei que me ama para me aventurar em algo que eu sei que não vai terminar bem.
- Você ainda acha que eles vão me pegar?
- Eu já disse que eu tenho certeza disso. Se eles não te pegarem, eu te pegarei.
- Você não sabe nada. Nada sobre mim. Nada sobre o que eu sou hoje ou sobre o que eu sou capaz de fazer.
- Então me diga.
- Quem sabe um dia? Por enquanto, contente-se com isto. – num impulso, Hermione já não via mais nada, só sentia a boca dele colada na dela e a língua dele explorando cada centímetro de sua boca.
Ah, era tão diferente de quando Severus a beijava... Era mais quente, mais intenso... Entregou-se àquele beijo por completo, não tinha como escapar. Não queria escapar.
Subitamente, sentiu um vazio. Abriu os olhos e Harry já não estava lá.
Uma incômoda vozinha no fundo de sua mente a lembrou que, provavelmente, o enterro já tinha terminado e que Severus a procurava, desesperado.
Merlin, como pôde ser tão tola?
Subiu devagar a escadaria. Não tinha pressa, tinha o tempo como eterno aliado. E o suposto "dono da casa" como eterno rival.
Sagrada. Sagrada apenas para os trouxas. Uma igreja é somente um monte de pedras amontoadas. Nada há de sagrado em pedras.
Alcançou o interior da igreja e percebeu que já era aguardado. Sorriu levemente.
- Meus queridos irmãos! – ele falou, em voz alta. O padre, que acendia algumas velas, virou-se e sorriu para o homem que se aproximava. O outro homem, sentado em um dos bancos, não se deu a este trabalho.
- Como vai, meu caro irmão mais velho? – Caleb disse amavelmente ao recém-chegado.
- Vou bem, como sempre. E você, meu caro irmão mais novo? – ele não se dirigia a Caleb, mas ao rapaz que se encontrava sentado de costas.
- Pra que a pergunta, meu caro irmão mais velho? – a ironia e o aborrecimento contidos na voz eram claros. – Tu me monitoras permanentemente.
- Pela cortesia, irmão.
O jovem sorriu e se levantou. Era incrível como eram parecidos, os três. Os mesmos olhos castanhos e penetrantes, os mesmos cabelos negros, a mesma pele absurdamente branca. No entanto, cada um era diferentemente terrível, cada um a seu modo.
Caleb era o "Palestrante", o "Orador", o que alcançava as multidões com sua voz doce e sedutora, seu jeito manipulador e seu perfeito disfarce.
Tom era o "Filho Pródigo", embora detestasse a alusão à bíblia que seus irmãos mais velhos lhe impunham. Mas era o que era. Tinha abandonado seus irmãos e se aventurado na vida humana. Fracassou miseravelmente e, quando morto, pediu ajuda e abrigo ao irmão do meio. Caleb tinha afeição inigualável por Tom, jamais lhe negaria alguma coisa.
E Daemon... Não, seu nome não era este, ao contrário de Caleb que mantinha o verdadeiro nome. Mas, também ao contrário do irmão, ele não podia desfilar por aí com seu verdadeiro nome. Ele causaria um pânico generalizado entre aqueles que tinham formação Cristã.
Mas, como dizia, Daemon, ou melhor, Lúcifer, era simplesmente a materialização de todo o tipo de imundice, podridão, canalhice e desgraça existentes.
Cada qual com seu "filho", seu protegido.
Caleb e seu afeto por Harry Potter.
Tom e sua adoração por Clair Parkinson.
Lúcifer e sua paixão por Draco Malfoy.
- Venham, vamos até a sacristia. Lá poderemos conversar tranqüilamente.
Entraram e se sentaram ao redor de uma pequena mesa. Caleb trouxe vinho e serviu os irmãos.
- Estamos cada qual em uma situação interessante, não é mesmo? – Lúcifer disse, o sorriso estampado em seu rosto ainda mais largo. – Diga-me, Caleb. Como é ser padre?
- É interessante. Divertido, até. Como não se agradar de uma situação em que fervorosos cristãos se enlevam pelas palavras profanas de um demônio como eu?
- Tem razão, sua posição é deveras agradável. – Lúcifer sorriu. – E como é ser "amigo" do Potter, Tom?
- Deveria ter tentado isso mais cedo. – Tom sorriu. – O garoto tem potencial, um potencial que merecia ser explorado desde sempre! Pena que só agora houve essa oportunidade. Devo admitir que Caleb soube escolher bem o protegido.
- E devemos concordar que eu sempre escolho bem meus protegidos, Tom. – Caleb sorriu, amavelmente.
- Certo, certo... No momento preciso monitorar Clair. Pena que já tivesse sido registrada, não gosto do nome dela.
- Concordo com você. – Lúcifer disse, seus olhos brilhando de maneira sedutora. – Eu prefiro um nome mais forte, que denote poder. Ela será uma garota poderosa, precisa de um nome igualmente poderoso.
-E que tal Walkírya? – Caleb sugeriu. – Não poderá mudar o nome dela, mas ela saberá quando a chamar desse jeito. E só você o fará, não é mesmo?
Lúcifer virou o conteúdo de sua taça rapidamente e sorriu, limpando os lábios com a língua.
- Sim, Walkírya é um nome forte.
- Se te agrada, meu nobre irmão mais velho. – o mais novo disse, com certa formalidade na voz.
- Ora, deixe disso, Tom! – Lúcifer sorriu, divertido. – Não estamos no Reino, pode me tratar como se fôssemos normais.
- Não estou acostumado a isso.
- Bem, cedo ou tarde você se acostuma. Afinal, temos todo o tempo do mundo...
- Irmão, não teme que Ele e seus anjos interfiram? – Tom perguntou.
- Não... Desta vez não haverá interferências e poderemos agir livremente.
- Há algum acordo? – Caleb perguntou.
- Acordo? E eu sou lá homem de fazer acordos, Caleb? Não, não há nem haverá acordo algum. Lembre-se, estamos mexendo com pagãos. Não são batizados nem tem formação religiosa. Ele – Lúcifer olha para cima, dando um terrível sorriso – Ele não se preocupará com nenhum deles.
- Bom saber.
- Mas não pedi que nos reuníssemos apenas para saber como vai a vida de cada um. É hora de botarmos em prática nossos planos e finalmente podermos voltar para casa.
- Tu te referes somente a nós dois, não é mesmo? – Tom disse, um pouco desanimado. – Afinal, tens a liberdade de ir e vir do Reino quantas vezes quiser.
- Mas não há graça alguma lá sem meus dois irmãos. Sim, me arrependi amargamente de punir-vos com essa temporada forçada na Terra. A ti, meu jovem, pela aventura de viver como um ser humano e a ti, Caleb, por abrir os braços a ele quando o proibi de fazê-lo. Então resolvi que me manterei aqui até que possam voltar pra casa.
Os dois sorriram. Lúcifer também.
