Não pregou os olhos. Nem mesmo por um minuto sequer. Ah, maldita culpa que aqueles malditos olhos verdes despertaram dentro dela!

Como se não bastasse a culpa da traição contra Severus, ele despertou a culpa a morte de Ronald. Hermione Granger Snape... Você não presta…

Olhando para o marido deitado ao seu lado, dormindo o mais tranqüilamente possível, e teve indizível nojo de si própria. Principalmente porque, quando fechava os olhos, só conseguia visualizar o tórrido e pecaminoso beijo trocado no cemitério.

E o que mais a atormentava era o quanto ela havia gostado do beijo. E isso a fazia sentir-se tão mal...

Afinal, o que tinha acontecido ali? Houve algum sentimento além do desejo?

O que houve? O que...

Onde diabos ela estava?! Se fizesse um segundo que estava deitada em sua cama era muito! Era um lugar magnífico! Jamais sonhou em estar em tal castelo. O saguão era redondo e era todo iluminado por milhares de velas. E parecia que suas paredes eram revestidas de ouro, ou mesmo feita do material! E havia algo que a envolvia, que a fazia sentir-se leve.

- Mas o que... – ela pretendia perguntar, mas antes que isso fosse necessário, a resposta surgiu diante de seus olhos.

Harry se aproximou dela como uma pantera se aproxima de uma presa encurralada. Hermione não conseguia nem queria se mexer.

- Me concede uma dança? – ele estendeu sua mão direita para a garota. Mesmo sabendo que não devia aceitar, não foi capaz de se controlar, aceitando a mão do rapaz.

- Onde estamos?

- Nossa, não reconhece sua própria mente? – ele diz, divertido e trazendo o corpo dela para mais perto do seu.

- Não estamos dentro de minha mente! É impossível!

- Nada é impossível comigo por perto, Mione... Gostou do salão?

- O que está fazendo comigo?

- Dançando com você, oras! – ele riu, enquanto a fazia rodopiar graciosamente. – Não é óbvio?

- Harry, pare! – ela se afastou dele. Como se despertadas brutalmente, as paredes douradas e as velas se desfizeram. Eles estavam no escuro agora.

- O que foi? – ele falou, agora um pouco irritado. – O que eu fiz de errado?

- Quer uma lista compacta ou tudo em um geral?? – ela respondeu, mais irritada que ele.

- Não me lembro de ter feito nada contra você!

- Você me fez trair meu marido, isso não basta??

- Ora, VÁ PRO INFERNO, HERMIONE!!! – ele berrou, os olhos faiscando. – Explica pra mim, como você pode amar alguém que te humilhou durante anos seguidos??

- Ele está arrependido, Harry! E ele me ama! E eu o amo, independente do passado!

- Se você o ama, então por que ainda está aqui? Eu não estou te prendendo! Vá embora!! Suma daqui, desapareça!!

- Quer saber? É exatamente isso o que vou fazer!!

Mas ela não acordou. Continuou ali, no mesmo lugar, com um sorridente Harry olhando para ela.

- Você disse que não estava me prendendo! Me deixe ir embora!!

- Mas, Mione... Eu não estou te prendendo. Se você não saiu daqui, é porque quer ficar.

- EU NÃO QUERO FICAR AQUI!!

- Claro que quer. É sua mente. É aqui onde seus mais profundos e secretos desejos se tornam quase realidade. – ele tornou a se aproximar dela, envolvendo-a pela cintura e puxando-a de forma seus corpos ficarem colados um no outro. A respiração dela descompassou, enquanto a dele continuava tranqüila.

Harry tomou uma mecha de cabelo de Hermione em sua mão e sorveu o perfume como quem bebia um excelente vinho.

- Quanto tempo acha que vai conseguir negar isso para si mesma, Mione?

- Não sei do que você está falando... – ela disse, sua voz trêmula traindo o que acabara de dizer.

- Eu estou falando disto. – e a tomou em outro beijo, este ainda mais intenso que o primeiro.

E ela se entregou por completo ao beijo. Era quase profano, obsceno, mas era bom e ela queria mais. Mas um último e sufocado grito de sua consciência a trouxe de volta à realidade. Fez a única coisa que conseguiu pensar em fazer. Mordeu, com força, o lábio inferior do rapaz, que a largou, assustado com a reação dela.

- Nunca mais me toque, Potter! Deixe-me sair daqui! AGORA!!!

- Você vai se arrepender por isto, Granger! Guarde minhas palavras, você vai se arrepender!!

Num sobressalto, Hermione se viu de volta em seu quarto, em sua cama. Estava suando muito e tinha certeza de que estava muito pálida.

Percebeu e agradeceu que Severus não havia despertado.

Hermione não conseguia entender. Fora real? Potter havia realmente entrado em sua mente? Ou seu subconsciente tinha desenvolvido aquilo?

Não! Claro que Harry tinha criado aquilo. Ela amava Severus e não ficaria sonhando com Potter. Aliás, mesmo que tivesse sido sonho, foi pesadelo! Odiou estar com Potter!

Não odiou?


Estava se revirando na cama há horas. E alguma coisa estava impedindo que o sono viesse e servisse de acalanto para seus problemas, suas aflições.

- Tem formiga na sua cama, Malfoy?

O susto foi tão grande que ele pulou da cama de imediato, com um grito no mínimo cômico.

- DAEMON, O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI???

- A sua cama tava rangendo tanto que eu achei que você tinha trazido alguém pra passar a noite com você, mas nota-se que não é isso. Tem formiga na cama? Ou pulga?

- Suma daqui, seu idiota! Eu só estou sem sono!

- Puxa vida! De nada pela preocupação! – Daemon fingiu-se de ofendido, e, com um sorriso, saiu do quarto.

- Palhaço... – Draco murmurou. E logo após murmurar, sentiu, com alívio, o sono chegando. Em segundos já havia adormecido.

Abriu os olhos e constatou com terror que estava longe de casa. Ou melhor, estava em casa. Na antiga Mansão Malfoy, que tinha abandonado logo após a morte providencial do pai.

Mesmo após alguns anos de abandono, ela ainda ostentava o glamour e a altivez de outrora. Era como se jamais tivessem saído de lá.

Ainda assim, ela tinha alguma coisa diferente. Algo ainda mais sombrio que antes, algo que o fazia gelar de medo.

Então ele viu. Petrificado de pavor, ele viu. Com suas habituais vestes negras e suntuosas, a inseparável bengala, os longos e platinados cabelos, os olhos acinzentados... Ele viu Lucius Malfoy e seu olhar gélido descendo a escadaria principal.

- O que foi, Draco? – Lucius disse, em tom quase pacífico. – Parece até que viu um fantasma.

O jovem não respondeu. Ainda estava muito assustado.

- Sabe, tenho saudades desta casa. Destas escadas, do lustre... – ele comentou, olhando para o referido, com sua rica pedraria. – Sinto falta de muita coisa. Mas, principalmente, sinto falta de minha esposa e de meu filho, sinto falta de respirar, sinto falta de comer. Pequenas coisas que te fazem um ser humano.

- Como isso é possível?? – Draco finalmente falou alguma coisa.

- Ah, finalmente falou alguma coisa. Por um momento eu tive o receio de que tivesse ficado mudo, de que Potter tivesse arrancado sua língua.

- O que você está fazendo aqui?? Deveria estar no inferno!!

- E eu estou, Draco. Eu estou.

- Então o que está fazendo aqui??? Volte para lá que é o lugar ao qual pertence!!!

- Você não me entendeu, Draco. Eu disse que estou no inferno. Se há alguém aqui no lugar errado, este alguém é você.

- Está querendo me dizer que a nossa casa é o inferno???

- E como você acha que o inferno deveria ser? Um mar de fogo e lava? Não. O inferno é a representação de tudo aquilo que te faz sofrer. Mas não é assim o meu inferno. Este é o seu.

- Impossível!! Eu estou bem vivo!!

- Sim, mas por quanto tempo? Acha mesmo que vai sobreviver ao Potter sendo que nem eu o fiz?

- Aquele idiota não me bota medo!

- Claro, claro. "Ele vai ter que comer muito arroz com feijão pra te botar medo", não é verdade? Abra os olhos, Draco! Ele já te bota medo. Veja as coisas que ele já foi capaz de fazer até hoje, tendo sido do trio de ouro de Hogwarts. Ele é bem mais perigoso que eu, muito mais do que você.

- Mas está sozinho.

- Draco, Draco... – Lucius segurou o rosto do filho com as duas mãos. – Os maus nunca estão sozinhos. E Harry se tornou mau. Bem pior que o Lorde.

- Impossível!

- É tão possível que o aliado dele, o cúmplice dele em toda e cada atrocidade cometida é o próprio Lorde.

- Voldemort está morto!!

- E não duvide. Mas Tom Servoleo Riddle está bem vivo. Veja bem, Draco. Ele tinha um segredo. E apenas alguns de nós sabíamos.

- E é claro, você está entre eles!

- O Lorde sempre puniu seus traidores com este segredo. Eu só sei disso porque estou morto. Meu filho... – ele afastou os cabelos do jovem com a mão direita, enquanto com a esquerda ainda segurava o rosto dele. – Lorde Voldemort não era nem é humano.

- QUÊ???

- O Lorde é um demônio poderoso.

- MENTIRA!!! – Draco se afastou do toque do paiseu rosto púrpuro, como costumava ficar, quando estava enfurecido. – SE ELE FOSSE UM DEMÔNIO ELE NÃO TERIA MORRIDO DE MANEIRA TÃO ESTÚPIDA!!!

- Ouça-me, Draco, estou tentando te ajudar. Então escute o que eu vou te contar. Quando Tom nasceu como humano, ele se privou de algumas lembranças e de seus poderes de demônio. Ao ser morto por Potter, ele recuperou tudo isso, mas ainda precisava de um corpo. Um corpo humano para continuar com seu objetivo principal.

- Que seria qual??

- Vingar-se de Dumbledore e de tantos outros que se colocaram em seu caminho.

- E o Potter vai ajudá-lo a se vingar???

- Potter está tão consumido pela própria vingança que já perdeu boa parte de sua própria humanidade.

- E por que você está me contando isso? Em que isso poderá me ajudar??

- Só estou te dizendo. Você não está lidando com um bruxo vingativo e louco. O que você está preste a enfrentar é um homem poderoso e quase completamente transformado em demônio pelo próprio ódio. E este homem não está sozinho.

- E eles estão atrás de mim. – Draco completou.

- Você pode se salvar, saindo do caminho de Tom. Se o fizer, ele pode aplacar a fúria de Harry contra você.

- Não.

- Não seja teimoso, Draco. Estou tentando te ajudar.

- Isso já se tornou pessoal, pai. Eu não vou deixar Potter se safar desta como se não tivesse feito nada!! ELE MATOU PESSOAS E MEU DEVER COMO AUROR É FAZÊ-LO PAGAR POR ISSO!!

- Ele matou e ainda vai matar. E você não vai conseguir impedi-lo nem prendê-lo.

- Pois então vou morrer tentando!

- Então, quando estiver preso eternamente nesta casa, não me diga que eu não te avisei.

- O azar será somente meu.

- Tudo bem. Ah, só mais uma coisa.

- Que foi??

- Deixe sua mãe em paz. Ela já sofreu tempo suficiente. Ela merece descansar.

Antes que Draco tivesse a chance de dizer qualquer coisa, já tinha acordado. O sol dava sinais de que já ia sair e ele viu que não tinha passado de um sonho.

No quarto ao lado, Daemon se encontrava recostado na porta, com um leve sorriso.

- Pois então, Draco... Depois não diga que eu não te avisei. Não venha reclamar que eu não tentei te ajudar. Eu não vou tentar parar meu irmão ou o outro garoto. Como você mesmo disse, o azar será somente seu.


Tinha inventado uma desculpa qualquer e corrido para lá. Apesar de ser bruxa, tinha formação católica e tinha pecado. Precisava se confessar.

Entrou na bela igreja de arquitetura gótica e correu ao confessionário, onde o padre se encontrava, rezando. Ajoelhou-se ao lado da pequena casinha e fez o sinal da cruz.

- Perdoe-me, padre, pois eu pequei.

- Diga-me seus pecados, minha filha. – a voz do padre fez Hermione sentir-se mais calma. – Deus há de te perdoar.

- Padre, eu sou casada com um homem há quase dez anos. E eu o amo muito. Mas surgiu outro homem em minha vida e agora tudo parece tão... Confuso!!

- Sim, continue.

- Este homem... Ele... Me beijou. E eu gostei!

- Ah... Minha querida... Isto é grave.

- Agora eu já não sei o que sinto por ele, ou mesmo por meu marido! Mas o pior de tudo, padre, é que este homem é um criminoso! Esta noite mesmo eu sonhei com ele! Temo estar deixando de amar meu marido, padre.

- Minha pequena, o que eu falaria normalmente era que isso era um pecado grave. Mas eu sei que no coração não se manda. Portanto, não te darei penitência alguma. Te darei um tempo. Vá para sua casa e volte para seu marido. Organize seus pensamentos e seu coração. Só aí você poderá me dizer se realmente o que houve foi um pecado.

Hermione estava surpresa. Esperava o pior e o mais longo dos sermões, não a compreensão que ele estava demonstrando. Sorriu, um pouco aliviada.

- Muito obrigada, padre. – ela finalizou, fazendo novamente o sinal da cruz e saindo da igreja, um pouco mais feliz do que quando tinha entrado.

O padre, por sua vez, saiu de dentro do confessionário e se dirigiu à sacristia, onde um jovem, de vinte anos, barba crescida, cabelos espetados e olhos verdes o esperava.

- Ela veio, não veio?

- Veio sim, meu jovem. Exatamente como disse que viria. Ouso perguntar o que houve?

- Apenas uma visitinha noturna. – Harry respondeu, dando um sorriso.

- Meu filho, o que houve com seu lábio inferior?

- Acidente de trabalho, Caleb. Sabe como é. Essa vida de assassino cruel apaixonado é bem difícil.

- Com certeza... – Caleb riu, servindo uma taça de vinho ao afilhado.