Kagome cantarolava na cozinha, enquanto escolhia as melhores fatias de bacon. Inuyasha saíra cedinho para supervisionar a ordenha, sem tê-la despertado, o que a deixara um tanto desapontada. Mas sentia-se bem, e o mundo já não lhe parecia tão cinzento.

De repente, parou de cantarolar. Sabia, intuía que ele voltara e estava ali, observando-a, embora o silêncio fosse total. Virou-se devagar, sem ter certeza sobre o que diria.

— Bom dia — começou, mas parou em seguida. Céus, como esse homem mexia com ela! Alto, de físico poderosa mente bem proporcionado, a camisa azul combinando às maravilhas com os olhos claros e os cabelos pretos. Sua expressão, porém, lembrava a de um experimentado jogador de pôquer: absolutamente neutra. Ner vosa, embaraçada pelas lembranças da véspera, Kagome experimentou uma insegurança que a deixou mais tensa que de costume.

Ela não podia adivinhar, mas a cabeça do marido trabalhava de modo bastante semelhante. De fato, Inuyasha percebera a tensão da esposa, e naquele momento não sabia a que atribuí-la. Na véspera ambos tinham chegado a algo muito próximo da verdadeira afeição, mas agora tudo parecia mudado. Kagome dava-lhe a impressão de um coelhinho assustado, pronto para fugir ao primeiro movimento que fizesse. O que mais o magoava era que a expressão dela não indicava nenhuma emoção, fosse amor ou raiva.

— Bom dia. O café está pronto?

— Quase.

— Ótimo. Então vou chamar Shippou.

E nada mais foi dito, além de algumas frases ocasionais e polidas. Durante o café e o resto do dia, Kagome em vão buscou sinais de calor e ternura nos olhos de diamante. Inuyasha timbrava em desviá-los com a habilidade de um mestre. Por fim, ela desistiu. Chegou à conclusão de que ele tinha se arrependido, e por isso mesmo resolveu manter-se a prudente distância. Nessa noite, ele não a procurou, e Kagome não sabia se devia se sentir humilhada, aliviada ou simplesmente indiferente. Sabia apenas que, com toda a certeza, aqueles momentos encantados da véspera nada haviam significado para o marido.

Na noite seguinte, depois de um silencioso jantar, os três sentaram-se diante da televisão. Shippou, contudo, mostrava-se inquieto e triste.

— Que é que há, campeão? — perguntou Inuyasha, preocupado. — É a terceira vez que você suspira. Algum problema?

— É... acho que sim — respondeu o menino, afundando o rosto no peito.

— Que houve?

— Você e Kagome— Shippou ergueu os olhos escuros e tristes. — Não fique bravo comigo, tio Inu, mas se vocês aparecerem amanhã na corte desse jeito, o juiz vai me devolver para... para meu padrasto e... e eu vou ter de voltar para a Escola Militar. Eu... Oh, por favor, vocês não podem fingir que são felizes pelo menos diante do juiz? Por favor?

Inuyasha ergueu-se e desligou a televisão. Um silêncio pesado envolveu os três durante alguns minutos.

— Podemos, Shippou. — A voz do tio soou carinhosa. Ele afagou-lhe os cabelos de leve e sorriu. — Prometo que o juiz vai achar que somos a família mais feliz do mundo. Agora vá tomar seu banho. É melhor deitar-se cedo, porque o dia vai ser difícil para você, garotão.

Quando Shippou deixou a sala, Inuyasha voltou-se para Kagome.

— Ele tem toda a razão. Se não formarmos uma frente unida, é quase certo que o juiz dê parecer favorável ao padrasto.

— Sei disso... — A voz dela parecia embargada. — Escute, Inuyasha, não sei o que pensa de mim. Mas asseguro-lhe que não quero ver o menino morando em outro lugar, por isso estou pronta para ajudá-lo.

— Obrigado. —Inuyasha dirigiu-lhe um sorriso melancólico e acendeu um cigarro. — Eu não devia ter perdido a cabeça daquele modo anteontem. Parece que tudo ficou mais difícil entre nós, não é mesmo?

— Eu também sou culpada — respondeu ela, à falta de resposta melhor.

— De quê? Não foi você que me seduziu, moça. — Ela respirou fundo.

— Eu... não estou tomando pílulas. E você... bom, você não fez nada para prevenir... quero dizer...

— É verdade, não fiz. E daí?

— Daí que... que eu talvez fique grávida.

Um sorriso vagaroso flutuou nos lábios de Inuyasha.

— Aqui na fazenda há um velho vestido de batizado. Talvez esteja meio amarelado, mas é bonito, cheio de rendas. Daqueles antigos, sabe como é? Tenho também um berço, que foi de meu avô.

Ela ergueu os olhos verdes e magníficos, um par de oceanos cheios de promessas.

— Eu também... também tenho uma bacia e uma jarra de prata que foram usadas no meu batismo. Consegui salvar as duas peças do leilão de tia Kana. A mobília, infelizmente, foi perdida, mas...

Ao ouvir o nome da tia, a expressão de Inuyasha se entristeceu.

— Você agora está rica. Pode comprar quantas jarras de prata quiser, quantos berços e carrinhos quiser. Por que não ficou com a mobília também?

Kagome buscou depressa uma resposta satisfatória.

— Não há lugar no meu apartamento.

— Seu apartamento! Por enquanto sua casa é esta, e daqui você não sai, até eu ter certeza de que não está grávida.

Ela ajeitou nervosamente as pregas da saia.

— É quase certo que não estou.

— Por quê? Por ter sido a primeira vez? — Kagome não gostou da ironia.

— Posso ser inexperiente, mas não sou burra. E eu preferia não tocar mais nesse assunto, por favor.

Dessa vez Inuyasha sorriu. Gostara da reação de Kagome, e seria capaz de jurar que vira um brilho de esperança nos olhos de esmeralda. Já não lhe restava dúvida; a atração que existia entre ambos era recíproca. A atração física, pelo menos.

Restava-lhe descobrir se havia amor também.

— Por que não dormimos juntos hoje? Afinal, uma vez a mais, uma a menos, não vai fazer diferença, agora.

— Você não me quer aqui na fazenda. E eu não quero criar um bebê sem pai.

— Quem disse que eu não a quero aqui?

— Você, ora esta! — A indignação de Kagome não teve limites. Ela se ergueu para enfrentá-lo, os olhos dardejando agulhas de fogo. — Você praticamente me botou para fora de casa no dia em que tia Kana morreu! Disse que não me queria mais como mulher e me deixou ir para Miami sozinha...

— Sozinha não. Seu tio foi junto. — Kagome ignorou-o.

— Quem falou em anulação? Você, não eu!

— E quem falou em divórcio primeiro?

— Não tente me confundir, Inuyasha Taisho! Você me disse que eu poderia encontrar um... um rapazola ricaço para marido!

— Eu?!

— Você!

— Bem, isso foi porque... — Inuyasha coçou a cabeça, em busca de uma boa desculpa. — Porque eu ainda não tinha dormido com você, pronto. Agora estou irremediavelmente viciado.

— Sim, por mulheres. Qualquer mulher!

— Não, senhora. Há pelo menos um ano eu perdi o interesse pelo sexo de uma vez, lembra-se do que lhe contei? Você é que ateou fogo em mim de novo.

— Perdeu o interesse, há! Bem que eu vi sua perda de interesse anteontem...

Nem bem acabara de falar, Kagome levou a mão à boca, arrependida. Sem dizer mais nada, sentou-se muito dura, danada consigo mesma.

— Eu tinha experiência anterior, Kagome.

— E como! — rebateu ela, furiosa.

— Minha experiência serviu para tornar o sexo mais fácil para você. Já pensou nisso? .

— Não, nem quero pensar — retorquiu ela, batendo o pé. — Você fez coisas comigo que eu nunca... nunca nem sequer tinha lido!

Inuyasha disfarçou um sorriso. Kagome parecia uma garotinha de cinco anos, birrenta e mal-educada. Tanto melhor!

— Vou lhe contar um segredo, Kagome— Inuyasha ajoelhou-se a seu lado, forçando-a a mirá-lo bem nos olhos. — O que eu fiz com você anteontem, não fiz com mais ninguém, Oh, não tudo, é claro. Mas a parte mais doce e terna, essa eu posso lhe garantir. Foi só com você, Kagome. Eu jamais sonharia em fazer o mesmo com outra mulher.

Havia tanta doçura e franqueza nos olhos cinzentos, que ela se sentiu derreter por dentro.

— V-verdade?

— Pode me acusar do que quiser, menos de mentiroso. E quer saber do que mais?

Sem esperar resposta, Inuyasha puxou-a para o tapete e deitou-se sobre ela, imobilizando-a. Sua perna insinuou-se por entre as dela, e seu corpo começou a se mover devagar.

— Quero você de novo. Agora.

Os dedos morenos começaram a desabotoar-lhe a blusa.

— A porta está...

— Aberta — completou ele, deslizando a mão para dentro do sutiã. — Vou levá-la para a cama, Kagome. E fazer com você tudo o que fiz duas noites atrás. Já.

De um salto, ele se pôs de pé e tomou-a no colo. Com algumas passadas carregou-a para o quarto e depositou-a na cama carinhosamente, endireitando-se para contemplá-la. Tinha uma mecha de cabelos sobre os olhos brilhantes, a respiração acelerada, o corpo inteiro desperto, pronto para o que estava por acontecer.

Kagome apoiou-se sobre os cotovelos sentindo-se feminina e aquecida pelo desejo ardente do marido, os olhos verdes fundindo-se com os dele.

Sem pressa, Inuyasha se inclinou. Ela fechou os olhos, esperando o beijo... que não veio. O telefone tilintou áspero, tirando-os do seu mundo particular.

Impaciente, Inuyasha ergueu o receptor do gancho.

— Alô.

— Amanhã é o grande dia — uma voz sarcástica perfurou-lhe o cérebro, arrancando-o por completo do enlevo de minutos atrás. Naraku Danner, o padrasto de Shippou! — Mal posso esperar, Inuyasha, porque vou ganhar a custódia do garoto, tão certo como dois e dois são quatro. Esse seu casamento de imitação não engana ninguém.

— Não é de imitação. É para valer, Naraku.

— Então trate de provar que é. Por enquanto, vá aproveitando os últimos momentos com meu enteado. Quero-o de volta a partir de ama nhã, está me ouvindo?

— Perfeitamente. Seria a glória para você me vencer no tribunal, não é mesmo? E dois dias depois, o garoto estará penando no Colégio Militar.

— Sim, ele voltará para lá, a fim de aprender o que é disciplina. De topetudos na família basta-me um. — A voz do outro lado da linha tinha um timbre desagradável e pastoso. Brad, evidentemente, excede ra-se nos drinques. — Em toda a minha vida de casado, Rin me atormentou comparando-me com você. Nada do que eu fazia estava correto, nem mesmo aquilo que eu copiava de você. Deus, não imagina como eu o odiei por isso, Inuyasha!

— Imagino melhor do que julga. Em todo o caso, Rin sempre demonstrou tendência de romantizar meus atos. Depois que papai mor reu, eu me transformei numa espécie de âncora para ela. Quanto à opinião que ela tinha de você... — Inuyasha sorriu — ...não posso deixar de pensar que minha irmã estava com a razão. Para princípio de conversa, você se casou só por causa do dote que eu dei a ela, e não adianta negar. Conheço-o melhor do que imagina, Naraku Danner. E, para fim de conversa, metade desse dote foi gasto por você logo na primeira semana do casamento, e com quem? Com sua amante.

Um clique furioso, seguido do ruído de linha ocupada, foi a resposta que Inuyasha recebeu.

— O candidato à guarda de Shippou — murmurou ele, com amarga ironia. — E possui uma carteira de identidade que o qualifica como homem!

— Mas ele não gostava de sua irmã?

— Tudo indica que não, pois estava envolvido com outra mulher antes, durante e depois do malfadado casamento. Antes de Rin morrer, ele conseguiu, não sei como, que Shippou não fosse nomeado beneficiário, e o resultado é que ficou com todo o dinheiro do seguro. Enfim, tenho por cunhado o tipo mais acabado de crápula.

— Não entendo por que razão ele telefonou. Só para provocar?

— Com certeza. Estava meio embriagado, pelo tom de voz. Ele disse que nosso casamento é uma fraude, Kagome. Agora, mais do que nunca, temos de agir como amantes apaixonados. Você compreende, não é?

— Claro — Os olhos de Kagome pousaram com nostalgia na camisa desabotoada do marido, para desviarem-se em seguida. — Foi por isso que você me trouxe aqui, Inuyasha? Para que nossa representação na corte fosse mais convincente.

Ele pestanejou, mas preferiu ser honesto.

— Em parte sim. Queria que você parecesse feliz, para não correr o risco de perder Shippou.

— Entendo.

— O menino tem um sistema nervoso muito sensível, Kagome. Ele é o que os médicos chamam de vagotônico. Isso significa que qualquer aborrecimento, qualquer dorzinha de cabeça que ele tenha, se transforma num sofrimento. Além disso, Shippou é tudo o que me resta de família.

Ela se ergueu da cama, ajeitando a blusa. E disse, com voz suave:

— Engraçado. Uma vez eu pensei que fizesse parte de sua família. Isso prova como o dinheiro pode embotar as mentes. Acho que fiquei mais estúpida depois que enriqueci.

Inuyasha enfiou as mãos nos bolsos, detestando o sentimento de culpa que o afligiu naquele momento. Kagome era rica, milionária. Tinha o mundo nas mãos, e não precisava de nenhum marido pobre, muito menos de um filho adotivo. Mesmo que ele a quisesse para sempre, o que não era o caso, Kagome logo se cansaria de brincar de pobretona. De escândalos, bastava-lhe um na vida.

Sua única esperança agora era que Kagome não tivesse engravidado. Uma criança tornaria a vida de ambos insuportável, pois Inuyasha jamais daria as costas ao próprio filho. Ambos estariam num beco sem saída.

— De certo modo, foi uma sorte Naraku Danner ter-nos interrompido — disse, pensando em voz alta. — Creio que é melhor não corrermos mais nenhum risco, Kagome. Amanhã cedo conversaremos com mais calma. Era uma dispensa, e das mais solenes. Calada, ela terminou de abotoar a blusa e dirigiu-se para o seu quarto, sem saber como analisar as bruscas mudanças de atitude do marido. Por que ele tentara seduzi-la com tanto afinco? Por que a rechaçava agora, com medo de deixá-la grávida? Não havia resposta.

Na manhã seguinte, Kagome vestiu-se com todo o apuro e cuidado. Co locou o conjunto que usara no casamento, alegrando-o com uma blusa de seda colorida e um dos broches de Tia Kana, Fez um coque elaborado, puxou alguns cachinhos para frente e arrematou tudo com um chapéu elegante, de abas largas Em tudo e por tudo, ela se apresentou exatamente como era: uma mulher distinta e de alta estirpe, criada para ser uma dama.

Inuyasha, assim que a viu, não conseguiu mais despregar os olhos da esbelta silhueta da mulher.

— Você está... encantadora.

Kagome forçou-se a dar início à representação ali mesmo, e sorriu com graça:

— Obrigada, meu querido. É muito gentil.

Mas seus olhos traíam-na. Eram dois pedacinhos de gelo tingidos de verde. As bruscas variações de temperamento de Inuyasha haviam-na extenuado, e ela desistira por completo de enxergar o futuro com alguma esperança. A única força que a impelia para frente era a palavra em penhada. Iria ajudar Inuyasha a ganhar a custódia de Shippou, ainda que isso lhe custasse caro. Muito caro, na verdade.

— Você será capaz de enganar muita gente — retorquiu ele, com frieza. — Desde que ninguém chegue perto e não veja seus olhos.

— Oh, isso é simples de consertar.

Assim falando, Kagome puxou o petulante veuzinho do chapéu para baixo, escondendo os olhos.

— Pronto. Aí tem, Inuyasha: uma esposa bonita e feliz, pronta para o terceiro e grande ato da ópera.

Mas Inuyasha não gostou da brincadeira. Os contornos de seu rosto ganharam a dureza do granito, enquanto ele a fitava num silêncio reprovativo.

— Então, todo o mundo está pronto? — Shippou saiu do quarto e tentou dar um tom alegre à voz, mas falhou miseravelmente. Seus olhos escuros pulavam de Inuyasha para Kagome, ansiosos e tristes. — Oh, droga, para que fingir? Não estou nem um pouco feliz com esse julgamento.

— Nem nós, campeão. Por isso mesmo devemos nos apressar. Quanto mais depressa terminarmos com essa história, tanto melhor. — A mão morena de Inuyasha pousou por alguns instantes na cabeça do garoto. — Não se impressione muito lá na corte, meu velho. E mantenha os ombros aprumados. Nada desse ar abatido, vamos!

— Sim, titio.

Dentro em pouco os três tomavam o caminho do fórum, num silêncio carregado de preocupação e baforadas de charuto.

Naraku Danner era, sob todos os pontos de vista, exatamente o que Kagome esperava. Baixo, magro e ruivo, parecia ter um ego do tamanho do mundo.

— Então é você a última aquisição de nosso amigo Inuyasha. Taisho. Deixe-me avisá-la que essa encenação não vai funcionar. Ouça meu conselho, e volte depressa àquele bar de estrada onde ele a encon trou, meu anjo. — Ante o olhar de surpresa de Kagome, ele sorriu, mostrando uma fieira de dentes manchados de nicotina. — Oh, sim, madame. Andei investigando por aí, e lenho uma ou duas informações a seu respeito.

— Mesmo? Que interessante! — Kagome sentiu-se calma e segura. Na verdade, estava começando a gostar da história. —É verdade, Inuyasha me encontrou num bar. Mas eu não trabalhava lá.

— Não, é claro que não — riu Naraku, cujos olhos aguados espelhavam compreensão e piedade. — Bem, com licença. Até daqui a pouco, se não estou enganado.

Dizendo isso, ele se afastou com uma loura oxigenada, em adiantado estado de gravidez. A seu lado seguia um homem barrigudo, carregando uma pasta de documentos.

Inuyasha, que tinha ficado para trás a fim de estacionar o carro, surgiu no saguão e fez-lhe de longe sinal que o acompanhasse.

Minutos depois, todos se sentavam numa mesa comprida. Todos, menos o principal interessado. Shippou teria de esperar em outra sala e, por ser menor, não poderia participar das discussões, a não ser em caso de absoluta necessidade, e a chamado do juiz.

Após as formalidades iniciais, o juiz deu a palavra ao advogado de Naraku Danner; era o homem barrigudo que Kagome vira momentos antes, e chamava-se Harry Tillman.

O discurso foi longo, pomposo e floreado. O Sr. Tillman desfiou todos os benefícios que Naraku Danner concedera a Shippou, terminando por explicar que o garoto fora colocado, depois de penosos sacrifícios, numa instituição de ensino exemplar, a qual mais tarde proporcionaria uma brilhante carreira ao "prometedor jovem".

— Admitimos que o Sr. Danner não tem laços sanguíneos com o garoto, ao contrário do Sr. Taisho. Contudo, e apesar de seu casamento recente e precipitado, numa infeliz e vã tentativa de apresentar a esta corte um lar estável, o Sr. Taisho descuidou-se de um pequeno detalhe. Ele se esqueceu de manter sua jovem e formosa esposa dentro de casa.

Enquanto Kagome e Inuyasha trocavam um olhar perplexo, Harry Tillman tirou da pasta inúmeras fotografias de Kagome com tio Miouga: no avião, em Miami, na casa de tia Kana, e até numa loja onde eles estiveram.

— Eis, meritíssimo, o que essa... essa "senhora" faz quando seu marido não está por perto. Podemos afirmar, sem receio de equívocos, que o exemplo moral dessa jovem não é compatível com a excelente educação que o menino recebeu quando estava com meu cliente.

Inuyasha riu baixinho.

— Então o senhor acha graça nessas fotos, Sr. Taisho? O senhor era praticamente recém-casado, se não me engano, quando sua mulher foi a Miami com este cavalheiro.

— Você não é daqui, é? — redargüiu Inuyasha, reprimindo a custo o riso. — E pelo que posso adivinhar, o detetive que tirou estas fotos também não é.

— Não foi detetive nenhum — interpôs Naraku, agastado. — Foi um amigo que trabalhou como repórter na guerra da Coréia. Mas isso não faz a menor diferença, meu caro. As provas estão aí, e são irrefutáveis. Esse cavalheiro da fotografia é...

— Meu tio — completou Kagome, dirigindo um sorriso brilhante para o juiz.

Este, que a conhecia muito bem, devolveu-lhe o sorriso. Era evidente que ele também se esforçava para não explodir numa sonora gargalhada.

— De fato — disse o juiz, depois de alguns segundos, lutando vi sivelmente para manter-se impassível. — Miouga Rollins é o tio desta moça. Eu o conheço há anos.

— Se é assim, por que ambos têm sobrenomes diferentes? — inquiriu o Sr. Tillman, em cuja testa surgiram repentinas gotinhas de suor.

— Muito simples — explicou o juiz, com toda a paciência. — Miouga Rollins é irmão da mãe de Kagome. Seus informantes não verificaram antes?

— Mas Inuyasha encontrou a moça num bar! — protestou Naraku, inquieto.

— Se me dão licença — a voz calma e pausada do advogado de Inuyasha fez com que todos se voltassem para ele. — A sra. Taisho foi com o tio a Miami a fim de cuidar do inventário da tia-avó. Quanto à afirmação de que minha cliente teria trabalhado num bar, asseguro-lhes que nada poderia estar mais longe da verdade. Por essa época, a sra. Taisho era uma senhorita que tinha acabado de entrar na sociedade. Uma debutante, como se diz em Jacobsville. E, antes que se tirem mais conclusões precipitadas, deixem-me acrescentar que, com a morte da tia-avó, a sra. Taisho tornou-se herdeira de uma das maiores fortunas do país.

Naraku Danner ficou branco como uma folha de papel, enquanto fu zilava o pançudo advogado com o olhar.

— Estive conversando com Shippou antes de vir para cá — disse o juiz. Soube por ele que o casal Taisho vive em excelente harmonia. Mais: Shippou assegurou-me que é feliz na fazenda do tio, onde é cercado de carinho e conforto. Sua acusação de que esse casamento é fraudulento carece de fundamento, Sr. Danner.

— INUYASHA faria qualquer coisa para ficar com meu enteado. Qualquer coisa, até fingir que está bem casado. Quer uma prova? Pois pergunte ele mesmo se existe amor nesse casamento. Inuyasha jamais mente, isso eu posso atestar. Pergunte, senhor juiz, se Inuyasha ama a mulher.

Kagome se pôs de pé.

— Sei como meu marido se sente em relação a mim, Sr. Danner. Sei também como o senhor se sente em relação a ele. Shippou não passa de um simples peão para o senhor, mas para Inuyasha significa a própria vida. Ambos se dão às maravilhas, posso lhe garantir. Shippou receberá afeto e educação apropriada, não numa academia militar de disciplina férrea, mas numa escola de excelente formação, a de Jacobsville. Além disso, na academia militar não se toleram visitas, a não ser duas vezes por ano. Se faz tanta questão da custódia de Shippou, por que pretende enviá-lo a essa academia?

— É uma boa pergunta — interveio o juiz, dirigindo-se placidamente para Brad. — O que tem a responder, Sr. Danner?

— Minha mulher está grávida — Naraku Danner levou um dedo ao colarinho, afrouxando-o. — Shippou deixa-a muito nervosa. Não é isso, meu doce?

A loura oxigenada dirigiu-lhe um sorriso forçado e não respondeu. Parecia aborrecida e inquieta.

— Desculpe, Sr. Danner, mas não compreendo por que razão insiste tanto na custódia do garoto.

— Diga de uma vez, Brad, senão conto tudo — explodiu a loura, irritada. — Senhor juiz, ele quer o menino por causa do seguro. A parte que cabia a Shippou já foi gasta há muito tempo, e ele não tem meios de devolver o dinheiro.

— Pequena imbecil! — rugiu Naraku, passando de pálido a escarlate.

— Eu só disse o que devia — retorquiu a outra, dando de ombros. — Você morria de medo que seu cunhado descobrisse a verdade. Pois bem, agora ele já sabe, e daí? Não passam de míseros mil dólares, afinal. Se você não tivesse comprado aquele maldito barco, nós não estaríamos nesta bela encrenca financeira agora.

Formou-se um pequeno tumulto sobre a mesa, Naraku Danner uivando e tentando esganar a mulher, esta soltando gritinhos apavorados. O juiz teve que erguer a voz e bater na mesa várias vezes, até que a sentença foi pronunciada: Shippou ficaria com Inuyasha, e Naraku Danner teria de de volver os mil dólares do seguro num prazo máximo de seis meses.

Quando os três deixaram o fórum, a cabeça de Kagome girava num tor velinho.

— Kagome, estou tão aliviado! — Shippou ria e saltitava, abraçando um e outro sem parar. — Vou ficar na fazenda, vou ficar na fazenda! Não é sensacional?

— Absolutamente sensacional, querido.

— Você e tio Inu enganaram todo o mundo direitinho, não é mesmo? Todos pensaram que vocês formavam o casal mais feliz do mundo!

— É, essa foi a piada do século — tornou Kagome quietamente. Seus olhos opacos buscaram os de Inuyasha. — Parabéns. Você ganhou a batalha.

— Sim, ganhei. Agora tenho tudo o que queria.

Contente por ter um véu diante dos olhos, ela pôs um braço sobre o ombro de Shippou e deu-lhe as costas.

Inuyasha seguiu-os com passos inseguros. Não sabia com certeza identificar seu sentimento; seguramente, não podia qualificá-lo de feli cidade. Ganhara Shippou, é claro, e isso o alegrava. Mas algo empanava sua alegria e trazia-lhe um travo amargo à boca.

Seria a perda de Kagome? Não, não podia ser. Kagome era rica, e ele não. Tinham estilos de vida totalmente diferentes, e além disso haveria uma montanha de falatórios para perturbar-lhes a vida.

De repente, Inuyasha se deteve. Diabos, por que não pensara nisso antes? Os falatórios já deviam existir, é claro! Porque ele se casara com Kagome, e Kagome era milionária. Mesmo que viesse divórcio ou anulação, os mexericos continuariam. Diriam até que ele concedera em se separar mediante um gordo pagamento de Kagome. Haveria falatório com ou sem Kagome, essa era a verdade.

Riu alto e amargo antes de retomar o caminho. Tal pai, tal filho. Ouviria essa frase até o fim de seus dias, e não havia como livrar-se dela. Tal pai, tal filho.

De súbito, a censura pública que tanto o preocupava reduziu-se a um grãozinho insignificante de areia. Ele era ele, Inuyasha Taisho. Um homem razoavelmente decente, de caráter razoavelmente decente. Era a "sua" opinião que importava, não a dos outros. Estava satisfeito com o que semeara, plantara e colhera ao longos de seus trinta e cinco anos. E tinha plena consciência de que semeara bem.

Então, por que se preocupar com falatórios de gente que não tinha mais que vento na cabeça? Seus verdadeiros amigos, esses não o jul gariam mal. Se até Naraku Danner declarara em corte que ele não mentia!

Seus olhos fixaram-se na figura esguia de Kagome. Deus, como a queria! Acostumara-se a tê-la em casa, e gostava de vê-la às voltas com livros de receita, atrapalhada entre panelas e terrinas. Gostava de sentir o per fume de jasmim quando entrava em casa. Acima de tudo, gostava de ver-lhe o corpo de porcelana, estonteante em sua nudez, quente e macio, bom de pegar. Kagome possuía uma capacidade especial de despertar sua masculinidade, levando-o a um paroxismo de êxtase que fazia seu sangue ferver nas veias. Mesmo naquele momento, por exemplo...

Um filho. Deus, queria ter um filho. Dela, e de mais ninguém.

— Tio Inu, por que não vamos a uma pizzaria? Afinal, hoje é dia de comemorar!

— Boa idéia, campeão. Desse modo, Kagome está livre de cozinhar, ao menos por hoje.

— Que nada — disse Kagome, piscando para Shippou. — Seu tio está mais é farto de bifes queimados e maioneses desandadas...

Shippou soltou uma risada gostosa, mas ela não conseguiu acompanhá-lo. Sabia que lhe restava pouco tempo ao lado dos dois. Muito pouco tempo.


oláaaaa pessoal, e já estamos na super reta final, este é o PENÚLTIMO CAPÍTULO, queria saber o que acharam até agora, e pedir um grande favor, estou pensando em postar outra Adaptação e queria vou por dois resumos de duas histórias e deixar a critério para vocês escolherem.

Tinker: Cabeça duraaaaa esse Inu, mas no fundo, se bem que não tão fundo assim hahahahaha é totalmente LOUCO nela né? O que achou desse penúltimo cap? como disse acima vou colocar dois resumos de duas possíveis adaptações, se tiver interessada, vote, vou ficar mt feliz.

neherenia sereniti : Parece que o Inu ta mais entregue do que ele próprio esperava hahahahaha e eesse padrasto é um vermeee mesmo npe? hahahahahah vou colocar dois resumos de uma próxima adaptação, se tiver interessada em ler alguma delas, voteee hahahah beijinhos

HISTÓRIA UM - TUDO POR VOCÊ

Estar sempre viajando a trabalho é a desculpa perfeita para Inuyasha Taisho se livrar de mulheres que desejam prendê-lo. Contudo, ele fica extremamente intrigado quando volta para sua cidade natal e conhece Kagome Higurashi. Depois de uma infância nômade, Kagome está feliz em fincar raízes. Determinada a ser independente, ela acredita que não precisa de homem algum. Porém, quando Inuyasha oferece seis semanas de sexo sem compromisso, Kagome fica tentada a aceitar. Ter um caso passageiro parecia o acordo perfeito... até perceberem que esse relacionamento não tinha nada de casual.

HISTÓRIA DOIS - MARIDO NO PAPEL

Onde está escrito que a filha de um fazendeiro tenha que casar-se com um texano alto e bonito, para não perder o rancho? Acatando a vontade de seu pai, Kagome Higurashi descobriu que seu pretendente neste matrimônio de conveniência não era outro que o vaqueiro mais sexy do Texas: Inuyasha Taisho!

VOTEM GENTE, NA HISTÓRIA UM OU NA HISTÓRIA DOIS.

BEIJINHOOOOS!