Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos, mas sempre no horário
Peixe fora d'água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro-sangue puxando carroça
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Se for por amor às causas perdidas.
Dom Quixote – Engenheiros do Hawaii
Andou até a sala e sentou-se no sofá. Andou não. Rastejou-se. A cada dia que se passava sentia-se mais cansado, mais debilitado. Pior.
Viver sozinho naquela casa, por menor que ela fosse, não ajudava muito. Claro que não, só ajudava a piorar seu já deplorável estado de espírito.
Não tinha mais amigos. Dois deles estavam mortos e um era um traidor nojento e vil. E ele restara... Perdendo a identidade a cada dia, seu lado humano sucumbindo à fera maldita que existia dentro dele e sem forças mais para lutar contra aquilo.
Sim, ainda recebia visitas esporádicas de Hermione e Severus... Mas Severus, inevitavelmente o odiava, deixando Hermione na incômoda posição de mediadora entre um velho amigo e seu marido.
Às vezes chegava a pensar que tudo aquilo não passava de um pesadelo horrível e que aquela carta amaldiçoada jamais tinha chegado às suas mãos. Ou que Sirius jamais tivesse desaparecido por detrás daquele véu no Departamento de Mistérios. Ou então que um dia despertaria com a notícia de que os Potter haviam fugido do país na véspera de quando teriam sido atacados por Voldemort. Ou ainda, que jamais havia sido mordido quando criança por um maldito lobisomem, fato que selou seu destino.
Mas a realidade sempre o alcançava... As noites de Lua Cheia sempre chegavam... Os Potter haviam sido mortos por Voldemort há mais de vinte e cinco anos... Sirius deixara este mundo para sempre naquela noite fatídica há 11 anos... Harry James Potter se entregara a um caminho sem volta no Brasil... A vida era um inferno e estar morto seria um alívio fantástico.
Não era público. Apenas ele, Hermione, Severus e Dumbledore sabiam que era Voldemort o cúmplice de Harry. E com a discrição destes era possível contar. Nem mesmo Arthur Weasley, cuja família fora dilacerada por esses dois amaldiçoados, poderia saber.
Perdido em pensamentos, Remus mal percebeu que em sua lareira, a cabeça flutuante de Dumbledore o observava há algum tempo. Não se assustou, apenas sorriu para ele, cansado. Endireitou-se na poltrona.
- Alvo... Que surpresa boa... – sua voz saiu tão pesada e rouca que quem a escutasse sem conhece-lo o julgaria um ancião.
- Pena que as circunstâncias para que eu entre em contato não sejam das melhores, Remus... Eu preciso te pedir um favor. – a voz do ainda diretor de Hogwarts comprovava que ele era humano, devido à impressão de estar velho demais para estar vivo.
- Sabe que pode contar comigo, Alvo, para aquilo que precisar e que estiver ao meu alcance.
- Sim, mas talvez te pedir isso seja mais que abusar da sua boa vontade... Mesmo assim, preciso te pedir.
- Desta forma você me assusta, Alvo. Há algo errado? – a pergunta soava absurda diante de tantas coisas erradas que aconteciam todos os dias.
- A pequena Clair... Eu preciso que cuide dela... Por tempo indeterminado.
Uma sombra tomou conta do rosto de Remus. Respeitava demais o diretor, um dos bruxos mais poderosos que o mundo mágico conhecia, de uma inteligência invejável e uma sabedoria que ia além daquilo que se poderia conhecer... Mas será que ele não se lembrava que estava falando com uma aberração?
- Alvo... Você poderia me explicar porque quer deixar a menina comigo? Afinal... A lua cheia é uma realidade da qual não podemos nos esconder.
O diretor sorriu e suspirou.
- Clair é uma menina adorável, Remus... Mas temo que, sob minha custódia, ela possa estar revelando mais do que deveria a Harry e Tom. E há mais coisas envolvidas, mais do que eu posso revelar. Existem forças poderosas por trás disso tudo e objetivos tão sombrios que nem eu saberia explicitar. Clair tem um notório poder de proteção ao seu redor, mesmo em seus dias mais famintos você seria incapaz de machucá-la. – encerrou o diretor, dando a entender que havia algo de errado com a menina e que ele, o amaldiçoado lobisomem, tinha sido o premiado com a guarda daquele pequeno demônio...
Resignado, Remus respirou bem fundo, respondendo naquele fôlego.
- Claro, Alvo... Pode trazer a menina... Só preciso arrumar a casa de forma a hospedá-la apropriadamente. Faz tempo que não existem crianças nesta casa.
Aquele era um assunto tão doloroso que Remus pensava todos os dias em lançar em si mesmo um feitiço da memória, tentando se esquecer que Nymphadora Tonks algum dia existira...
- Ela está viva, Remus... – Dumbledore lhe adivinhara os pensamentos, falando com brandura.
- Eu sei... Mas... Não é a mesma coisa... – ele apenas sorriu. Um sorriso forçado, cheio de tristeza.
No auge da guerra... Comensais revoltados com o destino vil que se acometera de seu mestre ainda lutavam contra os guerreiros de Dumbledore. Remus escondera Nymphadora do mundo, estava grávida, seu filho nasceria e seria uma esperança entre sua vida de angústias...
Deu à luz, o menino lindo, forte, chamado Sirius em homenagem ao amigo morto. Nymphadora estava tão feliz que mal se continha em si. Mas foram atacados em casa. O filho morto e Nymphadora vítima de um feitiço da memória tão poderoso que ela nunca mais o reconheceu.
Não, aquele não era seu primeiro filho. Havia uma menina... Da idade de Harry...
Olhou as folhas, Severus mandou de volta a carta que Harry o escrevera dez anos atrás. Apenas por aquele relato ele não odiava Harry... Ele se movera contra os trouxas por amor... À sua filha, Helena.
Sentada diante de Severus, que lia o "Profeta Diário" como se ela nem estivesse ali, nunca o café da manhã fora tão silencioso e tenso. Era como se ele soubesse do que ela tinha feito, mas isso era impossível... Sim, ele era formado em Leglimência, mas ela saberia se ele lesse seus pensamentos... Mesmo porque, eles prometeram jamais desconfiar um do outro.
Ele quebrou o incômodo silêncio que se instaurara entre eles.
- Dumbledore mandou uma coruja esta manhã. – disse por trás do jornal, secamente, lembrando muito sua época em Hogwarts. Aquele tom cortou o coração de Hermione.
- E o que dizia? – ela respondeu simplesmente, bebendo seu café, o rosto sumindo na xícara.
- Que você está em perigo mais iminente do que Malfoy... – ele foi seco novamente. Definitivamente ele sabia de algo.
Olhou para ele. Percebeu a desconfiança em seus olhos.
- Se está tão desconfiado, leia minha mente. – ela foi seca em retorno, a convivência a ensinara a ser seca quando ele o fosse. Se perdesse a calma, ele teria certeza em suas desconfianças, afinal, quando ela estava certa, nunca perdia a calma.
- Não desconfio de nada.
- Você está seco... Só esteve assim quando Victor veio me visitar no verão retrasado.
Pimba! O ponto que não se deveria tocar! Só foi se lembrar daquilo tarde o suficiente para se arrepender.
- NÃO toque no nome dele novamente!!! – os olhos de Severus se inflamaram de tal forma que, fosse com seus alunos, eles já teriam corrido dele como o diabo foge da cruz.
Não adiantava dizer que a desconfiança e os ciúmes dele eram infundados. Apesar de Victor Krum ainda demonstrar sentimentos por ela, Hermione jamais retribuíra senão na forma de uma amizade formal.
- Sinto muito, mas sabe o quanto me aborrece quando principia com suas desconfianças para cima de mim. Em dez anos de casados, nunca te dei motivos para desconfiar de mim. Nunca.
- Com Krum eu admito que são ciúmes tolos, Hermione... Mas Potter...
Irritada, ela se ergueu da mesa, batendo as mãos sobre o tampo, em fúria, interrompendo a linha de pensamento dele.
- É muita cretinice a sua achar que eu seria capaz de me envolver com um assassino, inescrupuloso, baixo, vil, nojento...
Os olhos de Snape se estreitaram perigosamente. Uma certeza horrível, triste, porém óbvia, fora explicitada naquela reação. Ela perdera a calma.
- Eu já tenho minha resposta. – ele pegou seu jornal, levantou-se da mesa e se dirigiu à lareira. Jogou o Pó de Flú e clamou bem alto "Hogwarts", sumindo nas chamas. Hermione sentou-se e afundou o rosto entre as mãos, desatando em choro desesperado. Potter acabaria destruindo sua vida de uma forma pior do que se a matasse...
- Não a culpe, Severus... Harry hoje é tão poderoso e ardiloso quanto Voldemort fora um dia. Eles foram amigos na adolescência. E as trevas causam certo fascínio.
Snape estava sentado diante de Alvo Dumbledore, que falava aquelas palavras como se estivesse se dirigindo a um filho desolado.
- Eu não a culpo, Alvo, eu realmente não a culpo... Mas... Numa hora como essa eu realmente esperava honestidade vinda dela. Somos ou não somos marido e mulher???
Alvo não respondeu. Levantou-se de sua cadeira e foi até Snape, colocando a mão em seu ombro.
- Lembra-se quando você virou-se para mim, ainda era um jovem... E disse que nunca seria capaz de se envolver com Voldemort? Na época você acabara de adquirir a Marca Negra...
Severus ponderava às lembranças. Eram dolorosas, mas sabia onde ele queria chegar. Sempre confiou em Dumbledore tal como confiaria em um pai, e aquele homem sabia que ele tinha se tornado um Comensal. Ainda assim continuou confiando nele... Mesmo com a mentira.
- Algumas verdades são tão terríveis para a pessoa quanto para os demais envolvidos, Severus... Ela própria deve estar apavorada com a situação. Por isso mentiu e por isso perdeu a calma. Ela precisa de você agora... Mais do que nunca. E se você der as costas, estará dando a brecha que Harry precisa para arrebatá-la para sempre.
Suspirando, Alvo bateu duas vezes, de leve no ombro do professor, se retirando e o deixando com seus pensamentos.
Após aquela noite de sonhos perturbados, Draco passou a olhar com maior desconfiança para Daemon. O moreno parecia carregar consigo um ar de quem sabia o que ele tinha sonhado, além de olhar para ele com um fascínio assustador.
- Notícias de Potter? – quase caiu da cadeira quando Daemon quebrou o silêncio. Estivera tão absorto em seus pensamentos que a voz grave e forte dele o assustou. Recompôs-se rápido o suficiente para que ele não percebesse seu estado.
- Não. – respondeu simplesmente. Daemon iria falar mais alguma coisa, mas os berros de Narcissa irromperam no ar. O príncipe do inferno deu um meio sorriso.
- Nem conversar podemos mais...
Draco não respondeu. Levantou-se e foi até um armário lacrado magicamente. Tirou de dentro uma seringa e uma poção. A mesma que ministrava todos os dias à mãe, para que ela continuasse viva, ali, com ele. Dane-se se ela estava sofrendo... Sem ela, tinha certeza, não tinha mais motivos para nada.
Não percebeu o leve movimento de dedos que Daemon fez, apontando para o frasco. Não percebeu que por uma fração de segundos a poção tomou uma coloração esverdeada. Não percebeu o sorriso maldito que Daemon dava enquanto se levantava da mesa e se dirigia a seu quarto.
- Você é doente, sabia? – falou para Draco quando passou por ele. Mas não havia acusação nem reprovação em sua voz. Era uma voz inflexível, seguida por aquele sorrisinho sádico.
Draco entrou no quarto e ouviu, como de costume, os impropérios que a mãe berrava contra ele. Preparou a seringa com a poção e imobilizou a mãe, injetando a poção em suas veias. Mas ela não ficava catatônica como de costume...
Os olhos de Narcissa tomaram um ar doentio. Ela sorriu e ergueu os braços – que deveriam estar imobilizados – para frente.
- Lucius... – ela murmurou fracamente, dando um sorriso fraco. – Você veio me buscar, meu querido...
O rapaz se desesperou. Havia algo errado! Sua mãe não estava reagindo como deveria, ela deveria estar se imobilizando, ficando quieta e inofensiva e não continuar falando. Olhou para onde ela erguia os braços e só viu a parede do quarto.
- MÃE!!!!!!
Draco jamais seria capaz de ver que Daemon estava ali, utilizando-se da imagem de Lucius Malfoy, os braços estendidos na direção de Narcissa, que se levantava debilmente da cama.
- NÃO!!!!! – o jovem loiro se jogou sobre a mãe, não poderia perdê-la. – NÃO ME DEIXE, MÃE, POR FAVOR!!!
A voz de Lucius foi ouvida na mente de Draco. "Deixe-a, Draco". Mas não queria, não podia! Ainda tentava segurar a mãe, mas Daemon foi novamente ardiloso. Deu a Narcissa uma força que ela já não tinha. Apenas o suficiente para que ela se desvencilhasse de Draco. Ela se levantou da cama, indo até a imagem invisível de Lucius e abraçando o nada, caindo imediatamente ao chão. Draco correu até ela, segurando-a nos braços. Seu corpo estava gelado. Ela não respirava. Os olhos, abertos, não tinham vida, apesar de terem um brilho de felicidade que ele não compreendia.
- MÃÃÃÃÃÃE!!!!! NÃÃÃÃÃÃO!!!!!!
Neste momento a porta se abriu e Daemon entrou. Seus olhos denotavam incredulidade. Foi até eles e colocou a mão no pescoço dela. Narcissa estava morta.
Pegou Draco por debaixo dos braços, tentando afasta-lo dali.
- Vamos, não pode fazer mais nada por ela...
- NÃO!!! MÃE, VOLTAAA!!!!! – Draco se debatia e berrava com fúria. Aquilo não podia estar acontecendo, ainda estava naquele maldito pesadelo, seu pai pregava peças em sua mente. Sua mãe não poderia estar morta.
- Ela está morta, Draco.
- NÃO, DAEMON, NÃO!!!! – tentava se livrar dos braços do outro que o arrastava para fora do quarto. O descontrole tomando conta dele. Se debatia de todas as formas, chegando a bater em Daemon, que não o soltava. – ELA NÃO PODE MORRER!!! NÃO!!!!!
Daemon segurou forte Draco. A onda de fúria e descrença substituídas por uma onda de tristeza, abatimento, desalento e desespero. Pela primeira vez em quase uma década, o jovem filho único de Lucius e Narcissa Malfoy chorava. Chorava nos braços do assassino de sua mãe, sem jamais desconfiar daquilo.
