SORRISOS

Parte 2

O plano

Ron e Hermione chegaram à sala e viram que não estavam sozinhos. Mad-Eye Moody estava sentado no sofá, seu olho mágico os seguindo desde a escada. Bill e Fleur encontravam-se em um canto, e Ginny foi sentar-se perto de Fred e George.

- Acho que vamos ter que esperar um pouco mais pelo almoço – a Sra. Weasley disse, dirigindo-se a Ron e Hermione.

- Vamos começar então? – Mad-Eye disse, batendo sua perna de pau no chão.

Ron olhou para Hermione intrigado. Começar o quê? Ela parecia saber tanto quanto ele.

- Remus não deveria estar aqui também? – o Sr. Weasley perguntou polidamente.

- Ele disse que não poderia vir. Tonks não estava passando bem – a voz de Kingsley Shackebolt ecoou pela sala. Ron não havia visto que ele estava ali.

- O que ela tem? Não seria melhor –

Mad-Eye interrompeu.

- Podemos seguir sem eles. Eles já sabem do plano, e Tonks só está com o estômago ruim, nada que algumas poções e um pouco de repouso não dêem um jeito. Ela estará bem para seguir com o plano.

A Sra. Weasley suspirou, mas não disse nada. Ron não fazia a menor idéia sobre o que seria o tal plano, mas tinha certeza que sua mãe não o aprovava completamente.

- Pois bem. – o Sr. Weasley falou numa voz clara – Nós temos um plano pra buscar Harry. Como vocês sabem, suspeitamos que Você-Sabe-Quem está interferindo no Ministério. Com isso, não podemos trazer o Harry pra cá por Flu, Aparatação Acompanhada ou Chave de Portal.

- Isso quer dizer que... que Você-Sabe-Quem tomou conta do Ministério? – Ginny perguntou com a voz fraca. Foi Mad-Eye quem respondeu.

- Não. Ainda não. Mas acreditamos que Pius Thicknesse está com os Comensais, se por vontade própria ou por Imperius, não sabemos. Mas ele é Chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, e isso torna as coisas mais difíceis para a Ordem.

- Graças a isso temos um novo plano – Kingsley disse – Mas para executá-lo vamos precisar de alguns de vocês.

A Sra. Weasley assoou o nariz, falando alguma coisa sobre preparar sanduíches e saiu da sala, insistindo para que Ginny fosse com ela. Ginny a seguiu batendo os pés e resmungando e só quando elas estavam com as portas da cozinha fechadas foi que Kingsley continuou.

- Nós vamos trazer Potter pra cá voando. Usaremos vassouras, testrálios e a moto de Sirius, e Harry irá para a casa dos pais de Tonks. Para fazer isso de maneira segura, precisaremos usar iscas, e para isso precisamos de vocês.

- Nós vamos! – disse Fred, levantando-se, visivelmente animado por estar tomando parte nos planos da Ordem.

- Sim! Não importa o que seja Mad-Eye, pode contar com a gente! – George completou.

- Calma rapazes. Primeiro é preciso que vocês saibam o quanto essa missão é perigosa. Nenhum de vocês faz parte da Ordem da Fênix, e teoricamente nenhum de vocês deveria tomar parte nisso. Vocês são jovens e é preciso lembrar que estamos lidando com Você-Sabe-Quem aqui. Ele não pensa na hora de matar e muitos dos seus Comensais da Morte são tão cruéis quanto ele. É possível que algum de nós não volte vivo, e antes de tudo é preciso que vocês entendam o perigo dessa missão. Não importa que alguém se machuque ou pereça; nossa missão é trazer Harry a salvo e é nisso que devemos nos focar. Vocês entendem isso?

Ninguém falou nada, mas todos pareciam estar concordando com a cabeça. Ron olhou para os gêmeos e viu que eles estavam sérios. Mais ao canto, Bill tinha um de seus braços em volta dos ombros de Fleur. Ron viu Hermione a seu lado e sentiu vontade de fazer o mesmo, mas controlou seu impulso a tempo. Eles poderiam não voltar vivos...

- Ótimo! – Mad-Eye continuou – Ao chegarmos na casa de Potter, seis pessoas – ou seja, Fred, George, Ron, Hermione, a senhorita Delacour e Mundungus Fletcher, tomarão um copo de poção polissuco e se transformarão em Harry.

Hermione engoliu seco.

- Harry não vai aceitar – ela disse – Ele vai dizer que é arriscado demais!

- Ainda bem que não é ele quem decide as coisas, não? – Fred respondeu, sorrindo.

- Ele não vai ter outra escolha, Hermione. – O Sr. Weasley encerrou a questão.

- Cada um dos sete Potters saírão da rua dos Alfeneiros voando, com um protetor. Não há como os Comensais da Morte saberem quem é o verdadeiro Potter. E enquanto vocês estiverem voando, não há perigo de serem mortos porque Você-Sabe-Quem quer matar Potter em pessoa.

- Ah, isso torna tudo mais fácil – Ron murmurou para Hermione, que não conseguiu reprimir um sorriso nervoso.

- O plano será colocado em ação daqui a uma semana. Enquanto isso... vigilância constante! – Mad-Eye terminou, amarrando sua capa de viagem e se despedindo de todos, seguido por Kingsley.

Todos sentados à mesa na hora do jantar conversavam animadamente, com exceção de Ginny; ela parecia chateada por ter sido deixada de fora. Ron olhou para Hermione, sentada ao lado de sua irmã e desejou que ela também tivesse sido excluída da missão. Mas ele sabia que Hermione era maior de idade e não aceitaria ficar esperando n'A Toca enquanto todos arriscavam seus pescoços para buscar Harry. Pensou em discutir com ela para tentar convencê-la a ficar, mas o único argumento que ele tinha eram as palavras de Mad-Eye Moody: é possível que algum de nós não volte vivo... e só de pensar que quem poderia não voltar era Hermione...

- Roniquinho, o guisado está sem tempero? – A Sra. Weasley perguntou. Aparentemente, ela estava observando Ron brincar com a comida no prato há algum tempo.

- Não mãe... está... está ótimo! – ele sorriu, incerto, e concentrou-se em terminar o jantar.

- Mas vocês já vão? – a voz da Sra. Weasley ecoou novamente, assim que Fred e George se levantaram da mesa.

- Negócios, mamãe, negócios. – Fred respondeu.

- Não podemos deixar a loja apenas com os funcionários por muito tempo.

- Mas voltaremos amanhã à noite, para o jantar!

- Tem mais alguém trabalhando lá além daquela garota, Verity? – Ginny perguntou.

- Mas é claro, maninha. Não podemos nos dar ao luxo de deixar nossos clientes esperando enquanto visitamos nossa família –

- Ou vamos a casamentos – George completou.

- Ou nos envolvemos em missões de resgate perigosas.

- Mas Verity ainda é a funcionária mais bonita. Uma pena que ela não queira misturar a vida pessoal com o trabalho.

A Sra. Weasley tossiu.

- George, eu queria que você fizesse um favor pra mim. – ela disse, se dirigindo a um dos gêmeos.

- Eu não sou George, sou Fred.

- Pois bem, Fred –

- Brincadeira, eu sou o George!

- Hunf. De qualquer maneira, Ginny precisa de vestes novas e eu não gostaria de levá-la ao Beco Diagonal, então anotei todas as medidas aqui – ela retirou um pergaminho do bolso interno de suas vestes – e gostaria que vocês providenciassem isso pra mim. E – ela olhou para Ron – não seria de todo ruim que eu medisse Ron também, para ter certeza que ele não precisa de vestes novas. Hermione querida, você precisa de alguma coisa?

Hermione empalideceu e não respondeu. Olhou para Ron, determinada. Ron estremeceu, mas sabia que havia chegado a hora. Engoliu seco e falou em voz baixa:

- Mãe... nós não vamos voltar a Hogwarts.

- Desculpe Roniquinho, não entendi.O que você disse?

Ron olhou em volta. O Sr. Weasley o encarava incrédulo, bem como Bill. Fred e George tinham a surpresa estampada no rosto. Ginny derrubou o garfo no chão.

- Nós... isto é, Hermione e eu não vamos voltar a Hogwarts. Harry também não.

Ele olhou para Hermione, que sorriu para ele.

- Roniquinho monitor não vai voltar a Hogwarts? – foi Fred quem falou, e provavelmente pretendia continuar, mas parou ao ver o olhar da Sra. Weasley.

- E o que faz vocês pensarem que podem abandonar seus estudos? Arthur e eu não permitiremos isso e –

- Mãe... eu sou maior de idade, bem como Hermione e é uma questão de dias pro Harry fazer dezessete.

- E eu posso saber o que os três pretendem fazer se abandonarem a escola?

- Dumbledore nos deixou... eu quero dizer, Dumbledore deixou uma missão para o Harry, e nós vamos com ele.

Ninguém falou por alguns minutos. A Sra. Weasley parecia absorta em pensamentos. Quando ela finalmente pareceu ter voltado a si, sua voz era clara e grave.

- Dumbledore? Por que Dumbledore deixaria uma missão a Harry?

- Eu não sei mãe, e nós não podemos falar sobre isso.

- Vamos ver – ela respondeu – e Hermione, o que o Sr. e a Sra. Granger acham disso?

Hermione arregalou os olhos. Ron percebeu que ela estava prestes a chorar novamente e teve que lutar para resistir ao impulso de dar a volta na mesa e abraçá-la. Lançou um olhar mortal à sua mãe, no entanto, agradecendo internamente por ela não estar prestando atenção nele.

- Eles... eles não aceitaram muito bem, mas não podem fazer nada, Sra. Weasley. Apesar deles não entenderem a maioridade bruxa, eles respeitam e aceitam que este é meu mundo agora, e não há nada que eles possam fazer. Eu vou com Harry, e até onde sei, Ron também vai.

A Sra. Weasley olhava de um para o outro, e resolveu procurar apoio.

- Arthur –

- Mãe! Nós tomamos nossa decisão. Não há nada que vocês possam fazer, nós somos maiores de idade.

O Sr. Weasley limpou a garganta antes de tomar parte na conversa.

- Molly, eles têm razão. Nós não podemos impedí-los. – Ron sorriu – Mas isso não significa que não possamos tentar dissuadí-los. Por hora, está tarde, e ainda temos um casamento pra organizar, então vamos esquecer esse assunto.

Ron olhou para o Sr. Weasley e sorriu, mas ele não sorriu de volta. Sua expressão era grave, preocupada. Abaixando a cabeça e levantando-se, Ron ajudou a limpar a mesa, e ao passar por Hermione, acariciou seu braço, desejando uma boa noite.


Meia hora depois, Ron estava deitado quando Hermione bateu na porta de seu quarto. Escondeu o livro rapidamente embaixo do travesseiro e pediu que ela entrasse.

- Estava dormindo?

- Não, não. Estava só... – ele colocou a mão em cima do travesseiro onde Doze Maneiras Infalíveis de Enfeitiçar Bruxas estava escondido – descansando.

- Lupin está lá embaixo. Sua mãe está tentando convencê-lo a falar com a gente sobre Hogwarts. Ela imagina que ele pode convencer Harry a não abandonar os estudos, ou pelo menos descobrir o que pretendemos fazer.

- Você foi brilhante enfrentando minha mãe lá embaixo. Ela ficou sem palavras, sabia que você estava certa.

Hermione sorriu, incerta.

- Você precisa falar com Fred e George sobre o vampiro. Lupin me perguntou sobre meus pais... sobre a proteção que a Ordem poderia oferecer a eles.

Ron olhou para ela em busca de mais lágrimas em seus olhos, e mesmo que envergonhado disso, esperançoso de que elas estivessem lá para que ele pudesse abraçá-la novamente, para que ele tivesse um motivo para ficar mais perto dela. Hermione, no entanto, parecia determinada a não deixar que o assunto a abalasse ainda mais.

- Eu disse a ele o que fiz, e ele pareceu impressionado. Disse que era melhor que Molly continuasse pensando que eles estavam sob proteção da Ordem, e perguntou o que nós vamos fazer com o Harry.

- O que você disse? – ele perguntou rapidamente.

- Que não podíamos dizer.

Antes que Ron pudesse responder, ouviram batidas na porta. Era o Sr. Weasley.

- Ron, Hermione – ele disse, cumprimentando-os – se importam se eu conversar um pouco com vocês?

Eles não fizeram nenhuma objeção. O Sr. Weasley se sentou na cama de Ron, ao lado de Hermione.

- O que vocês disseram hoje no jantar foi algo muito sério. Eu não sei se é a coisa certa a ser feita – Ron fez menção de interromper, mas o Sr. Weasley levantou uma mão, indicando que ainda não havia terminado – Mas vocês têm razão em uma coisa: Molly e eu não podemos impedir que vocês saiam de casa. – ele olhou para Hermione – E acredito que o Sr. a Sra. Granger também não tenham essa opção, especialmente diante das circunstâncias especiais em que se encontram. – Hermione abaixou a cabeça, e Ron olhou feio para seu pai. – Visto que vocês estão decididos a ir com Harry para onde quer que seja, eu me sinto na obrigação de perguntar o que vocês vão fazer, e oferecer toda a ajuda que possam precisar e que eu possa oferecer.

Ron e Hermione se olharam. Era claro que eles esperavam um bombardeio de perguntas, mas Ron nunca havia imaginado que seu pai aceitaria que ele iria embora de casa em uma missão perigosa tão facilmente. Apesar que ele não sabia que se tratava de uma missão perigosa, e que era provável que tanto ele quanto Harry e Hermione morressem na tentativa de destruir os Horcruxes.

- Dumbledore deixou uma missão para Harry, Sr. Weasley.

- E pediu para que Harry não falasse sobre isso com ninguém exceto Hermione e eu. Desculpa pai, mas nós não podemos dizer do que se trata.

O Sr. Weasley suspirou.

- Muito bem.

Ron o interrompeu.

- Mas tem algo que o senhor pode fazer para nos ajudar. Quando Harry não voltar a Hogwarts e eu também não, todos vão pensar que estou com ele e isso pode criar problemas pra família, não pode?

O Sr. Weasley concordou, e Ron contou a ele sobre a idéia de fazer o vampiro da casa se passar por ele com sarapintose, e sobre como ele pensou que Fred e George poderiam ajudá-lo com isso. O Sr. Weasley achou a idéia fantástica, e disse que falaria com Fred e George no dia seguinte para que eles já começassem a transformação. Com isso, desejou uma boa noite aos dois e saiu do quarto.

- Acho que também vou para o meu quarto. Ainda tenho algumas coisas para pesquisar. Você se importa se a partir de amanhã eu trouxer meus livros para o seu quarto? Ginny fica tentando ver o que estou fazendo e é horrível não poder contar pra ela...

Ron sorriu.

- Claro... sem problemas.

Ela sorriu de volta.

- Boa noite, então!

Hermione saiu do quarto, e Ron se jogou em cima de sua cama, pegando o travesseiro e abraçando-o, desejando com todas as suas forças que ele fosse Hermione deitada em sua cama, os cabelos cheios escondendo seu rosto, o cheiro doce do seu perfume anulando todos os seus sentidos...


Nota da autora: Essa fanfic foi escrita em memória de Mad-Eye Moody, e é dedicada a todos aqueles que, como eu, lamentam o fim dessa personagem incrível de J.K. Rowling.