Capítulo 2
Não-se-esqueça-de-mim
Às vezes dá como um frio
É o mundo que anda hostil
O mundo todo é hostil
De onde vem o jeito tão sem defeito
que esse rapaz consegue fingir?
Olha esse sorriso tão indeciso
Está se exibindo pra solidão
Hatori não sabia o que sentir, ali olhando para Kana, totalmente paralisado. Tudo era uma mistura confusa de sentimentos que se sobrepunham uns sobre os outros. Carinho, preocupação, alegria, tristeza, amor e... muita saudade. Em passos lentos, aproveitando cada segundo da presença dela, se aproximou da cama de Kana.
Ela dormia tranqüilamente, a bochecha esquerda levemente roxa e inchada. Ele tocou o ferimento, preocupado, mas ela não se moveu. Não deveria estar doendo.
-Kana...- ele murmurou. Depois de tanto tempo... depois de tanta coisa... reencontra-la daquela maneira...
As lágrimas vieram calmamente, e por isso mais amargas. Apenas de olhar para ela...
-Se alguma coisa tivesse te acontecido, ainda mais por minha causa... - ele engasgou por entre as lágrimas - Eu jamais me perdoaria.
Nunca antes ele tinha entendido Kana, como naquele momento. Agora sabia que, quando ela lhe dissera que o melhor era não terem se conhecido... não fora por ela. Fora por ele. Ela não se arrependia de tê-lo, ela apenas achara que se não tivessem se conhecido, ele não teria se machucado. Por que não pensara nisso antes? Seria pelas palavras de Akito? Ou por medo?
-Se eu tivesse percebido! Mas, Kana, você não tinha reparado que era exatamente o melhor que já me aconteceu?
Ele encostou a testa na testa de Kana, como ela costumava fazer, segurando as mãos dela. E finalmente disse à ela o que deveria ter dito anos atrás:
-Eu também agradeço por ter conhecido Kana-san. Agradeço todos os dias... apesar de tudo o que aconteceu... apesar de todo o sofrimento... eu sou feliz por amar Kana Souma, e por um dia ter sido amado por ela. É algo de que jamais vou me arrepender.
E, sem conseguir se controlar, a beijou. Um beijo suave, a boca sobre os lábios suaves e imóveis dela. E ainda assim, sentiu que aquele era o segundo melhor beijo que já tivera. O primeiro... bem, o primeiro sendo o primeiro deles. Um beijo que ela não se lembrava, como não se lembraria deste. Mas, só porque ela não se lembrava, não significava que não tivesse existido... Significava?
-Hatori... - ela sussurrou, fazendo-o dar um pulo e se afastar surpreso.
Mas, nada mais aconteceu. Kana continuou dormindo, sem consciência que, pela última vez, ele pudera lhe dizer tudo o que sentia. Com o coração acelerado no peito, Hatori saiu apressadamente do quarto, sem saber o que fazer ou o que pensar.
XXX
-Finalmente resolveu despertar.- a voz suave da sorridente enfermeira chegou até ela, antes que a imagem desta arrumando o quarto, pudesse se formar diante de seus olhos.
-O que... o que aconteceu?- a garota perguntou surpresa e confusa, cobrindo os olhos com a mão, quando a enfermeira abriu as cortinas da janela.
-Oh, querida. - a enfermeira, ainda sorrindo bondosamente, sentou a seu lado na cama. - Você sofreu um pequeno acidente, mas já foi tratada e está maravilhosamente bem. Não precisa se preocupar, apenas descance um pouco, as 24 horas de recuperação ainda não estão completas.
-Que horas são?- Kana perguntou confusa, tentando encontrar um sentido em tudo aquilo. Olhando pela janela, reparou na posição estranha do sol.
-Nove da manhã.- a enfermeira respondeu, se levantando.- Você dormiu toda a tarde e noite de ontem. Deixou todos um pouco preocupados.
Ainda confusa, ela olhou em volta o quarto, tentando se lembrar exatamente o que acontecera.Saíra para comprar um sapato que gostara, na saída do trabalho. Sua amiga perguntara se não queria que fossem juntas, mas ela dissera que seria rápido, pois teria que voltar no consultório para acabar de arquivar algumas pastas. E havia alguém... no meio da rua. Alguém muito familiar...
-São lindas, não são? Acabaram de ser entregues, logo antes que acordasse.- a voz da enfemeira a despertou.- Me pergunto onde ele arrumou tantas, não é uma flor fácil de se encontrar em buquês.
E seguindo a direção do olhar da enfermeira, viu em uma mesinha aos pés da cama, um vaso com um imenso buquê de Miosótis.
-Que lindo!- Kana exclamou encantada.- Quem me daria uma coisa assim? Meu marido? Ele veio me ver?
-Oh, é seu marido então, aquele rapaz que passou a noite toda acordado, ao lado da cama? Preocupado como nunca vi, nem tivemos coragem de pedir que voltasse outra hora!- a enfermeira exlamou, parada na porta, para sair.- Ele saiu agora à pouco, apenas. Disse que precisava atender um paciente, que era urgente, e pareceu aborrecido por ter que sair. Antes ele apenas a deixou uma vez, e pegou o copo de água para se acalmar, antes de voltar. Um homem alto e bonito, com cabelo preto e olhos levemente verdes, um deles coberto por uma franja?
-Alto, com cabelo preto e olhos verdes...-Kana murmurou confusa. Aquela descrição não batia em nada com a do marido. Mas, então quem se preocuparia tanto com ela, e por quê? A enfermeira sorriu, saindo, e a deixando sozinha.
Quem poderia...? E ao mesmo tempo que se lembrava do homem no meio da rua, seus olhos caíram sobre um cartão preso às flores do buquê.
- Hatori...- murmurou confusa, apressadamente pegando o cartão, para lê-lo avidamente.
'Kana-san,
espero que sua recuperação seja total e tranqüila.
Souma-Hatori'
Apenas isso. Mas, se ela soubesse quantas horas ele ficara para escrever aquele simples cartão. Se soubesse como ele queria, de alguma forma, demonstrar tudo o que sentia por ela, mas sem faze-lo totalmente para que ela não percebesse. Tinha que ser o mais frio possível, para que ela não corresse o risco de lembrar-se de algo. E tudo o que ele pudera fazer fora escrever 'Kana-san' sem o nome do marido dela. Se ela ao menos soubesse, se ela ao menos se lembrasse...
Os olhos de Kana estremeceram, cheios de água, ao terminar de ler o cartão. Ela não entendia porque aquelas poucas palavras lhe tocaram tão profundamente. Não entendia porque seu coração estava tão descompassado. E seus dedos seguiram as letras, formando as mesmas palavras que sua boca deixava escapar, sem que percebesse:
-Hatori-san...
Da porta, Hatori observava a cena, paralisado de surpresa ao ver as lágrimas dela. Com lágrimas se formando em seus próprios olhos, ele saiu de volta para o corredor, encostando na parede ao lado da porta do quarto de Kana, como se para se esconder. Suas pernas tremiam, e seu estômago estava gelado. O que estava acontecendo? O que estava acontecendo com eles?
'Ela não se lembra' disse a si mesmo, com uma frieza cruel, pela milésima vez apenas naquele dia. 'Por mais que você queira... por mais que deseje... que tenha uma inútil esperança... Você nem é parte do passado dela. Não é nada! Completamente esquecido... e por sua culpa... precisa entender que você já não significa mais nada, por mais que ela signifique mais que o mundo todo para você.'
E mais calmo, embora frio como gelo, ele repirou fundo e entrou no quarto. Imediatamente Kana secou discretamente as lágrimas, sorrindo alegremente:
-Olá, Sensei! Obrigada por vir me visitar. E que lindas flores! Hatori-san não precisava se preocupar.
-Era o mínimo que podia fazer, por ter salvo minha vida. - 'Mais uma vez...' ele pensou, apenas olhando para ela, como queria fazer à muito tempo. Nem seu olho direito, quase cego, conseguia apagar todo o brilho que ela parecia irradiar para ele. Sua primavera... sempre. - Fico feliz que tenha gostado das flores.
-São as minhas favoritas!- ela sorriu, colocando uma no cabelo. E antes que ele percebesse, Hatori sorriu sinceramente pela primeira vez em anos. - Como sabia?
-Oh!- a pergunta dela o pegara de surpresa, despertando-o.- Oh... palpite de sorte.- ele não conseguia pensar em nenhuma outra desculpa. Mas, Kana apenas sorriu mais. Ele quase esquecera o quão alegre ela poderia ser.
-Foi realmente uma sorte acordar com elas aqui! Me fizeram sentir-me muito melhor! É como ter a minha própria primavera!
E a mesma voz, distante, soou no pensamento de Hatori 'A primavera é minha estação favorita!'
-Eu liguei para o seu marido.- ele disse de repente, tão friamente, que Kana se calou. Mas, a verdade, é que o aperto em seu coração não o deixou falar de outro jeito.- Ele está vindo. Desculpe por não conseguir entrar em contato com ele antes.
-Ah... Hatori-san vai embora?- ela perguntou, e ele teve a impressão de notar um pouco de decepção na voz dela. Mas,só podia mesmo ser uma falsa impressão.
-Agradeço imensamente o que fez por mim.- ele respondeu, encarando os pés da cama. Não podia mais olhar aqueles olhos sem enlouquecer. Sua boca queimava com a lembrança do beijo da noite anterior, o coração batia devagar como se quissesse que o tempo parasse de passar, para não precisar ir para longe dela. E seu peito... seu peito cheio daquela coisa que derrubava até os mais fortes, o devorando por dentro, a saudade. - Mas, agora, aqueles que você ama cuidarão de você, será melhor assim. Adeus, Kana-san, e obrigado mais uma vez.
E ainda sem olha-la, ou sequer dar-lhe a chance de falar algo, saiu do quarto. No corredor cruzou com um jovem preocupado, que correndo passou reto por ele, pois nunca o tinha visto. Hatori nunca o tinha visto de frente também, apenas o reconheceu da única foto do casamento de Kana, que conseguira olhar. Ela parecia feliz, e o noivo também. Era tudo o que precisava saber, sem ficar se machucando.
No final, fora melhor sair daquela maneira. Pois sabia que, caso ficasse mais um pouco, jamais seria capaz de deixa-la novamente.
XXX
Hatori estava em seu escritório com Shigure. O amigo andava de um lado para o outro da sala, tentando absorver a história que acabara de ouvir.
-Então, ela pulou mesmo na frente de um carro por sua causa?
-Hum, hum.- Hatori concordou, acenando com a cabeça.
-E você não poderia ter ficado parado em outro lugar?
-Acha que eu fiz mal ao deixa-la me ver?
-Mal? Depois de tudo o que você fez e está fazendo por ela? Falar com os melhores médicos, pagar as contas do hospital, acompanhar o caso pessoalmente! E até ligar para o marido dela! Acho que falar cinco minutos com ela não foi o pior. Nem de longe!
Hatori ficou em silêncio. Estivera se sentindo culpado, egoísta por ter arriscado a felicidade dela, por não ter resistido olha-la nos olhos por dois minutos, por não ter agüentado sem ir falar com ela. A saudade fora maior que o seu bom senso. E, embora parecesse aumentar o buraco em seu coração, fora melhor assim. Melhor do que ficar pensando na oportunidade que perdera de vê-la sorrir para ele mais uma vez, de ouvi-la falar o seu nome.
E agora Shigure estava lhe dizendo que aquele era o menor de seus problemas. Bem, ele podia lidar com o resto.
-Ela deve ser louca.- ouviu Shigure murmurar, pensativo.- O que ela tanto viu em você?
Hatori não respondeu a pergunta, porque não queria responder, e porque não sabia. O que ela teria visto nele? De repente, ouviu Shigure cair na risada, e olhou confuso para o amigo. O que havia de tão engraçado?
-Hahahahah!!!
-Não vai me dizer o que foi? - Hatori perguntou friamente.
-E ela nem vai saber tudo o que você fez por ela!- Shigure riu, e Hatori entendeu que ela não ria de alegria, mas sim de nervoso e tristeza.
-Eu não preciso que ela saiba.- Hatori respondeu calmamente- Tudo o que preciso, é que ela seja feliz.
Sim, era tudo o que desejava. Havia pensado longamente naquilo, e percebera que a felicidade dela era tudo o que desejava, nada mais. Não poderiam ficar juntos... ele e Kana... não havia mais esperança para eles.
-Oh, Hatori.- Shigure suspirou tristemente, parando de rir.- Você... você é bom demais.
-Hum...- Hatori grunhiu, nada convencido, mas sem saber o que falar.
-E você sabe o que penso sobre Kana.- Shigure falou encarando o chão. - Foi muito legal da parte dela ter aceitado o fato de que você se transforma em um cavalo marinho, quando nem mesmo eu e Ayame aceitamos sem rir. Mas, acho que ela te esqueceu muito facilmente...
E, sem querer, aquelas palavras perfuraram o coração de Hatori, que nada falou. Nem sobre Kana, nem sobre a dor que sentia.
N/A- Segundo capítulo! Dá para ver que a coisa é bem dramática, hehehehe. Eu tenho um comentário! Quanta responsabilidade agora! Beijos para todos e COMENTEM!!!!
Ah, e para avisar, eu não escolhi miosótis à toa. Ah, não! Eu escolhi essa (depois de ler uma lista sobre mais de 50 flores, acredite!) por causa do significado. E quer dizer: amor verdadeiro, esperança e lembrança. E em outras linguas o próprio nome é 'não-me-esqueça', como em inglês 'forget-me-not' e em japonês 'wasurenagusa'. Combinou bem, não acham?! E está aí, explicado, o nome do capítulo!
Clara Evans, muito obrigada pelo apoio! Eu realmente só atualisei hoje por causa do seu comentário (viu, quem não comentou?), estava com uma preguiça... Eu amo a Kana e o Hatori! Eu realmente chorei ao assitir o anime, e isso para mim não é pouca coisa! Infelizmente, essa fic está bem triste também... Mas, é minha primeira sobre Fruits Basket mesmo. Já escrevi outras sobre Harry Potter, mas ando meio desiludida com ele. Eu tenho o dom de escolher casais que não dão certo... hunf. Quanto a música, sim tem alguns trechos q lembram (mais para frente tem um pedaço que lembra mto) o Hatori, e eu acho que ela fica boa de trilha sonora para a fic. Vai saber... Espero que tenha gostado deste capítulo também! Até semana que vem (espero!)
