Capítulo 2----------

Naquela cidade arenosa havia uma garota. Uma criança, enrolada num manto esfarrapado tentando proteger-se do frio que entrava pelas frestas das janelas. Aquela noite era gelada, mais do que qualquer outra, e já estava tarde. Mas a criança não se entregava ao sono. Ela continuava esperando...

"Onee-chan!" - Disse ela, ao ver uma mercenária entrar pela porta.

"Hanyuu, você ainda está acordada?" - A mercenária tirou a enorme capa e a pendurou num cabide próximo dali.

"Fiquei esperando você."

"Não devia. Mas já que está aqui, tome." - Ela colocou na cabeça da pequena um capacete com dois supostos chifres - "É pra você."

A garota tocou a cabeça e sorriu. Então levantou-se e foi deitar na sua cama, do outro lado do aposento, sem notar as gotas de sangue pingando da jur da mercenária e as que custavam a escorrer pelo seu rígido capacete.

Hanyuu agora ouvia cair mais um dos orcs zumbis na sua frente. Seu cabelo estava completamente desajeitado e seu capacete caía um pouco para o lado. A adaga não tinha sangue. Zumbis não sangravam. Então como havia sangue na jur de sua Onee-chan naquele dia? Ela tirou o capacete e ficou olhando em seu interior. Bem no centro, ela conseguiu ver uma flor desenhada. Uma flor bem comum, daquelas que são como um círculo com cinco pétalas grandes e gordas ao redor. Hanyuu nunca tivera notado isso. Ficou intrigada.

E se o capacete não tivesse caído de um monstro?

A luz na caverna começava a ficar arroxeada. A noite começava a surgir, e Hanyuu resolveu parar por ora. Voltou para Prontera e começou a andar sem rumo, talvez numa das várias esquinas ela encontrasse sua casa. Entrou num beco escuro, mais escuro que o resto, pois esse não tinha iluminação alguma. As paredes pichadas, pilhas de lixos no chão, e vários cartazes rasgados e descolando das paredes. Ficou lendo os cartazes, um por um, com a mão erguida como se os tocasse, mas não os encostando de jeito algum.

Encontrou então um deles, que estava sobreposto por outro que dizia sobre uma banda que tocaria na cidade, um ano antes. O cartaz por trás estava amarelado, e Hanyuu o tirou para vê-lo melhor.

Era um cartaz de desaparecido, que tinha a foto de uma mercadora loira, de olhos negros, com um capacete de orc igual ao seu. Em baixo estava escrito algumas palavras, meio apagada pela chuva e pela escuridão. Tudo o que ela conseguira ler fora "... Desaparecida... 2004... Hana."

Hanyuu nunca fora muito boa em decodificar frases, mas ela sabia que 2004 era o ano em que a garota havia desaparecido, e que Hana era seu nome. Um capacete de orc... Hana... Flor...

Quando ela entendeu, atirou longe seu capacete, como se tivesse algo se mexendo dentro dele. Ele foi cair a três metros de distância mais a frente, perto do final da ruazinha estreita e sem luz. Hanyuu ouviu o som de sua respiração crescer freneticamente, e começou a balançar a cabeça, com as mãos agarrando os cabelos, o que fez parecer que queria livrar-se de alguma coisa. Começou a andar para trás, cambaleou, caiu. Pôs-se novamente em pé e começou a correr, procurando desesperadamente seu abrigo no meio das luzes e pessoas que andavam pela noite, deixando sua visão turva.

Hanyuu chegou em casa correndo, e logo ao se trancar dentro da casinha de cômodo único, ela escorregou pela porta até sentar-se. Ficou balançando a cabeça e esfregando os olhos por um bom tempo, até que disse para si mesma.

- O capacete era da garota. Não! Não podia ser dela! Por que a Onee-chan me daria um capacete roubado de uma garota, ainda por cima de uma garota que hoje está desaparecida? Mas e se for mesmo dela?

A gatuna estava num terrível dilema. Nunca duvidara de Louise, a mercenária que ela chamava de Onee-chan. Ela sempre lhe ensinara tudo, desde seus cinco anos. Hanyuu não se lembrava de seus pais. Lembrava apenas de duas sombras gigantes, que nunca lhe dirigiam a palavra ou sequer um sorriso. Numa noite, ela simplesmente perdeu os vultos de vista, e nunca mais os viu. Louise a acolheu em sua casa, e sempre dizia para ela que se tornasse o que quisesse, e que ela não queria influenciar suas escolhas. Sempre ensinou tudo sobre todas as classes para Hanyuu, e no final a jovem acabou por seguir a mesma carreira do que Louise.

Passaram-se oito meses desde o incidente na Caverna de Payon, o incidente que a fez conhecer Yuki e Kyosuke, dois rapazes que no futuro, mudariam sua vida, talvez para sempre. Mas desde aquele dia, ela nunca mais os vira. Na velocidade que treinava, estava prestes a se tornar mercenária. Agora tinha 14 anos, e estava mais determinada do que nunca. Ela queria confiar que Louise era boa, mas estava com medo. Subitamente, ela se pegou pensando onde Louise estaria agora.

"Hanyuu, eu preciso ir embora" Disse Louise um dia, indo direto ao ponto.

"Por quê?" Hanyuu era uma criança, e não entendia o motivo das pessoas sempre a deixarem.

"Por que a Onee-chan tem um grande trabalho agora. E eu não posso mais ficar com você aqui. Perdoe-me."

"Você vai sumir, como fizeram meus pais?" Hanyuu tinha os olhos cheios de água, e as lágrimas já lhe rolavam o rosto.

"Não chore. Eu tenho certeza que voltaremos a nos ver algum dia." Louise passou os dedos pela face de Hanyuu, secando suas lágrimas.

"Promete?" Perguntou Hanyuu, erguendo apenas o dedo mindinho.

"Prometo." E Louise fez a mesma coisa, segurando o mindinho da garota. A promessa estava feita.

- Onee-chan. Você prometeu aquela vez. E se você não virá até mim, eu irei até você. É por isso que amanhã eu vou até a guilda dos mercenários, e vou me tornar muito mais forte. Quando isso acontecer, nós vamos nos encontrar - Hanyuu disse para si mesma, com a determinação que a levara até ali.