Leilão de Natal

Madam Spooky

Para Lika Junge

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Retratação:Yu Yu Hakusho continua não sendo meu. Acho que Papai Noel realmente não existe.

Nota: Isso está sendo realmente divertido de escrever.

Obrigada Li, Coala e Vane pelos comentários. Eu vou terminar. Não duvidem. Milagres de Natal acontecem. Lika, fico muito feliz que você tenha gostado. :D

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Eu devia ter adivinhado que havia alguma coisa errada no momento em que coloquei os pés neste salão. Não é normal em um evento de caridade – mesmo com um objetivo tão incomum – haver dezenas de mulheres jovens próximas ao palco quase se estapeando por um lugar mais a frente. Que eu soubesse, nenhuma banda famosa composta de homens jovens e bonitos se apresentaria aqui hoje e nunca em toda a minha vida vi mulheres brigando por peças de antiguidade postas em leilão. Foi em meio a essas conclusões confusas que eu resolvi perguntar, até então muito inocentemente:

- Keiko, o que é mesmo que eles vão leiloar?

Contrariando os fatos de que ela está bem do meu lado e tem uma audição quase sobrenatural – Yusuke que o diga, já que ela sempre o escuta falando ao telefone do outro lado da casa, em especial quando o assunto é alguma coisa que ele não a quer sabendo -, Keiko finge que não me ouviu. Eu paro um instante, olhando de um lado para o outro. Tirando a coisa das mulheres estranhas, não há nada de muito suspeito acontecendo. Mesmo assim, o silêncio da minha amiga vale por um estouro de manada.

- Keiko...

- Olha lá, não é o Tiyu?

Keiko sai correndo tão animada quanto se tivesse visto um anúncio de liquidação de sapatos. Por que eu acho que ela está tentando escapar de mim? Ela sempre diz que Tiyu é um bêbado maluco e pervertido, o que torna muito estranha a maneira fixa como ela o está encarando, com um sorriso de orelha a orelha. Penso em me aproximar, mas mudo de idéia no instante em que Tiyu levanta os olhos e sorri na minha direção. Sempre há a possibilidade de que a minha querida amiga tenha resolvido que me fazer passar o Natal com o pinguço amigo do namorado dela seja melhor opção do que gastar a noite vendo todas as versões de Rudolph, a Rena de Nariz Vermelho.

O mais seguro é ficar o mais longe possível dos dois, apesar de que na direção contrária estão todas aquelas mulheres malucas puxando umas as outras enquanto tentam pular no palco. Por Kami, o que diabos elas pensam que vão agarrar, as caixas de som? Olho em volta, procurando por alguém normal a quem eu possa perguntar o que está acontecendo, mas nesse instante uma morena alta aparece, anunciando que o leilão começará em cinco minutos. Quase não consigo ouvi-la por causa dos gritos que soam de todos os lados no instante em que ela começa a falar. Então eu estava certa sobre a comoção inteira ser por causa do leilão? Minha nossa, o que eles vão leiloar? Cuecas autografadas dos integrantes do Larc en Ciel?

- E atenção para a primeira, hum, peça da nossa coleção... – diz a mulher conduzindo o leilão.

Olho para trás, mas Keiko não está em lugar nenhum. É bom não ser aquele Box com episódios de Desperate Housewives ou... Kuwabara? O que ele está fazendo no palco? Andando de um lado para o outro com o paletó jogado no ombro e um sorriso idiota no rosto. Ninguém me diga que estão leiloando paletós. Keiko me fez sair de casa para ver Kuwabara passear no palco exibindo paletós velhos? Kami-sama! O que raios ele pensa que está fazendo desabotoando a camisa?

- Cinqüenta centavos! – alguém grita bem atrás de mim. No palco, Kuwabara faz uma careta.

Não é para menos. Não sou especialista em paletós, mas esse ai parece valer muito mais.

- Noventa e nove centavos! – grita uma segunda voz no meio das mulheres que agora estão relativamente quietas, parecendo avaliar o produto.

Onde Keiko se meteu? Esse negócio de assistir leilão de roupas não é divertido. Será que ela vai ficar muito zangada se eu escapar, pegar um taxi e voltar para o meu sofá? E pensar que perdi mais de meia hora de Milagre na Rua 34... Eu ainda não tinha visto esse filme esse ano!

- Cinco mil yenes!

O salão fica em completo silêncio quando uma voz grita esse último lance. Eu olho para todos os lados, procurando pela garota que está oferecendo tudo isso por um paletó usado e a encontro um pouco afastada do palco, parecendo tímida diante dos olhares de todos. Menos de um minuto se passa e todas as mulheres começam a falar ao mesmo tempo, pelo visto animadas com a proximidade do próximo artigo. Giro os olhos, olhando para Kuwabara que parece ter acabado de ter um vislumbre do paraíso. Espere um pouco, aquela não é Yukina?

Tento me aproximar, mas não é fácil com uma multidão, a maior parte mulheres, empurrando umas as outras tentando chegar ao palco. Eu daria muito mais de cinco mil yenes para conseguir falar com Yukina. O pessoal da lista de discussão virtual sobre celebridades descontroladas da qual eu participo ia ficar maluco! Nunca a tinha visto pessoalmente antes, mas ela é bastante conhecida por ser irmã do roqueiro Hiei e pivô de noventa por cento das acusações de espancamento das quais ele é autor. Levando em conta que as letras das músicas dele ficam em um meio termo entre "eu vou arrancar sua cabeça e beber seu sangue" e "quero quebrar todos os seus ossos até você implorar para morrer", é de se esperar que qualquer homem de bom senso fique longe da irmã dele. Por outro lado, Kuwabara nunca foi conhecido pela noção de perigo.

- Dou-lhe uma, dou-lhe duas... Vendido para a moça de vestido azul! – diz a mesma mulher de antes, aparecendo do nada ao lado de Kuwabara.

Vejo quando Yukina se aproxima com dificuldade e segura a mão dele, ajudando-o a saltar para perto dela. Hum... Ele está vestindo o paletó novamente... E os dois estão saindo juntos... E Kuwabara continua com aquela expressão idiota de quem acabou de ganhar sozinho na loteria acumulada... Isso está terrivelmente parecido com uma cena daquele filme, Feitiço do Tempo, quando Bill Murray já deixou de ser um bastardo insuportável e resolveu aproveitar a vida, apesar do probleminha do dia se repetindo, e ele está no salão de festa onde estão realizando um leilão de solteiros e...

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- KEIKO!!!!!

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Eu devo ser um tremendo idiota por ainda estar aqui parado quando poderia ter saído correndo meia hora atrás. Claro que posso consolar a mim mesmo dizendo que a única razão pela qual não fiz isso foi que Kuwabara estava o tempo todo ao meu lado, falando em como estava animado em participar desta noite, supondo por quanto seria comprado e torcendo a maldita gravata quase ao ponto de ficar sem ar.

Por que exatamente eu não escapei enquanto ele estava no palco? Oh, sim, eu estava muito ocupado me divertindo com aqueles lances de menos de um yene e então ficando chocado quando Yukina apareceu do nada e ofereceu cinco mil como se fosse uma garota comum e não a irmã do cantor de Gore Metal mais perigoso do Japão. Eu meio que fiquei esperando Hiei aparecer do nada e pular no palco, segurando uma katana de maneira a arrancar fora a cabeça de Kuwabara, mas aparentemente os boatos de que ele está acompanhando a nova turnê do Cannibal Corpse no outro lado do Pacífico são um pouco mais do que isso.

- Minamino Shuuichi, é a sua vez.

Ignoro quando a mulher de antes vem me chamar e pisca para mim. A última vez que pisei em um palco foi no colegial, quando me obrigaram a participar de uma peça escolar para ganhar créditos extras em história. Eu aceitei desde que pudesse fazer o papel de uma árvore e ficar parado lá durante toda a exibição, mas na última hora me jogaram na frente das cortinas com o figurino do personagem principal. E eu nem desconfiei quando me fizeram repetir todas aquelas falas nos ensaios... Assim como nunca desconfio quando Yusuke aparece pedindo um "favorzinho". Isso é o que a gente ganha por ser bonzinho e acreditar nas pessoas.

Sem muita escolha, vou andando até o palco. A essa altura sair correndo não parece uma atitude lá muito madura. Pensando bem, talvez seja melhor ser uma criança viva do que um adulto morto, se alguma dessas mulheres conseguir chegar até mim e me puxar para baixo.

- Mil yenes – grita a primeira, no instante em que apareço.

- Dois mil!

- Três!

- Eu dou cinco mil por ele!

Pelo menos eu não preciso me preocupar em ser arrematado por cinqüenta centavos. Por outro lado, pela expressão no rosto da que acaba de oferecer cinco mil, ser arrastado para aquele beco escuro será o menor dos males a me acontecer esta noite.

- Cinco mil e quinhentos!

- Seis!

- Sete!

Dou um passo para trás quando algumas mãos quase alcançam os meus sapatos. Eu queria ter podido me despedir da minha mãe pelo menos. Será que ela vai ficar muito chocada quando souber que o filho foi morto por uma centena de mulheres solteiras, desesperadas por companhia na noite de Natal? Meu irmão, certamente, vai adorar isso. Ele sempre diz que vou morrer sozinho e frustrado se não começar a sair mais vezes.

- Nove mil e quinhentos! – grita uma voz conhecida.

Estreito os olhos na direção dela e reconheço Keiko quase imediatamente, parada nos fundos do salão, parecendo pouco confortável com um cara visivelmente bêbado de uns dois metros de altura tocando as costas dela todo instante. Kuwabara poderia estar com a razão? Yusuke realmente pediu a namorada dele para me salvar de um possível desfecho trágico para a noite? Faria mais sentido se tivesse sido idéia dela. Meu amigo nunca perderia uma oportunidade dessas de me ver em apuros.

Espero parado, lutando contra a vontade de correr. Eu daria qualquer coisa para estar agora mesmo em casa, vendo todos aqueles filmes de Natal que só aparecem na TV uma vez por ano... A quem estou querendo enganar? Eu daria qualquer coisa para estar em qualquer outro lugar do mundo, inclusive na pele de Kuwabara quando Hiei descobrir que ele passou a noite de Natal com a irmãzinha adorada dele... Há essa hora Um Natal Muito, Muito Louco já deve estar no fim. Provavelmente o cara já compreendeu o espírito natalino da generosidade e andou trocando luxos por amor e amizade e...

- Vendido por doze mil yenes à garota de branco lá atrás!

Desperto dos meus devaneios com filmes quando a leiloeira praticamente berra o resultado no meu ouvido. Respiro aliviado ao ver Keiko acenando com um sorriso. Ela está se aproximando do palco com muita dificuldade, uma vez que o batalhão de mulheres em volta não parece nem um pouco disposto a abrir caminho. Olho para os lados, procurando por uma saída mais rápida, mas, aparentemente, não há nenhuma. Não há remédio a não ser esperar que a namorada de Yusuke chegue viva até mim e, mais importante, consiga nos atravessar ilesos através da multidão.

Tudo acaba bem quando termina bem, certo? Bom, eu tenho que admitir que alguma coisa ainda me incomoda nessa história. Não é natural que eu aceite fazer um favor a Yusuke e termine indo embora sem que nenhum desastre aconteça. Nenhuma mulher me espancando, nenhuma tentativa de violação por parte da platéia... Nenhum arranhão de qualquer espécie!

Keiko chega perto de mim e me conduz para baixo. Tirando uma ou duas mãos tentando alcançar partes estratégicas do meu corpo, nós conseguimos nos desvencilhar das mulheres relativamente bem. Agora mesmo elas estão mais ocupadas em avaliar a próxima vítima comprável. Eu estou sorrindo aliviado, mas na verdade a sensação de que a noite ainda está longe de terminar continua me acompanhando.

- Keiko, eu tenho que agradecer... – começo a dizer, me interrompendo ao ver Yusuke mais a frente, parado ao lado de uma garota bonita que está olhando para ele como se fosse a qualquer momento agarrá-lo pelo pescoço e parti-lo a dentadas. Oh, Kami, por favor, que não seja o que estou pensando.

Paramos bem ao lado deles. Não posso deixar de notar o belo par de pernas que a desconhecida está exibindo. Essa não! Desvio os olhos, tentando ignorar os três pares de olhos que me encaram muito conscientes de para o que eu estava olhando. De nenhuma maneira eu vou ceder ao que quer que esteja acontecendo porque há uma garota bonita envolvida. As amigas de Yusuke são todas maníacas com tendências homicidas. Eu só preciso um segundo olhar para o rosto desta para ficar absolutamente certo disso!

- Bom, Kurama – diz Yusuke. – Parece que você pertence a Keiko por esta noite.

Ele está sorrindo muito. Que tipo de homem sorri para o cara que a namorada acabou de comprar em um leilão?

- Infelizmente, eu não posso ficar com você – diz Keiko. E ela está sorrindo para Yusuke. Ela está sorrindo para Yusuke em um evento público! Em circunstâncias normais ela o estaria arrastando pela gola da camisa depois que ele espancasse meia dúzia de garçons por dizerem que ele já tinha passado um pouquinho da conta.

Abro a boca para responder, mas Keiko segura o meu braço e me arrasta para junto da outra garota. Ela agora não está mais encarando Yusuke, mas a mim, com um rosto tão branco quanto se acabasse de ter visto o próprio fantasma dos Natais futuros apontando sua sepultura.

- Bom, Yusuke e eu temos coisas a fazer – ouço a voz da namorada do meu amigo soar distante, pois esse é o momento em que eu entendo exatamente o que está acontecendo.

Porém, antes que eu possa protestar, ela me empurra direto na direção da estranha e diz em um tom cheio de satisfação:

- Feliz Natal, Botan!

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Previsão para o capítulo 3: Semana que vem.