A DOR DE UMA TRAIÇÃO – CAPÍTULO 2
AS MENINAS...
Durante os quatro anos que se seguiram à morte do pai, Enrico Shiryu lutou sozinho para abrir o seu caminho no mundo. Ele não aceitava ajuda da mãe nem dos tios ou de qualquer um que estivesse envolvido com o passado, que ele qualificava como "vergonhoso" da família. Teimoso, inteligente, foi abrindo algumas portas e fechando outras à sua passagem. Encontrou por esse caminho uma descendente de italianos igualmente persistente e sábia, que lhe deu sua compreensão, amizade, apoio e amor... Ao final dos quatro anos, num encontro entre Pipe e Shiryu, o filho lhe confessou o desejo de casar-se com Giovanna Andréia.
Parece uma boa moça... Se você a ama e ela lhe faz feliz porque não? Além do casamento, quais são seus planos para o futuro?
Bem, eu já terminei a faculdade de administração de empresas e agora eu gostaria de montar meu próprio negócio.
Como o quê?
Algo como um pequeno restaurante, uma cantina... Andréia e eu gostamos de cozinhar, talvez a gente devesse dividir esse talento com o mundo...
De quanto você precisa?
Mamãe, por favor... Nossos encontros sempre termina em brigas por causa disso...
Ay, caramba... Termina em briga não é por minha culpa, não. Afinal acho que as mães fazem essa pergunta aos filhos, todas querem ajudar. O problema é que as outras mães não têm um filho tão puxado ao pai, orgulhoso até dizer chega...
Enrico Shiryu só sorriu.
Veja bem. Uma proposta para atender aos nossos interesses mútuos. Eu te ajudo e você não aceita o dinheiro "sujo" do seu pai. Eu entro como investidora, você monta uma pequena cantina. Daí você me paga, conforme ela for dando lucro. Depois, se o negócio for bom, você expande sozinho. Que tal?
Shiryu ficou olhando para os olhos castanhos ansiosos de sua mãe. Brigavam muito, mas se amavam. E não dava pra voltar atrás e mudar o passado de seu pai. Ele foi o que foi e como pai, tinha sido um bom pai... Mas não dava pra negar os seus crimes... Enrico suspirou. Era sua família.
Feito, dona Pipe Magdalena. – estendeu a mão. – Somos sócios, de agora em diante. Mas vai aceitar o dinheiro de volta, com juros e tudo. Mãe, e as minhas irmãs?
Foi a vez de Pipe suspirar... O que aquele filho lhe dava de preocupações por estar distante não era nada em comparação às preocupações que suas filhas davam perto.
Nielle continua terrível. Pois ficou noiva do tal Salvador Hyoga, mesmo não gostando dele. E acredita que Penélope me enfrentou, dizendo que ou fica com o tal Ikki Manuel Melendez Rodrigues por bem ou foge de casa com ele...
Quer que eu fale com elas, mamãe?
Não, meu filho... Vocês são todos farinha do mesmo saco, herdaram o gênio suave do seu pai. Quando decidem que querem – ou não querem – alguma coisa, ai de quem se interpuser no caminho.
Eu também não vou com a cara daquele Ikki Manuel. Mas a Penélope Catarina é uma moça ajuizada, mãe. Ela deve saber o que está fazendo...
HAH! Sua irmã caçula é uma pateta apaixonada. Ela não tem um décimo da malícia e experiência da Nielle. Como o mundo é injusto. Uma com tanto outra sem nenhum tino amoroso. Eu vou deixar correr até aonde eu verificar que meu bebê não vai se machucar gravemente. Ai daquele estancieiro bigodudo se fizer algo para a Penélope. Eu arranco aquele "moustache" com uma pinça, pêlo a pêlo.
Mãe... você às vezes me assusta... – riu Shiryu. – Me faz pensar se a verdadeira Maschera di Morte não seria você, ao invés de papai.
Riram juntos, terminando o lanche e apreciando a companhia um do outro.
Enquanto isso, na casa de Pipe, uma morena escultural desceu as escadas pisando duro e entrou na sala demonstrando irritação.
MARIN AMÉLIA!!
Chamou, patroazinha Nielle?
Não, sua idiota. Eu espirrei e seu nome saiu sem querer. Lógico que eu chamei. Onde está minha mãe?
Saiu. Não disse aonde foi, nem quando volta...
Foi dirigindo ou pediu para o motorista leva-la?
Nem uma coisa nem outra. Foi com o carro dela, mas o secretário cor de rosa é que foi dirigindo.
Afrodite foi dirigindo? Então Benito Aioros está em casa? – a empregada acenou afirmativamente. – Mande-o vir aqui. E rápido, lesma. Não tenho o dia todo.
Amaldiçoando aquela viborazinha em pensamento, Marin Amélia foi chamar o motorista. Benito Aioros estava na cozinha, xavecando a cozinheira enquanto tomava um café, mas ao ouvir o recado da arrumadeira se levantou, colocou uma bala de canela na boca e foi atender.
Sim, senhorita?
Preciso sair. Quero o carro pronto em dois minutos.
Ao seu dispor, senhorita. Posso perguntar aonde vamos?
Eu tenho a tarde livre. E você?
Aioros sorriu. Era a senha para uma tarde de romance com a patroazinha fogosa.
Sua mãe não me deixou nenhuma instrução.
Pois eu tenho algumas para você. As darei no carro. Só vou pegar minha bolsa.
"Imagino que sim..." – Estarei aguardando lá fora, senhorita.
Enquanto o Rolls Royce saía pelos portões da mansão, um Porsche azul entrava, trazendo o famoso noivo bigodudo de Penélope. Ikki buzinou para o carro da futura cunhada pensando: "Está indo dar pra quem agora, cascavel? Se eu tivesse um pouco mais de intimidade com aquele seu noivo babaca eu contaria umas histórias a ele..." Ikki Manuel fez a volta no pátio da mansão, colocando o carro na sombra. Deu uma olhada ao redor, não vendo também o BMW da mamãe... ""timo, não tem ninguém em casa... Hora de cevar um pouco mais a minha patinha... Se eu emprenhasse aquela boba, eu cavaria logo o casamento e tudo se resolveria. Mas Penélope Catarina não é Nielle Consuelo. Pra abrir aqueles gambitos é preciso um pouco mais de lábia."
Mas charme... – disse Ikki para si mesmo ao abrir a porta do carro, passar a mão no famoso bigode e sorrir para o espelho lateral – é coisa que não me falta.
Ikki Manuel tinha bons motivos para querer apressar seu casamento com Penélope Catarina. O seu haras estava dando mais prejuízos que lucros há algum tempo, o que não impedia o orgulhoso mexicano de manter seu padrão de vida luxuoso. Seu irmão Shun Daniel continuava seus estudos nos Estados Unidos normalmente, sem desconfiar de nada... Mas a esperança de salvar as aparências estava depositada nos ombros da filha caçula de Pipe Magdalena.
Às vezes eu me pergunto se não teria sido mais conveniente ter seduzido a viúva logo de início... Ela não teria oposto muita resistência, creio eu. Aquela mulher não deve estar acostumada a ficar sem um domador muito tempo e fica perdendo tempo com aquele secretário boiola que a acompanha o dia todo... Eu já estaria com a mão na grana e naquelas carnes fartas, unindo o útil ao agradabilíssimo, em vez de ficar fingindo ser um Romeu apaixonado. Que saco! Bem, hora do show!
Penélope Catarina tinha ouvido o carro do noivo entrar no pátio da mansão e descera as escadarias correndo ansiosa, as faces coradas de satisfação. Ficou nas janelas da biblioteca a observa-lo, achando, não pela primeira vez, que ele era lindo, um pedaço de mau caminho e afastando o pensamento incômodo de que ela não o merecia.
Talvez ele tenha se cansado das mulheres atrevidas que povoam a vida dele e queira realmente se assentar, afinal todo homem tem a sua hora de virar homem de família, responsável. Eu farei de Ikki Manuel um homem de família...
Senhorita Penélope Catarina, o senhor Ikki Manuel está aí para vê-la. – informou Marin Amélia, com irritação mal disfarçada. Mas a patroazinha estava com a cabeça nas nuvens pra perceber.
Oh, sim? Leve um cálice de vinho para ele se refrescar que eu já irei em seguida... – respondeu Penélope, tentando refrear a vontade de correr imediatamente para os braços fortes do noivo. – "Não, eu tenho que ser comedida, não posso imitar as vagabundas a que ele está acostumado".
Sim, senhorita – respondeu Marin Amélia, fechando a porta. "E vou por veneno de formiga no vinho, praquele folgado que se acha o dono do mundo nunca mais passar a mão em mim. Como pode? Um cachorro daqueles namorar uma pessoa tão doce quanto minha patroazinha Penélope? Ele é o par ideal para aquela outra vaca da irmã dela... Enfim..."
Ikki aceitou o cálice de vinho, deu outro beliscão na empregada e ficou esperando a noiva entrar. Sorriu pra disfarçar o desgosto: de maquiagem leve, vestido simples e rabo de cavalo, Penélope Catarina parecia uma noviça recém saída do convento. "Porque raios ela não toma umas aulas com a irmã dela? Com certeza vai estar cheirando a sabonete de luxo, parecendo uma enjeitada que os patrões estão criando, não a herdeira de milhões. Enfim, pelos milhões, eu me sujeito a qualquer coisa..."
Meu amor, eu estava aqui esperando por você impaciente. Cada minuto sem ver seus olhos é uma tortura inominável ao meu coração apaixonado.
Oh, Ikki Manuel, você é tão gentil... – respondeu ela, enrubescendo.
Ikki teve que se contentar com um beijo meio selinho, porque a virgem filha de Pipe Madalena não sabia beijar de boca aberta e entrelaçando os dedos nas mãos manicuradas mas de unhas curtas dela, foi "namorar" no balanço do jardim.
Enquanto Ikki Manuel trabalhava na sua farsa de noivo dedicado, o BMW de Pipe Madalena entrava na mansão e era cuidadosamente estacionado. Afrodite, o braço direito dela, desceu do carro, sua presença alta e forte sempre impressionava quem o visse. O cabelo farto e comprido tinha a franja presa num pequeno rabo de cavalo, os olhos azuis piscina protegidos por grandes óculos escuros. Sabia artes marciais, era campeão de tiro, sabia falar mais de quatro línguas, Pipe o adorava.
"Mas só tem um defeito que anula todos os outros: é gay!" riu Ikki do seu lugar.
Afrodite rodeou o carro e carregando a agenda e a bolsa de Pipe, abriu a porta para ela, dando-lhe os dedos para ajuda-la a descer, beijando-os. Se Pipe Madalena o adorava, com certeza não era na mesma proporção da devoção de Afrodite. Ela o tinha encontrado na rua, após ele ter sido espancado por um cliente. Levara o então garoto de 16 anos para um hospital, o recebera em casa, dera-lhe estudo e oferecera-lhe uma nova vida. Desde então, ele virara sua sombra, a protegendo e seguindo onde quer que fosse. Eles olharam desgostosos para onde Penélope Catarina estava sentada e só responderam ao cumprimento deles por consideração a ela... O mordomo abriu a porta da mansão, sorriu para eles, piscando disfarçadamente para Afrodite. Este ficou imediatamente vermelho, torcendo para que a patroa não virasse a cabeça naquela hora... "Maldito garanhão, o que ele está pensando? Que eu sou uma variação do cardápio dele? Será que as empregadinhas do quarteirão já não estão mais bastando para o Shura?"
Pipe, que tinha visto tudo, ria interiormente, adivinhando que seu secretário-guarda costas e melhor amigo estaria vermelho feito um pimentão. Mas franziu a testa: "Mas meu mordomo é um mulherengo. Será que ele só está brincando ou será que ele está procurando uma aventura? Não o deixarei machucar o Afrodite. Penélope Catarina e Afrodite são da mesma cepa. Românticos demais para este mundo..." E suspirou.
Senhora? Está se sentindo bem?
Oh, sim, meu querido. Tenho mais algum compromisso pra hoje, Afrodite Guillermo?
E todos os pensamentos se voltaram apenas para a agenda de Pipe Madalena.
N/A: Vixe, desencantei o segundo capítulo. Agora só vou viver para acabar este fic, que ta passando da hora. A Penélope Catarina nem é mais tão louca pelo Ikki assim...eheheeh. Desculpas aí, gente, pelo Shura, mas é que a Pipe Madalena já tinha usado o Carlo "Maschera di Morte" no início... E ninguém fica sozinho nas novelas mexicanas.
