A DOR DE UMA TRAIÇÃO – CAPÍTULO 4
COMPLICAÇ'ES...
Depois das bagagens postas na caminhonete, Shun Daniel ficou ainda ouvindo o tagarelar de seu empregado, pensando no que faria a seguir. Tinha duas opções, nenhuma exatamente do seu agrado: ir ao encontro da eterna namorada Graça Aparecida Silva y Silva ou enfrentar seu mal humorado irmão, que faria mil e uma perguntas sobre o porquê de ter vindo pra casa mais cedo. Shun Daniel franziu a testa – às vezes parecia que Ikki Manuel escondia alguma coisa dele, fazendo-o ficar longe de casa a maior parte do tempo. Não que ele não gostasse da companhia da Gracinha, mas ela sempre dava um jeito de tocar num assunto que ele não gostava muito : casamento.
"Eu fui apressado e deixei ela insegura... Ay, essas moças mexicanas... Não encaram o sexo antes do casamento como as americanas... Educação provinciana..."
Pra se distrair, resolveu falar um pouco com Seiya Augusto, pra ver se ele respirava:
-E as chicas, Seiya Augusto? Continuam caindo no seu colo feito tangerinas maduras?
-Olha, patrãozinho, não é pra eu me gabar não, mas... continuam! Num tem um baile que eu termino sozinho e de mau humor...
-Você continua torrando todo o seu dinheiro nos finais de semana com mulheres, Seiya?
-E tem coisa melhor nessa vida, patrão? Enquanto eu for jovem e cheio de vida, quero mais é me acabar com a mulherada... Quando eu não puder mais, daí eu penso no que fazer...
Shun Daniel sorriu. Filosofia de vida profunda essa. Mas será que estava totalmente errada? E viu os portões do Haras Melendez Rodrigues à sua frente. "Estoy en casa!"
Nem Shun nem Seiya Augusto viram um carro preto parado perto do haras. Nem era pro carro ser notado. Os ocupantes estavam esperando outra pessoa. Pacientes, aguardaram até a chegada de Ikki Manuel, prontamente fechando seu caminho e quando ele desceu para tomar satisfações, o esmurraram no estômago e na nuca, puseram dentro do carro preto e o levaram, assim como ao seu carro para um armazém abandonado. Lá, o fizeram acordar com um balde de água gelada. Ele xingou todos os palavrões que conhecia, fazendo ameaças aos seus captores, mas o sangue gelou nas veias ao ouvir uma risada conhecida soar às suas costas:
-Nossa, mas que galinho de briga nervosinho...
"Não pode ser..." e virou-se com cuidado, procurando não demonstrar o medo que sentia.
-Saga Valentim! Que prazer em revê-lo! – Sorriu, apesar da boca machucada.
-Não seja cínico, Ikki Manuel. Eu sou a última pessoa na face da terra que você teria o prazer em ver. O seu prazo está acabando e não vejo você se esforçar pra pagar o que me deve...
-Tenho meus trunfos, Valentim. Você também não está a par de tudo...
-Espero que sim... Eu até que sou uma pessoa paciente... Mas de meus sócios, não se pode dizer o mesmo... Meu irmão Kanon Vicente anda me cobrando uma atitude, e Shaka, o Virgem, está querendo muito por as mãos em você pessoalmente.
O nome do mafioso mais cruel do país fez o coração de Ikki falhar uma batida. Ele não pode evitar prender a respiração por um momento. Shaka, o Virgem, tinha esse codinome porque nunca tinha matado ninguém, seus métodos de tortura deixando as vítimas num estado lastimável, o qual a morte seria uma doce alternativa.
-Oras, Saga Valentim. Você sabe que eu estou noivo da filha mais nova de um poderoso estancieiro. Isso não é garantia de que eu vou quitar minha dívida com vocês?
Saga Valentim jogou a cabeça pra trás numa sonora e debochada gargalhada:
-Sim, conhecemos sua noiva e a família dela. Não, não é garantia nenhuma. Primeiro, que você não está casado e montado na grana ainda. Segundo, que a filha mais nova de Pipe Magdalena é quase uma noviça fugida do convento. Se ela se assustar com você pode dar adeus a esse casamento. Terceiro, que você corre mais riscos perto da Pipe Magdalena que conosco...
-O que você quer dizer com isso?
-Você está noivo da filha dela e não conhece sua própria sogra? – Saga comentou, sorrindo. – A mulher é o cão! Dizem que ela é a encarnação do demônio, que quando seu sogro estava vivo, quem mandava matar era ela mesma, às vezes ele nem sabia... Que ele lhe dava carta branca e...
-Uou-uou-uou. Espere um pouco. Está me dizendo que a minha sogrinha, a viúva pura e casta é uma mulher perigosíssima?
-Estou. Foi ela que treinou Shaka, o Virgem. Foi dela que ele herdou o poder que tem hoje, com a condição de não colocar ninguém da família em risco. Ah, Ikki Manuel, vai dizer que você é noivo da filhinha dela por amor mesmo? Oh, que pena, estraguei seus sonhos românticos, foi? Ikki, está passando bem? Milo, pegue um pouco mais de água, que ele parece que vai desmaiar...
"Minha sogra é uma mafiosa. É uma mulher perigosíssima... Se ela quiser, me manda executar... Mas se ela não quiser, eu fico numa boa com esses idiotas... Basta eu cair nas boas graças de Pipe Magdalena..." –e com este último pensamento, Ikki voltou a cor normal e até sorriu.
-Então a eminência parda por trás de tudo é minha futura sogra? Ela que mexe os cordões?
-A mulher tem fãs até hoje... Sempre impôs respeito, até entre os inimigos...
-Já andou tirando uma lasquinha, hein, safado?
-Só nos meus melhores sonhos... A pantera tem pata afiada, o máximo que eu cheguei perto de tocá-la foi levando uma de suas famosas bofetadas. Ah, que pulso firme ela tem, não é mesmo, Milo Roberto? Herdei esse capanga dela, forte como um touro, discreto como uma serpente, fiel como um cão. Mas eu nunca descobri de que lado está sua verdadeira fidelidade... Acredito que ela vigie meus passos...
-Então ela sabe de mim?
-Talvez... – Saga Valentim ergueu as mãos juntas, os dedos formando torrinhas. – Viu como esse noivado não lhe garante nada? Se ela quiser, ela termina com tudo e te joga na cova dos leões. Shaka agradeceria muitíssimo. Satisfaria sua psicose e ainda ele faria um favor a sua madrinha, a qual é devoto, como se ela fosse uma santa num altar. Trouxeram o carro de Ikki?
-Si, señor Valentim.
-Está em condições de dirigir? Ou foram muitas emoções para uma noite só? – Saga deu outra gargalhada maldosa. Kanon Vicente entrou nessa hora, dando um olhar frio a Ikki, que sentiu suas costas molhadas de suor ficarem geladas.
-Shaka acabou de ligar. Diminuiu seu prazo, Ikki... Paciência nunca foi o forte dele mesmo. Quer o dinheiro até o final do mês. E só. – Ergueu a mão, cortando o protesto de Ikki... – Mais quinze dias, parceiro. – Apertou o queixo do outro, olhando nos olhos dele. – Você é esperto, vai saber se virar... – Tirou a mão e dispensou-o com um gesto. – Milo! Tire-o daqui! Boa noite, Ikki Manuel... bons sonhos!
E a última coisa que Ikki ouviu foram as gargalhadas dos gêmeos malignos. Saga devia estar contando a conversa que tiveram. Milo encapuzou Ikki e levou-o de carro até o portão do haras. Depois deixou-o e foi embora com o outro capanga, Aldebaran. Ikki percebeu que suas pernas tremiam tanto, a ponto de não deixa-lo apertar os pedais... Socou o volante, irritado, a mente tentando formular um plano... Respirou fundo, tentando se acalmar e conseguiu entrar em casa. Todos estavam dormindo...
Enrico Shiryu abriu a porta do restaurante, aproveitando os minutos iniciais de calmaria. Lá dentro vinham as risadas de Giovanna Andréia que conversava com o cozinheiro, Dohko Luís. Shiryu o empregara por insistência da mãe, que jurava que o cara era um excelente cozinheiro de massas, o que era verdade, mas tinha mais coisa ali... O filho de Pipe desconfiava que Dohko era mesmo seu guarda-costas e informante das coisas para a mãe, mas desde que a famiglia não interferia na sua vida... Já vira muitas vezes alguns conhecidos de sua mãe jantando ali. Mas comiam, pagavam e só. A cidade não registrava crimes bárbaros nem desaparecimentos, então com certeza estavam só de passagem para "missões" ou a passeio... Giovanna ria e dizia que ele era muito paranóico, mas ter um pai morto com seis tiros por ser um "capo di capi" já era uma boa justificativa, não era? Sua mãe nunca descobrira quem matou ou mandou executar seu pai... Ela tinha passado o comando a um homem de extrema confiança e se dedicado somente à estância... Mas Shiryu não se iludia... Ainda hoje, a palavra de sua mãe era lei pra muita gente... Suspirou:
-Cada um com sua cruz...
-Resmungando logo cedo, amor?
-Nanna... Sol da minha vida... Só você pra me fazer feliz mesmo...
-Oras, nem bem abrimos e você já está romântico? Geralmente isso acontece lá pelo meio da noite, depois de vários copos de vinho com conhecidos... – riu ela...
-Está querendo dizer que eu só sou romântico depois de bêbado? Dohko! Venha ouvir os insultos que sua patroa está lançando na minha cara! Diga a ela que ela não vai achar marido mais romântico que eu nessa cidade, nem que procurar com um cão farejador...
-Dio santo! Comme é um exagerado! Até parece um italiano! – o rosto sorridente do cozinheiro apareceu na janela de pedidos... – Prego, patrãozinho, não comece cantar agora, que me espanta os freguês. Deixa pra cantar pra tua moglie mais tarde, si? – e fugiu da bola de guardanapo que veio em sua direção.
-Maledeto invejoso! Você tem é inveja da minha voz, ouviu?
-Não liga, não, amore. Mas deixa pra gastar sua bela voz mais tarde mesmo. Eu vou deixar umas músicas já escolhidas...
No final da noite, quando o movimento já estava mais sossegado, Giovanna Andréia assumia o caixa e Enrico soltava a voz no microfone do restaurante, uma voz quente e afinada, cantando geralmente músicas românticas em italiano e espanhol, fazendo a alegria dos casais que ficavam por lá...
N/A: Pronto! Quem queria saber onde eu ia colocar o Shaka, os gêmeos e o Milo, taraaan... Eles formam a máfia, os vilões que pressionam o Ikki Manuel... O que ele fará, agora que a espada está sobre sua cabeça... Ele tem um plano pra conquistar as boas graças da sogra malvada? E Shun Daniel, vai enrolar sua namoradinha até quando? Já provou do mel, agora quer cair fora? Não percam os próximos capítulos da nossa novela mexicana... A DOR DE UMA TRAIÇÃO!!
