A DOR DE UMA TRAIÇÃO – CAPITULO 05
O PLANO DE IKKINa manhã seguinte, Ikki Manuel deu bom dia a Shun Daniel sem perguntar nada. Shun estranhou, mas achou melhor nem comentar muito. Assim era melhor...
A cabeça de Ikki dava mil voltas, pensando em como agir. Subornar os empregados de Pipe Magdalena era algo meio impossível, já que todos pareciam muito leais a ela... Agora que ele sabia o quanto ela era perigosa, entendia o porquê de tanta lealdade... Era medo... Se ele pudesse chantagear alguém, tipo Nielle Lucrecia... Mas aquela era um bagre ensaboado, nunca que ia dar chance de ser pega com a boca na botija. Poderia engravidar Penélope Maria e forçar o casamento, mas só estuprando a moça... Passou a mão nos cabelos escuros, como se dessa maneira conseguisse colocar os pensamentos em ordem.
-Vai sair?
-Vou. Não me espere pra almoçar... – e pegando a chave do carro, se levantou.
Seiya Augusto estava pela enésima vez tentando xavecar a tratadora do haras, Carla Electra, mas ela o estava esnobando, como sempre:
-Moleque, ocê desiste. Eu num vô da bola pra um pé rapado feito ocê, não. Eu to estudando e quero namora alguém que tem futuro, que num gaste todo o salário num finar de semana com mulherada e num saiba nem prosear direito.
-Hombre! E eu num sei prosear então? As chicas ficam todas louquinhas quando escutam minha conversa... Ninguém resiste a mim, não, Carla. Só ocê...
-Num é esse tipo de conversa que eu to falando, não. E olha, o patrão ta te chamando...
-O señor chamou, patrão Ikki?
-Fica de olho no meu irmão, Seiya Augusto. Ainda não pude conversar com ele, mas ta na cara de que tem caroço nesse angu. E você, moleque sem vergonha, deixa a Carlinha em paz... Ela não é dessas garotas descartáveis que você ta acostumado.
-Que é isso, patrão? Eu tenho o maior respeito pela señorita Carla...
Ikki Manuel cofiou os bigodes e deu uma gargalhada maliciosa:
-Si, si, yo conosco esse su "maior respeito", seu sacana!!
E pegou o carro, indo pra casa de Pipe Magdalena, a mente dando voltas sem fim.
Quem abriu a porta para ele foi a copeira Marin Amélia, que estava passando, depois de deixar a bandeja de chá para Afrodite Guillermo na biblioteca.
-Ué, despediram o mordomo? Não que eu esteja reclamando de ser atendido por tamanha beldade...
"Cafajeste!"-Não, señor Ikki Manuel, Shura só foi receber a correspondência na guarita, já deve estar voltando...
-Só me mata uma curiosidade, Marin Amélia. Está contente com seu emprego aqui? Você acha o salário justo pelo tanto que trabalha?
"Só o que me faltava... O que ele quer? Que eu faça confidências pra ele me ferrar com a patroa?"-Oh, si, señor. A patroa é justa e paga bem. Me trata como gente, não tenho do que reclamar...
"Dessa aí eu não vou retirar nada... Quem sabe com o mordomo eu tenho mais sorte?" –Sorte a sua... Nos dias de hoje é difícil achar um bom emprego com bons patrões...
-Com sua licença, señor, vou avisar minha patroinha que o señor já chegou.
-E a señora?
-Está com Afrodite Guillermo na biblioteca. Quer esperar com eles?
-Oh, sim. Avise Penélope que estou lá.
-Bom dia, Ikki Manuel. Quer tomar café, um chá? Afrodite Guillermo estava me mostrando nossa nova aquisição, uma impressora que também é scanner e copiadora... ele nem tomou café direito hoje, só pra poder mexer nessa belezinha eletrônica...
O secretário sorriu para ela, as bochechas coradas, Pipe passando a mão carinhosamente pela cabeça dele. Depois Afrodite ergueu a cabeça para encontrar o olhar de Ikki, este se arrepiando "só vi esse olhar frio e assassino nos olhos de Milo Roberto. São da mesma safra, malditos! Eu preciso afastar Afrodite Guillermo de perto da minha sogrinha, se quiser alcançar alguma coisa."
De repente o computador deu um sinal sonoro. Afrodite olhou para a patroa:
-Hora da sua reunião com Camus, señora.
-Oh, sim. Deixe o computador ligado, Nielle ficou de usar agora de manhã...
"Com certeza, tudo o que se refere à patroa, está devidamente protegido por quinhentas senhas... Mas não é por aqui que eu vou começar.." – pensou Ikki.
Shura já tinha voltado da guarita com a correspondência, parou de separar as cartas nas bandejas para abrir a porta para sua patroa e conversar com ela:
-Alguma coisa urgente pra mim, Shura?
-No, señora. Alguma recomendação agora de manhã?
-Fique de olho no meu futuro genro, querido. – disse ela em voz baixa, a mão alcançando o rosto impecavelmente barbeado de Shura e acariciando-lhe o queixo. – E procure não beliscar meu secretário quando sairmos, está bem? Ele quase não conseguiu dirigir depois da última vez. – Beliscou-lhe a bochecha, piscando.
Shura ficou vermelho, mas sorriu. Era divertido incomodar Afrodite Guillermo, sempre tão controlado e ao mesmo tempo, fazer ciúmes para a outra arrumadeira, Shina Regina. Ela já andava irritada, por achar que estava sendo trocada por um gay...
Afrodite já estava com todo o necessário nas mãos, parado atrás deles. O mordomo deu-lhe passagem, segurando uma mecha do cabelo comprido ao saírem. Guillermo diminuiu os passos, o coração acelerando, sentindo a mecha ser erguida. Virou meio rosto para vê-la ser cheirada e o sorriso malicioso do mordomo, antes de largar o cabelo e fechar a porta. Colocou os óculos escuros e foi abrir a porta para Pipe Magdalena. Ela percebeu que a mão de dedos longos tremia:
-Ele fez de novo?
-Não.
-O que ele fez agora?
-Nada... oh, está bem... tocou no meu cabelo...
-Ele sabe que te incomoda, por isso te irrita... Não leve tão a sério, querido. Ou você está me escondendo algo?
-Tipo o quê, señora?
-Tipo se apaixonar por ele... Afrodite, por favor, ele te magoaria e eu teria que mata-lo. Não se encontram mais mordomos tão bons quanto o Shura por aí hoje em dia...
Afrodite riu alto, mas sabia que ela estava falando uma verdade na brincadeira... E ficou calado, enquanto manobrava o carro para sair da mansão. Logo paravam na banca do florista:
-Buenos dias, señora Pipe. O que vai querer hoy?
-Buenos dias, Camus Lourenço. Hoy aquelas rosas amarelas ali... Mas eu gostaria mesmo era de conversar com você.
-Estou ao seu dispor, señora.
-Fiquei sabendo que você deseja ampliar os negócios...
-Si, é meu desejo... sonhos de adolescência... meu pai diz que eu sou ambicioso, mas que mal há em querer melhorar?
-Nenhum, desde que não prejudiquemos outros com nossa ambição... O que eu lhe venho propor, Camus, é uma sociedade... Eu entro com o dinheiro e você com a idéia – ou as idéias – assim que você ampliar de acordo com seu desejo, vai me pagando.
-Parece bom demais pra ser verdade, señora, sem querer ser ingrato ou desconfiado ao extremo... Porque faria isso?
-Porque eu já fui pobre e se estou onde estou hoje, foi porque alguém acreditou em mim... Gosto de fazer o mesmo pelos outros... Ajuda a redimir alguns dos meus pecados...
Os olhos azuis e os castanhos se encontraram por algum tempo. Depois Camus Lourenço estendeu a mão:
-Sim, lo creo. Que tienes bon corazon, no que tienes tantos pecados asi, que precise expurga-los... O que preciso fazer?
-Afrodite lhe dará as coordenadas. Ninguém precisa saber de nossa sociedade, querido. Apenas dê o seu melhor por aqui, ok?
-Nem precisava mandar, sócia... – riu o jovem, assustando levemente com a sombra silenciosa que surgiu ao lado deles... Afrodite puxou Camus para os fundos da banca, explicando os documentos que precisava e como seriam assinados os papéis. Depois pegou as flores que Pipe escolheu, pagou e saiu, esperando a patroa na porta do carro... – Ele é sempre silencioso assim?
-Você vai acabar se acostumando...
-Posso só perguntar uma coisa? Como ficou sabendo que eu queria ampliar a banca de flores? Além da minha família não me lembro de ter contado a mais ninguém...
-Um passarinho loiro me contou. Não fique bravo com ele, é tão difícil ter amigos sinceros como Salvador Hyoga hoje em dia... – e acenando, entrou no carro.
Camus ficou um tempo na calçada, olhando o carro se afastar... Depois voltou para a banca, pensativo:
"Sim, é difícil ter amigos sinceros hoje em dia... o que dirá de amigos que se apaixonam pela noiva do outro... Eu me sinto um canalha, ainda mais agora, que sei que ele se preocupou comigo a ponto de contar meu sonho à sua sogra, sabendo que ela era capaz de me ajudar... Mas eu não vou trair a confiança do meu amigo. NUNCA! Vou guardar esse sentimento a sete chaves dentro do meu peito..."
Shura terminou de separar as correspondências e foi verificar as bandejas de café da manhã das senhoritas, deixando Ikki de bobeira entre a biblioteca e o hall. Ele olhou desinteressado para as cestinhas de cartas, os olhos caindo sobre um envelope timbrado no cesto de Nielle Lucrecia.
"Timbre de hospital? Será que a mocréia está doente?"
Olhou para um lado, para outro, e puxou o envelope... Talvez fossem só exames de rotina, ou... Levou o envelope para a biblioteca e destapou o bule de chá de Afrodite Guillermo. Ainda estava fumegando. Colocou o verso do envelope na fumaça e deslacrou. Abriu, passando os olhos... Eram resultados de check-ups mesmo. Nas primeiras folhas nada demais, mas nas próximas... o que estava escrito fez os olhos azuis de Ikki Manuel se arregalarem. Ele se aproximou devagar, olhando para todos os lados e ergueu a tampa da impressora nova. Scaneou as folhas que interessavam, tirando uma cópia xerox de todas. "Maquininha boa mesmo. Ficaram perfeitas." Depois puxou a cola de dentro do porta trecos da mesa "Maldito gay organizado... tudo que se precisa, a disposição em segundos. Pelo menos hoje, agradeço a isso." E colou o lacre de volta... Quando saiu da biblioteca, Shina Regina já estava levando a bandeja de Nielle Lucrecia. Ikki Manuel a chamou:
-Hey, garota! Caiu um envelope da sua patroinha amável aqui no tapete!
-Gracias, señor Ikki. Se eu perco alguma coisa, escuto belas palavras de minha amável patroazinha...
Os dois sorriram e Shina continuou a subir as escadas... Ikki voltou para a biblioteca, tirando as cópias do bolso e sorrindo pra si mesmo, enquanto cofiava o bigode...
"Os deuses sorriram pra mim! Nem acredito que consegui algo contra minha cunhada lisa... E coisa boa, caramba! Niellita, sua vida está nas minhas mãos... Aproveita bem esse café da manhã, porque depois vais é ter uma indigestão... huahuahuahuahua..."
N/A: Eita, o que será que o Ikki Manuel descobriu de tão grave sobre o bagre ensaboado... Oops, sua cunhada Nielle Lucrecia? Eu sei, ela sabe, mas vocês só vão saber no próximo capítulo... E o Camus Lourenço? Vai trancar o segredo a sete chaves em seu coração? Claro, ne? Senão não seria novela mexicana, sem um amor secreto... E até onde Shura vai incomodar Afrodite Guillermo? Muitas emoções no próximo capítulo de A Dor de uma Traição.
