A DOR DE UMA TRAIÇÃO

CAPITULO 12 – O FIO DA MEADA...

Graça Aparecida foi visitar a irmã no hospital. A irmã Tina ficou preocupada ao ver o semblante carregado da outra. Com jeitinho, fez com que ela desabafasse um pouco seus problemas.

Ele é igualzinho aos outros homens. Quando conseguiu o que queria, me descartou, como uma roupa usada...

Não acredito que Shun Daniel seja esse tipo de homem... Talvez a outra mulher o tenha seduzido...

Ele continua se encontrando com ela... Mas se ele pensa que eu vou deixar barato, vai se arrepender de ter me enganado. Vou me vingar...

Oh, minha irmã... por favor... Essas idéias vão te deixar doente...

O que você sabe do mundo, Adamantina Heloísa? O que você sabe do amor, do gosto de um beijo, da delícia que é o peso de um homem sobre si? Você, que desde pequena só quis viver para os seus santos?

Realmente nada sei, mas... gostaria de saber... – a última frase saiu sussurrada, e a irmã Tina ficou vermelha.

E o pior. Graça Aparecida ouviu. Ouviu e puxou o braço da irmã, para que a encarasse:

Gostaria? Gostaria mesmo? Oh, quem será o deus maravilhoso que tocou o seu coração de gelo?

Não blasfeme, Graça.

Não, não, não estou blasfemando. Quero acender velas no altar da Virgem, que finalmente atendeu minhas preces. Se você se sentisse apaixonada, com vontade de ser mulher, eu não seria mais a única perdida da casa.

Entre eu estar apaixonada e me entregar a um homem é uma distância enorme, sua maluca.

Distância? É tudo uma questão de tempo, minha querida irmã santinha. É só uma questão de tempo...

Enquanto isso, Giovanna Andréia recebia informações importantes de seu "contato" e começava a se preocupar com seu marido.

Oh, meu Deus, proteja o Enrico Shiryu... (1) Ele é o que mais vai sofrer com essa história toda...

Shura andava de um lado para o outro na mansão. Fazia dias que não falava mais que o necessário com Afrodite Guillermo. Aquela situação estava insustentável. Porque ele tinha que beijá-lo? Não foi ruim de todo, mas colocou a ambos numa situação bem constrangedora. Afrodite podia ser fresco e tal, mas era um bom homem, um... amigo.

E yo soy un hombre, tengo que me comportar como tal. – bateu o punho na palma da outra mão aberta. – Vou conversar com ele, de hombre para hombre.

Uma hora em que Afrodite estava no computador, ajeitando umas contas de Pipe Magdalena, Shura pegou a bandeja de chá das mãos de Marin e foi lá.

Seu chá.

GraciasShura. Pode deixar aí na mesinha, depois eu tomo.

Olha, Afrodite. Você está me evitando e yo no estoy gostando nada disso. Precisamos conversar.

Eu... não estou te evitando e... e nós não temos nada pra conversar.

Claro que temos. Mira. Usted nem olha pra mim...

Afrodite Guillermo suspirou, levantou-se e foi para o sofá, em frente à mesinha. Shura pegou o bule, serviu o chá e lhe entregou a xícara. Afrodite tentou pegar, mas sua mão tremia muito. Ele encolheu a mão e Shura deixou na bandeja.

Desculpe...

Ustedestá com medo de mim. Não o culpo. Fui eu que nos trouxe até esta situação constrangedora. Ahora, usted tem medo de que eu o trate com desprezo e o rejeite dolorosamente...

Sempre foi assim...

Mas não tem que ser! Escucha-me. Eu não vou me declarar apaixonado por usted Não estoy. Pero, pelo pouco tempo que passamos juntos, eu gostei mucho de sua companhia. Usted é um ótimo companheiro. E beija muito bem...

Afrodite sorriu, tímido. Apesar de seu coração bater apressadamente, ele sabia que Shura não ia lhe dar falsas esperanças. Apenas estava sendo gentil.

Como yo disse, gostei muito de sua companhia. Queria continuar sendo seu amigo. Se passarmos deste ponto, eu te levarei para a cama e terminaremos nos odiando. Não gostaria que isso acontecesse.

Eu também não.

Poderia ser somente meu amigo?

Posso tentar.

Você vai achar um homem bom, que te trate bem, pra que você seja feliz... Só espero que eu já esteja casado, para que não fique muito enciumado...

Afrodite riu, no meio das lágrimas. Shura estendeu uma das mãos e passou o polegar nelas, enxugando. Estendeu o chá de novo.

Vamos, tome antes que fique frio.

Trouxe creme desnatado?

Mas como é fresco! Si, si, yo trouxe. Mas nesta xícara eu já pinguei limão.

Não tem importância, eu gosto agridoce. Shura, este chá está frio... Vou me queixar a sua patroa que você não está me servindo a contento...

Resmungando palavrões em espanhol, Shura trocou a xícara de chá. Sorriram. Ia doer no começo, mas eles iam conseguir voltar ao normal.

Camus Lourenço arrumava um bonito ramalhete para Nielle Lucrecia. Por mais que tentasse, não conseguia acalmar as batidas do seu coração. Salvador Hyoga havia lhe dito que desmanchara o noivado e que ela tinha perdido o bebê.

Agora mais do que nunca ela vai precisar de alguém ao seu lado. Quem dera que esse alguém fosse eu. – Bateu na porta e recebeu a ordem de entrar.

Pipe Magdalena estava sentada numa cadeira ao lado da cama. Nielle Lucrecia estava adormecida. Parecia tão pequena e frágil, tão pálida quanto os lençóis da cama..

Camus Lourenço... Sempre tão gentil... Agradeço por ela...

De nada, minha senhora. Hyoga me contou tudo... eu sinto muito...

Também sinto por um monte de coisas... Pela mágoa de Salvador Hyoga, pelo meu netinho perdido... Se bem que eu me acho muito nova pra ser avó... Mas Nielle não soube plantar muito bem... A sua colheita foi terrível...

Oh, sim... Entendo. Mas ela está bem?

Uma hora aliviada pelo aborto, numa outra ela chora por ter perdido o neném. Mas ela é forte, é filha de Carlo di Angelis, tem a força necessária pra se recuperar. E tem amigos que a ajudarão, não é, Camus?

O rapaz ficou vermelho e sorriu.

Sim, senhora. No que eu puder ajudar, pode contar comigo...

Penélope Maria resolveu dar puxar um pouco a corda que enforcava Ikki Manuel. Arrumou-se com aprumo e ligou para o Haras. Mesmo surpreso com a ligação, Ikki foi gentil e ficou de esperá-la.

Que surpresa agradável... Você nunca fez questão de vir aqui fora de hora...

Nunca gostei de te atrapalhar no serviço. Imagino que cuidar de um Haras desse tamanho não seja fácil.

E não é mesmo. Muitas responsabilidades, muito serviço...

Muitos gastos, muitas dívidas, não é verdade?

O sorriso por debaixo do bigode endureceu-se, entre a dor e a fúria. E entredentes, Ikki Manuel sibilou:

Sim, muitas dívidas...

Jogar e se meter com a Máfia nunca pagou dívidas de ninguém, senhor meu noivo...

Ikki sentiu a garra gelada do medo correr pela sua espinha. Do que ela estava falando? Como sua noivinha quase freira podia saber daquilo? Pipe Magdalena? Mas nem ela sabia... Ou?

Não estou entendendo, bonequinha...

Já vou te explicar tudo, Ikki Manuel. – Penélope tirou da bolsa um envelope pardo. – Aqui, um xerox de todas suas promissórias. Eu paguei todas suas dívidas com Shaka, o Virgem.

Você fez isso por mim, gatinha?

E Ikki ouviu algo que ele nunca esperaria de Penélope Maria. Uma gargalhada irônica, capaz de rivalizar com as dos capangas de Shaka.

Por você, seu palhaço pomposo? Claro que não. Fiz por mim. Por mim, que mereço cada centímetro dessa propriedade, por te agüentar me traindo, mentindo descaradamente que me amava, tudo pra manter um nome que já está na lama, pra manter uma situação da qual você já perdeu o controle há muito tempo. Agora o Haras Melendez Rodrigues é meu. Te por daqui pra fora, te ver pedindo esmola, tomando sopa com os pobres na capela de Nossa Senhora dos Desvalidos vai ser a maior alegria da minha vida.

Bem filha de sua mãe, sua vaca de duas caras...

Quem sai aos seus, não degenera. E sobre ter duas caras, você é a última pessoa a poder falar de mim...

Shun Daniel abriu a porta do escritório de uma vez.

O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?

Arrume suas coisas, hermanito. Vamos embora...

Como assim, vamos embora? Esta é a nossa casa, construída pelos nossos bisavós...

Não é mais... eu perdi tudo no jogo e agora... a ordem de despejo chegou...

Penélope Maria? O que você está fazendo? O que você disse, Ikki Manuel? Você perdeu nossa casa no jogo? Meu Deus, mas isso é uma brincadeira de mau gosto ou coisa assim... VOCÊS FICARAM MALUCOS? Eu não vou sair daqui!

Penélope arrumou as luvas, ajeitou os óculos escuros e acenou com a cabeça em despedida.

Ah, vão sim. Não vai ser hoje, nem amanhã, vou dar um curto espaço de tempo pra vocês se arranjarem. Os empregados continuam, porque eles não têm culpa do patrão irresponsável que eles arrumaram. Mas se preparem, que eu virei tomar posse do que é meu. – Soprou um beijo para Ikki Manuel – Arrivederchi, carino mio... Hum... Me esqueci de avisar... Já cancelei nosso casamento, sim? Minha mãe ficou satisfeitíssima... agora ela não vai mais precisar dormir com a porta trancada... – E saiu, às gargalhadas.

Shun Daniel sentiu o mundo girar. Um pesadelo, de gigantescas proporções. Olhou para Ikki Manuel que tremia de nervoso. E este rosnou, antes de sair voando pela porta:

Não me pergunte nada, por agora. Depois eu conto tudo...

Shun se sentou numa das poltronas do escritório.

O que Penélope quis dizer com "minha mãe pode dormir com as portas destrancadas?" Ah, Penélope Maria, quem é você de verdade? Nem parece mais aquela garota que eu salvei dos brutamontes e fiz mulher em minha cama... Será que ela estava fingindo naquele dia?

N/A: Desencantei mais um pouco... Gente, deu pra notar que nesse capítulo todo mundo está um pouco mais psicopata que o normal? Agora chegamos ao clímax do negócio. Ikki Manuel vai contar tudo ao irmão? Penélope Maria vai despejar os irmãos Melendez Rodrigues? Quem é o amante de Giovanna Andréia, que segredo ela esconde de Shiryu? Falando nisso (1) eu não resisti, desculpem pela brincadeira de tornar a Andréia uma segunda Shunrey... Camus Lourenço vai ser amigo de verdade de Nielle Lucrecia? Não percam os próximos e emocionantes capítulos de sua novela mexicana. 24/09/05