A DOR DE UMA TRAIÇÃO
CAPÍTULO 12 – ALGUMAS DORES E ALGUM ALIVIO
Nielle acordou após algumas horas, atordoada.
"Onde estou? Que cheiro é esse? Argh, estou num hospital... pelo visto o tombo foi feio... Maldito Hyoga. Acho que os chifres pesaram muito, porque o corno sempre manso se rebelou..." – deu uma risadinha – "E quem será que foi o maldito – ou maldita – que me dedurou?"
E tentou se sentar na cama. Sentiu tontura e... que seu corpo pesava muito. Culpou os remédios e deixou pra lá. Mas ao tentar ir ao banheiro mais tarde e cair da cama, percebeu que alguma coisa estava muito errada.
A enfermeira que foi acudi-la teve muito trabalho, porque Nielle Lucrecia xingava muito, sacudia os braços não permitindo aproximação, estava quase histérica. Precisaram chamar enfermeiros fortes para segurá-la o tempo suficiente para lhe dar uma injeção calmante. Pipe Magdalena chegou nesse entrevero, olhando preocupada para seu fiel secretário. O médico, ofegante após a luta, pediu à mãe que lhe acompanhasse até uma sala mais calma.
-Bom, senhora, as notícias não são nada boas. Sinto muito...
-Sem rodeios, doutor. Seja claro. Meus empregados me deram uma visão por cima dos acontecimentos em casa...
-Sua filha caiu da escada, após uma discussão com o noivo. Se ele a empurrou ou não, não sabemos. Com o trauma, ela perdeu o bebê que estava esperando e comprimiu alguns discos da coluna vertebral.
Afrodite colocou a mão sobre a boca, para suprimir um gemido. Pipe apertou a mão dele, compartilhando a preocupação.
-Ela vai ficar paraplégica?
-Não creio. Mas vai precisar de muito repouso. O local é delicado. As dores serão horríveis no início. Depois que desinchar, veremos se vai precisar de cirurgia. Nada se rompeu, numa primeira avaliação, o que nos deixa muito esperançosos.
-Ela é tão ativa... vai odiar ficar em repouso. – comentou Afrodite.
-Mas é isso ou ficar paralítica para sempre. – Pipe se levantou. – Podemos vê-la agora?
Pipe Magdalena e Salvador Hyoga chegaram à porta ao mesmo tempo. Hyoga ficou vermelho, mas abriu a porta e lhe deu passagem. Pipe fez-lhe um carinho na face.
-Sinto muito por tudo, Hyoga.
-Sinto pelo bebê, que não tinha culpa de nada nessa história toda. Apesar de não ser meu, foi uma vida perdida. Só que eu não quero mais vê-la, Pipe. Como pode, de uma única mãe, saírem dois filhos ótimos e uma... uma desqualificada dessas?
-Vou relevar diante das circunstâncias, querido. Mas mesmo uma mulher feito a Nielle Lucrezia pode ser domada se encontrar o macho certo.
-Me chamou de frouxo, Pipe Magdalena?
-Você chamou minha filha mais velha de desqualificada. Acha que eu sou mãe de deixar barato?
Afrodite deu uma risadinha abafada no canto do quarto. Hyoga ficou mais vermelho e virou de costas.
-Bem, acho que você tem razão. Quando ela melhorar, pode pedir a ela que me devolva a aliança? Os outros presentes não precisam ser devolvidos.
-Está bem. Adeus e seja feliz, Salvador Hyoga.
-Serei. Que suas filhas não lhe traiam a confiança, Pipe Magdalena.
Nielle Lucrecia não aceitou bem a nova situação. Se pudesse teria esperneado. Entrou em depressão. Não queria ver ninguém. Até que uma visita inesperada a fez mudar de idéia. Camus Lourenço foi vê-la, com um dos maiores buquês já visto no país. Ela não teve como mandá-lo embora, apesar de ter ficado em silêncio, contrariada com a visita.
-Tudo bem, você está machucada por dentro e por fora, eu compreendo e aceito isso. Vou continuar vindo aqui e te aporrinhando até que você resolva reagir. Senhorita Lucrecia, a senhorita nunca foi mulher de desistir de tudo assim tão fácil. Porque entregar os pontos agora?
Enquanto isso, dois fatos marcantes aconteceram. Seiya Augusto comprou um bilhete de loteria que se mostrou premiado e Penélope Maria se descobriu grávida.
Seiya começou a tecer planos mirabolantes para o futuro, enquanto Penélope Maria resolveu ter uma conversa séria com sua mãe.
-Afrodite Guillermo, pode nos dar licença um instante? Obrigada, querido. Bem, querida mamãe – e a jovem carregou na ironia das últimas palavras. – Acho que está mais do que na hora de termos uma conversa.
"Oh, a leoazinha resolveu mostrar os dentes. Vamos ver se a leoa velha ainda tem garra pra manter a família." –Sim, querida filha. Acho que já passou da hora, até.
-Nielle armou pra cima de mim e acabou se dando mal por conta própria. Mas graças a ela, eu descobri o golpe do baú que o Ikki Manuel estava armando para cima de mim.
-Há males que vem pra bem.
-Poupe-me dos provérbios do tempo da nonna, mãe. O que interessa é que eu comprei as dívidas dele e agora o Haras Melendez Rodrigues me pertence.
-Muito bem! E o que você pretende fazer com ele?
-Com o Haras ou com o Ikki? O Ikki eu vou ver amargar o olho da rua. Com o Haras não me decidi ainda. Mas eu percebi que sou talhada para esse tipo de coisa. O meu irmão Shiryu nunca quis mexer com os negócios da família. Eu quero. Você sempre comandou tudo. Acho que é uma coisa de mulher mesmo.
-Quem sai aos seus não degenera. Acho bem conveniente que você esteja criando fibra suficiente para tal, minha filha, porque seu avô está muito doente lá na Sicília, talvez eu tenha que fazer uma viagem à Itália em breve. Seu irmão se abstêm de se meter nas tramas e sua irmã não está em condições. Você cuidaria de tudo pra mim, Penélope?
-Com o maior prazer, mãe. Basta me explicar as ramificações e o que eu devo fazer.
-Já que estamos tendo uma conversa séria, pode me dizer que cortes são esses no seu rosto? Parece que quando estão melhorando, você se corta de novo...
-São os chifres de uma vaca, que não pode me ver que já sai me pegando. Mas ela fica muito mais machucada que eu, mãe, fica tranqüila.
-Por que você não dá um jeito nela, mais definitivo, carina?
-Porque o noivo dela já vai perder tudo, quero que pelo menos tenha o consolo da mulher...
-O noivo dela não é o Ikki, é? Não estranharia que ele tivesse duas ou mais, só pra se garantir e...
-Não, mamma. O noivo dela é meu ex-cunhado, ex-futuro pai do meu filho...
-Per la madonna! Mas será possível que nessa casa ninguém nunca ouviu falar em preservativo? Vocês estão de complô pra me fazer avó, só pode!
-Foi uma besteira, mamma, me perdoa...
-Porco cane! Se pappa estivesse vivo... Ma, asculta, Penélope, cuidado, hein? Já basta sua irmã que o noivo empurrou da escada e perdeu a cria. Não vai se meter numa briga e perder o teu também.
-Este é meu, mamma. Eu o quero e ninguém, ninguém mesmo vai me tirar. Vamos ao que interessa ou não?
-Va bene. Vamos. Mas eu vou precisar do Afrodite agora...
Salvador Hyoga não foi mais ver Nielle no hospital, mas ficou rondando pela região. Ele precisava ver aquela noviça novamente. Talvez estivesse pecando, competindo com Deus por uma moça, mas, diacho, Deus já tinha um exército de freiras suficiente para dar falta de uma...
Irmã Tina também só pensava naqueles olhos azuis tão tristes... Daria tudo pra vê-los novamente. Não só os olhos azuis. O conjunto da obra estava sempre em seu pensamento, abalando suas convicções.
Num final de tarde, ela estava indo pra casa, quando viu Salvador Hyoga parado num café. Ele também a viu, falou com o garçom que foi buscar alguma coisa e atravessou a rua, para falar com ela.
-Irmã Tina!
-Senhor Hyoga...
-Por favor, não me chame de senhor... acho que temos a mesma idade...
-Sim... – enrubesceu. Não estava acostumada a conversar com homens, fossem de qualquer idade...
-Por favor, me permite convidá-la para tomar um café comigo? – apontou a mesinha, onde o garçom colocava um vaso com uma florzinha.
-Eu... eu não gosto muito de café... – gaguejou. Adamantina se sentiu uma retardada.
-Um chá, um suco? Quem sabe, comer? Eles fazem uns pãezinhos de cenoura ótimos... – estendeu-lhe o braço. – Permita-me.
Ela sorriu "que mal pode haver num chá com pão de cenoura?" e aceitou o braço. E passaram uma boa parte da tarde conversando.
Carla Electra entrou no galpão e deu de cara com Seiya Augusto deitado num monte de feno, uma palha no canto da boca, mastigando pensativo.
-Hey! Se o patrão te ver ai, moscando, vai te mandar embora, moleque. Não trabalha mais não?
-To aqui pensando, señorita Carla. Se a señorita tivesse muito dinheiro, o que fazia com ele?
-Você ta pensando nisso? Pensei que se VOCÊ tivesse dinheiro, não perderia tempo em gastá-lo. Torraria tudo em besteira, com certeza...
-Quando eu não tinha, pensava que era assim mesmo, sabe? Mas o moço lá do banco me disse que agora eu tenho que pensar no meu futuro, pra não acabar mais endividado do que quando eu era pobre...
-Seiya Augusto, ta falando sério? Você tem dinheiro no banco?
-Tenho, ara. To me abrindo procê, señorita Carla, porque eu lhe tenho confiança. Ce num vai sair ai, berrando pra Deus e o mundo, nem vai ficar me pedindo emprestado até acabar. Tem muita gente chupim nesse mundo. Foi o que o rapaz do banco me disse...
-Olhe, Seiya. Eu agradeço muito sua confiança. Vou te dar dois conselhos imediatos. O primeiro é, invista na sua educação. Adquirindo um pouco de sabedoria dos livros, você vai abrir seus horizontes e vai poder julgar os outros melhor, não dependendo do pensamento de ninguém. O segundo... Compre o Haras.
-Comprar o Haras? Mas onde o patrão Ikki e o patrãozinho Shun vão morar, Santo Deus?
-Aí que ta. O patrão Ikki está vendendo os melhores cavalos pra tentar pagar umas dividas, mas os boatos dizem que já não adianta mais. Se alguém que goste daqui não comprar, o Haras vai acabar.
-Minha Nossa Senhora? Ta acontecendo isso mesmo? Pois eu num vou deixar. Vou falar com eles agora mesmo.
-NÃO, Seiya! O patrão Ikki não presta. Ele vai tirar seu dinheiro, vai salvar o rabo dele e vai continuar tudo do jeito que está. Eu vou ver se eu descubro quem são os verdadeiros credores do Haras e nós vamos negociar com eles diretamente.
-A señorita é tão inteligente, señorita Carla Elektra. – Seiya Augusto se levantou e foi se chegando perto dela.
-Você já disse isso, Seiya Augusto.
-E que eu gosto muito de mulher inteligente?
-Ai, ai, ai, eu já conheço tua fama, tigrão.
-Pois eu posso num ser o cara mais inteligente do praneta, mas vou lhe fazer uma boa proposta. Fica comigo. Com a sua esperteza e com meu dinheiro, a gente vamos dominar o mundo. Que tal?
-Parece fala de um vilão canastrão de quinta. Mas eu não tenho nada melhor pra fazer mesmo. Sócios? – Carla estendeu a mão.
-Sócios. – Seiya puxou a mão com força, agarrou o corpo que bateu no seu peito e tascou um beijo na moça de tirar o fôlego.
N/A: IIIIIIIIIIIIIraaaaa, segura, peão. Dá-lhe Seiya! A coisa tende a piorar... Penélope Maria, mafiosa! No capítulo que vem, o Shiryu ou ... ou sai da moita... 02/04/06.
