A DOR DE UMA TRAIÇÃO
ÚLTIMO CAPÍTULO
Penélope e Shun Daniel não tiveram pressa em se casar. Primeiro veio o filho, um garoto a quem chamaram de Carlo Giuseppe, um belo moreno com os olhos verdes do pai. Depois que a nova mamma estava recuperada e pronta para o stress da cerimônia, começaram os preparativos...
Camus Lourenço, totalmente à vontade na família, enfeitou a igreja. Nielle tinha ainda a ilusão que mandava naquele namoro, mas a doçura do rapaz sempre dava a última palavra.
Shun sentia um pouco a falta do irmão, mas na noite anterior ao seu casamento, se decidiu por não pensar mais nele:
"Vão me acusar de muita coisa, a começar por ser um vendido à Máfia. Mas desde o começo, desde a morte de nossos pais, Ikki Manuel se tornou um estranho pra mim. Um estranho mau caráter, viciado em jogo, que não se preocupou nem um pouco comigo. Dilapidou a fortuna de nossos pais, perdeu o Haras, ia salvar tudo com um golpe do baú. Sempre egoísta, chegou a tramar contra a vida do meu filho e da sua ex-noiva. Acredito que teve um fim trágico, porque ninguém teria sossego com ele vivo, nos ameaçando constantemente. Sinto muitíssimo por ele, mas aprendi nesse tempo de convivência com a família da minha mulher que o mais importante são os laços de confiança que a gente forma, que somos mesmo capazes de tudo pra defender nossos amados – olho para o rostinho de meu filho e sei que faria qualquer coisa por ele – e que o mundo não é preto e branco. É cinza e em várias tonalidades. Todos temos nossas sombras interiores. Quem sou eu pra julgar a Pipe Magdalena, por ser uma mamma feroz pra defender suas crias? Descanse em paz, Ikki".
Pipe encarou por uns instantes o casal feliz que cortava o bolo e pensou no irmão do noivo, agraciado por botas de cimento no fundo de algum rio – cortesia de Saga e Kanon – e suspirou. Certas coisas deveriam ser diferentes... O neto se mexeu em seu colo e ela sorriu:
-Ma che cosa piu bella della nonna. Quem poderia pensar em fazer mal a você, Carlito, han? Teria que se ver com a nonna e seus tios. – beijou a testinha. – E com tuo pappa também, que por trás daquela faccia bonitinha, tem uma fera escondida.
Penélope Maria e Shun Daniel adiaram a lua de mel até depois da partida da matriarca. Afrodite foi ao seu salão de beleza favorito se despedir. A dona do salão reclamou:
-Mas como assim, ir embora pra Itália?
-Minha patroa vai, eu vou com ela.
-Ô seu veadinho, vê se escreve, hein? Vamos sentir muito a sua falta...
-Sim, Mariana Sukhi. Não vou perder o contato com vocês. Quero saber de todas as fofocas daqui... e te conto os podres de lá... – riu o rapaz. – Vou ligar para o Shura vir me buscar. Não vou estragar minhas novas unhas dirigindo...
-Aquele seu amigo é de fechar o comércio, querido. Que pena que vocês não deram certo...
-Ele é apenas isso, meu amigo. Mas...como ele é hetero, você bem que podia investir nele, ne, bela?
-Bem que eu podia, ne?
-Sim, já que eu vou embora, ele vai precisar de companhia...
Mariana Sukhi e Afrodite Guillermo ficaram se olhando, primeiro com um sorriso malicioso depois caíram na gargalhada. Shura nem imaginava que estava com seus dias de solteiro contados...
Salvador Hyoga veio até a floricultura do amigo Camus Lourenço para contar do noivado com Adamantina Heloísa. Ele estava muito feliz com a ex-noviça e achava que Camus afinal era a pessoa certa para domar a Nielle Lucrecia.
-Seja feliz, meu amigo.
-Você também. Veja bem como são as coisas... Se eu não tivesse brigado com Nielle, nunca teria conhecido Adamantina... E posso garantir que Ada tem muito mais meu jeito...
Camus apenas sorriu. Salvador Hyoga era mesmo ingênuo e romântico demais, pra entrar pra uma famiglia como a de sua namorada. Shun Daniel se adaptou muito rápido. Ele também. Alguns já têm espectros dentro de si...
Pipe Magdalena olhou para seu quarto pela última vez. Shaka e Penélope tomariam conta de tudo dali por diante... Saga Valentim e Kanon Vicente estariam atentos, contando com Dohko e Aldebaran. Shiryu já estava com os olhos abertos... Camus Lourenço era de confiança, muito mais que apenas um florista. Shun Daniel poderia virar o diabo se alguém ameaçasse o filho.
-Sim, tudo vai estar tranqüilo...
Passou pela biblioteca, se despedindo dos retratos familiares. Carlo e ela inaugurando a casa, um retrato de Asterion Alberto, o guarda costas de "Maschera di Morte", morreu com ele, cão de guarda fiel até o fim. As 'crianças' em suas diversas fases.
Foi para a cozinha, dizer 'ciao' às empregadas. Shina Regina se conformou com a deserção de Shura e resolveu namorar o vigia da guarita. Marin Amélia ia se casar com o namorado de infância, irmão do Benito Aioros.
-Crianças, se cuidem. Aioros, juízo, hein?
-Sim, patroa. Faça uma boa viagem.
-Eu escreverei para vocês. Marin, me mantenha informada, ok?
-Pode deixar, señora. Mas venha nos visitar também, sim?
-Vai depender da situação por lá. Não prometo nada, querida. Adios. Arrivederci.
Os carros já estavam na porta para o adeus no cais do porto. Pipe resolveu ir de navio, para descansar um pouco antes do stress na Itália. Miro Roberto resolveu ir com ela, pra rever uns parentes e se inteirar da situação, para o patrão Shaka. Pietro Antonio, irmão de Carlo, veio da Itália buscar a cunhada.
E teve uma atração forte pelo secretário dela. Agora mesmo, estava ajudando Afrodite Guillermo a subir as escadas do navio.
-Coisa incrível! Meu cunhado mais novo é um mafioso gay... – Pipe ria abraçada ao Enrico Shiryu.
-Acho que mio zio continua sendo perigoso... Ele tem um sorriso assim... enganosamente simpático, como o seu e o do pappa Carlo.
-Enrico, como você fala assim da sua mãe?
-Ah, mamma, você é um doce de pessoa, quando não pisam nos seus calos – também conhecidos como filhos.
-Vou morrer de saudades...
-Você ta indo pra terra da lasagna... – riu ele, pra disfarçar.
-Graziepor me lembrar. – Pipe abraçou Nielle, depois Camus. – Por favor, não se matem. Quando resolverem me dar netos, me avisem.
-Não vai ser nesse século. – Nielle torceu o nariz.
-Eu viverei muito ainda. Italianos duram mais que cem anos.
-Mamma, se cuida. Cuidado com os italianos atrevidos por lá. Vê meu tio? Nem bem chegou, já derrubou o Afrodite. Milo Roberto, de olho na minha mãe, ta?
-Shaka, deixa de ser ciumento. Eu nasci lá, sei como eles são. Piores que esses espanhóis metidos a gostosos, não há. Agora deixa eu dar um beijão no meu netinho, coisa mais rica da nonna.
-Mas a sério, agora, mamma, se cuida. Queremos você de volta.
-Si, si, parece que eu sou a caçula da família, não a mamma, porca miséria. Que filhos mais ranzinzas eu criei, per la Madonna.
Depois das despedidas, abraços, beijos, choros, conselhos, os passageiros foram se instalar nas cabines. Afrodite e Pietro já quiseram ir para a piscina e arrastaram Milo Roberto e Pipe com eles. Um simpático rapaz de cabelos ruivos acenou para Pietro.
-Kirion! O que você está fazendo aqui?
-Estivemos passando uns dias em Cancun, agora vamos pra casa de navio. Coisas do meu pai. E você?
-Vim buscar minha cunhada, meu pai quer muito vê-la. Pipe Magdalena, Kirion Andropoulos. A mãe dele era Bárbara Fellini, se casou com um Andropoulos.
-Murilio Andréas Andropoulos?
-Sim, conhece meu pai?
-Só de nome.
-Pois, por favor, conheça o homem em carne e osso. – disse uma voz agradável por trás deles. – Permita que eu me apresente, senhora Di Angelis?
Pipe se virou para encontrar com um homem alto, corpo esguio, olhar violeta, o mesmo sorriso simpático e felino característico a quem guarda segredos na vida particular. Sorriu igual e foi reconhecida. Se cumprimentaram e Murilio lhe estendeu o braço, acompanhando-a para o bar. Milo Roberto riu:
-Meu patrão estava preocupado com os italianos, se esqueceu dos gregos.
-Fica de olho, Milo Roberto.
-Sim, mas nem eu sou louco de ficar de olho muito de perto. Se o senhor Andropoulos não me capa, minha senhora é capaz de.
-Meu pai tem alguns problemas com a Máfia italiana, por causa da morte da minha mãe. Os italianos são bem bairristas, não gostam de serem comandados por um estrangeiro...
Afrodite Guillermo olhou para o namorado, que retribuiu com um sorriso.
-Pois é. Uma união ali seria bem conveniente... meu pai também ia gostar... e já ouvi dizer que minha cunhadinha é meio mandona...
-Meu pai parece manso. Mas ele é capaz de explodir estrelas se ficar bravo.
-Tá ficando cada vez mais interessante...
-Se ta...
-Senhora Di Angelis...
-Por favor, senhor Andropoulos, me chame de Pipe. Esse 'senhora' me faz me sentir muito minha mãe.
-Se você me chamar de Mu, somente...
-Meu sogro quer seu território, então?
-Italianos gostam de manter as coisas entre eles. Eu gosto de expandir limites. Do que você gosta, Pipe?
-Eu? Gosto de manter as coisas em ordem. Mas não tenho medo de experimentar coisas novas. Um dia provei comida grega e gostei.
- Faço um espetinho de cordeiro com molho de iogurte e hortelã que é um manjar dos deuses.
-Quer me conquistar pelo estômago, Mu?
-Algumas pessoas acham que começar pela cama primeiro é muito atrevimento.
-Não conheci homem algum depois do meu marido. Sempre achei o Carlo o suprasumo do espécime masculino.
-Por favor, permita-me encarar a concorrência e provar a superioridade do homem grego na arte do amor. Afinal, nós temos Afrodite e Eros no currículo.
-Por que será que eu acho que vamos nos dar muito bem?
-Tenho essa mesma impressão. – Mu ergueu a taça de vinho – À nossa parceria...
-Sim, à nossa parceria... talvez eu devesse começar a aprender russo.
-Eu já sei um pouco. Acho que ambição é uma qualidade excelente num empreendimento.
-É. Nós temos tudo pra conquistar o mundo.
-Minha cabine ou a sua?
Os rapazes viraram a cabeça, disfarçando, quando o casal se levantou para voltar para as cabines. Depois bateram os copos de bebidas. Fusões, planos, arranjos se arrumavam todos os dias. Acordos se faziam e se quebravam, dependendo do grau de confiança. Traições eram comuns, mas sempre se pensava num bem maior e beneficiário a todos. O futuro sempre era incerto, mas nunca se permitia que ficasse somente nas mãos do destino. O mais forte sempre tinha a última palavra, mas o mais inteligente é quem decidia tudo.
Ninguém nunca pode precisar com exatidão os papéis de Pipe Magdalena e Murilio Andropoulos em suas famiglias. A união dos dois trouxe paz entre a Itália e a Grécia, apesar de eles nunca terem conseguido conquistar a Máfia Russa. Foram felizes até a morte, anos depois, numa esquina de Atenas, onde faleceram num acidente de carro. Fatalidade ou forjado? Quem poderia dizer, num mundo onde prevalece a dor de uma traição?
N/A: Obrigada a quem teve a paciência de esperar e acompanhou até aqui. Eu fiquei todo esse tempo entre o capitulo anterior e este tentando justificar o comportamento do Shun, que sabia que iam 'dar um jeito' no seu irmão e mesmo assim ele ia casar com a Penélope. Enfim... Foi divertido depois entremear a novela com citações de CDZ. Na época que eu comecei a escrever, eu amava muito o Mu, e queria terminar com ele. Também já estava programado que a Sukhi (alter ego da Faye) ficaria com o Shura, porque isso é de praxe nas minhas fics. Simbora atualizar as outras, pra fechar de vez o ciclo de CDZ da Pipe. 19/05/2008.
