Corine estava deitada na cama, de olhos fechados. Ainda não podia acreditar que ele estava no quarto ao lado, mesmo estando na mesma casa há meses.
Ouviu uma batida leve na porta, já podia até imaginar o rosto hesitante dele. Transformou-se num gato. Uma pequenina bolinha de pelos brancos enroscada. Já era de manhã cedo e ela quase não dormiu durante a noite, seu corpo estava em fogo pedindo pelo toque dele, pelas suas carícias.
Mas não ia ceder tão fácil, não importava quantas justificativas ele tinha dado e quantas vezes havia pedido o seu perdão ela não era uma mulher tão fácil assim. Ele havia destroçado seu coração, rasgado sua alma e ela era rancorosa. "Nunca ofenda um gato" era o que Moony¹ tinha lhe dito certa vez, se referindo ao animal que ela mais gostava de se transformar, um gato. Orgulhoso como ela. Sentiu um perfume invadir suas sensíveis narinas felinas, um perfume familiar...
-Rosas. Amarelas.-ouviu sua risada -Será que ainda são suas preferidas?
Se espreguiçou manhosa e sensualmente na cama e se transformou, virando aquela linda mulher que nunca saia da sua mente.
-Nhá (bocejo)...Para a sua sorte, Padfoot, sim, ainda são as minhas preferidas. Se você fosse tão "canino" como diz que é, saberia que eu ainda uso o mesmo perfume.-Ele deu um sorriso maroto.
Céus, será que ele sempre vai mexer comigo assim?
Se afastou do jarro onde tinha posto as rosas e se aproximou sensualmente dela, ficando de quatro na cama, numa distância perigosamente próxima.
Os olhos azul-profundos dele brilharam ao sentir sua respiração ficando tão alterada quanto na última vez em que se encontraram naquela mesma casa, no quarto ao lado, há mais de dez anos. Pegou uma mecha de seu belo cabelo loiro e beijou-a. Sussurrou sensualmente no pé de sua delicada e rosada orelha:
-Sabe, senti muito a sua falta, em Azkaban.
Ela sentiu o corpo estremecer e o rosto empalidecer com a proximidade e, ao sentir aquele hálito morno no pé de seu ouvido, não conseguiu conter um suspiro. Engoliu em seco e adotou novamente a postura ríspida. Rosnou em resposta:
-Sabe, cãozinho, se você fosse menos burro, não teria sentido minha falta lá...
Enlaçou seu pescoço com os alvos braços, mordeu sua orelha, fazendo-o suspirar, e sorriu, malévola:
-...nem morreria de desejo aqui.
O empurrou e saiu do quarto, deixando por lá um Padfoot abestalhado.
O último e derradeiro beijo que os dois trocaram foi pouco antes de ele sair para a missão fatídica que o mataria. Ela não agüentou a dor da perda e, por não poder morrer, sua alma abandonou para sempre o corpo. Este, que era mantido vivo por feitiços e poções, ficará em repouso no Saint Mungus até se desfazer.
Por não haver corpos para enterrar, os filhos e os amigos fizeram um túmulo simbólico para os dois, com os seguintes dizeres na lápide:
"Túmulo simbólico de Corine Emanuelle White Lady Black e Sirius Padfoot Black.
Bons pais
Bons amigos
Bons guerreiros
Bons Marotos.
Descansem em paz."
Periodicamente Mary visita o túmulo e deposita um buquê de rosas amarelas colhidas do jardim da "Mui Nobre Mansão dos Black", agora reformada.
Talvez tenham se encontrado novamente em uma outra vida.
Quem sabe?
Mary carregava seus livros, voltando da biblioteca.
Os risos a cercavam, os sorrisos se voltavam para ela, os olhares de admiração eram lançados a todo instante, mas ao contrário do fogo no gelo lá fora, tudo aquilo só a deixava mais fria.
Seus olhos azul-esverdeados tinham um reflexo cinzento por conta da neve naquele dia. Diana e ela conversavam (Diana falava e ela escutava), sua irmã caçula lhe contava dos garotos que ela tinha dispensado aquela semana e tudo o mais.
Mas Mary não ouvia, não tinha a menor idéia sobre o que sua irmãzinha falava, estava perdida, mergulhada em pensamentos, pensando se valia à pena, se valia à pena continuar com isso...
Como isso era surreal! O que ela não daria para recomeçar e nunca ter saído naquele dia para brincar com o irmão! Tudo começou naquele dia...a tristeza, a dor e o sentimento de ser diferente. Era tolice achar que, se não houvesse aquele dia, ela seria uma criança "feliz e normal". Talvez menos perturbada, mas normal, nunca.
Para começo de papo ela era uma bruxa, depois a mãe dela era filha de dois dos seres mais poderosos que já pisaram na face da Terra, o pai dela era um fora-da-lei e, para finalizar, ela era a reencarnação de um ser amaldiçoado.
-E ainda dizem que tenho sorte.-Falou Mary, suspirando.
-Ãhn? Maryzinha, você pirou? Nós estávamos falando sobre o Derek Hide e se eu vou ou não com ele à Hogsmeade, lembra?
-Ah, é? Puxa, Di, desculpa, eu tava perdida em pensamentos...
-Isso é palpável.
Diana estava começando a ficar magoada.
Ok, ok, ela sempre foi a favoritinha da família, não tem por que eu ficar com raiva dela. Disso, ela não tem culpa. Suponho que seja um grande peso ter um poder como o dela, ela também não escolheu isso. Aquele "incidente" também não contribui para ela ser uma pessoa "hip-hip, hurra!". Mas, (cara!) que droga! Eu sou gente também, gostaria de ter alguém com quem dividir meus pensamentos e emoções! Eu não sou só um corpo sexy...
Nesse momento assoviaram para as pernas dela.
...nem apenas uma pessoa extrovertida! Eu fico insegura, fico com medo do que vão pensar de mim e eu a admirava, sempre a admirei. Ela sempre pareceu tão forte, mas é fraca a ponto de só olhar para o próprio umbigo. Todos são assim, eu não sou nenhuma Madre Teresa de Calcutá (aposto que até ela sentia inveja, raiva, ciúmes, ficava magoada, tinha TPM...)
Diana gargalhou ao imaginar uma freirinha gritando porque haviam rezado alto demais.
veja agora, por exemplo, minha irmã podia estar triste ou magoada com algo e eu larguei ela falando sozinha, pedindo desculpas para as gárgulas. Merlin! Que droga! Eu TINHA que ter feito isso? Grrrr...
Se assustou ao perceber que estava numa área pouco freqüentada do castelo e que ela mesma mal a conhecia.
-Ai Merlin, é sacanagem isso...Só porque eu larguei a "pobre coitada" da minha irmã falando sozinha?-Diana murmurava preocupada tentando achar uma saída daquele lugar que mais parecia um labirinto.
-É isso?! É castigo?! Só pode! Cê adora me sacanear!-Se irritou e começou a gritar com as paredes, chegando a chutar uma delas, e tudo o que conseguiu foi uma dor no dedão do pé.
-Belo chute, Black, se chutar com mais força, talvez consiga fazer o castelo desabar. Ou quebrar o seu pé, tanto faz.
Uma voz desdenhosa veio do fim do corredor, provocando uma irada Diana.
-O que você quer, Malfoy?! Ver a minha desgraça, é isso?! Se era, já conseguiu! Rala daqui! Fora! Vaza! Me deixa em paz!
Ela precisava, mesmo, descontar sua frustração em alguém e o único alvo disponível era Malfoy, se fosse ele a pessoa que possibilitasse ela extravasar, o faria sem pensar duas vezes.
-Como você é desagradável, Black. Daria de tudo para estar bem longe de você nesse exato instante.
Diana lhe lançou um olhar fulminante e, se olhar matasse, a vida já teria largado Malfoy há muito tempo. Mas este não era uma pessoa de se impressionar facilmente, de forma que, ante aquele olhar, tudo o que fez foi sorrir e se aproximar, contradizendo-se.
-Se, por um acaso, hipoteticamente falando, eu conhecesse a saída daqui, o que iria ganhar?
Diana sorriu malevolamente ao começar a entender o joguinho dele.
-Precisando de uma companhia reconfortante, Draco?
Ele se aproximou sorrindo, a enlaçou pela cintura e murmurou do pé de seu ouvido:
-Que bom que você está entendendo, não gosto de mulheres burras.
Ela riu, roucamente. E retrucou de forma manhosa e sensual:
-E você acha que eu preencho os requisitos necessários para ser essa sua companhia, darling?(querido)
-Preciso dizer?-Draco apertou o abraço e roçou o nariz em seu pescoço.
Diana o empurrou, falando calma e desdenhosamente:
-E acha que eu sou fácil assim? Nem que você nascesse de novo eu ficava com você. Prefiro morrer a sentir tão de perto esse seu perfume enjoativo de novo.
Girou os olhos e deu meia volta.
-Por aí você não vai achar a saída...-Draco cantarolou alto o suficiente para ela ouvir. Ela bufou e continuou andando, pisando firme.
Mary estava deitada em sua cama, lendo. Mione entrou porta adentro.
-Mary, eu sei que hoje o dia não está lindo, mas, vamos, você não precisa ser tão soturna o tempo todo...
Mary sorriu e se ergueu.
-Não estava soturna, estava lendo.
-O quê?
-Poesias.
Hermione vibrou com a possibilidade de mais um livro para ler.
-Posso?
Mary fez que sim com a cabeça, com um ligeiro riso nos lábios.
-Pode, mas você não vai entender.
-Como assim?
Perguntou Mione indignada.
-É claro que vou! Eu sou muito boa em línguas arcaicas!
Mary fez um som de riso com o nariz.
-Não estão escritas em arcaico, é uma língua muito atual.
-Melhor ainda!-Exclamou Mione sem entender.
Ao pegar o livro se decepcionou.
-Que raios de língua é essa?
-Português.
-Não sabia que você falava português.
-Minha mãe era fascinada por línguas latinas. Domino o português, o espanhol, o inglês², claro e o francês.
-Nossa. Lê uma dessas poesias para mim?
-Em inglês? Eu não sei traduzir...
Mione sorriu levemente.
-Então leia em português mesmo...
-Ãhn...Você não vai entender...
Mary estava hesitante, aquelas poesias eram seu tesouro, um tesouro que não sabia se Mione seria capaz de compreender.
-Não tem problema, me deixe ouvir a melodia contida nas palavras.
Mary limpou a garganta e escolheu um poema:
- "Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…
Minha vida não foi um romance…
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso… de um gesto… um olhar…"
Mário Quintana
-Nossa. É tão...forte.
Mary encarou com uma expressão de "cuméquié?":
-Mione, você não entendeu a poesia...
-É, mas a língua é forte!
-Eu não domino direito...E tenho muito sotaque, minha mãe era bem melhor do que eu.
Mione sorriu, pegou Mary pela mão e esta, pondo o livro em cima da cama, se deixou levar docilmente, sorrindo.
Notas da Autora:
1-Para quem não sabe, Moony é Aluado em inglês.
²-Não, eu não acho que inglês seja uma língua latina, é saxônica, porém Mary é inglesa, logo, ela domina o inglês.
