Ela se sentia asfixiada...Era quase como se não houvesse ar...Ela sentia isso todo 31 de outubro...Meio desmaiada, tombou, se apoiando na cerca.

-Ah, beleza, já tô delirando...

Era impossível que Ele estivesse ali, com aquele sorriso calmo, carregando-a nos braços, aparatando para dentro da Casa dos Gritos, deitando-a na cama e dizendo, com um meio sorriso:

-Você só dá trabalho mesmo. É assim todo Hallowen, não é, Mary?

Que estranho, alucinações não costumam falar...

Ela sorriu, fraca, confusa, delirante, talvez. Ergueu a mão molemente tentando alcançá-lo e murmurou, meio tonta:

-Mas não importa, não é? Não importa porque você sempre vai estar aqui, cuidando de mim...

Ele ficou sério, segurou sua mão e triste disse palavras que ficariam marcadas eternamente na memória dela:

-Não, não importa. Mesmo que morra eu estarei aqui, protegendo você.

Ela fechou os olhos e, sonhando, ouvia passos fortes no terreno da escola, viu muitos vultos encapuzados com Aquele Homem à frente. Com um sorriso mau, ele tocava fogo na cabana de Hagrid.

-NÃÃÃÃO!

Remus a olhou estarrecido, sem entender nada.

-Mary, Mary, o que houve?

Disse ele, tentando segurar a menina que se debatia e gritava.

-Você...você precisa...ir!

-Do que está falando?

-VAI EMBORA!

Remus a largou (sem entender) e aparatou, sem imaginar o quanto isso mudaria a vida de ambos. Mary se levantou, ainda que tonta, não podia deixar aquilo acontecer. Não quando Dumblendore estava fora! A escola estava totalmente indefesa!

Saiu tropeçando e, sem saber como, estava vendo tudo de fora.

-Olá, vovô. Lembra de mim?-Falou "Mary" dirigindo-se a Voldemort com um sorriso malévolo. Voldemort ficou parado no lugar com uma cara de assombro ao reconhecer o rosto e a expressão.

-Você...

-É, eu. Falei que íamos nos conhecer, não falei, vovô?

Ele segurou seu pulso com brutalidade:

-Ela me escolheu, não podiam voltar! O que está fazendo aqui?

"Mary" riu.

-Ela escolheu Você, mas Você não escolheu Ela. Entendeu, vovô?

Voldemort apertou seu pulso com mais força fazendo-a torcer a cara, ainda divertida.

-Quer parar de me chamar assim? Não sou avô de ninguém.

Ela fez uma cara de espanto debochado.

-Oh não? E Corine?

Ele fez uma cara de esforço para se lembrar.

-Aquela pirralha? Eu achei que estivesse morta...

"Mary" comentou, como quem comenta sobre o tempo:

-E está, mas antes ela fez duas filhas e a gêmea dela fez um rapaz.

-Hm...Pronta para morrer, Ann?

-Não e não. Não vou morrer e não sou Ann.-Disse ela com um sorrisinho, se soltando dele.

Os Comensais apertaram o cerco, enquanto outros corriam para a escola.

-Ah, que bom que estão mais próximos...Assim é mais fácil.-Ela falava com os Comensais de Elite como quem brinca de pega-pega com crianças.

-Em nome da Grande Mãe, em honra ao Grande Pai, pelas Três Fases da Lua, pelos meus Irmãos e Irmãs terrenos, pelo Sangue derramado na terra, dai-me poder para impedir esse massacre, em nome da Lua Nova eu invoco os poderes dos Cinco Elementos!

Se agachou encostando as mãos no chão, fazendo ocorrer um terremoto terrível que desestabilizou os Comensais. Os que não caíram com o terremoto foram derrubados pelo vento forte. As raízes das árvores se enroscaram nas pernas de outros. Uma chuva forte começou a cair.

A chuva, os trovões e os raios somados ao resto aterrorizaram os Comensais.

Simultaneamente os cabelos de Mary começaram a embranquecer e seus olhos verde-água se tornaram azul-aguado, ela gritava de dor, enquanto sua vida era sugada pela terra.

Voldemort se surpreendeu, isso era um feitiço celta antigo, como aquela garotinha o executava tão bem? Deu o toque de partir.

Mary sorriu e tombou, semimorta.

Diana, que estava chegando, deu um grito de horror ao ver a irmã naquela situação. Olhou para aquele que ela julgava culpado de tudo com uma face carregada de desprezo. Voldemort semi-sorriu, há muito tempo uma garota não conseguia ser forte o bastante para sustentar seu olhar e aqueles olhos castanhos lhe diziam que, se dependesse dela, não sairia vivo dessa.

-O que você fez para a minha fantasminha?

Nunca vira tanta insolência numa só pessoa desde Bellatrix. Retrucou:

-Pergunte a ela.

E foram todos embora, deixando Diana com a cabeça da irmã repousada em seu colo.

Mary abriu os olhos como se esses pesassem uma tonelada. Ao terminar de despertar, constatou que estava no Largo Grimmauld, em sua cama.

Diana, de luto, estava na cabeceira, muito pálida, sem nenhum vestígio do doce sorriso que a acompanhava.

Esta mesma torcia e retorcia um pequeno lencinho branco nas mãos de mesma cor. Lágrimas transparentes escorriam por seu rosto contorcido de dor, seu lábio inferior estava pálido de tanto ser mordido, com uma pequena gotinha de sangue escorrendo pelo queixo e se misturando com as lágrimas.

-Mary!-Gritou ela agoniada.-Você acordou! Eu...eu achei que você fosse ficar eternamente dormindo, como mamãe! Já estávamos preparando o seu túmulo também!-Ela gritava esganiçada enquanto abraçava a irmã e soluçava.

Mary meio tonta, não entendeu a última parte.

-Tam...bém? Quem... quem mais morreu?

Diana soltou um guincho e a apertou com mais força.

-No...no meio da batalha...Cho e Peter morreram! O traidor do Snape assassinou Dumblendore!

Mary estava confusa, não entendia nada...Peter...morto? Ele que tinha sido mais que um irmão, quase um pai! Sentiu as lágrimas escorrerem involuntariamente.

-Eu...eu não pude fazer nada...nada...É tudo culpa minha! De que adianta ter toda essa b de poder se eu não posso salvar aqueles que eu mais amo?!

Todo seu corpo tremia horrivelmente. Diana a abraçava, entendia sua dor...

-Não, não, não é sua culpa. Se você não tivesse executado aquele feitiço, talvez nenhum de nós estivesse aqui...Seu sacrifício salvou Hogwarts de um massacre!

-E...e o tio?

Diana sorriu. Ela sabia da paixão devoradora que Mary sentia por Lupin, apesar de nunca ter gostado muito dele. Mas seu sorriso murchou, Mary teria um baque quando soubesse...

-Ele casa semana que vem.

-O QUÊ?!

Mary sentia o coração bater forte. Diana a segurou com mais força, obrigando a irmã a ficar face a face com ela.

-Ele queria esperar você acordar, mas você dormiu por oito meses...Tonks o pressionou e eles vão se casar na semana que vem...

-Oi...oito meses? Eu dormi tudo isso?

Diana fez que sim com a cabeça.

-E teria dormido mais...Mas eu doei a minha energia para você.

-Isso...Isso deve ter quase matado você...

Diana abanou a mão como se não fosse nada.

-Você é minha irmã, lembra? Sempre juntas.

Mary chorando, abraçou a pessoa mais importante de sua vida no momento.

Dois dias depois, já de pé, preparava o café da manhã. Remus entrou na cozinha e levou um susto ao vê-la de avental, coque frouxo e frigideira na mão.

-Mary...você está parecendo uma dona-de-casa assim...

Ela se virou, com o rosto docemente sujo de farinha.

-Mas eu sou uma "dona-de-casa". Eu e Diana estamos sozinhas aqui, alguém precisa cuidar da casa enquanto outra cuida das finanças.

Ele sorriu.

-Ah! Seu presente de casamento já está sendo providenciado.-Disse ela, piscando o olho.

Ele se aproximou, fazendo-a se arrepiar. Pensando rápido, virou-se com um prato cheio de comida e perguntou, com um sorriso inocente:

-Panquecas?

-Não.-Ele estava segurando entre os dedos uma mecha dos finos cabelos cor-de-algodão da menina-mulher.-O que aconteceu com eles para ficarem assim?

Vermelha, sem conseguir desviar o olhar dos olhos claros dele, Mary respondeu:

-Segundo Mary Jane, é o preço pelo feitiço.

Ele riu, achando que ela estava brincando.

-Mary Jane? Sua amiga imaginária com a gêmea dela, Ann?

Ela o olhou, séria.

-Não são imaginárias. Ann é o espírito da minha avó e Mary Jane é o seu duplo.

-Por que você tem o mesmo nome que ela?

-Era para eu ser ela. Mas algo deu errado...-Seus olhos estavam de fronte para os dele, sem focá-los efetivamente.

Nesses segundos, Remus se pegou imaginando como Mary ficaria linda de branco...Largou sua mecha e, de costas, perguntou:

-Mas quem vai cuidar da casa quando vocês estiverem fora?

Ela, servindo a mesa, comentou:

-Ah, estava pensando em contratar uns elfos...

-Comprar?

-Não, contratar. Vou pagar pelo serviço.

-Acho que Dora não se importaria se vocês fossem morar lá...

Mary comentou:

-Ah não, não seria legal. Eu quero morar sozinha...

-E Diana?

-Assim que ficar maior de idade, ela vai embora, para morar com Fred e George como contadora deles.

-Ela não precisa se mudar.

Mary gargalhou.

-Ela vai morar com eles, o fato de ser contadora é bônus. Eles decidiram levar uma vida a três.

-Eles vão viver um triângulo?!

-Se isso faz bem aos três, qual é o problema?

Remus nunca imaginara que aquele bebê que torcia o nariz para papinha de cenoura viraria um mulherão que moraria com dois rapazes. Nem imaginaria que Mary, que costumava virar a caixa de leite pela mesa inteira, menos no copo, prepararia panquecas de cara tão apetitosa.

-Você vai fazer o que da vida?

-Pretendo ser professora de poções.

Remus se encostou no portal.

-E quanto à vida pessoal?

-Pretendo cuidar muito bem dos meus amigos.

Remus torceu o nariz.

-Não tem nenhum pretendente?

Ela se virou, quase triste, encarando-o:

-Não. Já se apossaram do meu coração.

Foi como uma flechada cortando o coração de Remus. Ele nunca tinha percebido... Tocou em seu rosto.

-Mary...

Ela deixou lágrimas escorrerem pelo rosto. Mas voltou a sorrir rapidamente.

-Vamos Tio! Nada de tristeza! Vejamos...Que tipo de terno você vai querer? Que flores? E convidados? E madrinha e padrinho?

Ela estava tão animada que era artificial. Remus sorriu:

-Você quer ser minha madrinha?

Ela virou de costas, com uma voz embargada, comentou:

-Acho que a Di fica melhor naquele lugar. Eu vou azarar o seu casamento.

Remus a abraçou. Sendo apertado por ela.

-Eu tenho me sentido tão frágil...Tão triste...-Se virou -E a culpa é minha. Vou dar uma volta. Tchau tio.

Soltou-se de seus braços e saiu.

Minutos depois, Diana entrou com cara de sono, de pijamas.

-Ahhh...Oi Remus...Tudo bom? Onde está minha irmã? Ah, ela saiu? Tá então, quer panquecas?

-Você não quer nem saber por que ela saiu?

Diana sorriu.

-Não precisa. Sempre que você tá aqui ela fica mal. –Ela fez cara de espanto quando ele arregalou os olhos –Jura que você NUNCA PERCEBEU?!

Remus perguntou:

-Perceber...O quê?

-AAAAAAAAAAAAAARGH! Será que você é TÃO BURRO QUANTO O PETER OU ELA MESMA?!

-Do que está falando Diana?!

-É o seguinte, como não agüento mais ver a MINHA fantasminha soluçando pelos cantos, vou abrir o bico: ela é loucamente apaixonada por você desde os cinco anos.

-Cinco anos...

Diana falou, apontando para Remus com um garfo.

-É, faz sentido né? Ela ficava terrivelmente enciumada quando eu ou Peter cativávamos sua atenção...Eu lembro que ela costumava aprender tudo antes de todos só para você sorrir e dizer "Oh, nossa Mary, como você é inteligente!"

Remus estava pasmo. Se bem, que tudo fazia sentido...

-Mas eu sou MUITO mais velho que ela, podia ser pai de vocês.

Diana o encarava como se fosse um alien.

-E...? Eu vou me casar daqui a dois anos com um par de gêmeos que tem quatro anos a mais que eu. Se você a ama e ela ama você, o que impede?

-Eu não a amo. Vou me casar com a Dora e estou muito feliz com isso.

Diana ergueu uma sobrancelha e se levantou. Foi embora.

Mary chutava tachinhas no Largo Grimmaud. Cabeça baixa e rosto emburrado. Elevou o rosto e viu um rapaz ao lado de outro.

O mais a esquerda era louro, de longos cabelos e sorria para ela, o rapaz a direita era moreno e estendia a mão para ela, sem sorrir.

Mary não era mais a mesma, tinha longos e sedosos cabelos negros semi encaracolados e usava uma longa túnica numa pradaria.

De repente o cenário mudou, os dois gritavam um com o outro, ela chorava e o rapaz de cabelos negros dizia que ia embora, estendia a mão para ela pedindo-a em casamento, dizendo que ela abandonasse todo o resto. O louro a abraçava e dizia que não era o que ela queria, que ela devia ficar ao seu lado.

Soltou-se dos dois e se atirou no lago, em pleno inverno.

Acordou assustada numa cela, presa pelos pulsos numa parede úmida e já era ela de novo. Muitos bruxos estavam ao seu redor.

-Demorou, mas finalmente encontramos esse monstro. Não sei como escapou da última vez, mas, agora que Dumblendore está morto, podemos retomar as experiências.

Soltou um ruído seco. Não, não podia estar de novo ali. Não podia estar naquela cela.

-NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!!

Os bruxos se voltaram para ela.

-Anote, 17:30h, o espécime acordou.

-SEUS LOUCOS! NÃO SOU UM RATO DE LABORATÓRIO! ME SOLTEM! EU TENHO UMA VIDA! TENHO DE TERMINAR HOGWARTS! ME SOLTEEEM! SOCORRO! MÃE! PAI! TIO REMUS! ALGUÉM ME TIRE DAQUI! EU NÃO POSSO ESTAR AQUI! DE NOVO NÃO! POR FAVOR!-Lágrimas escorriam sem pudor por seu rosto.

-17:31h o espécime teve um acesso de loucura e tenta quebrar as correntes.

Ela sentiu o baque de um tapa em sua face esquerda. Uma voz de mulher se fez soar na escuridão da cela, cuja luz entrava pela porta, batendo por trás dos bruxos e não permitindo a ela saber quem eram.

-Sua tola! Você é um monstro! Não devia estar a solta! Podia ter matado alguém! Ainda bem que cometeu o erro de executar aquele feitiço de alto escalão onde vários funcionários podiam contatar o Ministério.

Ela lembrava bem. Chorava copiosamente.

-Não sou monstro. Sou Mary...Mary Jane Black. Filha de Corine e Sirius Black.

Um dos bruxos soltou uma risada de escárnio.

-É mesmo uma pena, né? Mas acontece, mesmo nas melhores famílias...

E se foram.

Um lindo anjo louro apareceu em sua frente.

-Mary Jane...-Murmurou a garota, fraca.

Ela sorriu.

-Não se preocupe. Eles virão lhe salvar, querida. Vou tirar essas correntes, estão lhe machucando.

Tocou nas algemas e Mary tombou no chão, livre.

As paredes a sufocavam e tudo girava, deixava de fazer sentido. Gritos, muitos gritos... Crianças, velhos, jovens, homens e mulheres pereceram entre aquelas paredes. Ela estava encolhida em um canto, chorando, quando uma pessoa veio até ela. Assustada, ela se encolheu ainda mais, evitando o contato por medo do toque, medo de apanhar.

-O QUE VOCÊS FIZERAM COM ELA?!-Diana estava realmente irada.

Não entendia...Aquelas pessoas não eram melhores que os comensais. As lágrimas corriam enquanto iam para a saída com a garota ainda desacordada. Os bruxos ao redor a olhavam com raiva. Como aquela pirralha conseguira se fazer valer sobre os bruxos do Alto Escalão do Ministério da Magia?

-Não lhe devemos explicações, garotinha. Fique avisada desde já que não desistimos fácil de um experimento.-Resmungou uma mulher loira e com ar de calhorda.

-MINHA IRMÃ NÃO É UM EXPERIMENTO!-Gritou Diana, apontando a varinha para a mulher.-Retire o que disse.-Completou entre dentes.

-Você...não ousaria...-Murmurou a mesma.

-Pague para ver.-Disse, antes de dar uma risada meio insana.-Nunca esqueça quem foram os que me puseram aqui. Essa coisa de sangue pode ser útil de vez em quando, sabe?

A mulher estremeceu involuntariamente.

-Você é louca...-Disse uma outra, séria, apontando a varinha para Diana.

-É, quem sabe...?-Diana estava pronta para atacar quando um braço se enfiou entre ela e os outros.

-Não. Não devemos brigar agora. Estamos no meio de uma guerra. Devemos nos unir. Mary é tão útil quanto todo o Ministério e o Ministro sabe disso.-Determinou Lupin, sem se alterar.

Uma mulher deu um sorrisinho mau.

-Quem é você para falar disso, seu...-Ia dizendo ela.

-Não vai querer terminar a frase.- Enquanto Quim Shacklebolt concluía a frase, Nimphadora Tonks rosnou de ódio.

A mulher não ousou falar mais nada, já havia ouvido falar da influência misteriosa daquele grupo no Ministério da Magia.

-Ela vai ficar bem?-Indagou Tonks a Lupin.

Ele respondeu com um sorriso gentil.

-Ela puxou à mãe.

Corine sempre ficava bem.