Der Regen (A chuva)

Título: Nosso Guarda-Chuva

Aventurou-se na chuva incessante e na lama do jardim. Os tênis não barravam a umidade, tão pouco a blusa moletom marrom, impedia o vento. O guarda-chuva negro seguia seguro firmemente com uma das mãos, enquanto a outra abraçava a si mesmo, na tentativa de espantar os contínuos arrepios.

O amarelado olhar registrou a copa das árvores tortas – uma ameaça, e as variadas flores e folhas esmagadas; o jardim do orfanato estava vazio, não havia nenhuma criança correndo ou se escondendo naquela chuva. Mentira.
Ele estava correndo pelo extenso jardim, e Beyond estava – provavelmente, escondido. Mas, nenhum dos dois eram de fato, crianças.

Mordeu o lábio inferior com apreensão, procurando o outro rapaz. Havia acatado e se oferecido, ao pedido de Roger de encontrar B, que estava sumido fazia algum tempo.

Acelerou o passo em direção a uma velha árvore – em meio a tantas, de tronco grosso e enrugado. A mesma parecia não se importar com a tormenta, continuava firme e esverdeada, sem sequer perder uma folha. Era resistente. Resistente ao exterior.

Diferente de A.

Encontrou um rapaz de joelhos no chão, cavando com as próprias mãos a terra molhada. A camisa branca grudada ao corpo magro, suja de um marrom como a calça, os cabelos negros estavam lisos e escorregadios pela face.
Estava de perfil, atrás do tronco com um pombo inerte e escuro ao lado.
A apertou o cabo do guarda-chuva, enquanto o observava em pé. Viu B sorrir por trás de pingos e lisos fios.

- Olha só Nacke, alguém veio ao seu enterro. Isso não é bom?

Acariciou a barriga do pequeno animal morto, logo levantando a face para encarar sorridente, o outro.

- Ele agradece por ter vindo.

E voltou a cavar uma pequena e funda cova. Retirava a terra escura, colocando ao lado do pé descalço repetidas vezes, dando lugar à água acumulada.

A abaixou, retendo o peso nos calcanhares; ergueu o guarda-chuva compartilhando-o com B.

- Roger estava preocupado com seu sumiço. Desde cedo. Do que Nacke morreu?

Repetiu o nome do animal – o qual ouvira e vira pela primeira vez. A voz calma e suave, parecendo compreender a razão de uma cova para um pombo.

- O encontrei jogado no jardim. Estava agonizando e eu o matei. Acabei com o seu sofrimento.

Respondeu normalmente. A esboçou um mínimo sorriso, entendendo a intenção de Beyond. Levou a ponta dos dedos às mãos que cavam, retirando a terra grudada na pele, num misto de carinho.

- Fez bem. Não há porque viver agonizando quando se é melhor a morte.

Fitou demoradamente o perfil próximo ao seu. A face de B estava molhada com os lábios brancos e sem vida, e o corpo gelado devido ao longo tempo exposto ao temporal. Abaixou os olhos, prendendo-os na cova e nas mãos de B, voltando à tarefa de limpá-las – inutilmente, com a ajuda da água da chuva.

- Nacke ficará grato, tanto a mim, quanto a você.

Segurou o pombo pelo pescoço, levantando-o no ar.

- Diga algumas palavras, Andrai.

Trouxe o pombo negro para mais perto dos dois; exigindo com o olhar, as palavras de A.

A estalou a língua na procura da frase certa. Remexeu o corpo, espremendo-se para mais perto de B e segurando com firmeza o guarda-chuva.

- Nacke, descanse em paz no vazio eterno. E antes a morte, do que o sofrimento e a tormenta em vida.

Soltou o corpinho do animal no buraco molhado, respingando uma água escura ao redor. A chuva em nenhum momento cessara.

B nada disse, começando a preencher com terra o espaço vazio. Afofava o solo com as mãos, enquanto A colocava os fios lisos de Beyond atrás da orelha.

- Até mesmo um pombo merece um enterro; não é Andrai?

A confirmou com a cabeça, enquanto B o ajudava levantar.

- Vamos entrar. Sinto frio!

O guarda-chuva novamente abrigava A e B; agora, a mão de ambos segurava o cabo.

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Nota: 666 palavras aqui.

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