Der Regen (A chuva)

Título: Brincando com fogo

Tsc, tsc, tsc.

O barulho do isqueiro sendo riscado repetidas vezes ecoava no interior do quarto. A chama acesa prendia a atenção dos olhos avermelhados numa diversão incomum.
E quando apagava, corria com o polegar novamente, na tentativa de reacendê-la.

Tsc, tsc, tsc.

Ignorava por completo a outra presença no quarto. O outro que se dividia entre o livro de filosofia e o rosto do companheiro; numa diversão incomum.
A chama tremulava no ápice do pequeno objeto, projetava o sorriso mínimo e logo apagava. Recorreu a rodar a fina mola, a fim de reacender. Várias e várias e várias vezes.

Tsc, tsc, tsc.

Difundia com a chuva escorrendo no vidro – uma sinfonia sem acodes e tão pouco ensaiada.

Tsc, tsc, tsc.

A fechou o livro com cansaço, fazendo a chama tremular e em seguida apagar. B apenas correu com o dígito, ressoando com mais um chamusco.

Tsc, tsc, tsc.

Engatinhou pela cama – desde a cabeceira a qual estava encostado, até o outro lado. Dobrou os joelhos; sentando em cima dos mesmos, ficando frente a frente com a chama e Beyond Birthday.

- O que você tanto enxerga na chama? O futuro?

Sorriu amigavelmente, ganhando um pouco de atenção.

B viu as letras e os dígitos o encarando à cima da cabeça de Andrai Nathue. Dançavam entre si, formando dia, mês, esse ano, nome e sobrenome. Parou o polegar em cima da mola metalizada, apagando o alaranjado. Não enxergava o futuro na chama. Não na chama.

- Eu apenas vejo que tenho que ficar grudado a você enquanto chove; por causa da babaquice desse orfanato.

Suspirou, voltando a riscar o isqueiro.

Tsc, tsc, tsc.

A sabia perfeitamente, o porquê da revolta de B - fazia tempo que Ryuuzaki não aparecia. Sentiu desconforto e certa rejeição ao ouvir tais palavras, porém; retribuiu com um sorriso, tendo a face iluminada abaixo do nariz.

- Tem razão, parece que vai chover por mais algum tempo. E você não o vera durante esses dias.

B prendeu o olhar em A, enquanto o polegar incitava a chama acesa. Irritou-se com a frase do rapaz. Quantas vezes havia citado essa afirmação?

- Como sempre, Andrai entende as entrelinhas perfeitamente. A chuva e a sua companhia não são a melhor opção, quando se tem um dia ensolarado e a presença de Ryuuzaki. É a verdade.

Sentiu-se frustrado com a resposta. Beyond sabia remoer a base e a máscara que construía tão arduamente. Queria que B dissesse que a companhia dele era agradável, que não pensaria naquele homem, que deixasse mentir que nada importava: apenas Andrai.
O estômago tomou um peso maior, e a gana de recorrer a Ryuuzaki e acabar com a sua vida cresceram em desmesura. Andrai nunca era alguém violento; não com o próximo.

Tsc, tsc, tsc.

- Entre minha companhia e a do senhor Ryuuzaki; com certeza a dele é melhor. Desculpe por ter que me aturar.

O olhar escorregou da face de B, para a tremulação quente. Concordou com B da forma mais submissa e inocente possível. Mais uma vez implorara por um contato com ele, e tivera o íntimo machucado. Porém, era a sua maneira de manipular B – mesmo machucado.

B balançou a cabeça em reprovação. Aquele garoto era sonso. Se gostava de ser submisso, que fosse. Passou a escorrer a chama pelo rosto de A, perigosamente perto; enquanto o próprio nariz encostava-se à pele branca que se tornava dourada, com a proximidade da luz.

- Você é um idiota.

A sequer moveu um músculo, na tentativa de escapar do extremo calor. Os olhos focavam a boca que repetia o quão idiota era, sem sequer debater. Não havia motivos.

- Porque não diz que não suporta ver eu e Ryuuzaki?

Tirou o polegar sumindo com o calor. Empurrou sem delicadeza o corpo do garoto de cabelos ondulados e castanhos, deitando-se em cima do mesmo.

- Que não suporta saber o que eu faço com ele.

Pequenas pontadas eram feitas com seu indicador – a mesma mão que carregava o isqueiro, na fina pele do rosto do outro. A chuva continuava a riscar impaciente, o vidro do ambiente.

- E que faz toda essa cena pra me ter em cima.

Tsc, tsc, tsc.

- Sabe que é até engraçado?

Riu. E enquanto a chama reacendia, deitou o queixo no ombro de A, passando a falar próximo do lóbulo.

Tsc, tsc, tsc.

- É engraçada essa sua brincadeirinha de triângulo.

A fechou os olhos ao escutar o disparate de B. Triângulo?

B beijou-lhe os lábios superficialmente, logo impondo a chama entre os dois. Puxou uma das mãos de A, levando ao fogo sem nenhuma resistência.
Andrai apertou as pálpebras ao sentir a pele em contato ao calor, mas tão pouco se desfez do contato. Era imune a uma simples dor na carne.

E logo, a saliva quente de B molhava o indicador do garoto com paciência.

- Quem brinca com fogo, acaba se queimando. Não é Andrai?

X

Nota: E outro. A submissão de A aqui foi incrível. Mas vejam, que ele de certa forma manipulava B.