Der Regen (A chuva)
Título: Peso
Durante a viagem do seu quinto aniversário, Andrai Nathue pulava de alegria – havia insistindo tanto pelo passeio no campo, já que havia lido que o céu era diferente. Precisava constatá-lo!
Iria o pai e a mãe, a avó, o avô, e ele. Seria divertido passear no campo. Estava tudo planejado, um final de semana e o retorno no domingo à noite.
A natureza do campo era imensamente diferente das construções da capital. E não lhe passava nada despercebido no céu. Iria ser astrólogo com certeza.
E em seus quatro anos de vida, nunca presenciara tal espantosa tempestade como aquela. Fascinado, era a palavra certa. Não desgrudava os olhos amarelados da janela do carro, enquanto a sua avó seguia lhe acariciando o cabelo. Aquela senhora era deveras amorosa com o único neto.
Os olhos infantis não perceberam quando um motorista de caminhão deslizou na pista devido à chuva, e chocou com o carro em que estava. Não viu porque a sua avó o abraçou de tal forma; escondendo o corpinho embaixo dela.
Escutou o freio brusco, o grito de sua mãe, o choro de sua avó. E o papai e o vovô?
O som do carro continuava tocando uma conhecida música, enquanto a sua avó lhe perguntava chorando, se estava bem. E estava. Não lhe doía nada.
Sentiu um líquido quente e viscoso cobrir-lhe os olhos, e a sua avó pedindo que fosse um bom garoto a vida toda, que o amava, e que nunca esquecesse ela e seus pais. Nunca.
Não demorou muito, e o que somente ouvia eram as vozes do cantor no rádio.
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Acordou assustado. O nó que se formara na garganta, e a tremulação do corpo, difundiam com a cena arquivada na mente.
As mãos tremiam enquanto tentava se livrar do edredom bege que lhe cobria. O suor rolava pelas têmporas, molhando as mexas do claro castanho.
Por onze anos aquela cena o acompanhava. Onze anos em que carregava esse peso na consciência.
Ainda escutava a voz da sua avó dizendo que o amava, ainda podia sentir o odor do sangue, o barulho do freio, a música infernal.
Via nitidamente a barra da placa que atravessada, juntava as entranhas do seu pai que dirigia e seu avô no banco de trás - atrás do motorista; e o vidro encaixado na cabeça cor de mel da sua mãe. Carregava o peso de ter matado a sua família. Carregava as vozes e o fardo de estar vivo.
E a única coisa que desejava, era ter morrido naquele acidente.
Colocou os pés no chão gelado, e se encaminhou a porta. Rodou a fechadura dourada, logo se pondo a percorrer o longo corredor de portas esbranquiçadas. Procurava uma em particular, a do final do corredor ao lado da grande janela de vidros coloridos da Wammy, a qual seguia fazendo um barulho infernal, devido à tempestade de granizo. Exatamente como há onze anos.
Abriu com cuidado a porta, tendo certeza que a três da manhã, o dono do quarto estaria dormindo. O avistou deitado em meio aos edredons bege e a escuridão.
Se aproximou com passos suaves, deparando com a figura adormecida; que não fazia nenhuma menção de acordar.
O observava dormir com deleite e carinho; a pele branca e os cabelos negros aninhados no travesseiro com a mão pousada ao lado. Não parecia aquela criatura durante o dia. Aquela que expirava o sarcasmo e sadismo, e que assustava com o modo de falar e pensar.
A respiração calma, os lábios alinhados e calados, tão diferentes do habitual.
Segurou uma ponta do edredom, o erguendo e encaixando o corpo no mesmo espaço que repousava outro corpo sonolento. Com delicadeza – constante em Andrai, levou a mão deitada no travesseiro para seu quadril, e logo em seguida passara a acariciar com leveza o rosto alheio.
Fechou os olhos, ouvindo o som da água da chuva e o granizo ao salpicar na janela, misturando-se com a respiração e o batimento cardíaco de Beyond Birthday.
Sentiu o outro lhe puxar para mais perto e sussurrar:
- Dorme comigo, L.
Abriu as duas esferas amarelas, encarando B. Estava dormindo. Encostou ainda mais os lábios, encontrando os do rapaz, sussurrando uma resposta.
- Vou dormir com você, B.
Não iria dormir - algo que já não fazia naturalmente; com o outro delirando e lhe confundindo com o tal L. Além do que, observar Beyond Birthday o desviava do peso.
O peso de estar vivo.
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Nota: Um passado criado tragicamente, para A.
Oh, mais uma vez me desculpe por tais invenções. E quem o for ler; obrigado pela leitura.
