Capitulo 2 – Training
Voltando ao militar que estava de pé ao lado da janela, um senhor já de idade avançada, corpo robusto, cabelos brancos, olhos azuis; não sou um bom fisionomista, mas sua aparência não me era estranha. Ele se aproximava do capitão Hopkins cochichando perto do velho homem:
- Então, são estes que causaram o incidente no bar? – ele abria um sorriso ao sinal de positivo feito com a cabeça pelo capitão: - Deixe-me apresentar, sou o General Antonio Rodrigues; esse nome lhe é familiar minha jovem? Ela respondia negativamente com sua cabeça; ele se aproximava calmamente dela passando a mão levemente por seu rosto, logo após pegava uma mecha de seus cabelos deslizando por entre os dedos e os levando até o nariz soltando um sorriso sádico: - Hehe, então foi por essa moça que meu filho perdeu a cabeça? De fato, muito bom gosto apesar de ser uma vagabunda! – Tsc, parece que todo velho nessa porcaria de história é tarado. Acho que o seu comentário acabou não agradando muito minha companheira que o correspondeu com uma bela cuspida que lhe atingia os olhos; calmamente ele tirava um lenço de seu bolso enxugando seus olhos e logo retribuindo a graça com um tapa no rosto da garota avermelhando sua bochecha.
Agora parecia que eu seria o alvo de seu olhar debochado, o militar se aproximava de mim me encarando de cima a baixo logo abrindo aquele sorrisinho conhecido, mau sinal. Acho que meus poderes de adivinhação estão muito bons que eu já estou começando a detestar-los, ele socava a minha barriga com extrema força por ser somente um velho: - Filho da Puta! Cof Cof Cof – eu começava a engasgar com minha saliva, ajoelhando-me ao chão com a dor do golpe.
- Isso foi só o meu cartão de visitas! – o militar recuava com as mãos nas costas com uma fala irreverente – Mas vocês não devem estar entendendo nada o porquê de eu estar aqui. Preste atenção seu monte de merda que eu só vou explicar uma única vez; lembram do rapaz loiro que você e sua amiga acabaram matando na briga lá no bar? – essa pergunta me soou como uma facada no estomago, era um mau sinal – Pois bem, aquele era meu filho! – odeio quando estou com a razão, novamente o bondoso senhor se aproximava de mim e me presenteara com um belo chute; Cindy partia para cima dele, mas de nada adiantava sua força minúscula contra aquele homem, acabara sendo imobilizada pela garganta.
Acho que eu deveria ter ficado quieta nessa hora, porém como meu orgulho masculino estava ferido acabei não conseguindo: - Ele morreu como um porco! Hehe – entre as dores conseguia grunhir algumas palavras; iria novamente ser agraciado com novas pancadas; mas o bom capitão Hopkins interferiu dessa vez.
- Já basta, General Rodrigues! Eu entendo que esteja abalado e com sede de vingança pela morte de seu filho, mas não vou permitir que prossiga com isso! – o empertigado capitão se levantava de sua cadeira, colocando as duas mãos espalmadas sobre ela com uma expressão austera para seu ouvinte – Aqui, eu ainda sou a justiça e a ordem!
O General Rodrigues ao ser repreendido severamente soltava o pescoço de minha amiga e se dirigia ao bom capitão, se apoiando em seu ombro e começando a falar perto de seu ouvido com um pequeno sorriso que eu não gostei nada de ver: - Eu entendo senhor capitão! Desculpe-me por passar por cima da sua autoridade, mas será que devo lembrá-lo a quem você deve a continuidade nesse cargo? A quem intercedeu pelo senhor naquele escândalo de propina? Acho que os reportes maníacos por um furo de reportagem igual putas sugadoras adorarão esse tipo de história – o militar agora no controle da situação sentava-se sobre a mesa olhando o velho capitão sadicamente que suava muito a essa altura. Maldito velho e seu rabo preso.
O velho capitão Hopkins abaixava sua cabeça, envergonhado e agora submisso, longe da pessoa altiva de minutos atrás; após um longo suspiro com uma voz fraca por entre os dentes ele olhava para o imponente general: - Está bem! Nesses anos todos de uma carreira perfeita somente esse borrão que tenho para me envergonhar. O que quer que eu faça com eles?
- Parece que finalmente entendeu quem está no comando aqui, Hopkins meu velho! Eu quero que os dois sejam enviados para guerra, no batalhão sobre meu comando; acho que o bonitão ali poderá ser útil em alguma coisa e a vadiazinha será um belo atrativo para tropa! – o general Rodrigues sorria vitorioso a aquele debate, logo após pegando seu quepe se retirando altivamente da sala sem antes parar e nos olhar fixamente pela ultima vez: - Espero meus novos recrutas pela manhã, Hopkins!
Aquelas palavras soaram com uma bomba sobre mim, já tinha ouvido que o governo por causa das intensas baixas em combate começara a usar os criminosos das prisões para não deixar que cidadãos honestos perdessem suas vidas. Besteira! O que eles querem é manter as pessoas que pagam seus impostos para sustentar os combates e como os batalhões cibernéticos por causa de seu alto preço de reposição estavam começando a ficar inviáveis com a escassez de recursos. Então com a miséria que a população vinha enfrentando, dia menos dia o cidadão acabaria sucumbindo à necessidade e cometeria um crime. No mais qual o mal de desperdiçar a vida da dita escória em uma guerrinha?
O sol batia em meu rosto me revelando o amanhecer, a como eu rezei a noite toda para que as horas não passassem e não houvesse o raiar do dia. Ao olhar para porta da cela uma escolta de seis soldados fardados de prontidão já a nosso espera; Cindy e eu fomos levados a um caminhão e conduzidos até uma espécie de píer. Ao sair do caminhão me deparava com o orgulho da marinha, a fortaleza voadora AMS Missouri; uma nova aposta da tecnologia para fins bélicos, com ela se fazia a metade do tempo em transporte de tropas do que por vias marítimas convencionais e sem contar o fator surpresa.
- Seja bem vindo bonitão! – Um sujeito com uma voz familiar descia a escadaria da fortaleza, era nosso velho amigo General Rodrigues; ele vinha em nossa direção com os braços para trás assobiando: - Hoje está um belo dia não é? Senhorita! – ele tirava seu quepe inclinando um pouco a cabeça perto da Cindy, que se debatia tentando chutá-lo, mas sendo segura pelos soldados: - Sejam bem vindos ao Missouri, ou quero dizer, nas próximas duas semanas quero que o chamem de casa!
Eu tenho uma velha mania que às vezes deveria saber controlá-la de abrir a minha maldita boca quando ela deveria ficar calada: - E ai velhote, bela banheira vocês tem aqui hein! Uau, você vai me deixar dirigir um pouquinho? – carreguei no sarcasmo ao dizer estas palavras, já que estava ferrado mesmo por que não me divertir um pouco; é como se dizem se a morte lhe sorrir sorria para ela devolta.
Sobre a minha gracinha, bem recebi outro soco carinhoso no estomago, já tava virando costume mesmo: - Daqui pra frente quando se referir a mim a primeira e a ultima coisa que eu quero ouvir da sua boca imunda é a palavra "senhor". Leve-los para a sala de treinamento! – ele fazia um sinal com os braços sendo prontamente atendido pelos soldados.
Adentramos pelos corredores daquela fortaleza de metal, sendo levados até a sala de alistamento. Lá tivemos nossos cabelos raspados e passamos por uma maquina onde tivemos um numero de série impresso em nossas cabeças, é como se fossemos produtos de um supermercado e tivéssemos nosso próprio código de barras ou como se marcam os bois em propriedade ai é com você decidir qual é a comparação mais cabida; a partir de agora eu seria o soldado T-800. Ao chegarmos a tal sala de treinamento, era um local amplo cheio de cadeiras algumas já ocupados por algumas pessoas; Cindy e eu fomos conduzidos cada um a uma cadeira onde nossos braços e pernas foram presos para que não pudéssemos escapar. Em nossa nuca foi introduzida uma pequena agulha metálica indo em direção ao nosso cérebro, na hora senti uma pequena dormência, porém logo após era como se tivesse entrado em transe. Aquele era o novo método de treinamento, uma espécie de lavagem cerebral sendo que através daquela agulha conectada aos nossos cérebros passavam todos os tipos de ensinamentos de manuseio de armas, combate corporal até como se pilotar veículos pesados.
Após um longo tempo finalmente acordamos de nosso transe, não sei bem ao certo quantos dias passamos ligados a aquela maquina; logo após fomos conduzidos ao banho, um lugar espaçoso azulejado com centenas de chuveiros plugados no teto em fila; eram tantos que se podia perder as contas, eles eram ativados por um censor, portanto era só entrar abaixo do chuveiro que eles liberavam a água automaticamente.
- Ahh... Bem... Será que você poderia se virar? – com uma voz meiga e envergonhada, a garota toda encolhida tentando esconder seus predicados me pedia que tomasse banho de costas para ela.
Eu me virava para ela atendendo ao seu pedido: - Por mim tudo bem! Apesar de que eu já vi tudo o que você está tentando esconder aí. – soou um pouco rude e cafajeste a minha piada, mas tentei quebrar o clima chato que havia ficado no ar – Mas acho melhor você se acostumar com vários homens admirando seu corpo durante o banho, porque enquanto estivermos nessa fortaleza será assim. – mudava novamente minha expressão ficando sério advertindo minha companheira da situação em que nos encontrávamos.
Após o banho, que por sinal não foi muito agradável por ter sido em água fria fomos conduzidos ao refeitório, pela primeira vez tínhamos contato com todos os soldados que estavam na mesma condição que nós. O refeitório estava lotado, ali havia milhares de almas rumando ao desconhecido, muitos que como nós não tinham a perspectiva de voltar com vida. Após pegar a deliciosa gororoba que nos era servido sentamos em uma mesa em um canto afastado do salão onde haviam sentados apenas um senhor de média idade e um garoto que aparentava nem ter saído das fraudas.
Estávamos sentados ali apreciando a nossa comida tranquilamente, quando alguns soldados vieram para se enturmar e se apresentar para nós, bem para a Cindy para ser especifico. Um jovem de estatura média, branco, olhos verdes, porte físico não muito avantajado começava a alisar o rosto de minha amiga: - Hum, mas que gracinha! É raro termos uma princesinha assim como você por aqui, será que após o jantar você não gostaria de dar uma passadinha pelo meu quarto para nos divertimos um pouco? Fiz menção de defendê-la daquelas caricias; mas senti duas mãos sobre meu ombro que me obrigaram a sentar novamente, era um negro, alto, robusto, um porte físico de causar inveja que comparado ao meu era como se comparássemos o céu e a terra: - Senta-ai bundão!
- Está tudo bem, John! – Cindy me fazia um sinal leve com as mãos para que eu ficasse tranqüilo, se levantando virando-se para o rapaz – Claro! Por que não agora garanhão? – ela alisava o rosto do rapaz, puxando-o contra o seu corpo; ele parecia estar gostando da situação começando a beijar o pescoço da garota quando de repente levava uma bela joelhada no saco se encolhendo com a dor proporcionada, levando após um belo gancho no queijo caindo sobre a mesa ao lado. Pelo visto Cindy já começava a colocar em prática o treinamento que recebemos; o negro partia para cima de minha amiga, mas antes que pudesse fazer alguma coisa se encontrava com uma faca apontada para seu pescoço: - Hoje não grandão! Dessa vez eu que acabei salvando a pele da Cindy.
Bom, acabamos ficando na solitária sem comida por dois dias em conseqüência da briga, apesar de não termos provocado-a, mas vocês devem se lembrar que o bom general Rodrigues nutre uma simpatia extraordinária por nós. Após sermos liberados de nosso castigo, resolvemos passear pelo convés da fortaleza para apreciar a bela manhã, era a imagem mais linda que já havia presenciado, de cima da fortaleza podíamos só ver as nuvens que pareciam grandes chumaços de algodão e o sol imponente. De repente nosso pequeno passatempo era interrompido pelo vôo de caças passando bem perto de nós, eles estavam se dirigindo ao alvo para bombardear pontos estratégicos assim facilitando as coisas para o nosso ataque por terra. Aquilo foi o prelúdio que a batalha estava próxima, até parecia que o cheiro de sangue estava impregnado no ar como um sinal agourento que eu tentava limpar de minha mente.
