Capítulo 6 - Egito e além

A viagem até o Egito foi calma e tranqüila, ainda no transporte, uma voz anunciou:

- Bem vindos a Hilldalle, fundada devido à descoberta das pirâmides de Furmat, estamos localizados a 785 km do Cairo. Por favor, apreciem sua estada.

A porta do transporte se abriu, Karonte e seus amigos foram os últimos a desembarcar.

- A cidade de Hilldalle foi fundada em 2863, devido à descoberta das Pirâmides. É uma cidade inglesa, na verdade, fundada pelos exploradores que vieram da Inglaterra. Se vocês olharem por ali, após a curva - informou Orion - vocês poderão ver as Pirâmides.

Ao olharem para esquerda, todos prenderam a respiração. Quatro enormes edifícios de pedra se erguiam a 7 km da cidade, ainda assim, era fácil de vê-los.

- Devido à ampliação do campo visual - explicou Orion. - Bom, temos dois dias até abrirem a pirâmide para visitas. Acho melhor irmos ao hotel, lá poderemos descansar um pouco ou ver o que fazer. Ah! Sim, claro, 3OC, não há naves por aqui. Ficaremos no solo.

- Graças ao criador! - suspirou aliviado o andróide.


- Ei isso é legal! - comentou T.J. deitado na cama do hotel lendo um folheto informativo. - As pirâmides foram construídas muito próximas, encostando suas bases uma na outra fazendo com que as bases formem um enorme quadrado no centro. Acreditam que isso seja uma espécie de altar a céu aberto para algum tipo de ritual. Só é possível entrar lá pelas pirâmides. - T.J. tirou do bolso um holograma mostrando as quatro pirâmides formando um grande quadrado no centro. - Isso é muito interessante.

Karonte suspirou alto, com certeza estava impaciente. Queria ver as pirâmides o mais rápido possível.

- Eu não entendo! Por que não podemos visitá-las?

P-3OC que estava sentado em um canto informou:

- Bom, segundo minhas pesquisas, tem acontecido muita coisa estranha por lá, especialmente na possível área dos rituais. Eles temem que sejam um pouco da extinta energia nuclear. É muito perigoso para civis.

- Mesmo assim, tem muita coisa boa por aqui - disse Orion - podemos andar por aí e conhecer a cidade. T.J., o que tem aí no folheto?

- Bom, tem uma espécie de palestra hoje à noite. Um tal cientista...Linnus Von Konemberg está fazendo uma tese sobre a inexistência de Deus. Isso é bom Karonte, pode te animar um pouco!

- O quê? - perguntou a menina - A inexistência já foi provada há muitos anos, muitos! Essa turma só quer aparecer!

- Não disse? - respondeu T.J. piscando para P-3OC. - Vai ser no centro de convenções aqui perto. Podemos ir.

- É, parece ótimo. Vamos? - perguntou Orion.


O Centro de Convenções era uma enorme cúpula, no seu centro havia um palco e ao redor se encontrava centenas de cadeiras, como em um estádio, mas muito próximas do palco. O grupo chegou cedo e logo arrumaram três lugares na frente (P-30C ficou do lado de fora, era proibida a entrada de Andróides). Karonte sentou ao lado de uma garota que aparentava ser um pouco mais velha que ela, tinha a pele muito morena, parecia ser da região.

À medida que a hora da palestra se aproximava, mais pessoas iam chegando. Faltando em média 5 minutos, uma luz iluminou o palco, e um holograma se ativou, exibindo a foto de um cientista bem charmoso, aparentava ter seus 30 anos, mas...

- Muito bem conservado - Karonte comentou com T.J.

A voz de uma mulher saiu do palco:

- Linnus Von Konemberg, 33 anos. Vencedor do prêmio de cientista do ano 10 vezes consecutivas. Autor do livro A Prova Final, um guia que mostra as falhas humanas através dos séculos em relação à Fé. Dentre os capítulos citamos a alquimia e diversas crenças em magia.

- Isso está muito chato - Karonte falou alto, a garota ao lado sufocou o riso.

Todas as luzes se apagaram, apenas uma permaneceu, iluminando o palco. Em meio a aplausos, o cientista subiu ao palco e acenou a todos um gesto de agradecimento.

- Agora a diversão vai começar - T.J. murmurou para Orion.

- Obrigado, muito obrigado senhoras e senhores! - começou o cientista - É um prazer imenso estar aqui para divulgar a minha mais recente tese e o lançamento do meu livro.

"É de conhecimento de todos que no passado, muitas e muitas guerras foram travadas, o motivo, na maioria delas, era a religião. Afinal, o que motiva um homem a matar pessoas, e até se sacrificar em nome de algo que não existe? Por que o homem, em seu momento de desespero, pede ajuda, pedia ajuda, aliás, a algo ou alguém que não existe? Meu dever, meus caros, durante toda a minha vida, é provar, de uma vez por todas, que não há ninguém nos olhando, cuidando de nós, ninguém".

O Dr. Linnus então, pegou um controle em suas mãos e ativou um holograma que mostrava o espaço, vazio, sem nada.

"Como vocês sabem, há muitos séculos atrás foi comprovada a chamada Teoria do Big Bang, explosão que originou tudo o que conhecemos. Também é de conhecimento dos senhores, que um cientista chamado Darwin, provou que todas as espécies da Terra estavam evoluindo, nada foi originado a partir do barro, ou qualquer outro tipo de coisa".

A platéia riu, Karonte fingiu vomitar.

- Teorias como essa - continuou o cientista - são suficientes para convencer qualquer...

Mas fora interrompido, a garota de pele morena, ao lado de Karonte se levantou.

- Desculpe-me, mas poderia fazer uma pergunta?

- Claro.

- O que existia no espaço antes dessas...Hã...Pedras que originaram o Universo?

Karonte percebeu que um músculo na testa do cientista estava latejando.

- Bem, há provas de que não havia nada, apenas essas, como a senhorita mesmo disse, pedras.

- Aham, claro, então foram elas que originaram o universo?

- Sim.

- Ah! Certo...Mas...- a garota sorria - o que originou essas pedras?

A platéia se desatou a falar, era evidente que esse não era o rumo de conversa que Linnus queria. Seu rosto estava branco, se não estivesse em pé e com um músculo latejando em sua testa, poderia ser dado como morto.

- Qual o seu nome mocinha?

- Shire. - respondeu a garota.

- Shire - repetiu o cientista - Bem, eu vou pedir então, Srta. Shire, para esses dois senhores - e apontou para dois grandes homens ao seu lado - levarem a senhora, gentilmente, para fora, tudo bem?

O tom falso de cortesia na voz de Linnus fez Karonte ferver de raiva, detestava pessoas falsas. Os homens pegaram Shire pelos braços e levaram-na para fora do Centro.


Uma hora mais tarde, no Saguão de Entrada, Linnus se encontrava autografando seus livros para as pessoas que formavam uma enorme fila.

- Por que você comprou isso? - perguntou Karonte indignada a T.J., que acabara de sair da fila de uma barraquinha que vendia os livros.

- Ora, só quero dar uma olhada. Vamos sair para jantar?

Logo na saída do Centro de Convenções, o grupo se deparou com Shire, a menina que havia desafiado o cientista. Estava sentada em um banco, massageando seus braços. Aparentemente, pensou Karonte, a saída de Shire do Centro não foi tão gentil assim. Os garotos e o andróide estavam para tomar a direção oposta de Shire, onde o restaurante se encontrava logo mais, a algumas quadras. Karonte, no entanto, se dirigiu a Shire.

- Está tudo bem? Pelo visto eles não pegaram leve aí.

Shire sorriu um pouco constrangida.

- É, eu não pensei que ia sair daquele modo. O que eu fiz de mal? O que tem demais em perguntar aquilo, afinal, se há um furo naquela teoria, por que não mostrar a todos, em vez de ficar escondendo?

- Você tem razão - concordou Karonte, Shire se espantou. - Eu também não fui muito com a cara daquele tal Linnus. Esquece o que ele te fez, vem com a gente, quer comer algo?

Shire concordou sorridente e se dirigiram ao restaurante.


Os dias se passaram rapidamente. Shire, agora amiga deles, passava a maior parte do tempo no quarto de hotel deles, contando a história de sua família. Como os antepassados de sua mãe, vieram da Índia e se casaram com pessoas do Egito, suas vidas no Cairo...Karonte adorava sentar com ela e ficar horas escutando tudo isso.

Logo chegou a hora de visitar as pirâmides. Eles abririam cedo, Karonte acordou de madrugada, com a cabeça doendo. Massageou a área de sua testa, alisou seus cabelos com a mão e tentou dormir. Mas não conseguiu. Levantou de sua cama e abriu as cortina, de longe viu a silhueta das Pirâmides, o céu estava laranja, estava amanhecendo. Na mesa de cabeceira de T.J. havia um Holocron, o dispositivo que exibe os hologramas. Ela ativou e ficou olhando as Pirâmides virtuais. Quatro delas, posicionadas estrategicamente para que no centro forme um quadrado. Cada lado dos quatro do quadrado era um lado da base da Pirâmide. Um altar no centro desse quadrado. Como alguém faria algo assim?

T.J. emitiu um som que lembrava um grunhido, fez Karonte pular da cama. Olhando no relógio, resolveu descer para tomar café, deixando os outros dormirem mais um pouco.


Após um delicioso café, todos se reuniram, e se encontraram com Shire na saída da cidade. Aonde um speeder, um tipo de carro,iria levá-los.

À medida que as Pirâmides iam se aproximando, Karonte, cada vez mais ficava espantada com o seu tamanho. Eram enormes... A área das Pirâmides era cercada. Não havia jeito de entrar sem passar pelo portão principal. Um guarda os recebeu. Levou o speeder a uma garagem e os conduziu a um grupo que já aguardava no pé da primeira Pirâmide.

Um cientista estava esperando-os, mas não era carrancudo como Linnus. Aparentava ser muito bem humorado, e recebia os convidados de braços abertos.

- Bem vindos! Bem vindos! É um prazer tê-los aqui. - e virou para o guarda - todos presentes...Ótimo... Bem, em um breve resumo, as Pirâmides foram criadas há aproximadamente 20.000 anos. Não sabemos por que nem por quem, mas acreditamos que seja algo como uma espécie de calendário.

- Como assim? - perguntou Orion.

- Bom - as portas de entrada da Pirâmide se escancarou - explicaremos isso enquanto andamos, vamos? Peço que não toquem em nada, instalamos alguns aparelhos que podem segurar as Pirâmides caso alguma coisa com a terra aconteça...Terremotos, tempestades... Elas já sofreram muito, e se algo se desprogramar, pode ser o fim de anos de pesquisa...

O cientista respirou fundo, aparentemente essa idéia o perturbava, e não era de hoje.

- Como podem ver, a estrutura é familiar com as de Gizé, embora não encontramos, até agora, nenhuma tumba, ou sarcófago que seja. Quanto à pergunta do senhor...

- Orion.- respondeu o rapaz - Orion Dalgliesh.

-Quanto à pergunta do senhor Dalgliesh, sobre o por que de acreditarmos que essas Pirâmides sejam um calendário...O fato é que, todo dia 31 de Julho, os raios do Sol são refletidos por pequenos pedaços de vidro localizados no topo da Pirâmide. A P4, nome a qual damos as Pirâmides, recebe toda a carga solar, porque o pedaço curvo de espelho, reflete os primeiros raios solares da manhã, e manda eles para a P2, que por sua vez, manda a P3, que manda para a P1, a qual estamos agora, essa, por sua vez, manda toda a carga de luz e energia, direto para o centro do altar, que fica no meio das Pirâmides, como vocês viram o esquema.

- Espere um pouco, você diz que são enviadas não só luz, mas energia para aquele centro do altar. - começou Shire

- Certo. - concordou o cientista.

- Que tipo de energia você está falando? Solar?

- Infelizmente não sabemos o que é. E isso nos preocupa. Não é solar, embora os raios emanados sejam do Sol. Estávamos com medo que fosse nuclear. Retiramos do armário vários medidores de energia desse tipo, mas indicava zero. Não sabemos exatamente o que é, mas não nos causa mal. - O cientista virou para o resto do grupo - Por aqui entraremos...

Karonte e seus amigos, no entanto, ficaram parados. Aparentemente a garota estava considerando a explicação do cientista.

- Acho que eu quero dar uma olhada naquele altar.

- O quê? - perguntou Orion. - Não podemos, você ouviu o cientista, se algo dar errado, as Pirâmides podem entrar em colapso! Não podemos visitar o altar, e a Pirâmide é fechada a noite.

- Perfeito! - falou Shire - ficaremos aqui à noite também!

- Não podemos! - T.J. estava abismado com isso - Isso é crime!

- Vamos continuar a excursão com os outros, mas eu sinto algo. Alguma coisa me atrai para esse altar. Eu sinto isso.

- Eu também - falou Shire num sussurro.

- É estranho isso, mas eu também. - falou Orion - escuta, pode ser perigoso. Você não quer fazer isso. Pode ser presa. Eu prometi - ele inspirou profundamente - ao papai e a mamãe que iria cuidar de você. Que iria te proteger.

- Então! Eu vou dar uma olhada naquele altar. Se tiver intenção de cuidar de mim, ou proteger-me, é só me acompanhar.

Orion não conseguiu conter um sorriso.

- Nossa! Você cresceu! Depois bolamos nosso plano, vamos nos reunir ao resto do grupo, antes que levantamos suspeitas.

T.J. balançava sua cabeça num sinal de que não concordava com aquilo.

- AH! Isso é maluquice - ele repetia - maluquice!


Após as excursões, eram 7 horas da noite. Já estava escurecendo. Os guardas patrulhavam apenas o lado de fora das Pirâmides. Não havia nenhum guarda ou segurança no altar. Eles ouviram o cientista dizer que era apenas precaução porque o risco de desabamento era maior no altar. Karonte e o resto da turma conseguiram se esconder em uma câmara separada da Pirâmide, uma sala onde, outrora talvez uma câmara, era agora um armário de funcionários.

O senhor Gora Lifch, faxineiro daquela área, estava guardando suas coisas, após sair, Karonte e seus amigos se materializaram e saíram de trás do armário.

- Putz, ainda bem que você ainda tem células de camuflagem P-3OC, que sorte não nos virem. - comentou Orion.

- Certo! - falou Karonte - Vamos dar uma olhada por aí.

Estava tudo escuro. P-3OC acendeu as lanternas de seus olhos assustando todo mundo, T.J. xingou o andróide que fez Shire por as mãos nos ouvidos. Andaram um pouco e chegaram até uma porta. Nela, havia um aviso fixado pelos cientistas:

CUIDADO! ALTAR COM RISCO DE DESABAMENTO

Todos respiraram profundamente e entraram.

Ou melhor, saíram. O altar ficava, claro, a céu aberto, olharam ao redor e viram as Pirâmides, todas as quatro. No centro, havia, de fato, uma mesa, no centro dessa mesa, havia uma pedra. Pequena, mas notável devido a sua forma. Karonte se aproximou. Junto com Shire e Orion.

- Parece que sou puxado por uma espécie de ímã. É estranho - Orion comentou.

T.J. suspirou com impaciência:

- Eu não sinto isso, e certamente 3OC também não. Anda, vamos embora.

- Não! - sibilou Shire. - Não agora que estamos aqui. Karonte, você sentiu como aqui, o clima está diferente? Não está frio, como costuma ser as noites do deserto, está mais ameno.

Karonte não conseguia tirar os olhos da pedra, mas concordou com a cabeça e com um vago "Aham".

- O que você acha que aconteceria, se eu retirar a pedra da mesa?

A resposta de T.J. veio com raiva:

- Não! Não podemos tocar em nada!

Mas não adiantava, os três, Shire, Karonte e Orion, se aproximavam cada vez mais da pedra.

- Ah! Isso é maluquice, maluquice - repetia T.J.

Shire estendeu a mão para pegar a pedra, mas Karonte, como que acordando de um transe, disse:

- Sabe Shire, acho que é...Ah! Dane-se!

Karonte arrancou a pedra da mesa. Houve um repentino tremor. Uma luz verde saiu da Pedra e se propagou em todas as direções. Karonte virou para T.J.

- Você viu aquilo?

- Não. - respondeu incrédulo.

- Ah não seja idiota, claro que você viu!

- Juro que não!

- Eu também não senhorita - respondeu P-3OC.

Orion estava branco, muito assustado.

- Eu vi!

Shire concordou. Também vira.

- O que será que foi aquilo? Por que T.J. não viu? O que poderia...

Shire nunca terminou a frase. O chão, logo abaixo dela, de Karonte e Orion desabou. Deixando T.J. e o Andróide.