NÃO DEVIA ENTRAR NO TRAPICHE


RENATINHO NÃO CAIU COM A FEBRE, foi com a rigidez muscular. Nenhum dos Capitães da Areia conhecia aquilo, nem o padre João Pedro e nem a mãe-de-santo Don'Aninha, mas ela tentava expurgar o mal de dentro de Renatinho com tudo quanto era magia que conhecia.

Pedro Bala, estirado na areia logo a frente do trapiche, espia os meninos que dormem enquanto seu pensamento paira sobre Renatinho. E se aquela doença atacasse outros? Era preciso mandar o menino embora, lá para o lazareto onde a morte é certa. Não podia arriscar. Não ia arriscar. Só esperava pela Don'Aninha, esperava que ela fosse embora para mandar o menino embora. Mas Don'Aninha não ia, ela nao sabia que os orixás não queriam que Renatinho melhorasse. Se pelo menos o padre João Pedro tornasse, pediria a ele que levasse Renatinho para outro lugar, ou talvez o padre pudesse ajudar de outra forma, não sabia. No entanto o padre tinha sumido o dia todo. Tinha saído do trapiche dizendo que traria ajuda. Mas nada até agora e já era noite.

Pedro Bala ouve passos familiares e se alegra, é o padre João Pedro com toda certeza. Porém, quando se vira, vê que ele não está sozinho, traz alguém a tiracolo.

— Quem tu trouxe contigo? Tais doido? - pergunta Bala. O padre ergue as mãos e com voz serena explica:

— Pedro, essa é Anabela Gouveia, vem trazer ajuda...

— Tu ta doido, padre? - repetiu Bala, mas com os olhos pregados na moça. Fez-se silêncio por instantes, até que o constrangimento o fez continuar: - Acha que nós quer ajuda de grã-fino?

— Perdoe-me - a moça tomou a palavra, o sotaque característico chamando a atenção mais do que nunca. - Tu recusares ajuda a um amigo, se ele está tão doente quanto o padre João Pedro diz, não me parece boa decisão.

Pedro Bala arregalou os olhos para o padre e voltou a olhar para a moça.

— Padre, tu traz ela aqui sem nós saber. E se ela revela nós? Se ela traz a polícia?

— Menino - a moça disse, aproximando-se, mas Pedro se afastou dando um passo para trás, desencorajando-a. Ela baixou os olhos, respirou fundo e tornou a falar, agora olhando para o padre. - Eu não faço idéia de como chegar até aqui, foi o padre quem veio indicando o caminho. E eu não saberia voltar para casa porque não tenho idéia de onde estou... então...

Pedro Bala a encara, ela fita o trapiche e depois consulta o delicado relógio de pulso. A maleta preta parecia pesar porque fazia a moça pender o corpo para o lado.

— Ouça - insistiu a moça -, deixe-me ver o menino ou não. Mas decida-se logo porque não posso passar a noite fora de casa.

Pedro se espanta com a ousadia da estrangeira - sim, era isso: ela era uma estrangeira. Será que ela não sabia com quem falava? Será que ela não conhecia as histórias daquele areal?

Professor se aproxima, cutuca Pedro Bala e o chama para um canto.

— Tais lembrado da moça? - perguntou o Professor, Pedro Bala olhou para ela e depois voltou a olhar para Professor.

— É a moça da cafeteria. Lá do Chame-Chame.

— Será que ela lembra de nós? Que que ela quer aqui?

— Foi o padre que trouxe ela pra dar uma olhada no Renatinho. Mas eu já decidi: ele vai embora.

— Tu não vai dar uma chance pra ela olhar o desgraçado? - quis saber Professor. - Acho que devia...

— Tá bem então - Pedro Bala falou alto. - Ela pode ver o Renatinho. Mas tu tá de aviso, padre, se ela bater com a língua nos dentes e a polícia aparecer, nós foge, some, e nada de tu saber de nós de novo!

Não era um aviso que precisasse ser dito por que o padre João Pedro conhecia muito bem aquelas crianças, mas Pedro Bala queria se fazer diante da ricaça em quem ele não confiava. Se bem ela nem se importou com a ameaça, e teria entrado no casarão quase ao lado de Pedro Bala se este não tivesse se apressado e entrado primeiro. Não teve olho que não olhou para ela, e não teve instinto que não quis possuí-la, era comida vinda sozinha, era comida que eles muito desejavam.

— Que delícia! Primeiro eu! - foi Boa-Vida quem falou.

— Não - Pedro Bala interveio. - Ela tá aqui pra ver o Renatinho.

— E depois? - quis saber Boa-Vida.

— Nem agora, nem depois! - disse o chefe com a mão no alto. - E espalha pra todos.

Caminharam casarão abandonado adentro e Anabela viu com terror as condições nas quais aquelas crianças viviam. Mas não sentiu tanto terror quanto quando viu Renatinho. O menino apresentava certa febre e o corpo rijo e numa estranha posição. Vez ou outra um espasmo muscular violento dominava o corpo minguado, fazendo-o mudar de jeito.

— De dia ele sofre mais - disse Professor.

Anabela procurou por algum ferimento no corpo do menino, mas nada encontrou. Pediu em baixo tom ao padre que a ajudasse a virar Renatinho para que ela pudesse procurar nas costas também, mas quem a acudiu foi Pedro Bala ao ver que ela não tinha receio de tocar, de estar próxima a um deles. Os dois viraram o rígido Renatinho. Anabela levantou a camisa esfarrapada dele, depois as pernas da calça, que mais parecia uma bermuda, e então viu o problema: havia um ferimento no lado interno da coxa, mas por conta do corpo do menino estar tão rígido não haviam procurado nem o padre João Pedro nem Don'Aninha pelo ferimento. Anabela sabia do que se tratava, deduziu logo que viu o menino. Fechou os olhos, respirou fundo e se voltou para Pedro Bala, o padre tinha lhe dito que menino de cabeleira loira e cicatriz no rosto era o capitão do grupo:

— É tétano, isso - e apontou para o ferimento. - Em estado muito adiantado. Se o padre tivesse me buscado antes... - Os olhos de Pedro Bala se arregalaram novamente, provavelmente ele nem sabia o que era tétano. - Não tem problema se ele continuar aqui, não é contagioso. É uma infecção que se dá quando um ferimento profundo não é tratado... - ela parou de falar, que entendiam eles de tratar ferimentos? Baixou os olhos outra vez e quando os ergueu tinha-os marejados. - Não posso fazer nada - sussurrou docemente, a voz quase pareceu um sonho bom. - Só posso administrar algo para que ele não sinta dor.

Pedro Bala se pôs de pé, ainda fitando Anabela e balançou a cabeça em sinal afirmativo. Ao sentir-se segura do consentimento do jovem chefe dos meninos, ela tirou uma seringa e um frasco pequeninho da maleta e segundos depois aplicava um remédio de cor estranha sob a pele de Renatinho. O corpo do menino foi se descontraindo suavemente e expressão no rosto dele se acalmou, agora ele parecia dormir enquanto seu corpo morria do tétano.

A grã-fina arrumou tudo dentro da maleta e fitando o padre João Pedro, que dava a extrema-unção a Renatinho, caminhou para fora do casarão. O lugar lhe dava arrepios, mas sentia que teria pesadelos se nada fizesse por aquelas crianças.

— Tu já vai embora? - um dos meninos se aproximou por trás de Anabela, pregando-lhe um susto.

— Estou a esperar o padre, então irei.

— Tu é uma montanha, sabia? - disse o jovem, que não devia ter mais do que catorze anos. Ele se aproximou ainda mais, num gingado particular, mas Anabela estendeu a mão. - Não precisa ficar com medo, vou cuidar de tu. Eu sei do que uma mulher como tu precisa...

Anabela deu um passo para trás, mas sentiu mãos a tocarem suas costas, e voltou-se para elas: ao seu redor estavam sete ou oitos meninos, com olhares estranhamente indiscretos e sorrisos maldosos.

— Se me dão licença - ela falou, tentando sair do centro do grupo, mas os meninos gargalharam, estendendo as mãos para não deixá-la passar.

— Nós vai cuidar de tu - disse um deles, o mais alto.

— É mesmo uma montanha, não é não? - disse o outro e colocou as mãos nos ombros de Anabela, que imediatamente se esquivou.

— Nós só quer uma coisa de tu, depois nós deixa tu ir - e esse menino segurou Anabela pelos pulsos. - Se tu lutar vai ser pior, boniteza.

Os meninos partiram pra cima dela e quando Anabela finalmente conseguiu gritar, já tinha parte de sua blusa rasgada e sua cara saia de veludo erguida. Então Pedro Bala assoviou e os meninos pararam ao ver que ele vinha seguido por João Grande com sua navalha na mão.

— Que é que tão fazendo? - Todos ficaram em silêncio. - Eu não disse que ela veio por causa do Renatinho? Vão andando! - e não demorou nada para o grupinho se dispersar. - Vai embora agora - ordenou Pedro Bala. Ela ajeitou a blusa com pressa e vergonha, ajuntou a maleta preta e saiu em disparada ao lado do padre João Pedro.