Folha de papel dobrada

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Por: Faniicat

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Inuyasha,

Nem ao menos sei se algum dia você terá a oportunidade de ler isto. Acho improvável que após três anos, você vá voltar a esse apartamento. A ciência de que esta é a última vez que eu vejo a sala do meu apartamento alimenta uma pequena pontada de desespero dentro da minha alma. Mas ela é engolida pela dor. O que é o instinto de sobrevivência? É querer vida. E isto, já não tenho. Eu não estou certa nem ao menos se existo, eu apenas sobrevivo, imersa. Existe uma bolha impenetrável ao redor de mim, e dentro dela, eu me afogo em mim mesma. Isto está me matando de qualquer forma, este sentimento de abandono.

Este sentimento apenas cresce quando vistorio cada pequeno canto, tentando lembrar-me de quando aquele lugar não era etéreo e silencioso, mas cheio de vida, o lugar que eu e você costumávamos chamar de 'lar'. Recordar-me não é difícil, as lembranças invadem minha cabeça com força e velocidade de arrancar o fôlego, mas é dolorido.

Levo minha mão ao meu pescoço, minha pele está quente e a pulsação acelerada. O último jorro de adrenalina quente que corre pelas minhas veias sem regozijo algum.

Eu já tive o bastante, estou feliz com o que Deus me deu, mas não tenho forças para suportar a perda. O sentimento de vazio, essa lacuna irrecuperável que se formou aqui, me arranca o ar. A dor me arranca a vida. E, antes mesmo de cumprir meus planos, já estou morta.

Ainda assim quero que saiba que você foi o maior presente, a maior dádiva do meu caminho. É irracional se lamentar quando um sonho chega ao fim, e não me lamento, apenas não quero sonhar com outra coisa alguma.

Eu te amei, o mais pura e sinceramente que um coração humano pode amar. Mais até, já que este sentimento é tal que transbordou e ocupou o meu ser inteiro. Os cinco anos ao seu lado, foram os mais incríveis e duvido que qualquer um, mortal ou não, algum dia tenha sido mais feliz do que eu fui.

Portanto, não se sinta culpado. Quero que se sinta feliz e orgulhoso. Quero que entenda que, ainda assim, não é sua culpa. Minhas decisões só cabem a mim, não deixe que seu instinto super-protetor nuble sua consciência disso.

Agradeço pelos gestos de carinho, pela preocupação, pelos cuidados intermináveis que você, mais que ninguém, teve comigo.

Cada pequena fresta da minha vida abriga você. E nos três anos sem você, tão pálidos e contrastantes com a vivacidade de tudo que vivemos antes, foram as memórias que me agarraram à este mundo, enquanto eu sucumbia.

O sofá me traz o calor dos nossos corpos sob uma manta no inverno gelado de Nova York, o vento que entra pela janela é banhado pelo som dos nossos risos. O ar é sombreado pela nossa vida juntos. O único momento onde eu verdadeiramente tive uma vida.

Eu respiro você. Nem mesmo a mágoa que eu senti nos primeiros meses após a sua partida, sua rejeita a mim, eu não consegui manter. Meu amor a dissolveu, a transformou em compreensão. Afinal, eu não sou a única com poder de decisão.

Atrás dos meus olhos estão gravados em brasa o dourado dos seus, seus traços, o toque do seu cabelo, a textura da sua boca, o gosto da sua pele, o sorriso deslumbrante.

Deslumbrada. Foi assim que você me deixou. Deslumbrada, encantada, entorpecida. Eu sonhei alto demais.

Mas eu posso dizer, de alma lavada, que valeu a pena. Poderia viver cem anos, poderia ter casado com um homem que me amasse companheiramente e que fosse me apoiar e respaldar para sempre, poderia ter vivido esta felicidade insípida. Mas não me arrependo, nem por um segundo, de ter escolhido a paixão avassaladora. De ter escolhido as risadas durante a madrugada, as conversas por olhares, o choque metálico de tocar sua pele, a cumplicidade íntima, as loucuras e o fogo à estabilidade e o conforto.

Você transformou a linearidade aguada da minha vida em algo quente, lúdico, entorpecente e maravilhoso. Como eu poderia me arrepender? Como eu poderia não nutrir qualquer coisa menos que uma gratidão infinita por você?

Como não te amar?

É impossível e irrevogável. Ser apaixonada por você é parte de quem eu sou. Então sorria, meu amor, você me fez viver. A minha morte apenas era para ser. A morte é apenas o fim da vida e este foi há três anos.

Nenhuma mulher foi tão feliz quanto eu fui ou tão miserável quanto eu sou. Tornei-me um peso, um esboço do que um dia foi uma pintura e já não é isso que eu quero para mim. Entretanto, não poderia nada senão odiar a mim mesma se você voltasse para mim por qualquer outro motivo que não sua vontade.

Entretanto não nego que queria continuar sonhando. Apego-me à suposições, e 'se' eu tivesse feito tal coisa diferente? E 'se' tivesse compreendido-o mais?

Então concluo que 'e se...' nada. Foi tudo do jeito que era para ser; mas se dentro de você ainda vive um resquício de sentimento por mim, faça o que eu te peço:
Sorria, viva o mais intensamente, ame outro alguém, faça outra mulher tão avassaladoramente feliz quanto eu fui, contanto que ela o faça sentir amado e enlouquecido de paixão, delicie tudo que lhe for aprazível e não se prenda às tristezas.

E, acima de tudo, muitíssimo obrigado por ser quem você é e por ter feito da minha vida tão magnífica, você é especial, Inuyasha. Não me importa se suicidas vão para o inferno, eu não, eu assistirei a sua vitória, a sua felicidade e cuidarei de você como você cuidou de mim.

Você sempre foi muito mais do que o bastante.

Eu te amo, sempre amei, sempre amarei. É a minha promessa.

Kagome.

N/A: Hey! ;s

EU SEI ! Não me matem, mas olhem bem, EU VOLTEI ! Meu PC finalmente foi – bem – consertado e eu tenho boas novas. Essa carta ( suicida e sem nexo ) foi apenas o começo.

PROMETO até o fim de semana postar mais uma continuidade das Oneshots A Bela Adormecida e A chapeuzinho vermelho, POCAHONTAS !

E semana que vem, sim, o que faz vocês quererem me matar, capítulo novo de república. O 11 vai sair. E vai ser grande. E legal, eu JURO!

Muitos, muitos beijos e MUITAS desculpas, eu amo vocês. Por incrível que pareça.

Beijinhos, Faniicat!

Ps. Resposta ao tema 29. Bastante, sei que eu fugi – de novo – do tema, mas tudo bem, o que vale é a intenção não é? :x