Capítulo 3

Durante a noite uma camada branca se formou no chão, literalmente, devido a neve. Todos nós, inclusive Esme, ficamos maravilhados pela aventura e ao esporte que a neve e o céu nos proporcionavam. A noite era difícil para nós principalmente quando tínhamos pouco a fazer. A diferença da balbúrdia e do ruído de cidades grandes como Nova York ou Chicago, onde havíamos vivido anteriormente era grande, mas Forks nos entretinha quando estava escuro. Apesar disso, não podíamos resistir ao desejo de deslizar no largo pátio e, uma vez mais concentrar-nos numa luta de bolas de neve.

Esme e Carlisle se retiraram e foram para dentro da casa por volta das 4:00 querendo passar algum tempo sozinhos antes de começar o dia e ter que ir trabalhar no hospital. Alice e Rosalie entraram logo depois para ler algo para a escola. Ficarem molhadas pela neve era legal quando ninguém, exceto a família, estava olhando, mas Rosalie insistia em estar o mais bonita possível enquanto estivesse com humanos.

"Como se pudesse ficar feia", repreendeu Emmett uma vez que as garotas estavam suficientemente longe para escutá-lo.

Jasper, Emmett e eu continuamos nossa disputa até o amanhecer. Não fui até que Esme nos chamou para nos dizer que tínhamos que ir a escola e que tínhamos que nos preparar para o dia que se iniciava.

Conduzia por um terreno escorregadio para chegar ao colégio, mas não me importava. Adorava dirigir rápido e era mais emocionante quando as condições da estrada não eram tão perfeitas. Jasper me pediu e tendo a certeza de que ninguém nos veria – segundo Alice – levei um tempo para dar umas voltas no estacionamento de uns armazéns abandonados nas cercanias da cidade. Mesmo com essa volta, chegamos a tempo no colégio.

Fora, ao ar livre e no estacionamento do colégio, dei uma olhada ao redor para ver se localizava a pickup de Bella, perguntando-me se havia chegado sã e salva. Não havia sinal que indicasse que estava ali, nem dela nem da antiguidade que ela dirigia, assim decidi esperá-la. Não havia nenhuma razão lógica que explicasse essa ação. Não podia explicar nem a meus irmãos, por isso optei, em vez de contar-lhes meu real motivo, disse a eles que queria ver se alguém deslizava com o carro.

Como se soubesse que minha profética mentira ia se tornar realidade. Havia sido "abençoado" com um dom parecido com as habilidades de Alice e suas visões, não poderia estar tão impaciente em ver um humano em uma situação como essa, uma situação potencialmente perigosa. Uma vez que me dei conta de que um humano em particular estava destinado a ter um acidente mortal, me arrependi pela forma em que havia antecipado os acontecimentos. Percebi que o destino havia colocado um frio e cruel dedo na humana que eu estava esperando ver.

Estava consciente da sua chegada, não porque pudesse escutar sua mente ou porque notara sua essência, mas sim, porque a pickup que ela dirigia era fácil de se reconhecer. Ninguém mais dirigiria um carro como aquele. Estacionou facilmente e saiu da pickup para examinar os pneus da traseira do veiculo. Notei a perplexidade em seu rosto e me perguntei o que ela encontrara de tão interessante neles.

Foi nesse momento em que tudo o que sabia, tudo pelo que havia trabalhado praticamente durante um século, mudou.

Um furgão azul escuro estava rodando no gelo apenas visível na estrada. Estava totalmente fora de controle e sem nenhum indício de que fosse parar. Seu destino era a velha pickup vermelha. E ali, de pé entre seu carro e o furgão que estava derrapando, estava, nem mais nem menos, Bella Swan.

Foi como se o ar rasgasse meus pulmões e substituído por gelo. Como se meu peito tivesse um coração que batesse, e se o tivesse, sabia que ele havia parado ali e agora. O único som que escutei foi o chiar arrepiante do furgão aproximando-se. Minha mente parou, em branco, incapaz de registrar corretamente aquilo que estava vendo. Tudo que sabia era que logo Bella Swan estaria morta, e isso era simplesmente inaceitável.

"Ela não!", minha mente gritou dentro da minha cabeça. "Qualquer outra pessoa! Mas ela não!"

E então me movi. Nem sequer me lembro de tomar a decisão conscientemente, e ainda assim, me lancei a corrida sem pensar que alguém pudesse me ver ou as possíveis conseqüências de minha ação. Meu corpo se chocou com o dela, levando-a para baixo de um carro próximo a nós e colocando-a por baixo de meu corpo ao mesmo tempo que o furgão colidiu com a parte traseira do seu carro. Da forma que caiu, vi que a sua cabeça deveria ter se chocado contra a calçada.

Mas o destino não havia terminado com Bella ainda. O furgão deslizou ao redor e novamente se dirigia direto a humana que eu estava protegendo. Xinguei baixo e instintivamente o segurei com minhas mãos, parando o furgão para que não a tocasse. Empurrei facilmente o furgão e coloquei suas pernas de lado para que desse a impressão de que não havia estado tão perto da morte como parecia. O furgão caiu ao chão com um rangido antes de que o silêncio reinasse.

Tão rápido como pude, sabendo que em um segundo todos os estudantes que se encontravam no estacionamento estariam falando sobre o que haviam visto, me inclinei para me certificar de que Bella não estava ferida.

"Bella? Você está bem?", perguntei segurando-a de forma ousada em meus braços e apertando-a contra mim. Era tão cálida... tão cheirosa. Seu coração batia tão rápido que podia sentir o pulso em seu corpo apesar da roupa pesada.

"Estou bem", murmurou e tentou se sentar.

"Tenha cuidado", adverti enquanto ainda tentava segurá-la. "Acho que você bateu a cabeça com força". Meus sentidos me diziam que não estava sangrando. Não podia imaginar nem por um segundo o que poderia fazer-lhe se seu sangue estivesse acessível neste momento.

"Ai", murmurou tocando a cabeça.

Sorri compadecido de que sua única ferida havia sido um galo em sua cabeça.

"Foi o que pensei"

"Como foi que..." Seus olhos cheios de perguntas se ergueram para me olhar, "Como foi que chegou aqui tão rápido?

Havia percebido. Havia visto. E se lembrava.

Não devia saber das minhas habilidades. Ia contra as regras. A única verdade a que todos os vampiros estão forçados a cumprir, sem ter em conta sua natureza de beber de humanos ou se abster, era que não podíamos nos expor. Teria que convencê-la de que o que pensava que havia visto não era verdade.

"Eu estava bem do seu lado, Bella", disse enfaticamente.

Ela tentou se sentar e rapidamente sua essência me invadiu. Soltei-a e se afastou, mas ainda olhando-a com atenção para o caso de tentar se levantar. Um dia de aula sobre primeiros socorros me havia ensinado o suficiente sobre a psicologia humana para saber que, ninguém estaria em pé depois de tudo o que havia acontecido a Bella. Era melhor para ela ficar quieta durante um tempo.

De repente uma multidão nos rodeou perguntado e gritando se alguém podia tirar Tyler do furgão. Um dos admiradores de Bella. Não me importara muito no momento, mas não queria vê-lo ferido. Não tive nenhum cuidado com o furgão quando o afastei de Bella, e esperava que o garoto estivesse bem.

Minha atenção estava concentrada por completo em Bella, assim não me preocupei muito tempo com o rapaz. Como supus, ela estava tentando se levantar. Coloquei, de maneira gentil, uma mão em seu ombro para detê-la.

"Fique quieta, por enquanto", ordenei.

"Mas está frio", queixou-se. O que achei totalmente irônico devido ao calor que podia sentir irradiando de seu corpo.

Então de forma abrupta me olhou boquiaberta e disse:

"Você estava lá. Você estava perto do seu carro"

Fui muito ingênuo ao acreditar que podia convencê-la tão facilmente.

"Não. Não estava"

"Eu te vi"

No meio do caos ao nosso redor, poderia dizer que não ia convencê-la. Era hora de usar o encanto. Olhei-a diretamente nos olhos e esperei com fervor que acreditasse em minhas palavras.

"Bella, eu estava parado do seu lado e tirei você do caminho"

Sua mandíbula ficou tensa, mas não podia desviar os olhos.

"Não"

Incapaz de ler sua mente me pareceu que também era imune ao meu poder de persuasão, aparentemente. Tive que fazer outra coisa. Suplicar.

"Por favor, Bella"

"Por quê?"

"Confie em mim", supliquei novamente.

Ouvi uma sirene soar distante, mas seus olhos continuavam questionando os meus.

"Promete explicar tudo depois?"

Grunhi em frustração e concordei. O tempo passava e estava ficando sem opções.

"Tudo bem"

"Tudo bem", replicou.

Pouco demorou a chegar a ambulância e todos os que haviam se envolvido no acidente estavam sendo tratados... inclusive eu. Me repreendi mentalmente por não haver pensado no que havia feito. Não só havia posto o segredo de minha família em risco ao expor minha força diante de um humano, como agora havia também seis para-médicos querendo encontrar minha pulsação... Saberiam claramente que eu estava morto, por mais normal que eu parecesse. Por sorte, fui capaz de utilizar meus conhecimentos de medicina para convencê-los de que estava bem e que sua atenção devia ser exclusivamente para Bella.

Lutou contra eles porque não queria colocar um colar ortopédico. Brigou com eles porque queriam colocá-la numa maca, mas avisei aos para-médicos que possivelmente havia batido a cabeça, e poderia estar ferida e isso encerrou o caso. Quando a levaram para a ambulância, insisti em ir com ela. Não só estava nervoso para me certificar de que ela estava bem, mas também precisava estar perto dela até que a convencesse do que havia acontecido.

Antes de subir na ambulância, examinei a crescente multidão de curiosos sabendo que minha família havia voltado para ver oq eu estava acontecendo. Encontrei-os no final do estacionamento olhando para mim. Bom, Rosalie, Emmett e Jasper me olhavam com raiva. Alice simplesmente me olhava preocupada.

"O que você fez?", A mente de Rosalie gritava para mim, "O que foi que você fez, Edward?"

"Não devia ter se intrometido", repreendeu-me Jasper.

"Foi um erro". Disse Emmett com desprezo.

"Carlisle... leve-a a Carlisle", Alice repetiu. "ele te ajudará".

Sabia que isto não acabaria aqui, mas, agora, lhes dei as costas e me sentei no veículo. Um carro de polícia nos escoltou até o hospital – de perto – e não foi nenhuma surpresa saber que o homem que conduzia o carro era o pai de Bella. Seus pensamentos eram uma mescla de confusão, alívio e arrependimento por não ter sido capaz de mantê-la a salvo durante o curto período em que estava vivendo com ele. A informação que pude reunir em minha breve conversa com Bella foi que ele tentava duramente entre ser muito protetor ou não ser protetor suficiente.

Chegamos a sala de emergência e colocaram Bella para examiná-la. Uma das enfermeiras se aproximou de mm para verificar o dano, que segundo ela, o meu corpo havia sofrido. Podia escutar em sua mente o tradicional check-up e tudo o que isso implicava, quer dizer, que a primeira coisa que iria fazer seria verificar minha pulsação. Coloquei minhas mãos atrás das minhas costas e insisti que estava bem e que não precisava me examinar. Protestou, mas, por sorte, Carlisle apareceu e fez com que se retirasse.

"O que aconteceu?", perguntou me afastando um pouco.

"Bella quase foi atropelada por um carro".

Fez uma careta de dor.

"Oh, não"

"Ela está bem. Mas pode estar com uma contusão cerebral".

"E onde você estava durante tudo isso? Me chamaram especificamente para vir aqui porque um dos para-médicos te reconheceu como meu filho e alertou o pessoal. Não tem idéia de como fiquei atordoado quando me disseram que meu filho, que dificilmente me causa problemas, chegava ao hospital em uma ambulância"

"Bom, deveria ter me visto tentando evitar que a enfermeira me verificasse a pulsação..."

Carlisle me olhou fixamente e de forma sombria.

"O que aconteceu?"

"Já disse. Bella quase foi feita em pedaços por um carro."

"Por que está aqui?"

"Eu... eu a ajudei. Estava perto"

"Estava perto." Deu um passo e franziu os lábios, irritado. "Edward, não são todos os que têm o dom de ler mentes. Então é melhor ir diretamente ao ponto, aos fatos. Diga-me exatamente o que aconteceu, por que sei que há mais coisa do que está dizendo".

Terminou dando esse olhar que eu temia. É um olhar que já havia visto muitas vezes em meus últimos oitenta anos. Esse olhar me fazia sentir como se tivesse dez anos, esse olhar paternal que me rasgava no centro do meu ser e me obrigava a confessar tudo o que sabia. Esme podia fazê-lo também. Acho que era algo que aprenderam em suas vidas adultas como humanos, mas que eram capazes de continuar fazendo apesar da mudança. Já há muito que havia abandonado a infância, que a havia deixado para trás, todavia me entregava às exigências de Carlisle todas às vezes que me olhava assim.

"Salvei-a", admiti.

"Como?"

"Tirei-a da frente antes que o carro esmagasse-a.".

"Isso é tudo?", Carlisle ainda tinha o olhar incrustado em meu rosto.

"Sim... Não..."

"Edward?"

"Está bem. Fazia um frio danado, havia gelo no chão. Vi o carro dirigindo-se diretamente para ela e eu... cruzei o estacionamento e a tirei da frente – imobilizando-a, cobrindo seu corpo com o meu, assim o pior aconteceria a mim, no caso disso acontecer".

"Cruzou o estacionamento?"

"Sim"

"Não estava do seu lado?"

"Não"

Fez uma careta e escutei sua mente perfeitamente.

Isso foi estupidez, Edward. Sabe muito bem disso. "E depois o que?" Depois de imobilizá-la, veio a ambulância?"

"Bom... o carro ainda derrapava então não tive outra opção e eu..." minhas palavras morreram enquanto eu estendia minhas mãos para frente dele para demonstrar o que havia feito.

"Você o parou?"

Assenti.

"Com as mãos?"

"Não tinha outra opção, Carlisle. Iria nos esmagar"

"Não. Iria atingi-la, não você, e tinha uma opção".

Olhei para ele, boquiaberto.

"O que você acha que deveria ter feito? Deixar o carro esmagá-la?"

Carlisle fechou os olhos, seus ombros se afundaram ligeiramente enquanto pensava.

Compaixão. Sempre os ensinei a mostrar compaixão pelos humanos. E agora que o faz, nos põe a todos em perigo. Como posso fazê-lo ver o erro de sua decisão sem suprimir os esforços que está fazendo para ser mais considerado?

Falei antes dele.

"Sei que foi uma decisão ruim. De verdade. Mas não podia deixar que o carro a pegasse. Não podia. Ela é muito... especial."

Seus olhos se encontraram com os meus.

Especial? Compaixão é uma coisa, mas vejo que a denominar dessa forma é bem inesperado.

Não posso explicar, disse em silêncio. "Tenho pensado muito... tentando entender por que ela... só..." Meu olhar se desviou até o chão. Em meu peito sentia culpa e frustração.

Houve um prolongado silêncio até que Carlisle falou de novo.

"Ela te viu?"

Assenti e o sentimento de culpa se intensificou.

Oh, Edward. As regras. Quebrou as regras. O que você fez?

"Sinto muito, Carlisle", sussurrei. Respirei fundo e olhei para ele. "Olhe, acho que ela bateu com a cabeça. Acho que teve uma contusão. Não deve ser muito difícil convencê-la do que ela viu não é exatamente o que ela pensa que viu. E ainda se não puder convencê-la quem acreditaria em sua história?" Sabia que estava me enganando em acreditar que pudesse convencer Bella de que havia imaginado, mas, ao menos, tinha que tentar.

Carlisle vacilou.

"É possível. Deixe-me olhá-la com o raio-x e ver se o dano é grande. Nunca acreditei que me escutaria dizendo isto, mas rezo para que tenha uma contusão".

Carlisle pegou alguns papéis necessários para minha "alta", assegurando-se que tudo estava certo. Batidas do coração, pressão sangüínea, temperatura corporal... tudo mentira, mas ninguém acreditaria que um médico deixaria que seu filho se fosse sem examiná-lo minuciosamente depois de um acidente de carro. Assinou no final do prontuário e me deu a cópia, a do paciente.

"OObrigado", murmurei.

Deu uma risada forçada e me disse que iria fazer os exames em Bella assim que estivesse com o raio-x.

"Você deve ir lá e se assegurar de que acreditou em sua história".

Assenti e me dirigi até a área onde estavam tratando de Bella. Ainda estava na emergência, em uma área onde as cortinas não estavam fechadas. O caminho até o pronto socorro foi difícil, mas me controlei. Podia sentir o cheiro do sangue dos humanos feridos, ao redor, podia sentir inclusive aqueles que iam morrer, ainda que não tivesse certeza em que parte estavam. Como Carlisle se mantinha são rodeado com uma tentação tão forte sempre me deixava pasmo. Eu nunca conseguiria. Mesmo depois de freqüentar a escola de medicina, nunca havia praticado e nunca havia exercido como residente.

Entrei na área onde estavam cuidando de Bella. Tyler, o rapaz que dirigia o furgão, estava na cama ao lado da dela, murmurando desculpas e se amaldiçoando por seu erro. Seu estado era muito pior do que o de Bella, que tinha os olhos fechados e as mãos estendidas e afastadas do corpo. Tinha um aspecto tão calmo e tão tranqüilo que parecia morta, a não ser pelo lento e pausado subir e descer de seu peito.

"Está dormindo?", perguntei a Tyler.

Os olhos de Bella se abriram com o som da minha voz. Tyler começou a se desculpar.

"Hey, Edward, de verdade, sinto muito..."

Levantei uma mão para Pará-lo e que não fosse mais longe.

"Sem sangue, sem crime", brinquei com um sorriso e me sentei na ponta da cama de Bella. "Então, qual é o veredicto?", perguntei desejando ardentemente que houvesse algo errado com ela para que não me perguntasse sobre o que havia acontecido. Mas meu desejo não ia se cumprir.

"Não há nada de errado comigo, mas não me deixam ir. Como conseguiu que não te amarrassem a uma maca como nós?"

"Tudo depende de quem você conhece?", disse percebendo que Carlisle estava na porta do quarto. "Mas não se preocupe, eu vim libertá-la".

Carlisle entrou no quarto e olhou o prontuário de Bella para examiná-lo. Notei que os olhos de Bella se arregalaram, ela olhava e seguia cada um de seus movimentos. Fechei os olhos querendo saber mais do que nunca o que estava pensando. Como não podia, supus que havia achado Carlisle muito atraente... o que não me agradou nem um pouco.

"Então, senhorita Swan, como está se sentindo?", perguntou com a voz que utilizava, obviamente, como médico.

"Estou bem", disse Bella soando como se estivesse cansada de lhe perguntarem isso.

Carlisle acendeu a luz vertical na parede da cama de Bella.

"Suas radiografias parecem boas".

As palavras "Sem Contusão" me vieram à cabeça, alto e claro.

"Sente alguma dor? Edward me disse que você bateu a cabeça com força"

De novo escutei, "Deixe-me tentar encontrar algo que te ajude!"

"Estou bem", insistiu Bella, me olhou e franziu o cenho como se fosse minha culpa que houvesse golpeado a cabeça ao invés de acabar esmagada entre dois automóveis.

Carlisle examinou seu crânio suavemente buscando qualquer sinal de dano. Obviamente encontrou algo por que Bella fez uma carta de dor.

"Dói?"

"Não muito"

Não pude evitar e sorri por sua louca tentativa de enganar Carlisle. Realmente não tinha idéias de com quem estava lidando se pensava que poderia ir se mentisse para ele. Se alguém podia localizar uma mentira, era Carlisle.

Para minha surpresa e consternação, Carlisle disse que podia ir para casa com seu pai. Estranhamente, Bella queria voltar para o colégio. Isso me mostrou que ela não era como qualquer outro adolescente que já tivesse conhecido. Que jovem teria escolhido ir para a escola quando tinha a desculpa perfeita – e lógica – para ter o dia livre?

"Ele tem que voltar para o colégio?", disse ela referindo-se a mim

"Alguém tem que espalhar a boa notícia de que sobrevivemos"

Carlisle disse: "Na verdade, parece que a maioria dos estudantes está na sala de espera".

"Oh, não" queixou-se ela e cobriu o rosto de uma forma tentadora.

"Quer ficar?", perguntou Carlisle.

"Não. Não!", disse Bella e saiu tão rápido da cama que quase caiu. Saltei para segurá-la, mas Carlisle estava mais perto.

"Estou bem", disse como se ela pudesse escutar a iminente pergunta de Carlisle "você está bem?".

Ao invés disso, ordenou que tomasse Tynelol se doesse algo e Bella, em seu típico estilo Bella, mandou-o passear, basicamente.

"Parece que tiveram muita sorte", disse Carlisle assinando os prontuários.

"Sorte que Edward estava ao meu lado quando aconteceu".

Os olhos de Carlisle se cruzaram com os meus. Ela sabe, Edward. Conserte isso o mais rápido que puder. Rabiscou uns papéis respondendo a Bella de maneira casual.

"Oh, sim".

E então voltou sua atenção a Tyler, que não sairia do hospital nesse dia. Bella se aproximou de mim e me disse em voz baixa.

"Posso falar com você um minuto?"

Seu hálito era tão doce que tive que me afastar.

"Seu pai está te esperando", disse desejando que deixasse passar e que se fosse. Mas isso não ia acontecer.

"Gostaria de falar com você à sós, se não se importa"

Sabia que era grosseria da minha parte, mas me virei e andei até o outro lado do quarto, até o canto e dirigindo-me a um corredor deserto. Caminhei rápido, sabendo muito bem que me seguia por que estava arrastando seus pés atrás de mim, apesar do esforço que achava para continuar nesse ritmo.

"O que quer?" , perguntei, virando-me para olhá-la no rosto. Parecia confusa.

"Me deve uma explicação".

"Salvei sua vida, não lhe devo nada".

Suas sobrancelhas quase se juntaram, não por irritação, mas sim por tristeza diante de minhas frias palavras.

"Você prometeu"

Suspirei sabendo que tinha razão.

"Bella, você bateu a cabeça, não sabe o que está falando".

Agora podia ver definitivamente a raiva em sua expressão.

"Não há nada errado com a minha cabeça"

Maldição! Porque não deixa isso para lá?

"O que você quer de mim, Bella?"

"Quero saber a verdade. Quero saber por que estou mentindo por você"

"O que você acha que aconteceu?"

Falou apressadamente, divagando em coisas como que eu não estava ao seu lado – que Tyler tampouco havia me visto perto dela. Como parei o carro com minhas mãos. Como levantei o furgão e afastei-o dela. Ao final da explicação, lágrimas caíram de seus olhos formosos. Me doía vê-la, escutar a agonia de sua voz. Sabia o que havia visto, mas parecia difícil acreditar. Desejava poder dizer-lhe que não estava louca – que eu não era como ela – que a havia salvo porque ela era especial. Mas não podia. Tinha que fazê-la acreditar em minha versão ou minha completa existência estaria em perigo de exposição.

"Acredita que levantei o furgão com minhas mãos?", disse relutante.

Assentiu timidamente.

"Ninguém acreditaria em você, sabe disso", apontei.

Se contasse a alguém, esse alguém acharia que estava louca ou que havia imaginado tudo. Para minha total surpresa disse:

"Não vou contar a ninguém"

"Então, porque osso importa?"

"Importa para mim. Não gosto de mentir, tem que haver uma boa razão para que o faça".

Maldição. Era tão frustrante.

"Não pode simplesmente me agradecer e pronto?"

"Obrigada", disse com um pouco de nervosismo em sua voz.

Oh! Como gostaria de ser capaz de ler sua mente! Precisava saber o que a transtornava e a consumia por dentro. Senão, não conseguiria tirar isso da minha cabeça.

"Você não vai deixar passar em branco, não é?", falei

"Não"

"Nesse caso... espero que goste de se decepcionar".

Seus olhos me desafiaram em um intenso e frio olhar. Se não a conhecesse melhor, pensaria que estava olhando diretamente para... dentro de mim... no centro do meu ser. A cor rosa invadiu suas bochechas, um rosa glorioso e vivo. Sua deliciosa boca se abriu ligeiramente quando falou.

"Por que se incomodou em me salvar?", disse severamente.

A pergunta me pegou completamente de surpresa. Como podia explicar-lhe que era um prêmio entre os humanos? Como reagiria se lhe contasse que o simples pensamento de sua morte me assustava mais do que qualquer outra coisa? A verdade era que não sabia por que tinha estes sentimentos. Nem sequer estava certo de que sentimentos eram, como se nunca os houvesse sentido em minha existência. Procurei seu rosto e lhe dei a única resposta que podia oferecer.

"Não sei"

Tudo que a formava, que se tornava parte dela, a essência de sua calidez, de sua respiração, estava penetrando em minha alma. Caminhei afastando-me dela, desesperado por clarear minha mente e buscar o sentido de tudo que estava experimentando.

FINAL DO CAPÍTULO 3