Capítulo 5
O mês que se seguiu a esses acontecimentos dessa manhã fria e gelada foi até agora o pior mês de minha existência. Não só havia concordado precipitadamente em evitar Bella a todo custo, mas porque me obrigaram a entrar nas mentes dos adolescentes para vislumbrar e saber como ela estava lidando com a situação. Foi horrivelmente aborrecido e tedioso, mas minha família não me havia dado outra opção. Queriam saber se ela estava mantendo sua palavra de não dizer a ninguém o que havia acontecido de verdade, e era isso que eu fazia. Eu coloquei minha família numa situação complicada, e se mereciam saber qualquer tipo de informação que pudesse tirar das principais conversas que Bella tinha como os demais, iriam ter.
Passei os dias de aula olhando fixamente as páginas dos livros enquanto minha mente vagava pelos corredores e aulas buscando por Bella. Me tomou somente um dia aprender seu horário de aulas, o que se tornou muito mais fácil para encontrá-la e evitá-la. A princípio, prestava atenção a qualquer pensamento que estivesse relacionado com ela, esperando que falasse e acabasse contando o segredo de sua sobrevivência, mas nunca o fez. Foi bombardeada a princípio com várias perguntas, e simplesmente as respondia dando-lhe todo o crédito a mim. Me surpreendeu escutá-la descrever-me como o herói, explicando o quanto fui corajoso por ter arriscado minha própria vida para salvar a sua. Mas o que mais me surpreendeu foi que ela realmente manteve sua promessa e não disse a ninguém o que eu havia feito naquele dia.
Me incomodava muito não poder sequer lhe agradecer por manter a boca fechada. Havia concordado em me manter longe dela, e mantive minha palavra, mas era mais difícil do que havia imaginado. Depois de tudo, me sentava ao seu lado durante uma hora por cinco dias da semana. Tentou falar comigo no dia seguinte ao acidente, mas lhe dei as costas, nem sequer tentei olhá-la. Não tentou falar comigo de novo depois disso, mas olhava para mim. Sentia seus olhos em mim tantas vezes que estava começando a me sentir mal com isso.
Ainda assim, queria que prestasse atenção em mim. Queria que ficasse afetada por minha presença da mesma forma que a sua me afetava. Precisava saber que não era o único que estava sofrendo por nossa separação forçada, mesmo que ela não soubesse disso. Era ardiloso, mas me ajudava a aliviar a dor, saber que ela, fosse a que nível fosse, me queria. Seria muito doloroso saber que ela era capaz de me ignorar e esquecer-se de mim. Eu havia tentado, mas não conseguia me esquecer dela ou ignorá-la.
Havia tentado. De verdade. Não estava conversando com ela, nem mesmo na aula de biologia, onde era mais difícil. Podia conseguir, sem dúvida, passar um dia inteiro na escola sem que meus olhos se desviassem até os seus nenhuma vez sequer. Até mesmo me concentrei em não ouvir algumas das muitas conversas, isso não era tão difícil quanto encontrar as mentes de seus amigos, algo que me destroçava os nervos. Seria muito difícil ignorar a mente de Bella se fosse capaz de escutá-la e eu estava realmente agradecido por essa deficiência.
Apesar disso, o pacto não era chato de cumprir durante o tempo que passava no colégio, mas depois sim. Era quando verdadeiramente tinha que brigar com minha família para que se mantivessem afastados de Bella. Era muito fácil seguir seu rastro em Forks. Sua casa e as casas de seus amigos eram normalmente seus lugares preferidos para passar o tempo. E com toda a "cobertura vegetal" que havia por ali, rapidamente podia encontrar um lugar adequado para me esconder e que ninguém pudesse me ver. Passava minhas tardes observando-a a uma distância prudente, desejando com toda minha força que ela não percebesse. Ao mesmo tempo, saboreava estes novos sentimentos. Eram sentimentos desconhecidos e inquietantes para mim.
Contudo, não podia dar nomes aos sentimentos que tinha dentro de mim. Ou mesmo não queria nomeá-los, ainda. Tendo ouvido àquela noite os argumentos que Esme e Carlisle haviam dado, não podia evitá-lo e pensava sobre a suposição que haviam feito de que estava apaixonado por ela. Podia admitir que a desejava, já que não tinha como negar que ansiava seu sangue. Mas será que a amava? Teria que ser um idiota para me apaixonar por uma humana como Bella.
Passaram-se cerca de três semanas de silêncio entre nós para que encontrasse a mim mesmo inexplicavelmente sentado diante do piano noite passada, compondo uma melodia enquanto minha mente estava cheia de imagens de Bella. Não sabia quanto tempo havia permanecido sentado sozinho, brincando com as teclas, mas foi tempo suficiente para que fizesse uma melodia decente. Me incomodei um pouco porque não estava completamente satisfeito com alguma nota que havia por ali, até que percebi que Esme estava ao pé da escada.
"É linda, Edward".
"Desde quando está aí?"
Suas sobrancelhas se juntaram.
"Não me diga que não me ouviu chegar."
Desviei meu olhar envergonhado. Há muito tempo que um membro de minha família tinha sido capaz de aparecer diante de mim e me pegar de surpresa.
"Devia estar muito concentrado", disse ela, avançando até o piano e colocando seus cotovelos na parte superior do piano.
"Estava", admiti, já que não havia como esconder. "Onde está todo mundo esta noite?"
"Caçando. Deveria ir com eles. Você está pálido".
"Não acho que queiram minha companhia"
Ainda que, tecnicamente, continuasse afastado de Bella, minha família sabia que isso estava me deixando louco. Sabiam que a vigiava e ninguém se mostrava totalmente compassivo dessa minha opção. Alice e Carlisle não se incomodavam, mas sabia que estavam preocupados comigo. Esme queria me ver feliz, fosse o que fosse preciso para consegui-lo. Jasper estava se acostumando com a idéia pouco a pouco, claramente, Alice o influenciava. Emmett achava que eu estava louco, mas não se importava enquanto a família estivesse a salvo. E Rosalie... duvidava que me perdoasse algum dia totalmente pelo que havia feito. Por mim, não me importava muito se Bella suspeitasse de mm, mas Bella poderia começar a se perguntar e era isso o que irritava tanto Rosalie.
"para ser franca", apontou Esme, "não nos tem dado a nenhum de nós a oportunidade de passar um tempo com você, ultimamente. Eu, por exemplo, adoro muito sua companhia. Não seria tão insistente para que não abandonasse a família se não desfrutasse de tua presença".
Passei meus dedos pelo cabelo.
"Aprecio isso, Esme"
"Mas não é minha companhia o que quer, não é mesmo?, avaliou ela.
Dei uma pequena risada.
"Desde quando pode ler mentes?"
"Não posso ler mentes, mas sei bastante sobre comunicação não verbal"
"E exatamente o que acha que estou dizendo?", inquiri.
"Que é um desafortunado", afirmou com absoluta percepção. "Que quer algo que acha que não pode ter. Isso é tudo o que está pensando, não é? Está tão preocupado com ela que não sabe o que fazer quando está sozinho"
Desloquei uma perna por cima do banco do piano, tendo assim uma perna a cada lado e poder ouvir melhor a Esme.
"Você fala como se eu pudesse escolher"
"E ode"
"Não, não posso. Aceitei me manter afastado dela"
"Não está se mantendo"
Sua acusação me provocou.
"Não falo com ela a quase um mês. Tem alguma idéia do quanto é difícil ignorá-la"
"Mas é isso que estou dizendo, Edward. Você não está ignorando-a" Sua mente acrescentou: Como pode ignorar alguém que ama?
"Não estou apaixonado por ela, Esme. Sei que acha que sim, mas não estou... não posso..." Minha voz desfaleceu devido seu olhar penetrante. "Mesmo que se assim fosse, ela me odeia, então, o que importa?"
"Te odeia?", soou surpreendida. "Porque acha que te odeia?"
"Bom, primeiro porque menti para ela. A fiz mentir por mim. Não falo com ela. Nem sequer lhe presto atenção"
"Como isso prova que ela te odeia?"
"Como ela poderia não me odiar depois de tudo isso?"
"Oh, Edward", suspirou revirando os olhos. "Como você pode ter tanta experiência com tudo o que acontece e não saber nada sobre mulheres?"
Sua pergunta me confundiu muitíssimo.
"Você... você acha... que ela gosta de mim?"
"Totalmente", declarou. "Porque guardaria o segredo se não se importasse com você, ainda que só um pouquinho? Por tudo o que nos falou dela, não parece o tipo de pessoa que se senta e espera que lhe dêem ordens, e ainda assim, fez exatamente o que lhe pediu".
Franzi o cenho diante do que Esme estava sugerindo. Não tinha sentido. Um humano normal estaria lívido pela forma que estava tratando Bella, mas então me lembrei que Bella nunca tinha se portado como um humano normal.
"Você disse que não fala com ela desde o acidente", disse Esme. "E ela, tem tentado falar com você?"
"Sim, mas somente uma vez, e logo após o acidente"
"Nunca mais?"
Assenti com a cabeça.
Esme tinha um sorriso especial em seu rosto e eu entrei em sua mente para escutar o que estava pensando.
Mais provas de que ela está interessada por ele. Como não pode ver isso?
Fiquei mais frustrado por sua forma de pensar.
"Esme, ela não fala comigo. Normalmente se você gosta de alguém, conversa com ela"
Ela riu.
"Logicamente, sim, mas as garotas humanas tendem a ser mais ilógicas do que isso. Por regra geral, quando uma garota está interessada num rapaz, tanta não falar com ele com medo que ele perceba que ela gosta dele e queria falar com ela – ou a rejeite. Então normalmente quando uma garota gosta de um rapaz permanece calada quando está com ele. Encolhe os ombros e joga seu cabelo, olhando-o pelo canto dos olhos para ver se ele está olhando para ela"
Enquanto falava, Esme demonstrava suas palavras, como se contracenasse uma peça sem tê-la ensaiado. Se escondeu atrás de seu ombro e jogou seu cabelo, colocando-o ao seu redor como se fosse uma cortina. Me deu uma olhadela tímida, e então, desviou o olhar para o chão. Fiquei hipnotizado com o que estava vendo, já que vi Bella fazer o mesmo algumas vezes na aula de Biologia.
Logo depois, estava acabado e Esme havia recobrado a compostura, com sua forma natural de se comportar.
"Se chama paquerar, Edward. Estou certa de que já ouviu falar disso"
Fiz uma careta.
"Sabe que sim, Esme, não sou tão ingênuo como você acredita"
"Nunca disse que é ingênuo. Só... que não tem experiência". Você era tão jovem quando Carlisle te transformou.
Escapou um rugido de minha garganta.
"Isso é pior". Sacudi a cabeça mostrando meu desacordo. "Não é que não tenho experiência, nem que seja muito jovem. Esses fatores não têm nada a ver. É que nunca senti a necessidade de sair e buscar aquela que me completasse. Sempre acreditei que estava completo – tão completo como qualquer outro de nossa raça pode estar, tenho que admitir. Buscar uma companheira me parecia mais como desejo, não como uma necessidade real. Achava que tinha tudo o que precisava aqui, dentro de mim e o que faltava, preenchia com cada um de vocês, minha família".
Sorriu para mim com afeição.
"Mas não se sente mais assim?"
Abri minha boca para me opor, mas a fechei novamente. Já era difícil admitir essas coisas a alguém que não fosse eu, e com Esme era ainda mais complicado. Provavelmente, contaria a Carlisle, e não tinha certeza se ele aprovaria ou não. Não queria importunar mais esta família do que já havia feito.
"Me diz, Edward. O que você sente por ela?"
Fechei os olhos, escutando sua pergunta, e deixei que as palavras saíssem.
"Não consigo parar de pensar nela. Sempre fico me perguntando se é isso que ela pensa, se é o que sente. Caminho pelos corredores da escola evitando-a de propósito, mas secretamente espero que ela apareça inesperadamente, ficando diante de mim. Me sento a seu lado na aula, fingindo que não percebo como ela me chama a atenção, tentando com toda minha força ignorar a necessidade de me inclinar até ela e deixar que sua essência preencha meus sentidos. Isso é tudo o que faço – tudo o que faço é pensar sobre ela ou pensar que estou com ela. Nem mesmo sei porqu, mas está me deixando louco"
Abri os olhos para ver o rosto preocupado de Esme.
"Todos estes anos nunca invejei o que você tem com Carlisle – ou Rosalie com Emmett, ou Alice com Jasper. Respeitosamente, afastava de meus pensamentos suas conversas quando ficavam muito românticas ou íntimas. E nunca me incomodou. Estava feliz por vocês. Era o que queria e o que precisava para senti-los bem. E em todas essas ocasiões quando eu ficava sozinho, gostava de passar o tempo comigo mesmo, sem pensamentos, só os meus. Nunca me senti afastado ou... sozinho"
Fiz uma pausa e respirei fundo antes de completar.
"Até agora"
"Oh, Edward", suspirou Esme, colocando uma mão sobre meu ombro, tentando me consolar.
"Pela primeira vez em minha existência me sinto... sozinho. Sinto um vazio dentro de mim, Esme. Como se tivesse perdido algo e que a única forma de recuperá-lo é..."
Não podia terminar a frase, apesar de já ter ido longe demais. Certamente, Esme sabia como ia terminá-la.
"O que eu faço?", perguntei, mais confuso do que nunca em minha vida.
"Essa decisão é sua, Edward. Não posso tomá-la por você".
"Que maternal", grunhi.
Seus lábios se curvaram deixando ver um sorriso.
"Acho que sim. Se fosse meu filho biológico, falaria o mesmo. Tem que levar sua vida da forma que acredita ser o melhor. Meu único desejo é que seja feliz. Quero te ver sorrir – quero te ver rir. Se isso significa deixar que uma humana entre em tua vida por um tempo... então, que seja"
Dei um salto diante de suas palavras, sobressaltado pelo que estava sugerindo.
"Mas os outros..."
"Também querem que seja feliz", declarou.
"Não sei, Esme. Não quero que ninguém se machuque. Muito menos, Bella"
"Pois então diga-lhe isso e tome suas próprias decisões. Não saberá como se sente de verdade a menos que pergunte a ela"
"Não posso perguntar isso. Já acha que sou louco"
"E como você sabe isso? Não pode escutar seus pensamentos"
Era um ponto discutível, um que não podia ver.
"Digo uma coisa", exalou e se inclinou em cima do piano de forma casual. "Quer conselhos, bom, aqui vai o que faria se você. Pararia de fingir que Bella não existe. Veria como ela age em comparação com seus outros amigos – especialmente com os rapazes. Acho que você vai se surpreender uma vez que ver como ela reage.
"E aí?"
"Bom, a decisão é sua. Faça o que acha que é o certo"
"Mesmo se for o pior que poderia fazer?"
"Às vezes temos que escolher o menor dos males, Edward. Nem todas as decisões são fáceis".
"Um século neste planeta e ainda tenho lições a aprender!!"
Ela riu.
"Claro que todos temos lições a aprender. Mas acho que vai gostar de aprender essa"
Se pudesse, teria ruborizado. Desviei o olhar tão rápido que era impossível esconder minha vergonha. Podia escutar sua preocupação em sua mente.
Não queria te incomodar.
"Não está me incomodando. Só...", suspirei profundamente. "Tudo isso é novo para mim. Sinto muito, Esme"
"Não peça perdão por amar alguém, Edward"
Não me passou despercebido a palavra amor utilizada por ela.
"Disse que não estou apaixonado por ela. Só estou... curioso"
"Ah-ham", disse com humor.
"Como sabia?", perguntei abruptamente. "Com Carlisle... como sabia?"
Seu rosto se suavizou e um sorriso sonhador se formou em seus lábios.
"Carlisle me salvou... figurada e literalmente. Meu casamento era um fracasso. Não amava meu marido... nem mesmo gostava dele. Não tinha nenhum tipo de afeição. E com a morte de meu bebê... Me senti como se não tivesse mais nada pelo que viver. Lembra-se dessa época, Edward? Os homens de antigamente não olhavam duas vezes para uma mulher de vinte e seis anos que já tinha tido um bebê. Os homens queriam as jovens, mulheres que não haviam sido tocadas por ninguém. Então quando Carlisle me transformou... quando ele me quis... deu a minha vida um novo significado"
Olhou-me nos olhos com tanta intensidade que não conseguia olhar para outro lugar.
"Todo mundo precisa que sua vida seja valorizada. É por isso que procuramos com tanto cuidado alguém com quem compartilhá-la – alguém com quem possamos dividir nossas experiências. Não é natural que alguém passe toda sua vida sozinho"
"Mas como sabia?', repeti ansioso.
"Não tem como explicar. Quando acontece, você sabe". Apertou sua mão contra meu ombro e se aproximou mais de mim. "Você sabe, Edward. Você sabe".
Exalei profundamente em protesto e sacudi a cabeça em sinal de derrota. Esme tirou suas mãos de mim e se virou para subir as escadas. Olhei para ela até a perder de vista e então segui sua mente. Estava com Carlisle.
Alguma novidade?
Porque deveria te contar nossa conversa? Foi particular.
Porque Edward é importante para mim e quero vê-lo feliz.
Acho que ele estará... quando perceber que encontrou a sua companheira.
Acredita mesmo nisso? Ainda que seja uma humana?
Todos já fomos humanos.
Afastei seus pensamentos, pensando com desgosto como havia se desenrolado a conversa. Nunca poderia fazer o que estava sugerindo. A humanidade de Bella era muito importante para, simplesmente, ignorá-la. Nunca tomaria isso dela. Sabia que provavelmente fracassaria em minha intenção e abandonaria tudo pelo meu desejo de estar perto dela, não importava quão sério jurara que não o faria. Mas nunca deixaria de tratar Bella como uma mortal. Nunca quebraria essa promessa. Me mataria antes de deixar que isso acontecesse.
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