CAPÍTULO III

Problemas


"Estás bem?", Dawn se virou ao ouvir a voz preocupada, mas não respondeu e Gui continuou, "Estás pálida... Queres que te leve até a ala hospitalar?"

Não, com certeza ela não estava bem. Mas não era caso de ala hospitalar, infelizmente. Não havia conseguido dormir. Tinha a sensação de que algo ruim estava por acontecer. Mas não gostaria de falar sobre isso, portanto se limitou a responder, "Acho que estou bem, só não consegui dormir direito. Só isso".

"Mas não tens certeza..."

"Certeza nunca se tem, na verdade", se surpreendeu ao dar um leve sorriso.

"Então, por via das dúvidas, vou te acompanhar até tua aula. Só pra ter certeza que vais chegar bem", ela tentou contra-argumentar, mas ele não deixou, "Isso não foi uma pergunta. Vamos", disse ele sorrindo, caminharam lado a lado alguns segundos até que ele perguntou, "Mas vamos pra onde afinal?"

"Como pretendes me acompanhar se nem sabes pra onde vou?"

"Não precisas me dizer, perguntei por perguntar. Na verdade o lugar não importa, não é mesmo?"

"Claro que importa. Posso estar indo pra um lugar oposto ao que pretendes chegar..."

"Acho que tu não entendeste. Eu não tenho um lugar pra chegar, tenho dois. O primeiro é a tua sala de aula. O segundo é a minha".

"Mas, provavelmente, vais chegar atrasado na tua se for assim".

"Isso não é o mais importante... Se eu não te acompanhar, vou ficar a aula toda pensando se chegaste bem ou não. Não adianta chegar a tempo e não prestar atenção".

Eles ficaram em silêncio por algum tempo, até que Dawn perguntou, "E porque te importas com isso?"

Ele olhou pra ela, que o estava fitando seriamente, e sorriu, "Bem se vê que não tiveste amigos ainda... Eu me importo porque gosto de ti. Apesar de levemente rabugenta na maior parte do tempo, tu és uma pessoa legal", ele piscou pra ela e continuou, "Mas pode deixar que não espalho isso por aí. Não quero desfazer tua fama", Dawn não pôde conter um sorriso, "Vamos pra aula, então?"


"Sabe, já estás me tirando do sério com esse interrogatório", disse Gui, mas não estava bravo, achava engraçado o interesse de Anne, monitora da Grifinória assim como ele. Desde que começaram a ronda esta noite, ela o estava fulminando com uma pergunta.

"Não é interrogatório, não senhor. A questão é que eu não lembro do senhor ter se atrasado tanto pra uma aula antes. Só quero que me digas o motivo!"

"Eu até diria, mas eu gosto de te ver assim curiosa".

"Tu não vales o ar que respiras...", disse ela com cara amarrada, mas logo depois sorriu e disse, "Tenho certeza que estavas com alguma rapariga. E, já que não queres me dizer, deve ser a Sofia".

Ele riu e depois comentou, "E por que eu não te contaria se tivesse encontrado a Sofia?"

"Porque sabes que não gosto dela, acho que mereces alguém muito melhor que aquela uma. Além disso, ela não combina contigo, é fútil demais..."

"Não és a primeira pessoa a me dizer isso..."

"Que ela não combina contigo ou que ela é fútil?"

"Que ela é fútil", riu ele, "Nunca vi a Sofia dessa forma, mas estou começando a rever meu conceito quanto a ela".

"Devias mesmo... Ela não agia como ela mesma quando estavas por perto. Pode até ser que fosse porque ela gostasse de ti, mas não sei se ela é capaz de gostar de alguém... Além dela mesma, claro... Ela sente prazer em tratar algumas pessoas como lixo..."

Pela forma como ela falou isso, Gui sentiu que Anne estava entre estas "pessoas" a que ela se referia. "Desculpe. Eu não sabia que ela te tratava mal".

"Não houve nada demais, na verdade. Só que o fato de eu ter nascido trouxa a incomoda bastante...", disso isso sorrindo levemente, "Acho que acabamos a ronda... Vamos voltar pra torre?"

"Vamos sim... Ainda tenho que acabar um exercício imenso de Aritmancia pra entregar amanhã".

"Mas, mudando de assunto, não vais me contar porque chegaste atrasado na aula hoje?"

"Tu não tens jeito... Eu já disse que não..."

"Weasley", veio uma voz forte de trás deles. Ao se virarem eles viram o mestre de poções surgindo no fim do corredor, "Continua teu caminho, Isacson", Gui apenas fez sinal de que estava tudo bem para Anne e ela se afastou, mas não sem antes cochichar um 'boa sorte' para o amigo.

"Querias falar comigo, professor?"

"Não vou me alongar, Weasley. Quero que se afaste de Dawn".

"Mas por que, professor? E qual o problema em..."

"Acho que fui claro. Não quero que te aproximes dela. Espero não ter que tomar alguma atitude quanto a isto".

"Severo", disse uma mulher que se aproximava, "Não precisas assustar o garoto!"

"Espero não ter esta conversa outra vez", continuou Snape ainda se dirigindo a Gui. Depois olhou para a professora e seguiu seu caminho para as masmorras. A professora também ia seguir seu caminho, mas Gui lhe dirigiu a palavra:

"Estou perdido, professora Stein. Por que o professor Snape faz tanta questão que me afaste de Dawn?"

"Meu caro, simples preocupação. Ele jamais vai admitir, mas ama a sobrinha assim como ama a irmã dele. Mas já está bem tarde. Melhor nos recolhermos", disse ela voltando a seguir seu caminho e deixando Gui no corredor com seus pensamentos.


Dawn estava refugiada em uma mesa no fundo da sala de aula, absorta em sua leitura enquanto a aula não começava. Assustou-se quando Gui se sentou ao seu lado e disse, "Preciso te fazer uma pergunta".

"E precisa ser agora? Eu estou lendo".

"Estás sempre lendo. Além disso, quero aproveitar enquanto a professora não chega".

"Pois então diga", disse ela contrariada, nunca gostou de ser interrompida.

"Tu e o professor Snape são parentes?"

"Por que a pergunta?"

"Só quero saber. Por que nunca me contaste?"

"Eu não entendo o porquê do interesse", disse indignadamente fechando o livro e virando-se para encará-lo, "Já lhe disse uma vez que minha família não é assunto para conversas".

"Eu não acredito que tive de saber por outra pessoa".

"Gostaria que me explicasses a importância de se saber se o professor é meu parente ou não... Mas agora, a professora Vector já chegou".

Eles ficaram sentados silenciosamente lado a lado, assistindo a aula de Aritmancia, mas com seus pensamentos no companheiro de mesa. Dawn não entendia Gui. Nunca havia lhe perguntado sobre sua família, por que agora? Mas isso teria que esperar, a sensação de que algo ruim estava por acontecer ainda lhe atormentava, não conseguia pensar em nada mais.

Dawn não ficou com seus pensamentos por muito tempo, logo surgiu o professor Snape na porta da sala de aula e pediu para falar com a professora Vector. Logo em seguida ela voltou à sala e chamou, "Hadrian, junte seu material, estás indo para casa. O diretor de sua casa vai lhe explicar melhor".

Gui não pode deixar de notar que, ao ouvir estas palavras, a fisionomia de Dawn mudou, parecia assustada. Logo que acabou de juntar seus livros ela saiu correndo e nem lhe dirigiu uma única palavra.


N/A: Bem, àqueles que tiveram paciência para ler o capítulo, meu muito obrigada!